Grilhões Eternais
21 Abismo
Notas iniciais

Agora diante de si havia anjos e querubins bailando no céu palidamente azul, por sobre nuvens douradas. Serafins tocavam trombetas montando os áureos raios do Sol. A glória que se desvelava à sua frente contrastava com a devastação em que se encontrava sua alma.
À frente dele, o paraíso.
Dentro dele, o inferno.
As magníficas imagens há muito pintadas no teto dos aposentos do Grande Mestre começaram a ficar nubladas. Nada mais distinguia. Era como submergir no oceano, infelizmente ainda respirando.
— Milo... o que você viu? — perguntou Hyoga, suavemente. Acariciava os cabelos arroxeados do amante de seu mestre, retirando-os da fronte gelada. Havia sentado no leito para velar seu sono que, a julgar pelas expressões, lágrimas e murmúrios, não havia sido nada tranquilo... na verdade, não havia sido sequer um sono natural. A Deusa o fizera dormir, mas era evidente que ele continuara a assistir às torturas infligidas pelo maldito Albiore.
O escorpiano nada respondeu. De seus olhos muito abertos corria um pranto silencioso e incessante.
— Fala comigo, Milo — insistiu o loiro, agora tão preocupado com aquele homem quanto com o mestre. A sanidade parecia tê-lo abandonado. Dos lábios entreabertos e frementes palavra alguma saiu.
— Como ele está, Hyoga?
Shun adentrou o dormitório, trazendo uma bandeja com um bule de chá e xícaras.
— Nada bem... acordou há um tempo, mas... está em estado de choque. Não reage a nada.
— O que será que ele viu? Na certa, algo ainda mais... grave do que viu até agora...
O russo passou a mão pela própria testa, tentando não pensar em uma tortura que condizesse com a suposição do namorado.
— Toma. Vai te fazer bem. Chá calmante com ervas do jardim de Afrodite.
— Obrigado — agradeceu, aceitando a bebida oferecida. Também estava muito abalado com aquele acontecimento. Lamentava não poder ajudar Milo como queria e, muito mais, não ser capaz de salvar seu mestre de um destino tão cruel e injusto.
— Saori deu alguma notícia, Shun?
— Ela convocou uma reunião com todos logo mais à noite, quando Ikki terminar os relatórios a partir das informações que coletou junto à Fundação Graad.
— Seu irmão está se saindo muito bem para um “lobo solitário” — sorriu o russo, desanimado.
— Foi justamente essa característica que fez com que uma habilidade investigativa se desenvolvesse nele.
— Eu sei. Estou só brincando.
— Sei disso — Shun também se serviu do chá, sutilmente doce e bem reconfortante.
— E... como você está, Shun?
Andrômeda abaixou o olhar, mirando os reflexos trêmulos na superfície da bebida fumegante.
— O que sinto é irrelevante perto do seu sofrimento, do de Milo e, principalmente, do de Camus.
— Não diga isso. Sei que a decepção com seu mestre está te corroendo por dentro. E pior... conhecendo você como conheço, aposto que tem até alguma culpa absurda dentro do seu coração.
O semblante do menino confirmava a suspeita do amigo. Seus olhos verdes se umedeceram imediatamente.
— Ele... ele era tão bom, Hyoga! — disse, com voz emocionada — Tão bom... não entendo como isso pode ter acontecido! Como se tornou esse ser maligno, tomado por tamanha sede de vingança que se dispõe a torturar um inocente que nada teve a ver com o que sofreu!
— Shun... — acariciou o rosto alvo, tão belo, tão puro, tão amado, secretamente amaldiçoando o Cavaleiro de Prata por causar mais aquela dor.
O adolescente apressou-se em esfregar os olhos antes que o choro viesse sem freios. Seu namorado certamente não precisava de mais aquela preocupação!
— Mas não se preocupe comigo — falou, com energia fingida.
Ambos voltaram a observar o pranto mudo, apavorante, de Milo. As lágrimas realmente não paravam de fluir! E aqueles olhos vidrados, fitos no nada...
— Será que ele não deveria tomar alguma coisa? Um tranquilizante... não sei... — ponderou Cisne, pondo o dedo indicador no queixo — Tenho medo que ele sofra um colapso ou algo do tipo.
— Tem razão... quer que eu vá chamar alguém?
— Acho que é uma boa ideia. Pode fazer isso, por favor?
— Não precisa nem perguntar isso — levantou-se e deu um beijo na fronte do russo — eu já volto, tá?
Aroveitou para recolher a bandeja com a prataria e se retirou. Assim que ouviu-se o som da porta se fechando, o pescoço de Hyoga foi agarrado numa velocidade indefensável.
— Aaah!! MI-MILO?
O escorpiano ergueu metade do corpo, ainda segurando o adolescente pela garganta, mantendo uma pressão da qual ele não poderia escapar.
— O... o q-que... es-tá... fa...fazendo?! — buscava o ar, ao mesmo tempo que colocava suas mãos sobre o antebraço de Milo. Este soube logo o que o pupilo de seu namorado pretendia fazer.
— Me perdoe, Hyoga. E lembre-se: da mesma forma que você disse me amar como a um tio, assim eu também te amo. Você será um Santo de Ouro ainda melhor do que seu mestre...
E golpeou o estômago do loiro, enquanto concluiu:
— ... e com certeza, melhor do que eu.
O Cavaleiro de Bronze escorregou nos braços do grego, perdendo os sentidos após um último e doloroso dizer:
— M-Milooo...
Este abraçou o menor, depositando um beijo em sua testa. Ajeitou-o na cama, lançando-lhe um olhar pesaroso. E rapidamente dirigiu-se para a janela mais próxima. Viu que vários guardas vigiavam aquela área. Talvez dez ou doze. Não. Por ali causaria ruído. Correu para a varanda, do outro lado do quarto. Ali dava para um vale, em cujo centro ficava um despenhadeiro bem rochoso e escarpado.
Apenas cinco guardas. Resolveria tudo em menos de um segundo.
Hyoga não acordaria tão cedo. E Shun também não voltaria antes que ele desse cabo a sua vida.
Sim. Tinha que fazer isso.
Camus somente estava passando por tais provações para que ELE assistisse. Essa era a vingança de Albiore.
E se NÃO MAIS ESTIVESSE VIVO PARA ASSISTIR?
Pois bem... se ele não estivesse mais vivo para assistir às torturas de Camus... talvez Albiore não tivesse mais por que continuar com aquela monstruosidade.
Camus tinha uma chance de PARAR DE SOFRER.
Decerto seria morto. Porém, àquela altura, naquelas mãos torpes e imundas, naquele inferno... a morte lhe seria certamente mais bem vinda do que tais torturas e humilhações. Conhecia-o bem.
TAMBÉM ELE deveria estar desejando a morte.
Saltou pela varanda, a queda livre por mais de 20 metros de altura, através da neblina aclarando sua mente.
Sim, iria se matar.
Era a única chance de libertação para Camus.
Chegando ao solo não tem deu tempo nem para os guardas piscarem uma segunda vez. Brandiu seu braço desferindo um golpe que tinha um décimo de seu poder telecinético. Os homens tombaram, desmaiados. Ele se jogou, rumo ao vale, aterrizando facilmente no terreno rochoso. Caminhou até a borda da montanha. Seus cabelos esvoaçaram com a forte corrente de ar que subia pelo precipício abaixo. Contemplou o fundo do abismo escuro. Além de muito alto, pedras e rochas pontiagudas cuidariam de eliminar qualquer chance de sobrevivência.
“Camus, me perdoe. Mas não posso mais. Minha existência é a razão do seu sofrimento. Se eu não estiver mais aqui para ver suas torturas... para satisfazer a sede de vingança de Albiore... você não passará mais por isso. Espero que Athena me perdoe também... e que os deuses permitam nosso encontro nos Elíseos”, pensou, aproximando-se do penhasco.
Desativou por completo o cosmo. Tomou impulso e projetou-se no ar, atirando-se para a morte.
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