Grilhões Eternais

22 Em busca do nobre


Notas iniciais
No capítulo anterior, Milo escapa do quarto do Patriarca golpeando e desacordando Hyoga. Nocauteia os guardas que vigiam o térreo e parte rumo a um despenhadeiro, onde tenciona cometer suicídio; ele acredita que se não mais estiver vivo, Albiore pode perder interesse em seu jogo de vingança e parar de torturar Camus. E acaba por se atirar no abismo, rumo às pedras pontiagudas... Créditos da fanart ao fanartista. Boa leitura :)

— MILO!!!

Seu grito ecoou pela masmorra fria e sombria. Vira o amante caindo no abismo, os longos cabelos como a cauda de um cometa que perde-se de vista no breu do universo.

Camus respirava pesadamente, a dor do peito ofegante substituindo a do corpo ferido e violado. Ainda procurou pelo recinto a imagem do outro, incerto sobre a realidade. Diante de si apenas as paredes escuras de pedras centenárias, acima de si o teto alto onde aranhas moradoras de teias diáfanas faziam-lhe companhia.

Enxugou o suor gelado do rosto; umedeceu os lábios secos com a língua e ficou ouvindo as batidas do próprio coração, tão acelerado que achou que iria estourar.

— Milo... — balbuciou, fechando os olhos, aliviado por constatar que a horrível visão não passara de um sonho.

Não. Um terrível pesadelo.

Como tudo o mais se convertera.

Contemplou as mãos algemadas, maquinalmente, e em seguida os tornozelos. Tocou a coleira álgida em seu pescoço, suspirando desanimado. Tirou um pouco da franja úmida de suor da testa. Estendeu o braço para alcançar a água que ali fora deixada, recolhendo-se bruscamente ao sentir uma fisgada de dor. Seu corpo todo doía. As costas ardiam, seus membros latejavam como se estivessem distendidos. Suas entranhas se ressentiam da violência sofrida nas mãos do Juiz do Inferno. Teve nojo de ainda estar com a capa dele por sobre o corpo, mas era tudo que possuía para não ficar completamente nu. E não apenas por decoro: tinha muito frio.

Pensou, entristecido, que o que sentia na carne não se comparava ao que sentia na alma. Seus olhos marejaram ante as cenas revisitadas.

Fora possuído por outro homem. Gozara nas mãos de outro homem. Um outro homem esteve nos domínios outrora exclusivos de Milo. Tudo diante do próprio Milo.

Possivelmente o que havia visto há pouco era o reflexo do espírito do amante naquele momento.

Depois do que viu, ele deve estar querendo morrer...”

Ou...

Ou...

Um pânico gélido se apossou dele.

Milo! Por favor... não faça nenhuma besteira!...”, clamou em pensamento, crispando as mãos, angustiado.

*************

Em meio ao mergulho fatal, inesperadamente sentiu algo se enroscar em seus pés numa velocidade incrível, suspendendo a queda livre. Gritou de surpresa e também de dor pelas forças físicas em conflito. O que estava acontecendo?

Metal. Correntes. Prendiam-lhe pelos pés e panturrilhas. Ficou pendurado, sem processar direito o que acontecera.

— O quê?! — e começou a ser alçado como um elevador.

— Muito bem, Andrômeda — ouviu a voz de Mu. E ao chegar ao cume, teve o braço ríspidamente agarrado pelo ariano.

— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, MILO? — berrou, atirando o escorpiano ao chão.

— Mu! — exclamou Shun, vermelho pelo esforço.

— EU NÃO ACREDITO NISSO! Você tem IDEIA do que acabou de fazer?!

O grego permaneceu no solo, cerrando os punhos na terra. Tremia de ódio, de revolta. Fuzilou os dois recém-chegados com o olhar ardente e úmido.

— TENTEI salvar Camus do destino terrível ao qual EU atirei!!!

— Não diga bobagens! MILO, VOCÊ TENTOU O SUICÍDIO! — Shun assustou-se com a ira do sempre calmo guardião da 1ª Casa — SABE QUAL PUNIÇÃO ESPERA UM SANTO DE ATHENA QUE COMETE SUICÍDIO?!?

— Não é pior do que saber que Camus está sendo torturado e violentado somente para que EU veja!!!

O tibetano calou-se, entre chocado e furioso. O outro prosseguiu:

— Por isso, se eu não estiver mais VIVO para ver aquelas atrocidades a fim de saciar a sede DO SEU MESTRE — apontou o dedo em riste para o garoto de cabelos verdes, que recuou, apavorado — não haverá mais motivos para ele continuar a fazer isso!!!

— Milo, pare. Shun não tem culpa de...

— NINGUÉM TEM CULPA! A CULPA É TODA MINHA!

— TAMBÉM NÃO É SUA!!! — replicou Áries, a voz igualmente elevada — sua morte NÃO vai salvar Camus do sofrimento!

O grego abaixou o tom, tremendo muito:

— Pode ser que não. Mas só de haver uma chance... — afundou a cabeça nas mãos, soluçando — eu entregaria minha vida...

O ariano aproximou-se dele, agachou e tocou-o nos ombros. Shun chorava copiosamente.

— Milo... ele está sofrendo, sabemos. Mas se você morrer por isso, Camus vai sofrer mais ainda. Não percebe? Como ele carregaria o peso de saber que você SE MATOU numa tentativa de apaziguar a dor dele? A dor dele se multiplicaria por 100, Milo...

Apertou os ombros do companheiro, sentindo toda tensão que o sacudia.

— ...e muito mais ainda por saber que você foi condenado no pós-morte. Milo, o suicídio cometido por um Santo de Athena, fora de um contexto de batalha, é equivalente a uma traição contra Ela... é um abandono de posto, a prova de que algo foi colocado acima da Deusa.

— Eu sei... mas... mas... Mu... eu precisava tentar... livrá-lo... ele... ele foi... pode estar sendo...

— Eu ouvi, meu amigo — sussurrou.

— Ele foi ESTUPRADO... — e desatou a chorar, sendo amparado pelo outro, que fechou os olhos, comovido.

Shun assistia à cena, terrificado. Camus de Aquário fora estuprado? Foi isso mesmo que Milo dissera? Zeus… se Hyoga soubesse daquilo…

— Você não vai contar nada do que ouviu aqui ao Hyoga... ouviu bem, Shun?

O adolescente estremeceu ante o tom grave e imperativo de Mu. Balançou a cabeça numa vigorosa negativa.

— Não, eu não vou contar, não!

As íris púrpuras cintilaram, quase ameaçadoramente.

— Ótimo. Vou confiar em você, Andrômeda. A situação não será aliviada por meio de mais desespero — atalhou o ariano, fazendo o escorpiano se levantar.

— Recomponha-se. Athena convocou uma reunião conosco — anunciou. O escorpiano encarou-o, curioso.

— Uma reunião?

— Ao que parece, ela tem uma pista de onde Camus pode estar.

-Não... não brinque comigo, Mu.

— Acha que vou brincar com isso?

— Eu não sei... pode ser um blefe... para que eu não faça a loucura que...que estive prestes a fazer... — enxugou as lágrimas, nervosamente.

— Meu amigo, se não fosse a percepção de Andrômeda, percebendo que algo havia acontecido com Cisne, e eu estar justamente me dirigindo ao Quarto do Mestre, você estaria irremediavelmente perdido diante de Camus e de Athena. Teleportei a nós dois quando da sacada vi você vindo para o vale em disparada. Eu sabia deste despenhadeiro. Não levou mais do que um segundo entre adivinhar o que você iria fazer e nós chegarmos até aqui.

Entre cansado e envergonhado, o grego abaixou a cabeça. Virou-a na direção do menino:

— Shun... eu acho que te devo um “obrigado”...

— Ah! Que nada! Não foi nada!!

— Eu poderia ter trazido você de volta com minha telecinesia, mas — o tibetano, sorridente, pôs a mão no ombro do Santo de Bronze — o garoto adiantou-se e eu quis ver do que ele seria capaz. Bom trabalho... foi excelente, Shun!

O menino sorriu alegremente, com uma ponta de orgulho.

— Hunf. Você fez disso um treinamento fora de horário, é? — Milo perguntou, entredentes — e se não desse tempo e eu me esborrachasse lá embaixo?!

— Ora! Mas não era isso que você queria? — retrucou Áries, dando de ombros.

— Hunf...

— Agora vamos. Vou levar a nós três para a Sala da Deusa. Ela nos espera.

E após serem cobertos por uma breve luz dourada, os três cavaleiros desapareceram instantaneamente.

*************

—Oh! Ahnn... Radamanthys... — suspirava Valentine, por baixo do Juiz, as pernas por cima dos ombros fortes e alvos do amado. Sensações inebriantes percorriam seu corpo. As estocadas ritmadas massageavam de forma sublime aquele ponto mágico, e ele abriu a boca em busca do ar que já lhe faltava. Gemeu, extasiado:

— Aaaaaahhhn… ohh, só você me fode desse jeito, meu Juiz... me come...ahhn... assiiim...

O loiro viu-o envergar-se todo, atirando a cabeça para trás. O clímax do parceiro se aproximava. Já o dele...

Agarrou-lhe os quadris firmemente, não se importando de ali enterrar as unhas. Foi então que ao mirar o rosto do amante na verdade viu...

... o rosto do prisioneiro.

Aquário.

Camus de Aquário!

Não eram mais olhos violetas que se fundiam aos dourados dele, e sim olhos de um azul escuro, misterioso, como as mais abissais regiões marinhas. Não eram mais cabelos rosados médios que se espalhavam pelos travesseiros negros de cetim, e sim cabelos muito longos azuis esverdeados, chegando a uma tonalidade petróleo, lisos e macios como a mais pura seda. Não era uma pele pálida que experimentava, e sim uma pele sutilmente amorenada pelo Sol da Grécia... os lábios entreabertos, tão convidativos, a face delicada e ainda assim máscula e desafiadora... apertou ainda mais as garras naqueles quadris, enterrando-se mais, curvando-se mais sobre aquele devaneio.

— Está pensando nele... não está?

A voz límpida de Valentine varreu a deliciosa imagem dali. Radamanthys parou os movimentos.

— O quê?

— Está pensando nele... no prisioneiro... Camus de Aquário.

— Da onde saiu isso? — rosnou o Juiz, impaciente.

— Está olhando através de mim. É como se não me visse à sua frente. Era ele em sua mente... não era?

Radamanthys retirou seu órgão de dentro do espectro, fazendo-o gemer de frustração pelo súbito abandono.

— Agora é isso? Não me quer mais por causa dele?

— Não. Por causa de sua atitude ridícula.

Valentine mordeu o lábio inferior, ofendido.

— EU sou ridículo? Pelo menos não me apaixono por prisioneiros!

Recebeu um violento tapa no rosto. Em verdade, esperava por aquilo.

— O que você fala é um absurdo tão grande que me fez perder a vontade —declarou o loiro, deixando a cama. Valentine esfregava com a mão o local atingido enquanto presenciava o amante se vestir com uma calça jeans black e camisa preta de botão. Vendo-o calçar as botas pretas, o espectro ainda no leito indagou, amargamente:

— Vai sair?

— Vou tomar um ar — pegou uma garrafa de uísque.

— Por que é que eu acho que você vai é para a masmorra?!?

— Porque é um tolo que não sabe o seu lugar — respondeu secamente, a expressão insensível a esmagar o namorado rejeitado.

— Sabe que não faço caso de seus outros parceiros — disparou Valentine, a nudez revelando-se por baixo dos lençóis escuros — pois sei que são mera diversão para alguém insaciável como você! E sei que sempre tenho lugar cativo em seu leito. Sei que sou seu amante oficial, E ISSO ME BASTA! Mas o que tenho visto... o que vi hoje... Radamanthys... desde que esse Cavaleiro de Athena veio para cá... há algo em seu olhar que NUNCA vi... nem direcionado a mim, nem direcionado aos outros. Você não percebeu? Ou simplesmente não quer admitir?

Radamanthys considerou-o com desinteresse.

— Não continuarei esta conversa sem sentido. Não dialogo com loucos — e virou-se, saindo da alcova. Ao ouvir o som da porta se fechando, Valentine chamou-o, enlouquecido:

— RADAMANTHYYYS!!!

Mordeu o lábio com tanta raiva que tirou sangue. Afundou o rosto em chamas no travesseiro com o perfume do Juiz, abraçando-o com força.

Maldito Aquário! VOCÊ ME PAGA!!!

*************

Reuniram-se numa extensa e larga mesa de mármore disposta no centro do Salão de Athena os Santos de Ouro de Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Escorpião, Capricórnio e Peixes. Libra retornara dos Cinco Picos da China, deixando lá Shiryu com Shunrei. Também se encontravam presentes os Santos de Bronze de Pégaso, Andrômeda, Cisne e Fênix. A princípio seria uma reunião apenas com os guerreiros de patente mais alta, mas por Andrômeda e Cisne estarem ligados ao caso, por Fênix prestar serviços junto ao Centro de Investigação da Fundação Graad, e por Pégaso... bom, por Seiya sempre meter seu nariz em qualquer coisa que fosse ( e pro ser o maior protegido da Deusa... ), eles também estavam ali.

Saori ocupou a cabeceira da mesa. Trajava um vestido branco drapeado à moda clássica greco-romana e não trazia adorno algum. Após uma série de cumprimentos, saudações (e olhares estranhos entre Milo e Hyoga), a jovem começou a falar:

— Boa noite a todos. Dada a urgência da situação, irei diretamente ao assunto. Como é de conhecimento de todos, mestre Camus foi raptado por espectros de Hades a mando do Cavaleiro de Prata Albiore, que fez acordo com o Deus do Submundo para ressuscitar e se vingar de Milo, fazendo-o presenciar uma série de perversidades cometidas contra o Cavaleiro de Aquário. Isso é possível devido a um elo psiquíco entre Milo e Albiore, estabelecido através daquela bola de cristal negra encontrada por Shun no Templo de Escorpião. Shaka, por favor...

— Sim, senhora. Da última vez em que Milo esteve em transe assistindo a uma tortura de Camus, utilizei uma técnica de projeção astral conjugada ao cosmo de Athena para que Ela pudesse entrar na mente de Milo e ver o que ele estava vendo.

O grego fez uma expressão de surpresa. Ainda não sabia que aquilo tinha acontecido.

— Athena... viu o que acontecia com Camus? — perguntou num fio de voz.

— Sim, Milo — respondeu a moça, consternada — mas... o que quero revelar não é O QUE vi, e sim QUEM eu vi.

— Albiore? — Seiya tentou o óbvio...

— Também. Mas vi alguém que pode nos indicar ONDE ESTÁ o Mestre Camus.

Um murmúrio correu pelo salão. O escorpiano tentou conter a ansiedade que o corroía.

— Quem?... — indagou Hyoga.

— Radamanthys.

—Quem é esse? — quis saber Afrodite.

— Athena, você o conhece? Como o reconheceu? — inquiriu Milo, desistindo de se conter.

— Radamanthys é um dos Três Juízes do Inferno, e um dos mais terríveis inimigos que meus Cavaleiros enfrentaram na última Guerra Santa.

— Um dos Três Juízes do Inferno? — alguns exclamaram em uníssono.

— Sim. Ele provavelmente veio à Terra no corpo do homem que vi através da mente de Milo.

— O homem loiro com as sobrancelhas juntas? — o grego quis confirmar.

— Exatamente. Mas não é apenas de outra reencarnação que eu o conheço. Como Saori Kido, já encontrei aquele homem antes.

— Como assim?!?

— Explica melhor pra gente, Saori, por favor! — Shun pôs a mão no peito, aflito com tudo aquilo.

— Foi há uns oito anos...

E à medida que Saori foi contando sua história, viu a mesma passar diante de si como um filme.

***MAINCY, FRANÇA, 8 ANOS ATRÁS***

Na cidade de Maincy, a cerca de 50 quilômetros da frenética Paris, fica o Chatêau Vaux LeVicomte. Trata-se de um castelo construído no século XVII em estilo barroco, tão magnífico que teria inspirado a construção do famoso Castelo de Versalhes. Atualmente, o local é utilizado inclusive para casamentos suntuosos e gravações de filmes de elevada produção. Rodeado por canais e jardins belíssimos, foi o palco escolhido para uma luxuosa recepção ofertada por uma poderosa corporação comercial da Europa.

A empresa havia feito um acordo milionário com o magnata japonês Mitsumasa Kido, e este viajara à França com sua neta para, simultaneamente, tomar parte dos negócios e participar do evento de oficialização.

Empresários, nobres, membros do alto escalão e algumas celebridades faziam parte da constelação que abrilhantava a festa no Salão Oval. Em meio a eles, umas poucas crianças, dentre as quais a pequena Saori e seu coleguinha, o espevitado Julian, único herdeiro da família Solo, dona de um grande império de navegação comercial situado na Grécia. Ambos tinham 8 anos e energia de sobra para uma festa tão formal como aquela. Entediados com a seriedade e a pompa da ocasião, esgueiravam-se pelos cantos, brincando e fazendo pequenas travessuras, como rir da peruca de um ricaço italiano, ou do rosto deformado pelo excesso de plásticas de uma socialite alemã. Saori chegou a fazer um cômico “bico” imitando os lábios inchados de tanto silicone de uma ex-modelo austríaca. Julian quase caiu de tanto rir. Por vezes recebiam um olhar atravessado do velho Kido ou do senhor Solo. Fingiam se emendar, iam comer alguma coisa, mas logo estavam fazendo das suas, como qualquer criança normal faria num evento daqueles.

Abaixaram-se atrás do busto do imperador romano Adriano para procurar o próximo alvo de suas graçolas.

— Saori, olha ali — sussurrou Julian, apontando para um jovem de cerca de dezoito anos que parecia tão entediado quanto eles, só que bem mais sério... então não era só criança que achava aquela “grande festa” uma tremenda chatice...

— O que tem ele?

—Hehehehe — riu baixinho — olha a sobrancelha dele! Hihihihihi...

— Ih, é! Estranho!! Hehehehe — a menina pôs a mão na frente da boca para abafar o som.

O rapaz recostado numa janela que dava vista para os jardins realmente possuía sobrancelhas peculiares: grossas e bem volumosas, uniam-se acima dos olhos cujas íris douradas luziam sinistramente. Sua pele muito branca contrastava com o traje negro perfeitamente alinhado num corpo alto e forte. Os cabelos loiros arrepiados destoavam um pouco do conjunto aristocrático porém davam-lhe certa personalidade.

— Ah, mas Julian, até que ele é bonito, tá!

— Bonito, ele? Há! Com aquelas sobrancelhas que parecem que vão bater como asas e voar? — e riu bastante.

— Shhh, fala baixo! Se ele escutar...

— E daí? — provocou o menino, divertido — Não tô mentindo! Olha... parece uma taturana. Uma taturana amarela!

A garota prendeu o riso; achava mais engraçada a hilaridade do companheiro do que as piadas em si.

— Para, bobo. Tem até nobres europeus aqui. Vai que ele é um príncipe!

— Príncipe? Só se for o “Príncipe Taturana”! — e Julian gargalhou tão ruidosamente que chamou a atenção do avô da amiguinha, que enfim cansou de apenas lançar olhares de reprovação para os dois. Foi até eles:

—Saori! Julian! Que escândalo é esse? — ralhou o ancião em voz baixa, porém não menos intimidadora.

— Ah! Vovô! — a menina abraçou-o, afetuosamente. Fez menção de falar-lhe algo ao ouvido, e ele se abaixou para que a neta o fizesse:

— O Julian disse que aquele ali é o Príncipe Taturana...

— Hum. E você estava rindo disso, não é verdade?

— Não, não — balançou a cabeça em negativa, quase desarrumando o penteado que prendia os cabelos médios violetas.

— É muito feio ficar rindo dos outros por suas características físicas, fiquem sabendo disso. Muito feio mesmo.

— Sim, vovô.

— Sinto muito, senhor Kido — falou o garoto, abaixando a cabeça como a menina.

— Por outro lado, vocês podem ter razão num aspecto: ele pode ser, sim, um príncipe, pois pertence a uma das famílias mais antigas e tradicionais da Europa, uma família de nobres de verdade.

— Éééé?! — os dois se espantaram, e voltaram a mirar o singular jovem.

— Os antepassados dele inclusive fizeram história na Inglaterra, que é de onde ele veio.

— Uau... — as crianças se surpreenderam com aquela revelação.

— O nome dele é William Allen Morgan Wright, da família Morgan Wright. Hoje em dia comandam inúmeros negócios como mercado de ações e empreendimentos imobiliários.

Como se soubesse que falavam dele, o rapaz olhou na direção dos três. Ao encontrar com aqueles olhos cor de âmbar, Saori tremeu instantaneamente. Algo nele a apavorou... o semblante duro e indiferente? A exótica sobrancelha? Os lábios curvados para baixo, demonstrando desagrado? Não sabia precisar. Instintivamente, a garotinha segurou a mão do avô.

— Agora vamos. Parem de ficar zombando dos outros — o magnata os repreendeu brandamente — venham comer alguma coisa.

*************

Ao terminar de contar, notou o assombro nas faces de seus guerreiros santos.

— Incrível! Conhecia ele desde criança! — espantava-se Aioria — Então... TEMOS UMA IDENTIDADE!

— Precisamos ir logo atrás desse desgraçado! Radamanthys ou William... eu vou ACABAR com a raça dele! — Milo brandiu o punho, decidido.

— Acontece que...

Todos se calaram ao ouvir essas duas palavras da boca de Athena.

— ... ainda precisarei que a Fundação envie mais informações acerca dele — completou, explicando em seguida — há seis anos, a família de William foi brutalmente chacinada numa residência de veraneio. Lembro de Mitsumasa Kido comentando acerca do mistério por um bom tempo.

— Mistério?...

—Como eu disse, ou melhor, como Mitsumasa Kido havia dito, a família de William era de uma linhagem muito antiga de nobres ingleses. Possuíam cinco castelos espalhados pelo Reino Unido, um deles em Bournemouth, cidade ao sul da Inglaterra. Passavam os verões lá, por ser um balneário. Misteriosamente tanto os pais de William como três avós, três irmãos, dois casais de tios e cinco primos foram encontrados mortos e em condições terríveis. Haviam sido esquartejados vivos, e atirados ao fosso do castelo. As partes do corpo de William, porém, jamais foram encontradas.

— Acha que ele...

— Não tenho dúvidas que tudo ocorreu quando foi convocado pelo braço direito de Hades, Pandora.

— Pandora? — perguntou Mu.

—Athena, creio não estar compreendendo — confessou Shura.

— Isso não tem importância agora. Saberão sobre ela... em breve — a Deusa concluiu, aparentando pesar. Um arrepio foi sentido por todos.

Cerrando os punhos, Escorpião inquiriu:

— Se sabemos quem ele é, e onde viveu... temos como encontrá-lo? Disse que ele possuía castelos. Camus está obviamente preso na masmorra de um castelo!

— De fato... Athena disse que podia sentir seu cosmo, embora não localizá-lo, logo, ele estava aqui na Terra, e não no Inferno ou em qualquer outro plano ou dimensão — raciocinou Máscara da Morte.

— Claro! Então possivelmente... Camus está em algum lugar do Reino Unido! — Aldebaran exclamou, vivamente.

— Basta irmos procurar nos castelos da tal família — disse Milo, erguendo-se da mesa, o fogo da esperança aquecendo seu ânimo e coração.

— Eu falei que não era tão simples — Athena cortou a empolgação dos presentes.

— Hã?

—Depois da tragédia, a família restante optou por vender os castelos, justamente pertencentes aos que foram assassinados. Mas depois do que vi, acredito que tenha ficado algum a ser utilizado por William, ou melhor... Radamanthys!

— Athena! E temos como confirmar isso? — perguntou Mu, nervoso — Essa pode ser a pista final.

— Esta é a resposta que esperamos receber do serviço de inteligência da Fundação Graad.

Seiya levantou-se e propôs, afobado:

— Ora! Por que não vamos logo pro Reino Unido, nos dividimos pelas localizações dos castelos e procuramos em cada um deles?

— Não, Seiya — respondeu Shaka — uma movimentação de tal magnitude colocaria em risco a chance de resgate bem sucedido. Se procurarmos a esmo, o inimigo saberá que estamos nos aproximando. Devemos efetuar um movimento único e certeiro.

— Direto ao ponto, como dizem... — murmurou o escorpiano.

Athena ergueu-se da mesa, encarando a todos.

— Exatamente. Portanto, eu proponho que esperemos até amanhã, quando as informações definitivas deverão chegar.

— Amanhã! — o tom de decepção de Milo explodiu no salão — NÃO POSSO MAIS ESPERAR! Sabe-se lá o que vai acontecer com Camus até amanhã!

A deusa fitou-o com compaixão... não obstante, havia firmeza em sua expressão.

— Talvez ele passe por mais uma provação, Milo. Talvez até POR MAIS. Entretanto, de nossa atitude calculada e planejada depende o fato de que ele pode sofrer por um ou dois dias a mais e ser resgatado com êxito... ou por mais uma semana, ou até ser morto, caso coloquemos tudo a perder. Espero que tenha entendido.

Todos emudeceram. Observaram Milo e por vezes se entreolhavam. O grego percebeu que esperavam um parecer dele. Abaixou a cabeça, sentindo-se pesado e derrotado. E declarou, resignado:

— Estou de acordo, Senhora.

*************

O cansaço, o frio, o torpor, conduziam Camus de volta ao benfazejo Mundo dos Sonhos quando uma voz profunda e amedrontadora aniquilou por completo o seu sono.

— Que está dizendo? Que EU NÃO TENHO permissão de entrar num lugar que pertence ao MEU castelo? Ao MEU PRÓPRIO CASTELO?

— P – Perdoe-me, Senhor Radamanthys… fo-foram ordens expressas do Se-Senhor Albiore… e o senhor m-mesmo disse que... que deveríamos...

— Deve acima de tudo ter o bom senso de SAIR DA MINHA FRENTE. Antes que eu o transforme em poeira — alertou o Juiz.

— M-mas... eu... o-o senhor...

— Não vou repetir o aviso, guarda.

O tom de voz não admitia mais réplicas. O som das chaves e do ferrolho se abrindo foram ouvidos. Em seguida, os passos vindo em sua direção cuidaram de aterrorizar ainda mais o prisioneiro. Sem perceber, sentou-se e comprimiu-se contra a parede. Esforçou-se para não aparentar o temor que gelou seu ser. À sua frente surgiu, iluminado pelos archotes do corredor...

... Radamanthys.

*************

Notas finais
Nem teve taaaanta sofrência, né? Deu para dar uma respirada, colar uns caquinhos de corações, e economizar uns lencinhos... Mas eis que surge bem na cela do nosso aquariano amado... uma visita nada esperada, nos dois sentidos... Obrigada por lerem, e até o próximo capítulo! Beijos a todos :x