Grilhões Eternais

34 Rumo a um novo tempo


Notas iniciais
Como demorei muito a postar por puro esquecimento, aqui vai logo outro! Boa leitura :) (Capítulo originalmente postado em 15 de dezembro de 2015 - não foi betado novamente) Arte da capa: Yomogi

Como era de se esperar, a revelação de Milo, feita durante uma audiência no dia seguinte apenas com a Deusa, Dohko, Shaka e Mu, foi extremamente chocante. E o foi ainda mais para o jovem Shun, que permaneceu incrédulo durante a reunião de que enfim participou com os referidos Santos e Saori. Riu nervosamente, em vão, pois sabia que não haveria como aquilo ser uma brincadeira.

— Mas... mas por que eu?!? Isso… isso não faz o menor sentido! — indagou, trêmulo.

— Sei que não, Shun, mas é a pura verdade... ao sondar seu cosmo, pude sentir a essência de meu tio... eu sinto muito, muito mesmo!

— Mas Saori!! Eu sempre fui fiel à Athena! Sempre fui fiel a VOCÊ! POR QUE EU?? — argumentou, nervoso. Nem que quisesse poderia se conter.

Milo, apertando muito as mãos sobre a mesa de mármore do Salão do Patriarca, tentou responder:

— Camus não teve tempo para me dizer o porquê de ser você, Shun.

— Tem a ver com sua própria alma, Andrômeda — disse Dohko, atraindo as atenções deles. Prosseguiu — sobre seu antecessor, Alone, que abrigou a alma de Hades na última Guerra Santa, foi dito que foi escolhido por possuir a alma mais pura à sua época.

— A nobreza de seu espírito é notória, Shun— arrematou Shaka — posso sentir que sua alma é algo de excepcional no mundo dos homens, irradiando uma aura quase santa. Possivelmente isso ocorreu pelas mesmas razões que das outras vezes.

— Hades necessita de uma alma imaculada para resistir dentro de um corpo humano. Uma alma que não se curve às paixões que poderiam diminuir seu tempo no invólucro, nem alterar a neutralidade de que precisa para manter-se em repouso até a hora de despertar — Mu ajuntou, mirando o adolescente afetuosamente — todos preferem um quarto tranquilo e silencioso para dormir, entende, Shun?

Ele balançou a cabeça, perplexo.

— Não... não, isso não tem o menor sentido... estão dizendo que estou possuído por esse DEMÔNIO PORQUE SOU BOM? — perguntou.

— Shun. Nós vamos dar um jeito nis... — Saori foi interrompida pelo movimento brusco do adolescente, que se ergueu da mesa, à beira de uma crise.

— NÃO...eu não aceito isso... não...NÃO! — e saiu em disparada, abandonando-os.

— SHUN! — ainda chamaram, indo atrás deles, preocupados com o menino. Ele correu pelas escadarias acima, em direção a um dos vários quartos. Entrou e bateu a porta, trancando-se ali, alheio aos chamados dos Santos.

— Shun, por favor, abra a porta! Vamos conversar! Precisamos...

— NÃO, SAORI! Eu não fiz nada para isso! Por que tenho que ser um demônio???

— Shun, você não é um demônio!

— Sim, Milo, eu só estou POSSUÍDO, não é isso? — e ouviram-no irromper em choro. Claro que com um peteleco qualquer um dos Cavaleiros ali presentes poderia arrombar a porta, porém jamais o fariam, em respeito ao jovem. Ele só estava assustado. Extremamente assustado.

APAVORADO, na verdade.

— Eu imaginava que a reação dele seria essa... — comentou o escorpiano, consternado. E olhou para os companheiros — o que faremos?

—O que está acontecendo? — a última voz que queriam ouvir se fez anunciar.

— Ikki... — murmurou Shaka, já sentindo o peito constringir.

O rapaz aproximou-se, o olhar em chamas.

— Já estamos a par do que aconteceu com Shun. Pelo visto vocês não foram capazes de lidar com a situação decentemente — disparou, sem papas na língua. Como sempre o fazia, aliás.

— Ikki! — ralhou o virginiano — Seu sarcasmo não nos será de utilidade alguma!

— Ah, sim. E o “jeito” de vocês contarem isso a ele foi bem útil, não?

— Ei, caras, por favor, não briguem — pediu Milo, erguendo as mãos para os dois namorados, que se fitavam com raiva.

— Saiam da frente, eu falo com ele.

— Ikki... — tentou o indiano, calado por um gesto de Mu.

— Shun. Por favor, me deixa entrar. Quero falar com você.

— Não, Ikki — disse Shun, com voz chorosa — vai embora, por favor! Não quero falar com ninguém!

— Nem comigo?

—NEM COM VOCÊ!

Shaka não pôde deixar de espetá-lo:

— Me parece que o seu “jeito” não é lá muito melhor que o nosso, Ave Fênix...

— Ora, seu...

— SHUN! CADÊ ELE! — gritaram Hyoga e Seiya, vindo na direção deles. Mu suspirou:

—O jeito é deixar que cada um tente...

Os recém chegados pararam diante do quarto, observando todos eles parados, sem sucesso em tirar o adolescente dali.

— Ele está em estado de choque — declarou Milo — Não é para menos. Receber uma notícia dessas... qualquer um ficaria enlouquecido...

— É, mas Shun NÃO É qualquer um. Ele é um Santo de Athena — retrucou Shaka.

— Sim, mas é só um garoto! É normal estar apavorado! — insistiu o grego. E ao virar-se para Mu, viu que o ariano assentia com a cabeça, concordando com o loiro.

— Shun, abra a porta...

— VAI EMBORA, HYOGA! EU SOU UM DEMÔNIO!!!

— Não diga bobagens! Você...

O Mestre Ancião ergueu os braços, conclamando:

— Que tal abandonarmos o show por hora? Deixemos Virgem cuidar disso.

— Mestre Ancião... — exclamaram os mais desesperados, atônitos.

E o pequeno Cavaleiro foi sacudindo a mão, gesticulando para que saíssem dali.

— Vamos, vamos voltar para o Salão do Patriarca e pedir o chá da tarde. Shaka vai resolver isso.

— Mas por que ele? — quis saber Ikki, Hyoga ao seu lado com a mesma pergunta no olhar irritado.

— Há um Deus no corpo de um homem... e ninguém melhor que o homem mais próximo de Deus para tratar da questão — afirmou o Velho Cavaleiro, muito calmamente. Todos se calaram ante aquelas palavras.

— Shaka é o mais indicado nesses assuntos — Mu reforçou, tentando transmitir segurança aos garotos — e quem está nos dizendo o que fazer é o mais velho e experiente de todos nós. Não vejo por que não fazermos conforme suas orientações, não é mesmo, Athena?

A jovem balançou afirmativamente a cabeça; sua expressão serena fazia parecer que estava, de fato, tudo sob controle... por Ela? Pela confiança em Virgem? Pela fé nas instruções de Libra?

— Sim, Áries e Libra têm razão. Retornemos ao Salão do Papa — ordenou.

— Se a Senhora diz... — falou Milo, ainda em dúvida. A garota voltou-se para o indiano:

— Shaka. Estaremos esperando. Pedirei o chá de jasmim de que tanto gosta.

— Eu apreciaria muito, Senhora — sorriu o loiro. A Deusa e os Cavaleiros se retiraram, com exceção de seu amante, que ficou ali, encarando-o com uma expressão desconfortável.

— Logo VOCÊ, não confiar em mim, Fênix...

— Não é isso. Eu... eu só sinto que tenha que ser VOCÊ. E não EU — confessou o jovem, contraindo os punhos.

Aproximando-se lentamente dele, Shaka pôs seu alvo rosto bem perto do dele.

— Considere isso um favor em família...

— Hum?

—Ora… é do meu “cunhado” de que estamos falando... — sussurrou.

— Ah! Seu... — rosnou o moreno, simulando ira. Foi paralisado por um beijo que pousou de surpresa sobre seus lábios, após o indiano erguer-lhe queixo com um dedo.

Aquilo foi como um encanto. O intempestivo Santo parou e ficou perdido nos olhos agora abertos do namorado. O azul mais celestial jamais visto!

— Agora vai. Deixa que cuido disso. Mais tarde VOCÊ cuida de mim, que tal? — propôs, quase inaudível, sabendo que aquilo abaixaria um pouco o orgulho protetor ferido de sua ave de fogo.

Ikki tomou-lhe a mão branca e beijou-a de modo passional.

— Vou te cobrar isso, loiro. Por hora, confio meu irmão a você. Não demore.

— Não vou, não — sorriu, de modo que talvez nem mesmo os anjos celestiais o fizessem.

Dando a volta, Fênix foi em direção às escadas, rumo a onde os demais se encontravam. Shaka suspirou brevemente e bateu de leve à porta.

— Vamos, Shun, eles já se foram. Abra a porta e converse comigo.

— Não... — soluçou — ... eu não sirvo para ser um Cavaleiro... eu sou um monstro...

— Está sendo um monstro sim, da IGNORÂNCIA, se não me deixar entrar. Um monstro sim, da COVARDIA. É esse tipo de monstro que quer ser? Se for, apenas confirme, e eu o deixo no seu confortável palco da autopiedade.

— ......

— Esse é o caminho mais fácil, Andrômeda. Negar um problema e se fechar em si mesmo. Creditar isso a um destino. Acreditar que se é injustiçado. Não existe isso, Shun. O que existe é o que existe. Nada é em vão. Nada é imerecido.

— Mas... Shaka...

O Santo de Ouro ouviu-o fungar. Abrandou a voz, um tanto dura até então.

— Alone, seu antecessor, não teve a mesma sorte que você. Não teve alguém que tivesse descoberto sobre seu terrível destino antes que se consumasse o pleno domínio. É assustador... é nauseante, até. Mas está te sendo revelado antes que seja tarde demais, Shun. Ainda podemos tirar Hades de você. Se você permitir. Se nos deixar te ajudar.

— Isso... isso pode ser feito, Shaka?

— Muito provavelmente. Temos a Deusa conosco. E eu vou auxiliar vocês. Necessito apenas de sua permissão.

O adolescente calou-se. Após longos minutos de silêncio, ouviu-se o trinco da porta. A mesma se abriu. O indiano entrou. Shun voltou a trancar a porta e sentou-se na cama fofa, coberta com lençol azul claro. Seu rosto muito vermelho angariou simpatia do virginiano, que permitiu-se maior suavidade no trato com o jovem.

— Camus não nos contou tudo em virtude do cenário de sua fuga e da extrema debilidade em que se encontrava ao chegar aqui — disse, caminhando pelo aposento decorado em estilo “clean” e elegante — Mas eu sei que fugiu do castelo não apenas para escapar dos horrores do cativeiro, e sim principalmente para tentar contar a Milo sobre Hades em você.

— Camus...? — balbuciou o menino, os olhos verdes cintilando pelas lágrimas.

— Não sabemos como ele descobriu. Porém, Milo disse que Camus preocupou-se logo em contar-lhe sobre a “possessão”, chamemos assim. Empreendeu uma fuga, mesmo ferido e debilitado, tendo como uma de suas prioridades revelar sobre sua situação... Shun.

— Oh. — fez o Santo de Bronze, abaixando a cabeça. O mais velho sentou-se no leito a seu lado.

— Tema. Grite. Chore. Mas não fuja. Não paralise. Não desista. Você, como Cavaleiro de Athena, tem esse dever. Não menospreze o esforço de Aquário. O cuidado de Fênix. O amor de Cisne. A amizade de Pégaso e Dragão... a MINHA confiança.

— A... SUA confiança?

—Sim.

—E-eu não entendo...

A mão de Shaka pousou nos cabelos verdes, acariciando-lhes de leve.

— Um dia vai entender, jovem Andrômeda. Vai entender.

O garoto olhou para seus próprios pés, entre confuso e envergonhado.

— Shaka... o que vai acontecer, então? Como vão tirar esta... COISA de mim?

—Daremos um jeito. Não será difícil, já que... “essa coisa” só tomaria seu corpo plenamente daqui a um ano. Pense na diferença entre tirar um tumor benigno e tratar um tumor maligno...

— Isso me assusta mais do que esclarece.

O loiro riu brevemente. Em seguida, ficou sério e arrematou.

— Não será difícil. No entanto, veja bem, não estou dizendo que NÃO será DESAGRADÁVEL.

Engolindo em seco, Shun sentiu as lágrimas ardentes em seus olhos.

NÃO SERÁ AGRADÁVEL.

— Vai... vai doer. É isso?

— E você teme a dor? Face à libertação que oferecerá à Terra por mais dois séculos? À salvação da humanidade, de seus amigos e possivelmente, até mesmo de Athena?

— Não, não é isso — ele balançou energicamente a cabeça de um lado pro outro — eu... fico preocupado com o Ikki.

O coração do indiano acelerou instantaneamente.

— Ele... ah, você sabe como ele é. Ele vai ficar... hã... BEM NERVOSO, no mínimo.

— Ninguém verá o processo, Shun, a não ser a própria Deusa, que cuidará disso. Eu cuidarei para que aquele teimoso nem chegue perto de onde vocês estarão.

— Promete, Shaka? É só isso que me importa. Não ligo se vou sofrer ou não. Eu só não quero que ELE sofra. E... e Hyoga também, claro... mas Ikki é mais... problemático...

O virginiano sorriu mais uma vez, alisando o rosto do Santo.

“Sim. Escolhi bem. Tinha que ser você, Andrômeda. Tudo isso apenas comprova que minha decisão foi acertada...”, pensou, imaginando sua sagrada armadura no inocente rapaz à sua frente.

Estendeu a mão para ele, sem mais nada dizer. E foi aceito: ali pousou a mão branca e delicada de Andrômeda.

O futuro saudaria o mais puro e poderoso Santo de Virgem que passara pela Terra.

Encontravam-se rumo a um novo tempo.

*************

Athena, Seiya, Hyoga, Ikki, Milo, Mu e Dohko permaneciam silenciosos à mesa, enquanto serviçais traziam o serviço de chá completo. Contemplando a bebida fumegante diante de si, Hyoga se perguntava como estaria Shun, se Shaka teria realmente conseguido convencê-lo a sair do quarto e se acalmar. Ora... se ELE estava assustado por demais com toda aquela loucura, imagine o próprio Shun... um deus dentro dele! E um deus inimigo de Athena! A reação dele havia sido totalmente compreensível... por sua vez, o irmão mais velho de seu namorado não abandonava a expressão enfezada de quem queria mesmo era dar um chute naquela mesa cheia de frescuras. O que estavam pensando? Tomar chá com bolinhos enquanto seu irmão se devastava de pavor por ter uma deidade maligna dentro de seu corpo? Não fosse um Santo fiel, aquela prataria toda estaria no chão, e a caras de todos cobertas de tortas.

— O tempo está a nosso favor. Não quero alarmar Shun sem necessidade. Tudo deve se apresentar sob aura de completa normalidade... compreende, Fênix? — disse Athena, pausadamente, enquanto mirava, séria, o rapaz, que estremeceu: ela estava adivinhando seus pensamentos? OK, Saori Kido a cada dia realmente se revestia de sua divindade...

— Vai ficar tudo bem mesmo, Saori? Há como tirar Hades de Shun? — quis saber Hyoga, aflito.

Mestre Ancião serviu-se de panquecas, besuntando-as de creme. Riu baixinho.

— Vocês não percebem que na verdade o que temos aqui é um motivo de celebração? — indagou o velhinho, enchendo a boca.

— Meu irmão não parecia estar celebrando coisa alguma — cuspiu Fênix, de braços cruzados, ainda zangado.

— Temos Hades em NOSSAS MÃOS, seu tolo irritadiço. NÃO HAVERÁ UMA NOVA GUERRA SANTA — declarou, de boca cheia, imperturbável, a enrugada figura.

Os jovens arregalaram os olhos, atônitos. Seria possível então...

— Desculpem a nossa demora — falou Shaka, adentrando o salão, ao lado de Andrômeda, cujo semblante estava bem mais aliviado.

— Shun!! — exclamaram a uma só voz o irmão, o namorado e o amigo.

Ele sorriu ao responder:

—Estou bem agora, pessoal. Desculpem por preocupar vocês.

— Nada de se desculpar, pequeno, sente e coma conosco! — ordenou Libra, gesticulando animadamente. Ao se aproximar, Saori ergueu-se e dirigiu-se ao adolescente.

— Shaka explicou tudo, não é?

— Explicou, sim. Estou confiante agora.

Milo estava tão boquiaberto quanto os mais novos. Parecia haver algo de que apenas Shun, Athena, Mu, Dohko e Shaka sabiam.

O garoto juntou-se a eles, e enfim fizeram a refeição, quase como numa comemoração. Ao término, o escorpiano dirigiu-se ao menino de cabelos verdes:

— Shun. Eu gostaria de falar com você. Pode ser?

—Claro, Milo! — levantou-se da mesa sob olhares curiosos. Os dois foram até uma grande sacada que dava vista para os suntuosos jardins do Patriarca. A tarde se findava, fresca e agradável, e a fraca brisa trazia consigo eflúvios das árvores aromáticas. A sós, o grego coçou a cabeça, nitidamente sem jeito.

— Eu... eu não sei por onde começar.

— Dizem que pelo começo é o ideal, Milo.

— Certo — respirou fundo, e lançou — Não vou ser hipócrita e dizer que me arrependo do que fiz com Albiore. Eu vi o que Camus sofreu por dias e posso te garantir que foi POUCO em comparação. Mas... eu... eu sinto que tenha sido na sua frente...

— Milo...

— Não, me deixa continuar. Foi egoísta. Injusto, depois de ter sido justamente você a me ajudar encontrar Camus... depois de você ter salvo a minha vida naquele abismo no qual me atirei... fazê-lo presenciar aquilo... não foi certo! Eu me perdi, Shun... me perdi no calor da fúria... na sede de vingança... fui envenenado pelo mais puro ódio... e machuquei terrivelmente você, que já estava tão ferido...

— Milo — o menino interrompeu-o, com brandura — Você não precisa me pedir perdão. Estou abalado sim. Triste sim. Mas não com você. Bom, não vou dizer que você não me assustou muito. Mas sabe... o que você fez pode ter sido veículo da salvação da alma de meu mestre.

O mais velho arqueou as sobrancelhas, sem entender. Shun repousou os cotovelos na bancada, olhando para as montanhas.

— Quando você se deixou dominar pelo ódio, Camus intercedeu por Albiore, não foi? Tanto por se preocupar com a TUA sanidade, Milo, quanto por se preocupar comigo, mas também por ter se compadecido de meu mestre. Albiore... Mestre Albiore não se jogou para proteger vocês por mim. Foi por Camus.

— Por... por Camus!

— De alguma forma, eu sei que ainda que meu mestre pague pelo que fez... um dia ele encontrará os seus no outro mundo... limpo de seus pecados. Porque no final ele se arrependeu. E entregou sua vida para remediar todo mal que fez.

Milo sorriu, a admiração patente em seu rosto.

— Hyoga tem razão. E até mesmo o desgraçado do Hades ao escolher você, verdurinha. É mesmo a alma mais pura da Terra, Shun!

E teve a impressão de que um futuro muito augusto, excelso, aguardava aquele menino.

— Não diga isso — Andrômeda tocou seu braço, afetuosamente — e não pense, nunca, que alimento algum sentimento ruim por você. Pelo contrário. Você foi simultaneamente instrumento de punição e remissão de meu mestre, Milo.

O escorpiano puxou o garoto para si, e eles se abraçaram emocionados.

— Aham — Hyoga limpou a garganta, anunciando sua chegada, que sequer havia sido notada — Será que posso, Milo? Ou vai ficar aí a noite toda agarrando meu namorado?

Eles riram. O escorpiano bagunçou a valer as cabeleiras dos mais novos.

— Vou voltar pro hospital ficar com “papai”, Patinho. Qualquer coisa, me chama lá.

— Quando ele acordar vou contar que você tá falando assim dele!

Shun riu mais, cobrindo a boca com a mão. Cisne propôs:

—Vamos ao jardim?

—Vamos, sim.

*************

O casal caminhava, silencioso, enquanto por entre as folhagens dos carvalhos réstias solares se entranhavam, como que estrelas vespertinas. Cisne segurava a mão do namorado. Os últimos raios de sol incidiam por trás dos cabelos do loiro.

— Shun — enfim se pronunciou — não tenha medo. Com certeza, Athena vai tirar essa... essa coisa de você.

— Eu sei, Hyoga. Confio nela. E... mesmo que isso custe a minha vida, eu a darei feliz para salvar o mundo... e a todos... do horror de uma Guerra Santa.

— Não vai custar sua vida! — retrucou o russo, energicamente — Não diga uma coisa dessas! Não fique aí dando uma de Princesa Andrômeda!

O japonês sorriu docemente ante o fervor daquela reprimenda. Shaka surgiu na alameda.

— Shun. É chegada a hora — anunciou.

— Mas... já?...

—O que vai acontecer com o Shun?

— Será levado para o Templo dos Mistérios, anexo ao Templo de Athena. Vai se purificar por 12 horas. E depois Athena vai extirpar a alma de Hades de dentro de Shun... e selar essa essência numa ânfora consagrada.

— E COMO ela vai fazer isso?

— Nem eu mesmo sei, Cisne — confessou o virginiano, sincero.

— Está tudo bem, Hyoga. Saori sabe o que está fazendo. E Shaka, Mestre Ancião e Mu estarão lá conosco. Vai dar tudo certo — o menino tentou tranquilizá-lo. Ainda que ELE próprio estivesse temeroso.

— Shun... — murmurou o loiro, tristemente.

O indiano considerou os dois, suspirou e disse:

— Sinto que tenha que ser tão imediato assim. Darei quinze minutos para se despedirem. Mas por favor, não se excedam... aqui é um território santo. Sejam contidos.

— SHAKA! — exclamaram os adolescentes, subitamente constrangidos.

E Virgem retirou-se, antes que os garotos vissem seu sorriso maroto.

— Obrigado, Shaka! — agradeceu Shun, já sendo enlaçado pelo russo, que colou seus lábios em sua nuca. Andrômeda suspirou, enleado, e virou-se de frente, buscando a boca do amado. Beijaram-se apaixonadamente. Shun pôs suas mãos no ombro do mais alto, que por sua vez cingiu sua cintura estreita. Seus lábios ficaram numa longa comunhão, cessada meramente pela falta de ar. Hyoga segurou-o pelo queixo e fitou-o, muito gravemente.

— Não tenha medo, ouviu bem? Estarei aqui esperando você.

— Não tenho medo — afirmou, com lágrimas nos olhos de esmeralda — fiquei impressionado no início... OK, fiquei verdadeiramente chocado. Mas estou mais tranquilo agora.

Hyoga acariciou o rosto alvo, tão belo, tão puro, tão... perfeito.

Como seu espírito.

— Eu te amo, Shun.

— Eu também te amo, Hyoga.

— Depois que isso tudo terminar, eu vou desfazer toda essa purificação... vou fazer amor com você até você precisar de uma nova!

— Hahahaha, seu bobo!

— Shun... — novamente tomou os lábios do mais novo com paixão. Após muito tempo, separaram-se, ofegantes e ruborizados.

— Hyoga... espero que quando eu voltar, Camus já esteja acordado.

— Eu também...

— Milo não sai de perto dele, né? Acho lindo o amor que ele tem pelo Camus...

— Ei, e o amor que eu tenho por você, não acha lindo não?!

— É lindo também, seu bobo. Você é todo lindo!

Beijaram-se uma última vez, antes de a mão de Shun separar-se da dele, e por fim, ainda olhando para trás, o jovem se retirar, rumo ao local do rito que o aguardava.

Hyoga não saiu dali até perdê-lo de vista. Enfim, a apreensão que ele ocultou com habilidade desenhou-se em seu rosto. Decidiu ir ao hospital saber como estava seu mestre.

*************

Após banhar-se longamente com ervas aromáticas e óleos sagrados, Shun foi vestido com uma túnica branca com detalhes em pedrarias. Serviram-lhe uma refeição frugal, apenas frutas, legumes e água. Depois da higiene após o jantar, Shaka chegou e levou-o até o Jardim dos Mistérios. Orientou-o a se sentar na relva em posição de lótus como ele e procedeu a uma meditação que durou a madrugada inteira. O rapaz mostrou-se maravilhosamente aplicado, concentrando-se com facilidade, fazendo o indiano assegurar-se cada vez mais que estava diante do discípulo ideal. Aos primeiros fulgores da aurora Virgem ergueu-se e estendeu sua mão para o garoto. Conduziu-o à Câmara dos Mistérios. Ficava no final de um longo corredor de paredes de alabastro. Seu coração acelerava à medida que avançavam. Ele se perguntava onde estariam Mu e o Mestre Ancião. O silêncio era tão dominante que mesmo o som de suas sandálias ecoavam pelas abóbadas douradas.

Chegaram até uma imensa porta fechada, onde se encontravam Mu e um rapaz moreno, não muito alto, de cabelos médios castanhos e sorriso intimidante ainda que amistoso. Nunca havia visto-o pelo Santuário. Trajava uma roupa similar à de Mu, uma túnica estilo greco-romana. Shaka usava sua tradicional vestimenta indiana.

— Estão atrasados! — disse o desconhecido, risonho.

— A preparação dele levou tempo, Dohko. E eles estavam meditando longe daqui — explicou Mu.

— Hunf. Os jovens e suas desculpas! — zombou, ainda que não de forma sarcástica. Ele era bem simpático! Mas... por que falava “jovens”? Shaka e Mu claramente aparentavam mais idade que ele…

...espere. Mu o chamara de Dohko.

Era o nome pelo qual se dirigiam ao mestre de Shiryu, Athena e os demais Cavaleiros de Ouro. O que significava aquilo?

—Ah, melhor explicar ao Shun, pela cara dele, não está entendendo nada — comentou o tibetano, percebendo a confusão estampada no olhar do adolescente.

— Certo — falou o loiro — Shun, este é Dohko, o Mestre Ancião. É a primeira vez em que você está vendo ele em sua real forma e...

— Mestre Ancião? Mas… mas o mestre do Shiryu… não pode ser!

— É uma longa história, que em outra hora terei prazer em contar a você e aos demais Cavaleiros, já que agora manterei esta forma — falou o moreno, piscando um olho, divertido.

— Eu não entendo... Libra... Libra tem mais de 200 anos!

— Tenho 261. Num corpinho de 18. Mais novo que esses dois branquelos aí, que tal? Hahahahahaha!

— Mas... como... — o menino mal conseguia articular as palavras, tão estupefato se encontrava.

Virgem se postou diante de Andrômeda.

— Não há tempo para explicações agora, Shun. Está pronto?

Ele assentiu com a cabeça, mais demoradamente do que gostaria. Então as portas foram abertas, revelando um imenso espaço desguarnecido de móveis ou enfeites. Havia apenas uma longa escada que desembocava num igualmente vazio segundo andar. Os Cavaleiros entraram, e subiram a escadaria, chegando a um amplo e sombrio salão. Três homens trajando túnicas beges pareciam aguardá-los. Atrás deles, uma espécie de altar, feito de mármore branca, no qual havia inscrições e correntes.

Aquilo assustou o menino levemente. Um altar... correntes... seria possível que...

Shaka aproximou-se dele e pôs um colar de contas negras e brilhantes em seu pescoço. Piscando seguidamente, Shun viu um dos homens depositar uma ânfora na base do altar.

Ali seria aprisionada a alma invasora retirada dele. Mas... RETIRADA COMO? O cenário deixou-o tenso. Saori quebrou o silêncio surgindo pelos fundos da câmara. Usava um longo vestido branco cravejado de pedras preciosas que cintilaram misteriosamente na semi-escuridão. Um largo colar de ouro com símbolos adornava-lhe o colo alvo. Trazia em uma das mãos seu báculo, e no rosto uma expressão diferente de tudo que o japonês já havia visto na garota. Parecia mais velha, ainda que com o mesmo frescor da juventude de sempre. Algo em seu olhar provocou-lhe um desagradável estremecimento, e ele se envergonhou um pouco.

Era MESMO Athena. Como nunca havia se manifestado para ele. Sabedoria, gravidade e complacência emanavam tanto de seu cosmo como de sua própria imagem, quase forçando-os a baixarem as cabeças.

— Shun. Esse terço de obsidiana, conhecida desde a antiguidade como a pedra divina, feito por Virgem, abrirá os caminhos dentro de seu espírito através dos quais chegaremos a Hades. Eu o extirparei de você, meu honrado cavaleiro. Nada tema e confie em mim. Poderá fazer isso? — a voz igualmente diferia da usual, ainda que preservasse o timbre original.

— Eu confio, Athena. Se... sente algum receio de minha parte é por causa do que vejo atrás de você... confesso que me intriga — respondeu, referindo-se ao altar e às correntes.

— O processo não será tranquilo, Andrômeda — Dohko respondeu no lugar da Deusa — ELE resistirá. Talvez... MUITO. A fim de garantir tanto sua integridade física quanto as condições para que Athena realize seu trabalho sem maiores dificuldades, você deverá ser acorrentado ao altar.

O adolescente arregalou os olhos, engolindo em seco. Várias gotas de suor enregelavam suas faces lívidas.

— Eu... eu compreendo. Por favor, façam o que for necessário — falou, sem disfarçar um tremor naquela declaração.

— Não se preocupe, Shun. Você é um Cavaleiro da Esperança, e se sairá muito bem, pode acreditar — Mu tentou tranquilizar o jovem, sinceramente confiante nele e na Deusa.

— Venha — Shaka ofereceu-lhe a mão, para ajudá-lo a subir no altar. Sentindo um arrepio correr-lhe todo o corpo, o garoto assentiu, e foi conduzido até onde seria preso.

Deitou-se ali, ressentindo-se do súbito frio fruto do contato com o mármore gélido e luzidio.

— Levante os braços, Shun — ordenou o indiano, num tom calmo e suave. Ele obedeceu, e os homens de túnicas bege foram colocar os grilhões de maneira a restringir o menino, que respirava rápido e sofregamente.

Seus olhos umedeceram ante a tensão que experimentava.

Como Andrômeda da mitologia, ele seria acorrentado para salvar pessoas.

Fazia-o de bom grado! Estava disposto a morrer! Entretanto, o temor que o envolvia era involuntário. Ninguém o censurou, era algo perfeitamente natural, antes miraram-no com compaixão.

— Senhora — disseram os sacerdotes, após terminarem de acorrentar o adolescente, fazendo uma mesura antes de se retirarem. Libra postou-se diante Dela, dizendo:

— Athena, estaremos bem junto à porta. Não hesite em nos chamar se houver algum problema.

— Sim, isso é muito importante. Apenas entrem se EU chamar. Não o façam sob nenhuma outra situação. Ainda que ouçam... GRITOS. Somente o façam se ouvirem MEU CHAMADO. Está claro? — reforçou, muito séria.

Os três Santos assentiram, respeitosamente. E sem mais nada a proferir, dirigiram-se à saída da Câmara dos Mistérios.

Ela considerou o japonês imobilizado pelos pulsos, braços, tórax, pernas e tornozelos. Deveria estar apavorado!, pensou com ternura. Porém, apenas indagou, posicionando o báculo sobre o peito do rapaz:

—Está pronto, Andrômeda?

Respirando fundo e deixando o ar sair num suspiro ansioso, ele sorriu como um anjo e respondeu:

— Quando quiser, Athena.

*************

Uma semana havia se passado.

Athena extirpara a alma de Hades do corpo de Shun, trancafiando-a após o ritual numa ânfora sagrada, selando-a pelos próximos 250 anos, pelo menos. Dohko fora incumbido de guardá-la num lugar secreto nas mais altas montanhas do Teto do Mundo, onde o cosmo da Deusa estaria permanentemente vigiando-a.

Shun ficou extenuado, assim como a jovem, ambos precisando repousar por alguns dias. Ninguém viu o processo, mas a julgar pelos gritos do adolescente que escutaram do outro lado da porta, Shaka, Dohko e Mu podiam afirmar que foi árduo e doloroso.

Pelos próximos 250 anos, a Terra estaria livre da chamada Guerra Santa, que desde os tempos imemoriais assolava o mundo no referido intervalo. Incontáveis vidas seriam poupadas, tanto das populações como dos Santos Guerreiros e, possivelmente, até mesmo da Deusa das Batalhas.

Há dias ocorriam comemorações no Santuário, desde que fora anunciado o aprisionamento do Imperador do Mundo dos Mortos, do fim daquela ameaça temível. Salvas de palmas, gritos de alegria, cânticos, sons de pandeiros, tambores e flautas eram ouvidos do quarto onde um jovem de cabelos arroxeados velava o sono de outro, de cabelos azul petróleo, espalhados pelo leito branco. Ele se levantou de sua cadeira e foi até a janela. Fogos de artifício tingiram os céus escuros com cores vibrantes, e o som das explosões era ouvido em todos os cantos, fazendo coro às vozes que celebravam a paz.

— A ameaça da Guerra Santa foi eliminada — falou para si mesmo. Virou-se para o homem adormecido — e isso foi graças a você, Camus.

Chegou perto da cama, sentando-se cuidadosamente na beirada do colchão macio. Acariciou os cabelos macios do amado, mirando-o com ternura.

— Se não fosse por sua resistência, sua força de vontade em escapar daquele inferno só para me avisar sobre Shun... não estaríamos comemorando. Você estava disposto a morrer... e até mesmo tentou o suicídio — seus olhos marejaram — Você nem queria mais viver! Seu único intuito era comunicar sobre Hades e... e dizer que me amava...

Passou os dedos pela face imóvel do paciente.

A pele estava tão fria!

— É a segunda vez que fico aqui esperando você acordar de um sono longo para voltar à vida... vou passar a ter medo de te ver dormir.

Encostou a testa na fronte do francês e sussurrou com voz embargada:

— Camus... volta pra mim... por favor...

Tomou com extremo cuidado o lábio inferior do aquariano, beijando-o com suavidade. Controlava a pressão, preocupado com o ferimento. Foi como tocar um fio desencapado. Uma corrente de inúmeras sensações fez seu coração bater tão forte que chegou a doer e ele gemeu... fechou os olhos e pesadas lágrimas desabaram sobre o rosto do homem inconsciente.

Pressionou mais um pouco seus lábios sequiosos na boca adorada, sem forçar, com tanto medo, mas com tanta paixão... então sentiu um beliscão em seu ombro. Sobressaltou-se, abrindo os olhos surpresos e encontrando aquela cor que permeia o horizonte no final do crepúsculo... aquela cor que tinge o topo do céu ao raiar da aurora...

— Que audácia é essa de beijar uma pessoa que está dormindo?

Milo foi invadido por uma felicidade tão grande que achou que fosse explodir.

— CAMUS!!!

Ia abraçá-lo, no entanto, controlou-se: não tinha como fazer isso... ele estava tão ferido!

— Milo... — sorriu Camus, e foi a visão mais linda que o grego tivera em muito tempo — que bom... que bom que está bem...

— Camus!...ah, Camus, eu...eu...ah...

Um soluço sentido atravessou-lhe a fala. O francês brincou, com voz fraca:

— Milo sem saber o que falar? Devo estar em outra dimensão...

— E você fazendo uma piada? Também devo estar em outra dimensão!

Pôs as mãos sobre ele como pôde.

— Camus... eu tive tanto medo...

— Eu também...

— Está ouvindo os fogos de artifício? Estão comemorando o fato que sua força de vontade proporcionou a todos nós.

— Do que... se trata...? — os olhos semicerraram-se, sonolentos.

— Não haverá a Guerra Santa em nossa era, Camus. Athena retirou Hades de Shun e selou a alma do canalha por 250 anos. Foi como você avisou!

— Athena... tirou Hades de Shun? E... e ele, como está? E a Deusa... — indagou, deixando transparecer debilidade.

— Estão bem! Tiveram que repousar bastante depois, mas já estão recuperados!

— Isso... isso é muito bom... — murmurou, fracamente.

Milo acariciou o rosto do amado.

— Você vai dormir de novo, né?

— Não se você me beijar.

— Camus! Você... está machucado na...

— Mantenha-me... acordado... Milo... — e o pedido fora feito de um jeito sussurrado, tão suplicante que se tornara sensual.

O escorpiano não teve escolha senão obedecer.

Pousou seus lábios temerosos sobre a boca ansiosa de seu amante, sendo por ele recebido com paixão. Pressionou mais, passeando sua língua pela dele. Camus intensificou o beijo, tornando-o urgente. Milo correspondeu, até ouvir um gemido baixo... que não era de volúpia...

— Camus! Está doendo, não está? Vamos parar e...

— Não — implorou o francês — nada dói mais que ficar sem você...

— Camus!...

Não havia como se conter depois de ouvir aquilo. O aquariano nunca havia falado assim!

Se ele não estivesse tão alquebrado...

O beijo, a princípio cuidadoso, tornou-se mais ardoroso. Suas línguas entrelaçavam, saudosas, e seus lábios eram sugados com sofreguidão. Por baixo das pálpebras semicerradas, contudo, Milo percebia o que aquele beijo custava ao outro: dor.

Entristeceu-se, subitamente.

Será que seria sempre a ÚNICA coisa que causaria a ele?

Sempre?

SEMPRE?

Interrompeu o beijo, sob o olhar insatisfeito do aquariano.

— Descansa. A gente vai ter muito tempo pra isso — disse, com doçura, fazendo carinho nos cabelos azulados.

Camus assentiu, conformado. Milo levantou-se, prontamente animando o ambiente com seu sorriso.

— Vou chamar a enfermeira, tá?

— Milo.

— Oi.

— Eu te amo — disparou, tão sério e inesperadamente que o grego quase caiu.

— Você não tem mesmo prática nisso, né? — brincou, coçando a cabeça. E voltando para perto do leito, beijou a testa do namorado.

— Eu também te amo, Camus... te amo muito.

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Notas finais
Muito obrigada por prestigiarem! Vem aí a última fase da fic... até lá Beijo grande!