Notas iniciais
Bem vindos ao vigésimo quarto capítulo de "Grilhões Eternais". Crédito da fanart ao fanartista. Boa leitura!

Como se fazia prazeroso contemplar a face de seu maior inimigo em agonia, submerso na dor e na desolação, submerso no lodo da consciência no qual ele mesmo afundara, ao ver sua amada perder a vida na sua frente.

Excessivo? Talvez.

Mas não fora apenas Agatha que a morte levara pelas mãos de Milo. Seu filho também se fora. Nem ao menos pudera ver... tocar seu rostinho, chorar de emoção sobre seu corpinho, sonhar com um futuro bom para sua semente, sua família, sua vida.

Não, não existia castigo excessivo para Milo.

Assim como não existia ação excessiva para realizá-lo.

Não existiam limites para que efetuasse sua punição. Mesmo que para isso tivesse que derramar sangue inocente. Escorpião não fizera o mesmo?

Aquário, o cordeiro a ser imolado para expiar os pecados de Milo. Para que Agatha e o fruto em seu ventre repousassem em paz. Para que ELE próprio obtivesse a paz.

Certamente, os deuses preparavam uma recompensa para Camus. O preço que pagava tão árdua e bravamente no momento custeava também sua glória eterna, bem o sabia.

Envolto nesses pensamentos, descia as escadas rumo à masmorra. Nas paredes escuras e geladas archotes iluminavam os degraus irregulares e gastos pelo tempo que o levavam à cela que guardava seu mais precioso instrumento de vingança.

Atravessou o corredor, seguindo diretamente à única célula ocupada então. Nas outras, apenas fantasmas de condenados que há muito haviam partido, supliciados como o jovem a quem ele tencionava ver.

Deteve-se frente à porta de carvalho; o guarda o saudou, silenciosamente. Ignorando-o, pôs o rosto na pequena abertura gradeada, procurando sondar o interior. Viu Radamanthys possuindo seu prisioneiro à força. Olhou com desinteresse o frenesi erótico que se apossava do sempre sério Juiz do Inferno, agarrando o Santo por uma das pernas erguidas, e pela nuca, forçando vigorosamente o coito criminoso e brutal... a dor estampada no rosto contraído do Cavaleiro de Ouro, que lutava para não gritar. Suas mãos algemadas crispavam-se a ponto de as juntas dos dedos ficarem esbranquiçadas.

Um grunhido surdo quase o arrepiou. Notou-lhe as lágrimas trilhando luminosos caminhos, imediatamente colhidos pela língua do loiro.

Após obter seu mais valoroso despojo, Radamanthys retirou-se de dentro do corpo ferido do cativo, sorrindo satisfeito. Camus deixou pender a cabeça, como que perdendo a consciência. Virando-se de costas para sua vítima, o espectro caminhou para uma outra porta, do lado oposto ao que se encontrava ele, Albiore, deixando o aquariano desfalecido, nu e humilhado, Mais uma vez.

Albiore continuou mirando a devastada figura, sem nada sentir... até que o Santo ergueu lentamente a cabeça... e cruzou seu olhar choroso com o apático dele.

Um discreto arrepio correu-lhe pela pele.

É. Esta masmorra é realmente gelada”, pensou.

Sem deixar de olhar o francês, percebeu que os cabelos dele começaram a clarear... seria um efeito das chamas tremulantes das tochas do corredor?

Clareavam... gradativamente abandonando a tonalidade azul escura... e seus olhos... também já não eram escuros... franziu o cenho ante a insólita mudança.

O que está acontecendo?”, pensou, intrigado.

Viu que os olhos de Aquário agora tornavam-se verdes... de uma tonalidade verde clara dos mares quentes onde dançam as mais variadas criaturas multicores. Seus cabelos agora adquiriam nuances aloiradas, ao mesmo tempo que assombrosas transformações se verificavam também no rosto e corpo de Camus: seu torso masculino ganhou curvas, e a face, contornos mais femininos e delicados, angulosos como… como o rosto de…

... o rosto de...

...os seios. O sexo. A cor rósea da pele macia e perfumada de...

... o rosto de...

— AGATHA!!! — gritou, aterrado. Quem estava na cela... NÃO ERA CAMUS!

ERA AGATHA!

Sua amada Agatha!!!

Nua, ferida, aviltada, violada. Ele agarrou as barras de ferro da porta, em desespero:

— Agatha! Meu amor!!! Meu amor! O que fizeram com você? — bradou, consternado.

Contudo, a mulher tão somente o fitou, sem nada dizer, com um olhar profundamente... triste.

Não.

Havia algo além de tristeza...

— Meu amor? O que foi? Por que me olha assim?!?

Ela apenas abaixou a cabeça, balançando-a lentamente em uma negativa incompreensível.

— Agatha?

De repente, a amazona ergueu a cabeça, deixando à mostra suas lágrimas... e algo a mais que as lágrimas. Algo além de tristeza.

... decepção.

DECEPÇÃO.

— AGATHAA!!!!

Ao estender a mão na direção dela, encontrou não mais as ardentes esmeraldas que pranteavam, e sim o lustre de cristal que refletia a luz mortiça da única luminária acesa, em cima de um aparador centenário.

A mão trêmula ficou parada no ar, mas nada havia para alcançar. O único som presente era sua respiração ofegante. Sentou na cama, consciente de que não mais dormiria. Seus olhos azuis correram o aposento em estilo vitoriano.

— Um... sonho?! — balbuciou, com medo da resposta.

Um sonho? Uma visão? Uma mensagem?

Por que vira Camus se tornar Agatha? E por que ela o olhara com tamanha tristeza? Não estava vingando-a? Destruindo quem a destruíra?

Por que o olhara com tamanha tristeza?

Não. Algo além de tristeza.

Algo além de decepção.

Era... REPROVAÇÃO.

Levou as mãos ao rosto suado, e percebeu que além do suor havia LÁGRIMAS.

— Agatha... por quê? Por acaso... por acaso está me... está me dizendo que... eu...

Rompeu em pranto convulso, tendo na mente aquela perturbadora imagem na qual se lia uma única palavra: REPROVAÇÃO.

*************

Os Santos de Athena permaneceram no Templo do Patriarca aguardando novo comunicado da Deusa, que por sua vez esperava informações definitivas da Fundação Graad. Alguns continuaram sentados à mesa de reuniões, outros se sentaram em poltronas numa sala contígua, outros se espalharam pelas varandas e pelos jardins suspensos que refrescavam o ambiente.

Em uma grande sacada, cuja vista noturna descortinava magnífica por sobre as montanhas, estavam Shun e Hyoga, silenciosos em sua expectativa. Milo aproximou-se deles, cauteloso.

— Hyoga, posso falar com você? — indagou.

O Cavaleiro de cabelos esverdeados adiantou-se rumo à porta:

— Bom, vou deixá-los a sós, e...

— Não é preciso, Shun. Não há problemas em ouvir o que vou dizer a ele — o grego pôs a mão no ombro do menino — até porque você ME SALVOU.

— Ah, que isso — retrucou o adolescente, modesto — se não fosse pelo Mu, nunca que eu chegaria a tempo!

— O que você quer? — indagou Cisne, com cara de poucos amigos. O escorpiano compreendeu a raiva.

— Pedir desculpas a você. Por ter te agredido. Não tive chance de falar contigo, porque estávamos em reunião até agora, eu só... só queria que me perdoasse por ter te deixado desacordado para que eu... eu...

— É só por ISSO que me pede desculpas, Milo?

Zeus... o MESMO olhar gélido de Camus...

— Eu... — raras vezes o escorpiano não sabia o que dizer. Porém, sabia o que pensar. Entendia os sentimentos do russo, antes mesmo de ele esclarecer:

— Milo, não me importo por você ter me socado e ter me deixado fora de ação. Nem um pouco: quem baixou a guarda fui EU, e eu é que não posso me desculpar por isso. O que não posso desculpar em você... é o fato de ter desistido de Camus.

Aquela última frase foi uma flechada no coração já massacrado do escorpiano. Ele retrucou, quase indignado:

—Eu? Desisti do Camus? Isso nunca acontec…

— Sim, você desistiu! — o loiro cortou-o com autoridade — Você fez isso quando preferiu morrer a continuar lutando para salvá-lo!

— Não fale do que não sabe.

— O que sei é um fato: você correu para a morte ao invés de buscar uma salvação para o meu mestre!!!

— Não! Eu não...

— Hyoga, por favor... suas acusações não vão resolver nada...

— FIQUE FORA DISSO, SHUN!

— NÃO FICO NÃO! E abaixe a voz quando falar comigo!

Os dois emudeceram, olhando o Cavaleiro de Andrômeda.

— Por que não ouve o que Milo tem a dizer antes de condená-lo? — sugeriu Shun, subitamente mais adulto que os dois mais velhos ali presentes.

Milo e Hyoga se encararam, ambos controlando suas emoções. O grego fechou os olhos e começou, com voz baixa e triste:

— Camus está sendo torturado com um único propósito: que EU veja e sofra por isso. Essa é a vingança de Albiore por eu ter... matado a mulher e o filho dele. Achei que se eu não estivesse mais aqui... talvez houvesse uma chance de Camus ser poupado. Que serventia teria o sofrimento dele se eu morresse e não mais assistisse?

— Milo, como pôde pensar isso? E como poderia acreditar no inimigo, esperar compaixão de um homem que está fazendo algo tão terrível e covarde? — questionou o russo, mais calmo.

— Eu... eu... Hyoga, se tivesse visto.... se visse o que vejo... o que estão fazendo com Camus... tentaria o mesmo. Qualquer coisa para livrá-lo... ou pelo menos para haver uma possibilidade... mínima que fosse...

Cisne pôs as mãos nos ombros do homem que segurava o pranto a todo custo.

—Milo... eu quero saber, o que estão fazendo com meu mestre? O que EXATAMENTE estão fazendo com ele?

— Não, Hyoga, você NÃO quer saber — retrucou o escorpiano, desvencilhando-se dele para enxugar as lágrimas antes que caíssem.

O loiro mirou-o, em dúvida se insistia ou não. Também ele tinha os olhos úmidos.

— Milo. Você não matou a mulher de Albiore propositalmente, não é verdade?

— Já disse que não! Ela se jogou na frente dele... não tive tempo de deter o ataque, já o havia lançado... ela... ela morreu instantaneamente... — abaixou a cabeça, sentido.

— Essa vingança... como qualquer outra... não tem o menor sentido — lamentou o adolescente de cabelos verdes.

Virando-se para o Escorpião, Hyoga se fez muito sério ao enunciar:

— Milo, eu só te desculpo com uma condição.

— Qual?

— Que me deixe ir junto de você quando for resgatar Camus — e estendeu a mão para firmar o acordo com o veterano. Este sorriu e apertou firmemente a mão do rapaz.

— Claro que sim! Será um prazer!

— E se Hyoga for, eu vou junto! — anunciou Shun, a expressão mais aliviada pela reconciliação dos dois.

— Ei, isto aqui não é uma excursão pra Disney não, ô! — retrucou Milo.

— Pessoal, desculpa interromper — Afrodite pôs meio corpo para dentro da sacada — mas é que Athena voltou. Vamos continuar a reunião.

Ansioso, Milo questionou:

— Será que conseguiram uma informação relevante desta vez?

— Me parece que sim. Vamos?

O grego assentiu com a cabeça, um lampejo de fé animando-o a continuar. Com a mão no ombro de quem a ele, secretamente, já considerava um filho, deixou a varanda e seguiu o Cavaleiro de Peixes.

*************

—Uhn... ahh...

— Está acordando, enfim?

A voz penetrante de Radamanthys fez seus olhos hesitantes se abrirem de imediato. O sobressalto fez os grilhões tilintarem: estava novamente sentado, encostado à parede, os pulsos e tornozelos ainda algemados. Percebeu que estava vestido de novo, desta vez até com uma camisa de manga longa bem grossa preta, agradavelmente aquecido. O cheiro dizia-lhe que pertencia ao juiz.

— Você acabou adormecendo. Acredito que a febre tenha passado — comentou o Juiz, sentado na cadeira que ficava perto da porta, utilizada certa vez por Albiore. Ainda tinha nas mãos a garrafa de uísque, quase vazia.

O aquariano dirigiu a ele seu mais autêntico olhar hostil ao perguntar:

— O que ainda faz aqui? Pretende me estuprar de novo, por acaso?

— Vontade não me falta, acredite. Mas decidi deixar você se restabelecer.

— Quanta humanidade — ironizou, fervendo de ódio. Afinal, a febre não o impedira antes de consumar o ato infame.

— Vejo que está melhor. Voltou à frieza habitual. Bem, agora que despertou, mandarei meu cozinheiro particular trazer sua refeição.

— Eu vou MATAR você, seu covarde. Esteja certo disso.

— A única coisa de que estou certo é dos planos que tenho para nós.

— “NÓS”?

Levantando-se da cadeira, o loiro mirou o prisioneiro com ardor passional.

— Não terá que sofrer por muito mais tempo. Porém, terá que esperar eu tomar as medidas necessárias. Por hora... esperemos. — e ante o ar estupefato de Camus, caminhou para fora da cela, que foi aberta pelo guarda.

O francês não gostou nem um pouco do teor daquela conversa, ainda que tivesse ouvido uma sentença promissora: “Não terá que sofrer por muito mais tempo.”

Sim, não aguentava mais sofrer... estava cansado de sentir dor.

Entretanto... sob QUE PREÇO estava aquela promessa? O que aquele Juiz infernal tinha em mente?

“Você será meu.”

“Não vou perdê-lo para uma febre, Cavaleiro...”

Aquelas aterradoras palavras ouvidas durante a violência que sofrera em meio a um estado febril voltaram à sua mente, causando-lhe uma súbita pontada na cabeça.

— Milo... Milo... — sussurrou, como um mantra a lhe conceder forças.

Se tudo já estava bem ruim, teve a impressão de que poderia piorar.

*************

Os primeiros raios de sol incidiram sobre a face plácida da estátua da Deusa, sua sombra cobrindo o Templo no qual seus Santos se reuniam com a Própria.

O Mestre Ancião chegara há alguns minutos, muito disposto, a despeito de sua idade avançada. Ikki também retornara, e após uma pequena conferência com Athena e Dohko, reiniciaram de onde haviam parado.

Após as revelações correrem a sala, murmúrios ansiosos ergueram-se, causando uma breve desordem.

— Athena!!! Isso quer dizer...

— Veja bem, Aioria, não temos certeza de que seja o lugar certo. Contudo, o lugar que vi parecia ser a masmorra de um castelo. A família de William, hoje Radamanthys, possuía castelos, vendidos pelos que restaram após o massacre da maior parte dela. Dos cinco castelos que os Morgan Wright possuíam ficou apenas um, em Hathorshire, região montanhosa e rural ao norte da Escócia. É um local praticamente despovoado — esclareceu Fênix, confirmando com os relatórios em mãos. Deixou que Saori continuasse:

—De acordo com as investigações, este castelo que sobrou pertence hoje a um parente distante de William Wright, chamado Albert MacFraser, que curiosamente possui a mesma idade que William teria caso estivesse “vivo” para as autoridades, 26 anos.

— Deve ser O PRÓPRIO, o cretino — disse Milo, raivoso.

— Também imaginamos isso.

— Bem! Temos a localização exata! Basta que eu vá para lá — o escorpiano ergueu-se da mesa, impaciente — Não há mais por que esperar. Athena, por favor, não me impeça, ou terei que desobedecê-la.

— MILO! — indignou-se Mu, à cabeceira da mesa.

A jovem balançou a cabeça, em negativa.

— Não, eu não vou impedi-lo. Mas acho que você precisa de uma estratégia para chegar a esse local.

Ele teve que disfarçar sua irritação. Não quis parecer blasfemo, porém... se ele era um guerreiro, é evidente que teria estratégia! Quem Ela pensava que ele era?! Quase se ofendeu com aquilo. Antes que pudesse retrucar, porém, Dohko tomou a palavra:

— Escorpião, não possuímos nenhuma prova ou mesmo indício forte de que Camus esteja nesse lugar. E caso esteja, com certeza não apenas o local estará bem guardado, como também a floresta que cerca a fortaleza. Na certa, há dezenas de espectros subordinados de Hades. Estamos falando de um Juiz do Inferno. Lutei com eles, não apenas são muito poderosos, como possuem soldados a seu serviço.

— Não serão inimigos para mim. Irei agora mesmo — insistiu o grego, cansado daquelas amarras.

— Jovem guerreiro, admiro sua bravura. Mas bravura não basta para salvar um refém. É preciso astúcia. A vida de Aquário está nas mãos deles. Se você queimar seu cosmo muito antes de se aproximar do castelo, eles saberão de sua presença... e ao invés de salvá-lo, pode jogá-lo ao perigo fatal — disse o Velho Cavaleiro, sem perder a tranquilidade característica.

— E sozinho, Milo... como vai lutar com dezenas de espectros e simultaneamente encontrar o cativeiro de Camus, e libertá-lo? — atalhou Shaka.

— Ele não vai sozinho — falou Cisne, altivamente — Por favor, não nos impeçam mais.

— Hyoga — murmurou o escorpiano cheio de orgulho, como se fosse o mestre do garoto.

— A sequência mais adequada de ações seria: sondagem e, aí sim, resgate. Não as duas juntas — opinou Mu — E em um primeiro momento, o ideal seria usar o teletransporte, ao invés de atravessar a floresta.

— Mu! Você pode nos mandar pra lá?!? — Milo apertou-lhe os ombros, eufórico.

— Eu... — e o tibetano pareceu subitamente desanimado — infelizmente... não posso teletransportar alguém... nem a mim mesmo... para um lugar que não conheço.

— Oh.

Milo ficou estático, assim como os demais. Não seria uma má ideia chegar lá através do teleporte! Verificar primeiro e invadir depois seria mais eficiente que ir diretamente sem ao menos se ter a certeza... e alertar os possíveis inimigos...

— Possuo uma técnica análoga ao “Outra Dimensão” que pode mandar o oponente para qualquer lugar da Terra que eu queira, mesmo sem eu conhecer o local pessoalmente — anunciou Saga, para surpresa de todos. Até agora, não se manifestara nas reuniões, sempre conservando-se cabsbaixo, provavelmente remoendo suas culpas.

— O quê? Isso é sério? Quer dizer... você pode me mandar pra lá só de receber a informação da localização do castelo? — o escorpiano se surpreendeu.

— Posso sim.

De queixo caído, levaram uns segundos antes que Milo exclamasse, animado:

— Zeus!!! Então, o que estamos esperando?!?

— Alto lá, Escorpião — Dohko silenciou o jovem e os demais que falavam entre si — como Saga disse, é uma “técnica análoga ao ‘Outra Dimensão’”, ou seja, é um GOLPE. Não é um teleporte como o que Mu faz. Em outras palavras, aquele que por essa técnica for atingido não faz a “viagem” sem danos.

— Não me importo com o que me aconteça, contanto que eu chegue lá!

— Isso não é tudo. Essa técnica NÃO garante o seu retorno.

— Isso não importa. O importante é CHEGAR LÁ. Não preciso retornar através do golpe. Vou libertar Camus e voltar à minha maneira.

— Milo, você não entende? — Mu falou, com seu jeito condescendente — Não pode ir sozinho. Deve haver muitos oponentes lá. Melhor do que ninguém... sabe que Camus está muito ferido. Como vai salvá-lo... carregá-lo... e lutar com todos ao mesmo tempo? Isto é, considerando que ele esteja REALMENTE lá.

— O ideal seria ele ir, voltar para confirmar a localização do cativeiro... e levar reforços — raciocinou Afrodite — Mas se Saga não pode trazê-lo...

— Eu não posso. Mas há uma coisa que pode atravessar as dimensões e possibilitar esse retorno... — e o geminiano virou-se para Shun — as Correntes de Andrômeda.

Todos olharam para o adolescente, que ficou vermelho como um pimentão com toda aquela atenção. O Santo de Ouro explicou:

—Na Batalha na Casa de Gêmeos, as Correntes de Andrômeda atravessaram o tempo e o espaço até a Sala do Patriarca onde eu me encontrava, e retornaram até o lugar de onde partiram. E Shun já tinha voltado ao Templo mesmo após receber o golpe.

Ikki, demonstrando exasperação, prontamente indagou:

— O que está querendo dizer? Que Shun deve ir? Receber o seu golpe e voltar?

— Eu farei isso! — seu irmão mais novo não titubeou.

— Shun, não! Está louco?

—Não interfira, Ikki — suplicou o menino — Você faria o mesmo se tivesse a chance de ajudar!

— Shun... — murmurou Milo, emocionado. Fênix calou-se, pois era verdade o que o irmão dissera... e ele merecia um voto de confiança como guerreiro de Athena!

Escorpião aproximou-se de Shun e pediu a Saga:

— Mande a nós dois para lá. Andrômeda ficará encarregado de nos trazer de volta e eu vou sondar o lugar. Deixarei ele em segurança enquanto procuro Camus — propôs, encarando Ikki — Assim que eu tiver confirmado onde fica o cativeiro, encontro Shun e voltamos.

— E quando você voltar, Milo, poderei teletransportar mais companheiros com você para te ajudar no resgate — ajuntou Mu.

— Mas como? Você disse que...

— Se você for até lá e levar um certo artefato que eu confeccionar, ao trazê-lo, poderei sincronizar a localização terrena com o meu cosmo. Será como se eu conhecesse o local.

— Um certo artefato?

—Sim. Irei agora mesmo fazê-lo, e depois que Saga te enviar para...

— Mu, não está se esquecendo de nada? — interrompeu Dohko.

— Hã?

—Saga não falou tudo.

Todos viraram na direção do geminiano.

— O que Saga não falou? — inquiriu Milo, franzindo o cenho.

— Há duas questões envolvidas: o golpe causa desgaste e dor, tanto em quem o desfere, quanto em quem por ele é atingido, mas de maneiras diferentes. Ainda que não seja indolor para seu adversário, não lhe oferece grandes danos físicos. Entretanto... Saga nunca usa esse golpe por uma razão: ele fica extremamente debilitado, correndo mesmo RISCO DE MORRER após executá-lo.

— O QUÊ? — exclamaram a uma só voz.

— Isso não é um empecilho — o guerreiro ergueu-se decidido, respondendo com firme convicção — Eu o farei. Shun, você vai mesmo ajudar o Milo?

—Mas é claro, Saga... só que...

— SAGA! Se você corre um risco tão grande, não há por que fazer isso! — falou Milo, tenso.

— Milo... é desnecessário dizer de quem é a culpa por Camus estar sofrendo desta maneira. Eu sei, vocês vão dizer que eu não tive culpa de ter sido dominado pelo Mal. Mas isso não muda o fato de que partiu DE MIM a ordem que Milo seguiu... e que ocasionou tudo isto... isso para não mencionar meus outros inúmeros crimes...

Fez-se silêncio entre eles. A figura imponente de Saga pareceu grandiosa e frágil ao mesmo tempo. Completou, fitando um por um seus companheiros, e por último, a Deusa:

— Também eu devo expiar meus pecados. Se um inocente o está fazendo por mim... por Milo... devo fazê-lo, sem dúvida alguma. Não me importa que eu morra, mas a bem dizer, isso não deve ocorrer. Portanto, não se preocupem em demasia comigo, posso me recuperar. Não podemos dizer o mesmo de Camus caso ele continue em cativeiro, não é mesmo, Milo? Pelo que você viu, pode concordar ou discordar.

O Santo de Escorpião abaixou a cabeça, emocionado:

— Não posso discordar. Ele está em situação desesperadora.

— Se estamos falando em expiar pecados, então eu me ofereço no lugar de Milo para ir.

— Dite! — Máscara da Morte deixou escapar sua preocupação.

— Nada disso, Dite — o escorpiano recusou, energicamente.

— Nada disso uma vírgula! Não se esqueça de que FUI EU quem matou Albiore.

— Não seja tolo, Dite — retrucou Milo, balançando a cabeça — se você fosse o centro dessa trama de vingança, Carlo é quem teria sido capturado, não Camus. TEM QUE SER EU.

— Milo... — o pisciano fez um muxôxo. O amigo pôs a mão em seu ombro, sorrindo:

— Mesmo assim, agradeço imensamente o seu oferecimento.

— Pro diabo com seu agradecimento! Eu exijo, então, depois ir com você resgatar o picolé de limão!

— Nada disso, eu é que vou, já tinha combinado com Milo — Hyoga meteu-se na conversa.

— E se Hyoga for, eu também vou! — disse Shun.

— E se Afrodite for, claro que vou também! — ajuntou Máscara da Morte.

— Shun, eu volto lá com você — falou Ikki, nervoso.

— Fênix — Shaka ergueu a mão para o amante — se você for, eu também...

— Já basta! Fiquem calmos... decidiremos quem vai de acordo com o que Mu aprovar. É ele quem vai teleportar aqueles que irão resgatar o Mestre Camus. Mu, em quanto tempo o artefato de que falou estará pronto?

— Precisarei de pelo menos seis horas, Athena...

— TUDO ISSO!... — Milo deixou escapar, aflito por não poder partir imediatamente.

O ariano falou, muito sério:

— Com isso, tudo será mais certo de ser resolvido. Sinto muito, meu amigo... é o mais rápido que posso. Não é uma ferramenta fácil de ser produzida, e consumirá muito cosmo no processo, além de...

— Tudo bem, tudo bem... entendi... — o grego deixou-se cair pesadamente na cadeira, sem disfarçar a decepção em saber que ainda teria que esperar mais.

— Vai valer a pena, você vai ver — o tibetano, amável, tentou animá-lo. E voltando-se para Saori — Com sua licença, Senhora, me retiro...

— Bom trabalho, Mu. Ficaremos esperando. Enquanto isso, sugiro que os demais descansem um pouco. Passaram a noite em claro e, em algumas horas, precisarão estar com energia para uma possível missão de resgate — mirou o escorpiano transmitindo-lhe confiança — isso inclui VOCÊ, Milo.

Ao sentir o calor do cosmo de Athena e ver nos rostos dos companheiros um clarão de fé, cintilou nos cerúleos olhos do impulsivo Escorpião o ardente brilho de uma esperança.

*************

Albiore espiou as réstias do sol que invadiam o quarto por entre as frestas das grossas cortinas. Adoraria abri-las e sentir aquele calor, banhar-se naquela luz daquele que um dia foi seu Astro Rei, e ao qual tanto amou. No entanto, ele agora não passava de um morto-vivo. Sabia que provavelmente ainda que não virasse cinzas como nas lendas de vampiros, sua atual condição talvez não fosse compatível com tal arroubo. Ouviu batidas discretas na porta de mogno escuro. Erguendo-se da poltrona Luís XV em veludo vermelho , fechou mais o roupão vinho e foi atender.

— Valentine? O que quer? — sequer saudou o espectro, tão abalado estava com o sonho que tivera. Contando que fosse realmente um mero... sonho.

O recém chegado percebeu a perturbação no semblante do Cavaleiro de Prata. Não deu maior importância, ao contrário. Parecia propícia ao que planejava...

— Eu incomodo, senhor Albiore? Espero não tê-lo acordado...

— Não, eu já estava acordado — respondeu, esfregando o rosto.

— Gostaria de falar-lhe... será que posso entrar?

— Claro — o loiro estranhou, mas deixou-o adentrar o recinto. Fechou a porta. Percebeu que Valentine queria dizer algo em secreto.

— Vim lhe fazer uma sugestão... pretende torturar Aquário mais uma vez hoje, por certo...

O estremecimento que acometeu Albiore foi percebido por Valentine. Este notou-lhe também o aspecto cansado. O que estaria acontecendo com ele?

—Sim, pretendo. Por acaso veio sugerir um tipo de procedimento especial?

— O senhor parece ter poderes extrassensoriais... — fingiu ser um elogio o que era na verdade sarcasmo.

— O ressentimento que você exala dispensa tais faculdades — disparou o mestre de Shun.

Aquilo perturbou momentaneamente Valentine. Mesmo assim, prosseguiu:

—Bem, ontem o prisioneiro foi violentado por Radamanthys, o que deve ter sido a sessão mais dolorosa para o Cavaleiro de Escorpião, que a tudo presenciou. Pois bem... — apertou malignamente os olhos violetas — o que venho sugerir é uma modalidade muito utilizada no Inferno para punir pecadores luxuriosos e criminosos sexuais: o estupro grupal.

Albiore arregalou os olhos azuis.

— Estupro grupal?!

—Popularmente chamado de “gang rape” ao redor neste mundo. Se o senhor obteve tão deliciosa e imensa satisfação no sofrimento do amante de Aquário com um estupro “comum”... imagine se o fizer ser violentado por VÁRIOS espectros de uma vez... — Valentine sorriu, de modo maldoso e provocante — ... não faltará entusiasmo. Aquário tem mesmo despertado a atenção dos que o veem por sua beleza e altivez... e despertado curiosidade até mesmo por quem nem o viu, de tanto que nele se fala... sei de vários que serviriam com muito empenho a esse propósito. Desta vez, destruirá por completo a alma de seu inimigo, Albiore...

Como num reflexo, o Cavaleiro de Prata respondeu, tentando ignorar a dor pungente e misteriosa que cingia seu coração:

— Não é uma má ideia...

*************

Notas finais
Algumas observações: 1. O nome da cidade na Escócia é fictício. 2. O golpe de que Saga fala NÃO existe nas séries. Foi inventado para a fanfic. 3. Não sei se existe, realmente, essa limitação para Mu usar o teletransporte (Só poder realizá-lo caso conheça pessoalmente o local).Mas é um cliché comum a vários personagens que o fazem, e aqui essa característica foi necessária. Espero que tenham gostado. Até o próximo capítulo, beijos carinhosos :x E muito obrigada pelo apoio de sempre!!!