Grilhões Eternais

19 Olhos de âmbar


Notas iniciais
Bem vindos ao décimo nono capítulo de Grilhões Eternais. No último capítulo, Athena convoca uma reunião para contar aos Santos de Ouro sobre o caso do rapto de Aquário. Milo continua inconsciente nos aposentos do Patriarca, mas acorda após sonhar com o amado. Hyoga diz ao escorpiano que ele não pode sair dali, sob pena de rebeldia contra as ordens da Deusa. Enquanto isso, Albiore vai à cela de Camus, e fica perturbado pelas palavras do francês. Anuncia então que terá início uma nova sessão de tortura". ATENÇÃO - CONTÉM CENAS DE ABUSO SEXUAL

Ainda querendo permanecer nos aprazíveis domínios de Hypnos, Valentine abriu os olhos, espreguiçando-se voluptuosamente. As pesadas cortinas de veludo vermelho sangue não deixavam saber se era dia ou noite. Se bem que naquela região remota da Terra, àquela época do ano os dias eram sempre cinzentos, curtos e escuros. Provavelmente anoitecera. A luz mortiça dos abajures vitorianos conferiam uma atmosfera aconchegante da qual ele não queria sair. Virou a cabeça lentamente para o lado, perdendo-se no âmbar dos olhos do homem deitado ali.

— Radamanthys... acordado há muito tempo?

O Juiz respondeu com um breve som nasal. Como o parceiro, encontrava-se nu, coberto por lençóis de seda negra, encostado em macios travesseiros de pena de ganso.

— Quer alguma coisa? — Valentine perguntou, solícito.

— Sim. Traga-me um uísque. Duas pedras de gelo.

— Claro.

— Beba algo comigo, para variar.

— Não gosto de uísque... vou pegar um vinho.

O loiro fez um “hunf” depreciativo. Mantinha os braços musculosos cruzados sob a cabeça, numa pose relaxada e displiscente.

— Você parecia um pouco distante durante nosso... momento de lazer. — comentou o espectro de cabelos rosados, preparando as bebidas.

— Não se sentiu satisfeito com minha performance?

— Por Hades, NÃO! Não é isso! Não tem como não amar ser tomado por você, meu lorde inglês — balançou vigorosamente a cabeça numa ferrenha negativa.

— Se não tem do que reclamar, então não reclame — disse Wyvern, indiferente.

O outro levou o copo até ele.

— Eu acho que você está diferente depois que esse Cavaleiro de Ouro chegou aqui.

— Outra vez essa ladainha? — Radamanthys revirou os olhos ambarinos.

— Não vejo a hora do tempo de vida desse detestável Albiore terminar e esse verme de Athena sumir de nossas vidas.

— Isso não vai demorar. Não há razão para tanto desconforto — replicou, balançando o copo e provocando barulho com os gelos.

— Eu não aguento mais. Longe de mim contestar Lorde Hades, mas acho as razões para dar tanto privilégio a esse Santo de Prata um tanto quanto frágeis.

— Cuidado, Valentine. Não vou tolerar blasfêmias contra nosso senhor, nem mesmo de você.

Harpia sorveu seu vinho, tentando não se perturbar com aquele tom ameaçador. E continuou:

— Eu só acho que você anda cerceando muito esse prisioneiro. Uma hora está limpando as feridas dele, tocando aquele corpo asqueroso e até os cabelos... outra hora está limpando e tocando ele de novo, e depois dando água na boca do miserável! É demais, Radamanthys!

— O que faço não difere dos cuidados que um criador dispensa a um animal que irá para o abate.

— Hum. Será? Eu te conheço muito bem. Há alguma coisa em seu olhar quando ele está à sua frente, Radamanthys. Havia alguma coisa em seu olhar agora mesmo, enquanto mantínhamos relações!

— Não é como se você fosse o único a passar pelo meu leito, portanto não entendo sua cisma logo com um prisioneiro, e de tão baixo nível ainda por cima — esvaziara o copo rapidamente.

— Sei disso — retrucou Valentine, ofendido. Contemplou os antigos quadros dispostos nas paredes do quarto de Radamanthys para se distrair e aplacar sua raiva — Porém... não te vejo olhando para os seus amantes da forma que olha para o detestável Santo de Athena. Chega a agir com uma... uma delicadeza para com ele que NUNCA vi!

— Do jeito que fala, faz parecer que sou rude ou grosseiro nos meus modos de agir, Valentine — estendeu o copo, numa ordem silenciosa para que fosse novamente servido. Foi prontamente atendido.

Vendo o líquido dourado depositar-se no fundo do copo de cristal, lembrou-se do cativo em questão. Estaria ficando tão evidente assim? Julgava-se eficiente em simular indiferença diante daquela nobreza inabalável, a fleuma imperturbável, sua altivez malgrado sua situação, a total desconsideração por seu próprio destino em relação à dor de quem amava... daquela carne tenra e ferida, daqueles lábios finos, daquelas coxas firmes e volumosas, daquelas nádegas rijas, daquele abdômen plano, os longos e sedosos cabelos de uma insólita cor azul petróleo... os gélidos olhos de um azul como o do momento final da madrugada... do crepúsculo...

— ... está me ouvindo, Radamanthys?

—Hunf. Você fala demais, Valentine.

— Mas não ouviu nenhuma das palavras que eu disse, ouviu?

— Isso não tem importância — rebateu, tencionando concluir aquela cena absurda de ciúmes. Que patético o companheiro estava se saindo! Por mais que apreciasse seu corpo e, principalmente, estar dentro dele, começou a se questionar se deveria continuar aquele relacionamento. Não se agradava daquelas infantilidades.

Preparava-se para dizê-lo, e de forma nada gentil, quando bateram à porta. Aiacos foi atendido por Valentine, que rapidamente havia jogado por cima do corpo pálido um roupão de seda roxo.

— Perdoe-me por incomodá-los. Albiore espera por Radamanthys na masmorra — anunciou o Juiz de cabelos negros.

— Nós iremos em cinco minutos — disse Harpia.

— Albiore exige que APENAS Radamanthys esteja na sessão.

— Que história é essa? Estive presente até agora. Por que só Radamanthys terá o privilégio de ver sofrer aquele verme de Athena desta vez?

— É a ordem de Albiore, Valentine. Se algo o desagrada, sugiro que fale diretamente com ele — e completou, para descompor o espectro — ou com Lorde Hades.

— Já chega de tolices, Valentine — Radamanthys ergueu-se, sem se importar com sua nudez. Apesar de Aiacos não estar vendo-o pela primeira vez, e nem mesmo pela segunda, sempre ficava impressionado com o porte do loiro: monumentais 1,89m de altura, nos quais se distribuíam músculos muito bem definidos e nada exagerados; braços fortes, torso perfeito como de uma estátua da Antiguidade Clássica, a pele tão branca e imaculada, coxas rijas como duas toras, pernas grossas e bem torneadas, nádegas perfeitas e fartas, o sexo que certamente fora presente dos deuses, chegava a ser intimidador na mesma medida que tentador...

— Isso é um achincalhe — resmungou Harpia — Radamanthys é um Juiz do Inferno! Não tem que obedecer às ordens de um santo de Athena, ainda que tenha se vendido a Lorde Hades!!!

— Aiacos, avise que estarei lá em dez minutos — Wyvern ignorou o amante, vestindo-se e dando-lhe as costas. O moreno assentiu e fechou ele mesmo a porta de mogno escura, já que o parceiro do loiro ficou ali bufando, revoltado.

Radamanthys vestiu uma camisa sem mangas preta, uma calça preta de brim, e calçou botas de couro pretas. Ajeitou os cabelos dourados com os dedos longos, e, sem olhar para o outro, ordenou que saísse, num tom que não admitia réplicas. Valentine saiu batendo a porta.

Por mais que tivesse consciência de que o Juiz deveria seguir as ordens de Albiore por este ser protegido de Lorde Hades, algo o incomodava demais. Era o olhar do inglês sobre Aquário? Era a distância de Radamanthys, desde que o maldito chegara? A proximidade que flagrara entre Radamanthys e Camus, a expressão de embevecimento da qual nem mesmo o amado parecia ciente? E agora essa exigência estapafúrdia do traidorzinho de Athena...

... não tinha boas impressões disso tudo.

Não. Dizer dessa maneira seria um eufemismo.

Tinha era um mau pressentimento.

*************

—Obrigado, Hyoga. Não vou dizer que estava ótimo porque, sinceramente, não senti o gosto de nada — disse Milo, entregando a bandeja ao jovem. Este percebeu que o Santo de Ouro apenas tomara a sopa de peixe e dera duas mordidas no pão. O restante da refeição voltaria intocado para a cozinha.

— Deveria ter comido mais. Não vai se sustentar somente com isso — opinou o russo, preocupado.

— Desculpe, Patinho, mas não dá, não.

Milo estava sentado na cama, cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça baixa. Há um dia encontrava-se nos aposentos do Papa. A espera o exasperava. Pelo menos, a ausência de visões denotava que Camus não havia passado por nenhuma tortura durante aquele tempo.

— Está meio abafado aqui, Milo...

— Você e Camus sempre calorentos... não acho, não.

— De qualquer maneira, seria bom deixar entrar um pouco de ar.

— Verdade, vou abrir as cortinas...

Dirigiu-se para elas, tão largas que ocultavam totalmente a imensa sacada. Quando tocou no tecido aveludado paralisou. Ficou parado ali mesmo, sem nada dizer, sem nada fazer. Hyoga, que ia saindo para levar os pratos, estranhou tanto o mutismo quanto a imobilidade do mais velho:

— Milo?

Não obteve resposta.

— Milo? Algum problema?

O grego continuou estático, segurando a cortina, de costas para o loiro. Este pôs a bandeja sobre uma cômoda e aproximou-se do amante de seu mestre. Quase gritou ao ver seus olhos, completamente enegrecidos, contemplando o nada.

— Milo?!?

*************

A cortina verde escuro, de veludo tão acetinado que parecia molhado, desaparecera de sua frente. Tudo desaparecera, sendo substituído pelas trevas que precederam a visão da odiosa câmara de torturas. Um pavor frio dominou-o.

— Não... não, de novo não! — balbuciou, atônito.

As paredes e o chão de pedra, a iluminação fria e artificial. Surgiu à sua frente o abominoso Albiore. Ao seu lado, o estranho homem alto e loiro, de cabelos curtos, agora sem a armadura. Possuía um olhar sombrio, e tão penetrante que parecia estar conseguindo ver o escorpiano.

— Albiore! Vai insistir nessa infâmia covarde?

— Como vai, Milo? Vejo que está bem animado hoje.

— Onde está o Camus, seu desgraçado???

— Aqui mesmo, onde deveria estar — estendendo os braços, sinalizou para uma cadeira de metal, à qual o Santo de Aquário estava preso por correias e fivelas nos pulsos e tornozelos. Duas grossas tiras de couro ainda o prendiam pelo tórax. A coleira negra, responsável por sua vulnerabilidade, continuava no pescoço delgado.

— Camus... CAMUS!!!

— Milo, ele ainda não pode te ouvir... poupe sua garganta para seus gritos de dor e ódio — zombou o Cavaleiro de Prata.

“Milo está me vendo”, pensou Camus ao ouvir os dizeres de Albiore, “Não importa o que me aconteça, NÃO posso me entregar à dor. Não posso gritar. Não posso fazer Milo sofrer além da conta.”

Uma decisão fácil de ser tomada.

Seria fácil de ser seguida?

— Maldito, seu covarde, solte ele e enfrente a mim! Diga onde você está! Não seja um covarde para a eternidade!!! Nem mesmo Hades pode respeitar alguém que traiu a Deusa por motivos tão pútridos!!!

O mestre de Shun deu uma gargalhada, batendo palmas dramaticamente.

— Bela tentativa, Escorpião. Você está tão efusivo hoje que resolvi oferecer um espetáculo diferenciado...

E virou-se para o Juiz:

— Radamanthys, é a sua vez de conduzir a sessão.

Milo estremeceu ao ver o porte do espectro. Camus estava imobilizado... seria espancado por esse homem?

— Radamanthys, à minha frente encontram-se os olhos da consciência do Cavaleiro de Escorpião. Lembre-se dessa localização. O que quero é que você dê PRAZER ao Santo de Aquário: faça sexo oral nele.

Camus engoliu em seco, arregalando os olhos. Milo deixou a boca abrir tanto que parece que havia quebrado o maxilar. Até mesmo Radamanthys teve a mesma reação dos dois amantes:

— Como é? — murmurou, estupefato.

— Eu quero que você dê prazer ao nosso convidado, de maneira que nosso espectador presencie a adorável cena em que seu amado vai sentir prazer nas mãos... ou melhor... na boca de outro — provocou Albiore, direcionando seu olhar para Milo.

— VOCÊ NÃO PODE DESCER A TAL PONTO, ALBIORE! Sua alma vai ser DILACERADA, MALDITO!!!

Radamanthys observava, incrédulo, o protegido de Hades. Em seguida mirou o prisioneiro: seus olhos vidrados denunciavam que estava muito perto de um estado de choque. Tremia visivelmente.

— Você ouviu, Radamanthys. Tenha o cuidado de deixar que ele veja o exato momento em que Aquário estiver vertendo sua semente.

O espectro assentiu, silenciosamente. Caminhou até a cadeira onde o cativo amarrado se encontrava. Camus cerrou os dentes, dirigindo ao homem que se aproximava uma expressão ameaçadora.

— Não se aproxime de mim... não se aproxime! — ordenou, com certo desespero por baixo do tom hostil.

O Juiz nada respondeu. Manteve-se de pé, em frente a ele, por um tempo, simplesmente examinando-o. Sem camisa, de calça de couro preta e botas pretas, o rosto fascinante transtornado de pavor. Sim, sabia que era pavor, por mais que o Cavaleiro quisesse simular desafio e força, era isso que havia ali.

Genuíno pavor.

*************

Hyoga tentava em vão conter o homem que berrava a todos pulmões, estendendo ensandescidamente os braços, como a tentar pegar algo fora de seu alcance:

— MALDITO! SEU FILHO DA PUTA! NÃO ENCOSTA NELE! NÃO ENCOSTA UM SÓ DEDO NELE!!!

— MILO! Por Zeus, o que está acontecendo com...

Um movimento brusco do grego acabou por se tornar uma violenta cotovelada, e o adolescente foi atirado longe, batendo as costas com força contra uma estátua de mármore.

— NÃO! NÃO! NÃÃÃO! EU VOU ATRÁS DE VOCÊ SE OUSAR fazer isso com ele! Vou te caçar até O INFERNO! — e antes que avançasse mais, e terminasse por pular pela janela, Peixes e Câncer entraram correndo no quarto. Atrás deles vinha Capricórnio. Os três procuraram conter o amigo, completamente fora de si.

— Milo! Pare! Você vai se ferir assim! Você feriu Hyoga! Controle-se!!! — Afrodite clamou, segurando-o por um dos braços.

— Alguém! Cisne está ferido!!! — bradou Shura, segurando-o pela frente, tentando dar estabilidade.

— Milo!!! PARA!!!

— Ele não pode te ouvir, Dite! É uma espécie de transe, ele não escuta nem vê nada perto dele! Sua consciência não está neste plano! É como as “Ondas do Inferno”, só que ao invés de ficar desacordado, seu corpo continua reagindo aqui — explicou Máscara da Morte, segurando firmemente o outro braço do escorpiano, que gritou mais uma vez:

— Camus!!! Pare, não encosta nele!!! NÃO!!!

— Milo... Camus... — Afrodite começou a chorar — Como podemos ajudar? Pra que servimos, afinal?!!

Foi quando surgiu Athena em pessoa no quarto, empunhando o báculo.

— ATHENA!!! — gritaram em uníssono.

— Continuem segurando ele.

— Mas ele está sofrendo!

— APENAS CONTINUEM.

Ela inclinou o báculo na direção de Escorpião, e, como da primeira vez, ele perdeu a consciência ante a luz dourada que o artefato emanou. Os amigos o seguraram. Seiya foi socorrer Hyoga, que havia batido a cabeça também e estava tonto.

— Coloquem-no na cama.

— Sim, senhora.

E viram a jovem concentrar o cosmo ao falar:

— Shaka de Virgem, venha aos aposentos do Papa. Precisarei de sua ajuda.

— Está chamando o Shaka?... Que vai fazer, Athena?

Ela não respondeu. Olhou para a fisionomia sofrida do homem deitado, que estava nitidamente preso dentro de um pesadelo.

Com a diferença de que aquele era REAL.

*************

Radamanthys contemplou o rosto do cativo mais uma vez.

Valentine tinha razão em se sentir tão inseguro.

Sua beleza, indubitavelmente magnética, não era meramente plástica, estética... havia nela uma aura nobre, tão aristocrática que fazia-o parecer intocável, malgrado estivesse ali, totalmente à sua mercê. Os olhos antes gélidos agora ardiam como estrelas prestes a se extinguirem no espaço infinito.

Todo ele era ódio, beleza, fúria, tentação, distância, desafio.

É apenas um verme de Athena”, ainda tentava pensar.

Um prisioneiro.

Um nada.

Um animal sendo preparado para o abate.

Os olhos dourados do Juiz abandonaram a face de Camus e percorreram o peito arfante, a barriga nua restrita por correias... chegando à parte inferior, seu alvo primordial então.

O brilho do couro apertado nas coxas torneadas e no volume entre as pernas abertas fez com que Radamanthys passasse a língua pelos lábios, estranhamente secos.

— NÃO SE ATREVA a me tocar!!! — rosnou Camus, forçando as amarras, mesmo sabendo que nada adiantaria.

— Isso pode não ser tão desagradável quanto você imagina.

— NUNCA!!...

Radamanthys sorriu de leve, e com o dedo indicador, percorreu-lhe o contorno do rosto e do queixo, até o pescoço...

— PARE!

... descendo pelo peito, desembocando no abdômen, e por fim...

— Tire... tire a mãos de mim — Camus já estava rouco de repulsa.

Milo continuava gritando e gritando, mas eles não ouviam. Apenas Albiore podia escutar e se deliciar com os berros de ira e desespero daquele que destruíra seus entes mais amados.

O espectro apenas passeou os dedos por sobre aquele ponto, por sobre o couro liso. Tornou a olhar o rosto do cativo e teve o inexplicável desejo de provar aqueles lábios. Droga, pareceria ridículo! Ele só tinha que chupar o miserável, e apenas para humilhar seu namoradinho, não trocar carícias tão intimistas que pudessem denotar qualquer outra intenção... que pudessem denunciar algo que ia dentro dele...

Abaixou-se a fim de ficar ao mesmo nível daquele semblante que parecia tragá-lo. Pôs as mãos sobre os braços da cadeira de ferro, como a intimidar mais o outro, que agora tinha-o muito de perto. Faria o Santo se sentir uma mosca, e ele seria a aranha. Que se fodesse tudo. Ele estava cumprindo ordens, não? Não as cumpria com excelência?

Merecia seu quinhão. E iria conquistá-lo.

Ousou, então, tocar aqueles lábios com os seus. E o fez sem cerimônia. Só de encostar naquela textura aveludada sentiu uma explosão inédita dentro de si. Não se conteve em apenas tocá-los: buscou tomá-los, imperiosamente. O Cavaleiro resistiu, tentou virar a cabeça, e então o loiro foi obrigado a segurá-lo pelo queixo, com firmeza. Forçou a entrada de tal forma que conquistou aquela boca com a língua ávida. Contudo... viu logo que não seria uma empreitada fácil.

— UHH!! — retirou-se bruscamente, sentindo o gosto do sangue invadir sua cavidade bucal.

O prisioneiro... ousara mordê-lo!

Ele, o maior amante do Inferno! Aquele por quem tantos se rastejavam, se humilhavam, clamavam... que nunca soubera o que era a recusa, a indiferença... ali, com um reles prisioneiro... limpou o sangue e o fitou, com frio ódio:

— Então vai ser assim?

Esbofeteou Camus com rudeza. O Santo sentiu a agressão, sufocando um gemido. Também ele experimentou sangue.

— CAMUS!!! — Milo gritava, cada vez mais alto.

O aquariano cuspiu o sangue, imperturbável.

— Agora é questão de honra, Cavaleiro — e abriu o zíper da calça de couro, grosseiramente, satisfeito em saber que era só aquilo que usava.

— NÃO!...

Não devo gritar, não devo gritar!”. Mordeu os lábios ensanguentados e conteve-se como pôde.

Radamanthys expeliu o sangue que abundava em sua boca. Abaixou mais o cós da calça de couro. Tomou o pênis do jovem imobilizado e principiou uma massagem forçada. Camus virou o rosto para o lado, enojado.

— Você vai gozar pro seu macho ver... nem que eu fique aqui te chupando a noite toda... — prometeu, convicto.

— Nnng... — o francês cerrou os dentes, decidido a não se entregar, fosse gritando, fosse gemendo...fosse sentindo.

O membro de Camus foi envolvido por dedos longos e insistentes, e iniciou-se uma sequência de movimentos para cima e para baixo, orquestrados pela imensa mão firme e habilidosa do Juiz. Sentindo sua carne esmagada por aquele amplexo lascivo, o aquariano mantinha a cabeça de lado, torcendo para que a transmissão psíquica se encerrasse antes que...

... não, NÃO iria acontecer.

Ele era MAIS que um corpo.

Não dissera isso a Milo certa vez?

Eis que sentiu um toque úmido... era a língua do espectro que deslizava por sobre a extensão de seu sexo. Sufocou um gemido.

NÃO ERA POSSÍVEL QUE...

A língua deslizava provocadoramente, de cima a baixo, traçava caminhos em todo órgão, detendo-se agora na base, onde a ela juntaram-se lábios ardentes. Sua bolsa escrotal foi inteiramente abocanhada e ele mordeu os lábios com mais força, fazendo verter mais sangue. Camus cerrou os olhos, ultrajado... com a situação e consigo mesmo... Radamanthys pôs-se a sugar, sem deixar de utilizar também as mãos para estimular sua presa, fosse apertando-lhe o interior das coxas, fosse manuseando-lhe o pênis pela base. A sucção, inicialmente suave, apenas provocativa, aumentava de potência exponencialmente. O aquariano começou a temer realmente... seu ódio por si mesmo passou a suplantar o ódio por seus algozes... pois infelizmente ELE SENTIA...

Infelizmente ele SENTIA.

Suas pernas tremiam. Radamanthys comprovou a tensão nos músculos que se contraíam nas coxas fartas do cativo. Parabenizou-se internamente, e aumentou a pressão de sua sucção.

— Nnngh... — Camus prendia um gemido com todas as forças. Cerrava os punhos, procurava não olhar. Por Milo... ele NÃO iria sucumbir.

Porém, a fama de maior amante do Inferno que possuía Radamanthys não se fazia infundada, em absoluto... acariciou-lhe a glande com a ponta de sua língua quente e curiosa. Os tremores do outro o encorajavam.

O maldito sentia prazer, era certo.

Seria sua perdição...

Pôs todo o sexo de Aquário dentro de sua boca, aspirando com tanta potência que o aquariano arqueou o corpo, involuntariamente. Quase gemeu alto; para que não acontecesse isso, falou:

— Pa-pare…

Radamanthys, entretanto, não lhe deu ouvidos. Sem deixar de manipulá-lo, lambia-o, chupava-o, sugava-o com ânsia, sonhando com o momento que, sabia-o muito bem, chegaria.

O belo Cavaleiro de Aquário iria querer gozar em sua boca.

Esse pensamento ateou-lhe fogo. Sentiu seu falo pulsar dolorosamente.

A língua percorria a parte de baixo do pênis já túrgido do francês, enquanto o inglês sugava-o com todo seu talento e tesão, fazendo o outro suspirar entredentes. Como aquele espectro fazia aquilo com a boca?!?

Envergonhou-se do seu questionamento.

Antes fosse chicoteado novamente! Espancado! Queimado! Eletrocutado! Nenhuma tortura fizera-o odiar A SI MESMO.

— Está gostando, Escorpião? — provocou Albiore.

— Ca-Camus... — balbuciou Milo, desolado.

— Porque parece que Aquário está gostando...

Camus... estava...

Estava...

Não era possível!

— Nnng...aaaaahn... — gemeu, ante uma sucção que parecia até mordê-lo. Não queria ter feito isso! Por que seus lábios não foram resistentes o suficiente para reprimir aquele gemido?

Seu coração disparava descompassadamente. Sua respiração dificultada entorpecia-lhe o raciocínio.

Ele se segurava, se controlava, todavia...

Seu ventre já queimava.

Zeus... começou a achar que NÃO iria aguentar.

Tentou pensar em várias coisas que transportassem sua mente dali, mas...

— Admita, você quer gozar — disse Radamanthys, abandonando momentaneamente o que fazia, e encarando-o, de forma fixa. Sua mão, no entanto, não deixou o membro intumescido sem estimulação.

— N-nunca...nun...ca.

— Veremos — e engoliu de uma só vez todo o falo do homem que jogou a cabeça para trás, sob o arrebatamento provocado por aquela poderosa sucção.

— Ca...Camus? — gaguejou Milo, estarrecido.

É só o meu corpo!”, quis gritar Camus, envergonhado, “Não sou eu! Não é meu coração, não é minha vontade, tampouco meu sentimento!”

Se aquilo acontecesse diante de Milo... aí sim... que morresse.

QUE NUNCA SAÍSSE DALI.

Porque seu corpo já formigava. Sentia os estalos de suas terminações elétricas recebendo, absorvendo e transformando todos aqueles estímulos em uma espiral que exigia explodir, partir-se, sua virilha fervia com a energia que ele muito bravamente procurava represar. Lágrimas começaram a se formar por baixo de suas pálpebras cerradas.

— Camus — Milo já nem gritava. Saía apenas um fio de voz.

Radamanthys parou a felação, subitamente, e Camus experimentou algo que, para seu horror, NÃO foi alívio.

Mera reação corporal, NÃO sou eu”, pensou, ofegante e trêmulo.

— É muito louvável sua resistência, Aquário — falou o Juiz, os lábios úmidos num meio sorriso. Enquanto falava, não parava de bombar o sexo inchado do Santo — Mas não adianta ficar se controlando. Não vai aguentar prender seu orgasmo para sempre. E eu sim... posso ficar aqui PARA SEMPRE... sob ordens ou não...

— Ande logo com isso, Radamanthys — mandou Albiore, muito sério — lembre-se de que o elo psíquico tem um tempo limite.

— Camus!... CAMUS!!!

— Você ouviu o “chefe” — ironizou o espectro, masturbando-o com vigor, sentindo com muito gosto a mão umedecer.

Milo, com os olhos arregalados, percebia na expressão do amante que ele não iria aguentar. O pré-gozo brilhava na mão do loiro, que subia e descia num ritmo alucinado. A este também era evidente a iminente derrota do Cavaleiro: as narinas dilatadas, o rosto vermelho, os dentes que seguravam o lábio inferior, os sons presos na garganta que escapavam tão somente porque nem mesmo conseguia respirar direito, o ofegar angustiado... gotas de suor cintilaram em seu magnífico torso.

Eu adoraria que você gozasse na minha boca”, pensou Radamanthys, “entretanto, a ordem é que seu namorado veja todo o seu gozo vertendo... que desperdício. Por mim, engoliria tudo, como se fosse o mais sublime néctar...!”

Sem diminuir a velocidade nem a frequência das estocadas, foi premiado com um gemido baixo, contido, porém... denunciador.

O clímax chegara.

Viu-o tremer, projetando os quadris para frente, numa convulsão claramente orgástica. Camus jogou novamente a cabeça para trás e fartos jatos de sêmen foram expelidos, Radamanthys tendo o cuidado de deixar bem à vista, agora afastando-se ao máximo para não bloquear a visão da erupção do sexo do prisioneiro. Assim tanto Milo quanto Albiore puderam constatar que fora bem sucedido em sua missão.

Caindo de joelhos, Milo sentiu-se arrastado para um vórtice de loucura.

Não. Não podia ser.

Aquilo era demais.

E O PIOR QUE CAMUS...

NÃO! NÃO tenho o direito de pensar isso! Foi uma reação fisiológica, natural do corpo! Ele estava IMOBILIZADO, AMARRADO, e foi estimulado por muito tempo... nem podia se mexer! Era natural que...” esses pensamentos passavam-lhe pela cabeça na velocidade da luz. A eles se agarrava para não sucumbir à insanidade.

Já de pé, Radamanthys levou a mão encharcada de esperma à boca, lambendo-a, enquanto olhava na direção do homem que ele não podia ver. E em seguida, virou-se para o prisioneiro, que ofegava, com uma expressão de ódio infinito.

Ao espectro pareceu extremamente sexy.

— Viu, Escorpião? Não pode dizer que tratamos assim tão mal nosso convidado. Não viu como ele gostou? — riu o Cavaleiro de Prata.

Não, eu não gostei! Foi apenas reação do meu corpo! Não sou eu! Milo! Acredite! Eu NÃO gostei!”, embora Camus quisesse ter gritado essas palavras para o grego ouvir, sua garganta seca, fechada, impedia-o até mesmo de falar. Era como se tivesse engolido areia. Abaixou a cabeça, deixando a franja e as mechas azuladas esconderem o rosto vexado, bem como as lágrimas que teimavam em buscar libertação.

— ALBIOOOORE!!! E VOCÊ, LIXO DOS INFERNOS!!! EU VOU MATAR VOCÊS! VOU MATAR VOCÊS DA FORMA MAIS DOLOROSA POSSÍVEL! PODEM ESPERAR!!!

— Pelo visto iremos apenas esperar... — replicou o mestre de Shun, muito calmo. Olhou para o Juiz e proferiu as palavras que quase executaram de vez o escorpiano naquele momento:

— Bom trabalho, Radamanthys. Agora pedirei que Valentine venha tirar o prisioneiro dessa cadeira e algemá-lo de forma que não ofereça resistência a você.

— Resistência a mim? Do que está falando?

— Você vai possuir o Santo de Aquário... bem diante do Santo de Escorpião.

*************

Notas finais
Er... não me odeiem (muito). Faz parte da história... Será que ainda posso dizer "Até o próximo capítulo"? De qualquer maneira... obrigada por terem lido ^^