Grilhões Eternais

4 Eu vou te fazer feliz!


Notas iniciais
Quero agradecer a você que está lendo, favoritando, comentando, muito obrigada mesmo. Vamos a mais um capítulo da história. As palavras em itálico são pensamentos, procedimento que se repetirá ao longo da fic. Boa leitura!

Pela janela do quarto de Camus descortinava-se a paisagem avermelhada daquele dia. Provavelmente quente. Entretanto, nos aposentos do Mestre da Água e do Gelo a temperatura era consideravelmente mais baixa. Nenhum vento balançava as folhas das poucas árvores que se encontravam pelas encostas dos altos penhascos que circundavam o 11° Templo do Santuário.

Milo tentou localizar as planícies ao norte, perto das arenas menores, sem sucesso. Fora ali que se despedira de Camus, pela primeira vez.

Três vezes se despediram.

A espera pelo fim daquele longo e doloroso dia levou Milo a um lugar mais luminoso e acolhedor: suas lembranças. Seu passado com o homem que jazia, plácido e sereno, no enorme leito, ladeado por dossel vermelho atrás de si.

Depois de se conhecerem, Camus fora apresentado a outros aspirantes a cavaleiros por seu novo amigo. Sim, tornaram-se amigos rapidamente, mais pela ação de Milo do que por outra razão. Não que o francês fosse antipático ou arredio. O grego sim era animado e esfuziante, sempre cheio de energia e de uma vitalidade que contagiava a todos. Juntamente com Aioria, irmão mais novo de Aioros, companheiro inseparável de Saga, não raro liderava os coleguinhas, fosse nas brincadeiras, fosse nos treinos. Ainda que todos orbitassem a seu redor, Milo não deixava Camus muito tempo sozinho. Percebia que se o fizesse, o menino realmente se isolaria. Deiberadamente. Apesar de ser disciplinado e extremamente resistente, Camus preferia a companhia dos livros aos garotos barulhentos e efusivos, sedentos por lutas e revanches. No dia seguinte à sua chegada ao Santuário, conhecera a biblioteca, guiado por Milo, que percebeu logo seu interesse na literatura. Milo achava o lugar entediante demais, mas resistia um pouco... até cair no sono, enquanto Camus ficava rodopiando entre as altas estantes, em dúvida sobre o que pegar. Como só podia pegar até três livros emprestados e ele sempre queria ler mais, acaba lendo um pouco ali mesmo. Milo acordava, limpava a baba, e saía dali, com medo de dormir de novo. Que chatice, um dia lindo daqueles, e o esquisito preferia ficar ali, trancafiado, cheirando livros mofados.

Um belo dia, ao acompanhar novamente seu amigo à biblioteca, tencionava tirar uma soneca ali, como de costume, enquanto o outro lia. Não deixava de ser relaxante, dormir ali com o francês por perto. Mas eis que ao abrir um olho, viu que Camus conversava com aquele menino estranho de cabelo lilás, Mu... e parecia... Camus parecia bem animado.

Arregalou os dois olhos. Camus estava... parecia animado?

Milo ergueu um pouco a cabeça para observar melhor a cena. Seu coração disparou.

Mu mostrava a Camus um livro de capa dura. O francês sorria com suavidade, e tornou a olhar o rosto do que falava, com uma expressão atenta. Aparentemente, o tibetano estava recomendando aquele livro ao outro.

Milo nunca havia feito isso. Não gostava muito de ler. Não tinha paciência. Preferia correr, lutar, treinar, nadar, estirar-se ao sol, sentir o cheiro das plantas. Não tinha tempo para livros. E consequentemente... jamais iria mostrar livros a Camus. Jamais iria despertar a atenção de Camus para algo que fizesse.

Ele era apenas um estúpido.

Viu que aos dois se juntou um loiro, um pouco mais alto que os dois. Roupas indianas e olhar compassivo.

“Shaka!"

Possuía maneiras educadas como Camus. Como Mu. Aliás, os três pareciam fazer parte de algum clubinho de etiqueta para o qual Milo tivera acesso negado. O loiro recém chegado apontou para uma direção, na qual todos seguiram, sumindo das vistas de Milo.

Este ergueu o tronco, procurando-os da mesa, repleta de livros abertos e fechados. Aquele imbecil já não tinha muito livro para ler, não? Então tinha que ir atrás dos outros, ao invés de ficar ali com ele, que abdicara do seu ar livre por ele?

“Idiota!!!"

Levantou-se, irritado. Sentia-se quente, agitado. Pensou em ir até eles, contudo desistiu. Faria o quê? E por quê?

Aliás, por que estava daquele jeito?

Ah sim.

Porque Milo já amava camus.

Contudo, do alto de seus oito anos, não sabia muito bem o que era isso. Só sabia de algumas coisas: que queria estar sempre com ele. Falar com ele. Lutar com ele. Tocar nele. Ouvir sua voz

Não queria que ele desaparecesse nos fundos de uma biblioteca sombria com outros garotos, com aquele sorriso no rosto. Que se afastasse dele. Para ficar com OUTROS meninos.

Que o ABANDONASSE.

“Camus maldito... idiota!!!”

Resoluto, levantou-se da mesa e deixou o salão. Caminhou a passos rápidos, só porque era proibido correr. Sem olhar para trás, desceu a longa escadaria do prédio com a velocidade do vento. Dirigiu-se para um lugar mais afastado onde costumava treinar sozinho. Ou com Camus, que havia sido por ele apresentado àquele recanto, ao qual se chegava após atravessar uma área mais densamente arborizada, que desembocava em rochedos, os quais deveriam ser escalados para se chegar ao tal local.

Dava para ouvir o som de um riacho que corria ali perto, onde por vezes os meninos se banhavam. A vegetação local era mais densa, de forma que não era o local preferido dos outros para nadar, por temerem cobras e outros bichos oriundos daquelas frondosas vegetações. Tanto melhor. Várias vezes nadara ali sozinho com Camus, que preferia lugares mais vazios para se permitir aquele abandono de se jogar na água despido, e brincar livremente na água... e Milo tinha apenas para si a maravilhosa imagem do menino tão inexpressivo e frio perante os outros bater as mãos na superfície, numa "guerra de água”, cabelos azulados molhados a cobrir seus olhos cerrados de euforia, os lábios vermelhos úmidos e entreabertos, permitindo a visão daqueles dentinhos brancos e perfeitos, num imenso e raro sorriso. Por raras vezes, uns intrusos se juntavam a eles – os outros meninos! – e Camus prontamente se retraía de novo. Não entendia-lhe aquela reação, porém tinha certo orgulho... ele continuava brincando, mas com menos empolgação.

“Bom, agora ele deve estar todo empolgado lá com aqueles metidos que ENTENDEM DE LIVROS como ele”. E abaixou-se para pegar uma pedrinha reluzente.

— Milo.

Virou-se na direção da voz, baixa e aveludada. E prontamente atirou a pedrinha no rio, fingindo ignorar o recém-chegado.

— Milo, por que saiu da biblioteca?

— Cansei de ficar naquele mausoléu, só isso.

— Por que não me esperou?

— Eu sabia que você tava ocupado, e que iria demorar!

— Como sabia que eu iria demorar?

— Eu sei como você é com essas drogas de livros... fica todo entretido... esquece do tempo. – “esquece de mim”, pensou, dolorido – esquece de tudo... – e abaixou-se para pegar outra pedrinha. Não se virava para falar com o outro. Sentia-se mal, nervoso, irritado, mal... não queria transparecer. Jogou a pedrinha, que quicou na superfície brilhante.

— Você me deixou lá – sentenciou Camus, entre firme e inexpressivo.

— Não, VOCÊ me deixou lá, e foi pra não sei onde com aqueles dois bestas!!!

— Bestas?

— É, os metidinhos a superiores, cheios de “não-me-toques”, calminhos e paradinhos como você!!! – Milo aumentou a voz, sem conseguir disfarçar seu extremo desagrado. Nem o sarcasmo deu conta disso.

— Eu sou calminho e paradinho? – indagou placidamente Camus.

— É!!!!

— Metidinho também?

— Muito!!!!

— Do jeito que você fala, parece que eu te incomodo, Milo.

O outro se voltou, com um sorriso sarcástico, acidez na voz. Semicerrou os olhos, tencionando dardejá-lo com o mais fino desprezo possível.

— Não, Camus. Não me incomoda. Sabe por quê? Porque eu não tô nem aí pra você... – e abaixou ainda mais a voz, venenoso como almejava ser – eu não tô nem aí pro que você faz...

Camus encarou-o, os olhos vítreos e a face impávida.

— Que bom, porque vou embora esta noite.

O grego engoliu em seco. Sentiu a cabeça girar.

— Embora... hoje? Como assim? Pra onde?

— Pra que você quer saber? Você “não tá nem aí pro que eu faço”... – respondeu o francês, de forma tão fria que intensificou a dor que Milo sentiu.

— Não... isso não é verdade... eu não... Camus, é o treinamento pela armadura?

Apenas assentiu com a cabeça, deixando que a franja azul petróleo cobrisse suas feições.

— E onde é? Onde vais ser, Camus? Porque... Saga me disse que eu devo ir para uma ilha aqui mesmo na Grécia, porque...

— Sibéria.

Agulhas perpassaram a garganta de Milo.

— O quê? Mas… mas por quê? SIBÉRIA!!! QUE...

— Serei treinado para ser um Cavaleiro do Gelo. O Grande mestre localizou essa aptidão no meu cosmo...

— Camus, o treinamento dos Cavaleiros do Gelo costumam ser dos mais rigorosos!

— Sim, o Grande Mestre disse isso – respondeu o garoto, resignado.

Milo abriu a boca mas nenhum som saiu.

Tratava-se de seus destinos.

Seriam guerreiros.

Treinavam dia após dia.

Existiam por... e para Athena... a Deusa das Batalhas.

E chegaria o dia em que partiriam para o local de conquista de suas armaduras. Se assim estivesse em seus destinos.

Não seriam eternamente duas crianças a correr por bosques, dar socos em troncos, nadar no rio, subir nas árvores para pegar frutas, rolar pelas areias dos campos rindo e puxando os cabelos um do outro...

— Você disse que vai esta noite.

— Sim.

O vento trouxe consigo uma saraivada de folhas amarelas. Seus cabelos dançaram no ar, contrastando com a imobilidade de seus pequenos corpos, um de frente para o outro.

— Eu... eu ouvi dizer que o tempo de treinamento pode ser de 4 a 6 anos, Camus.

— Sim.

E virou-se para partir. Milo permaneceu imóvel, vendo-o caminhar lentamente na direção do vento. O que ele sentia naquele momento foi-lhe inédito. Queria fazer tanta coisa, no entanto, não conseguia fazer nada! E ele, que era tido por todos por um menino impulsivo, sem amarras... por que se sentia preso, amarrado? Totalmente sem ação.

— Mas eu farei o possível para voltar em 4 anos – anunciou o francês.

Milo sentiu-se flutuar ante aquele doce e tímido sorriso. Camus estava animando-o?

— Seja forte e faça o mesmo… Cavaleiro de Maçã!

— Mas é claro que vou! Eu vou voltar até antes de você, seu... Cavaleiro de Traças de Biblioteca!!!

O francês sorriu levemente, e em seguida retomou seu caminho. Milo gritou-lhe:

— Camus! Eu vou te escrever! Eu vou te escrever, tá? Sempre que der, vou mandar uma carta pra você! Pra você não se sentir sozinho... eu sempre vou estar lá com você... sempre vou te escrever uma carta.

— Hunf. Cuidado... vai acabar virando o escritor aqui...

— É sério! Eu sempre vou escrever pra você, tá bom?

Por uns breves instantes, Camus se deteve, ainda sem olhar para trás, E foi assim que respondeu, antes de correr para longe dali:

— Eu vou ficar esperando.

E então ele se foi, veloz como o vento que carregou consigo uma lágrima... e mais outra...

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— Você nunca me respondeu, né, seu sacana?

O alvo daquela acusação, como era de se esperar, permaneceu em silêncio. Raios do sol que começava a mergulhar por detrás das montanhas tingiram-lhe a túnica branca de um amarelo pálido e insistente. Sombras começavam a se elevar rumo ao alto teto daquele aposento clássico.

— Nunca me respondeu... – balbuciou Milo, voltando a olhar para ele – escrevi todos os meses, por 5 anos, os 5 anos que você ficou lá. Além de mentir que voltaria em 4 anos, mentiu sobre responder as cartas. Mentiu sobre não deixar mais o Santuário, mas voltou para aquele fim de mundo para treinar aqueles dois pirralhos – e tornou o rosto novamente para os vales que iam escurecendo cada vez mais e mais.

— ... mentiu sobre não morrer...

Súbito, uma presença. Passos. Alguém se aproximava. Adiantou-se para a porta, a fim de recepcionar Dohko. Ele deveria estar trazendo o elemento final do Rito de Athena. E pelo visto, mais uma vez não lhe sentia o cosmo. Mas não porque estivesse distraído de novo, ou porque o Cavaleiro de Libra tivesse disfarçado seu cosmo. E sim porque ao invés da figura envelhecida e atarracada do chinês, tinha diante de si um adolescente loiro, de enormes olhos da cor do céu de verão, vestindo uma calça jeans escura, camiseta azul sem manga, calçando botas de couro marrom.

— Hyoga? – a surpresa fez sua voz sair mais alta do que gostaria.

— Milo.

— O que faz aqui?

“Ah, de novo a agressividade! Não consigo controlar, Camus! Mas é demais...ELE... ah, me perdoe, Camus!”, pensou angustiado, procurando se conter com todas suas forças.

— O Mestre Ancião me mandou vir...

— O que aquele velho tá pensando? – rosnou Escorpião. Tentava arduamente lutar contra aquelas sensações... o ressentimento afluía como lava da boca de um vulcão!

— Me perdoe, Milo. Mas foi realmente o Mestre Mestre que me incumbiu de vir te trazer o último elemento...

— Resolveu se aposentar antes do tempo ou não pode levar adiante as coisas que combina com os outros? Ou será que finalmente “bateu as botas” também? Porque mais de 250 anos de idade… hah, uns vivendo tão pouco e outros...

O menino permaneceu no umbral de mármore, instintivamente segurando contra o peito o que fora levar. Arfava levemente, não se sabia se de tensão, cansaço... ou medo. As mechas douradas subiam e desciam pelos ombros fortes, acompanhando a respiração entrecortada. A boca entreaberta não ousava proferir palavra, e se Milo observasse com atenção, teria reparado um discreto tremor no lábio inferior.

Aquela imagem retraída comoveu levemente o grego, que passou a mão pelo rosto suado, num último esforço para se recompor. Desta vez, a voz saiu um pouco suave:

— Tudo bem, Hyoga. Entra, vem até aqui.

O jovem cavaleiro hesitava.

— Venha, vamos. O que você trouxe?

O russo estendeu-lhe um pequeno frasco prateado.

— Hum. Eu entendi o velhote dizer que vocês, Cavaleiros de Bronze, iriam ficar no berçário e deixar tudo por nossa conta, desta vez – ironizou Escorpião.

Cisne franziu o cenho, agora levemente irritado:

— Estou cumprindo ordens, Milo. Não precisa ficar tão zangado. Vim te entregar isto e vou-me logo.

— Ora... estamos ficando nervosos agora...

— Sim, você conjugou bem o verbo, “estamos”.

Um breve e talvez perigoso momento de tensão passou entre os dois. Milo pegou o frasco da mão de Hyoga, e considerou o objeto.

— O que é isto? Mais óleo sagrado?

— É o sangue de Athena.

— O quê???

O mais novo tomou a liberdade de caminhar até onde seu mestre se encontrava. Ficou ligeiramente assombrado ante aquela imagem. Etérea. Feérica.

Nunca... nunca havia visto o mestre tão lindo.

Elegante e comprido, o esbelto corpo metido numa longa túnica branca, levemente drapeada nos ombros, o decote a desvendar-lhe de forma discreta o peito forte e imberbe, os cabelos azuis esverdeados, muito longos, espalhados pelos travesseiros, indo em todas as direções.

— Ei, moleque – Escorpião tentou tirá-lo do transe

— O mestre... o mestre está tão bonito, Milo.

Milo sentiu um aperto na garganta. Relaxou os punhos e suavizou o tom ao responder:

— Está sim.

— Você fez um ótimo trabalho.

— Ei, não é como se o Camus já não fosse naturalmente lindo e...

Calou-se, apavorado. O QUE FOI AQUILO?

Ah, não, droga, já não bastava deixar transparecer pro velho caroço de azeitona?

Um pequeno sorriso desenhou-se rapidamente no rosto jovem à sua frente.

— Sim, ele sempre foi lindo. Mas eu nunca o vi assim... não sei. Resplandecente. Sereno. Irreal. Angelical.

— Hum, certo, obrigado, mas eu sinceramente espero não ver ele mais assim por muito tempo.

— Tem razão. Nem eu!

— Hyoga, isto é mesmo sangue de Athena?

— Sim. A etapa final consiste em preparar o caminho do Mundo dos Mortos até o nosso. O sangue será como uma âncora espiritual para que as almas dos cavaleiros aportem em seus corpos de maneira efetiva.

— Hum...oh... Athena... Athena está ferida?

Resistindo ao anseio de responder jocosamente “Não, Milo! Ela fez esse sangue cenográfico com groselha e catchup”, o loiro disse:

— Não com gravidade.

— Athena... – murmurou o mais velho, mirando o frasco, de cerca de 10cm. Cinco frascos daquele... de repente, lembrou-se num sobressalto – Hyoga! E quanto a Shura? Shaka, Mu e Fênix conseguiram trazê-lo?

— Sim, eles resgataram seu corpo. Como, eu nunca vou entender.

— Provavelmente estão bem cansados também, ainda mais o Ikki, que é...

— “Somente um Cavaleiro de Bronze” – imitou o loiro, roubando uma frase amplamente proferida pelo rapaz à frente.

— Moleque... – rosnou, entre dentes – Bom, vamos logo ao final desse tormento.

Ambos aproximaram-se mais do leito. Segundo o veterano de Batalhas, o sangue deveria ser aspergido no peito, na boca e entre os olhos de Camus.

— Certo. Então...

— Então já me vou, Milo.

— Espere, Hyoga.

O menino deteve-se, já no batente da porta. O grego foi até ele.

— Você faz isso.

— O quê? Eu?… — o queixo do adolescente quase foi ao chão.

Escorpião colocou o frasco nas mãos de Cisne, fechando-lhe os dedos. Encarou-o gravemente.

— Faça. É uma ordem de... de um substituto temporário de seu Mestre.

Uma leve brisa entrou pelo recinto. Hyoga encarou longamente o homem à sua frente. Aquele ressentimento... não se encontrava mais no fundo daquelas íris de azul profundo e penetrante. Apenas... tristeza. Pura e simples. Ele assentiu e pôs-se a fazer o indicado. Tentou não tremer mais que o necessário. Com os dedos, espalhou um pouco do sangue santo no peito, entre os olhos e por último, nos lábios de seu amado mestre.

Assistindo àquela cena como quem relembra um sonho difuso que desaparecera ao despertar, Milo perguntou:

— Hyoga... já escreveu cartas a alguém?

— Hã? – estranhou aquela indagação – Eu... eu não. Nunca.

— Hah. Claro. Você TAMBÉM é um “Cavaleiro de Gelo”.

Obviamente, o russo não compreendeu nem a pergunta, muito menos a amargura imprimida na última declaração. Entretanto, ante a menção de “Cavaleiro de Gelo”, uma lembrança passou-lhe pela mente. Tornou a olhar o plácido rosto de Camus, agora tingido com o sangue da Deusa.

— O meu mestre uma vez me contou uma história sobre cartas. Foi há muito tempo, eu ainda estava no início do meu treinamento...

A pulsação de Milo alterou-se estranhamente.

— Ele me disse – continuou Hyoga, com sua voz suave e aveludada. “Essa voz é mesmo característica de vocês, Cavaleiros de Gelo?” — que durante seu duro treinamento na Sibéria, recebia cartas de um amigo, que nunca o esqueceu. Sabia disso porque as cartas chegavam religiosamente todos os meses. Às vezes, até mais de uma vez por mês. Mesmo que Camus não as respondesse, o amigo dele nunca deixou de escrever... pois as cartas nunca deixaram de chegar.

O coração de Milo comprimia-se dolorosamente no peito. Queria falar, no entanto, a boca estava seca demais. Foi com muita dificuldade que perguntou:

— É mesmo? Mas por que ele não respondia às cartas desse... desse tão dedicado amigo?

— O mestre dele as queimava.

— O quê?

— O mestre de Camus não permitia que ele as abrisse. Mostrava-lhe as cartas e as atirava à lareira. Dizia que os Cavaleiros de Athena deveriam viver apenas para o dever, reservando seus sentimentos à Deusa e à humanidade de uma forma geral. Um Cavaleiro de Gelo deveria ser ainda mais desapegado aos sentimentos que os demais, até mesmo pelo bem de seu cosmo gelado.

— Ele... ele não leu... – balbuciou Milo, incrédulo – O mestre dele as jogava no fogo? Isso é horrível...

— Sim, de fato. Ainda mais se considerarmos que ele era apenas uma criança, sozinha naquele lugar inóspito, por tanto tempo, com um mestre tão rigoroso. Aquelas cartas, vindas de um amigo que nunca se esqueceu dele, seriam o único conforto que Camus poderia ter.

Ambos mantiveram um breve silêncio. Milo o quebrou, até para evitar uma reação mais emocionada:

— Então ele nunca leu nenhuma das cartas...

— Uma vez ele leu. Encontrava-se só, na cabana onde morava com o mestre. Certa vez, seu mestre teve que ir ao vilarejo, muito distante dali, para comprar mantimentos. Nesse meio tempo, uma carta chegou. Camus ainda resistiu algum tempo; ela ficou em cima da mesa, até que ele não suportou mais... então ele cometeu, aos 10 anos, aquele que foi o primeiro ato de desobediência em sua vida: ele abriu a carta, aproveitando a ausência do mestre. E tão entretido que estava, lendo a primeira carta de sua vida, de seu tão fiel amigo que... não percebeu a chegada do mestre.

— O que aconteceu?

— Ele foi castigado. Severamente castigado.

Milo sentiu as pernas vacilarem. A língua presa, a garganta em fogo. Era como se estivesse envenenado.

— Que... que tipo de castigo?

— Ele nunca contou.

Deu as costas ao garoto. Não estava certo de conseguir disfarçar por mais tempo. Era demais para ele... um segredo de anos descortinava-se ali. Como odiou Camus todo esse tempo pelo descaso, pelo desprezo, pelo silêncio!

— Milo. Você ama o meu mestre?

— Que tipo de pergunta é essa, moleque?

— Você ama o meu mestre?

— Isso não lhe diz respeito.

— Claro que diz. Ele é MESTRE, e mais do que isso, é como um pai para mim.

— E daí, eu não tenho que te responder nada.

Hyoga o considerou com um singelo sorriso, antes de declarar:

— Se você não o amasse, diria apenas “não”.

— E que tipo de resposta seria essa, se ele é meu amigo, seu tonto?

— Sabe muito bem que não falo de amor de amigo.

— Escute aqui, seu pato de bronze, eu não tenho obrigação nenhuma de responder nada de mim a uma criança como você, ouviu bem?

— Será que sou eu a criança aqui?

— Ora, seu...

— Quer saber, Milo? Me dá licença. Meu trabalho acabou, não acabou?

— Sim. À vontade, Cavaleiro de Cisne.

O loiro caminhou até a porta. Milo o observou: alguma coisa naquele andar lembrava o próprio caminhar altivo de Camus, na tenra juventude. Hyoga parou na porta. Tornou o rosto muito digno, muito resoluto, na direção do que ali permaneceria.

— Milo... queria te pedir uma coisa.

— O que é agora?

— Em algumas horas, meu mestre voltará à vida. E terá uma nova chance de ser feliz. Milo, eu te peço: faça ele feliz.

Arregalando os olhos ao mesmo tempo em que sufocava uma exclamação, o grego sentiu-se imobilizado por aquele surpreendente pedido.

— Sei que não tenho direito de te pedir nada. Ainda mais que você me odeia. Mas eu tenho o direito de querer que o meu mestre seja feliz!

— Hyoga...

— E eu sei... eu vejo: é você quem fará isso.

— Hyoga, eu não te odeio... – Milo murmurou, quase sem forças.

O adolescente fez uma profunda reverência e preparou-se para sair. Então foi detido pelo chamado imperioso do mais velho:

— HYOGA!

— Miraram-se mais uma vez, profunda e solenemente. Assinariam um acordo de almas:

— Hyoga, eu farei Camus feliz. Você pode ficar tranquilo. É uma promessa.

Com um sorriso confiante, o loiro disse baixinho “eu sei”. E saiu.

Milo dirigiu-se à cama onde repousava seu amigo. O crepúsculo se aproximava. Não faltava mais muito tempo. Tomou-lhe a mão, mais gelada do que jamais fora, e sentenciou, com toda a convicção de sua alma:

— Ouviu bem, Cavaleiro de Aquário? Eu, Milo de Escorpião, vou te fazer muito feliz. Eu prometo. EU VOU TE FAZER FELIZ!

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Notas finais
Milo fez uma promessa... cumprirá? Obrigada por lerem, e até o próximo capítulo. Beijo grande :x