Grilhões Eternais

26 Em busca de Camus


Notas iniciais
Adelante, amigos...

A névoa cerrada que bloqueava sua percepção do que havia ao redor não ocultou o vulto à sua frente. Ele perdera a noção de quanto tempo caminhara tateando no vago, de há quanto tempo se perdera no incógnito.

Adiantou-se até a misteriosa silhueta e percebeu que ela não estava só. Alguém encontrava-se caído no chão. Forçou a vista e constatou, horrorizado:

—Agatha!!! — gritou.

Junto dela uma criança, cujo rosto não se distinguia: cachos loiros caíam-lhe pela face rosada molhada de lágrimas. Mas por mais que forçasse a vista, não lhe via os olhos... a boca... o nariz... uma visão angustiante!

Antes de correr para ela, percebeu que a pessoa de pé perto da mulher estirada e ensanguentada não era ninguém menos que seu prisioneiro.

— Camus de Aquário! O que fez com ela? — rosnou — FALE!!!

O Santo não respondeu. Fitou-o com expressão melancólica. Tornou o olhar para a amazona ferida; uma imensa tristeza pareceu invadi-lo.

— Por que faz essa cara de piedade?!? Foi o SEU AMADO Escorpião quem fez isso com ela!!!

— Tem certeza?

O Cavaleiro de Prata quase caiu para trás... a voz do cativo... era a voz DELA!

— O que significa isso? — perguntou, assombrado.

Pesadas lágrimas caíram dos olhos de Camus, cuja tonalidade agora tornava-se de azul índigo para o verde mais esplendoroso que já vira.

Os olhos de Agatha.

— Por Athena!! — clamou, trêmulo.

— Ainda ousa dizer o nome Dela? — a voz da amada saía dos finos lábios do aquariano; malgrado o teor da indagação, fora feita de forma tão branda quanto triste.

— A... Agatha... — confuso, viu a lenta transformação nas formas das duas figuras; agora era Camus quem jazia ferido no chão, e a guerreira quem chorava de pé, contrita, as mãos brancas unidas no peito. A criança saiu de perto do homem desacordado e aproximou-se da mulher, agarrando-se a ela, afetuosamente.

— Ele... esse é...

— Não podemos repousar por causa do seu ódio — disse Agatha, pegando o menino no colo. E considerou o Cavaleiro caído — o sofrimento DELE... está ecoando em nossas almas...

— O QUÊ?!

E Albiore mirou o jovem, nu, deitado por sobre seu sangue vivo e abundante, coberto de feridas e equimoses.

— Ele é tão inocente quanto o sangue de teu sangue. Quanto o fruto de meu ventre — continuou ela, com voz límpida e firme — Quanto a semente de nosso amor. Você trocou nosso amor por ódio... Athena por Hades...

— Não... — gemeu, chorando já.

— Albiore... ainda há tempo de salvar sua alma... de salvar NOSSAS ALMAS...

— Agatha...!

Camus e Agatha, juntamente com o infante sem traços, começaram a desaparecer diante dele. Desesperou-se: não queria se separar dela... DELES novamente!

— AGATHAAA!!! — e a mão espalmada dirigia-se, no próximo instante, para o teto alto do quarto castelar.

Sua respiração pesada ecoou pelo recinto. As lágrimas não cessavam de descer, e ele suava muito, malgrado o frio daquela terra. Enxugou o suor com os dedos trêmulos.

Seria possível? Aquele sonho teria sido de fato uma… comunicação? Um aviso? Ou teria sido gerado pela impressão causada pelas palavras de Milo? Afinal fora ele quem, tomado pela cólera, dissera que Agatha poderia não descansar em paz por causa do ódio, da covardia e das infames ações do Cavaleiro de Prata. Sim, havia de ser meramente uma excitação dos nervos, algo como uma sugestão atuando em seu subconsciente.

Lembrou-se da criança e soluçou alto, a dor em seu peito consumindo-o cada vez mais.

“Por Athena!... “, apenas pensou: não poderia sequer deixar aquela súplica escapar-lhe pela boca.

Lembrou-se com pavor do que ouvira no sonho… o que a própria Agatha dissera... fora aquilo mesmo?

Que nem ela nem seu filho poderiam encontrar a paz... por causa do sofrimento de Camus?

“...o sofrimento DELE... está ecoando em nossas almas...”

“ Ele é tão inocente quanto o sangue de teu sangue.”

Sentiu como uma apunhalada no peito. Chegou a crispar a mão ali, amassando o pijama.

Teria ido longe demais?

E… haveria como voltar?

HAVERIA MESMO?

Ficou muito tempo em meio à escuridão do recinto e de sua própria alma, pensando sobre o que fazer. Se é que havia alguma coisa que se PODERIA fazer.

“Albiore... ainda há tempo de salvar sua alma... de salvar NOSSAS ALMAS...”

*************

—CAMUS!!! — chamou Milo, erguendo-se de súbito dos níveos travesseiros.

— Milo! — Hyoga acorreu, tentando acalmá-lo.

— Hyoga! Onde... eu...

— Estamos de volta aos aposentos do Papa — esclareceu Afrodite — Desculpe, fiz você dormir porque começou a... ver uma sessão... quando estávamos no jardim...

— Oh... sim.

Calou-se, ensimesmado.

— E agora, Milo... tava sonhando só ou... ou era...

— Não, Mask, agora era só um sonho mesmo... — tirou a franja da testa suada. Parecia distante.

Crispou as mãos no lençol.

Como queria que AQUILO tivesse sido sonho também.

O loiro aproximou-se dele, com cuidado.

— Milo, me diz... Afrodite disse que... que parecia que Camus... que meu mestre Camus estava sendo...

— Não fale, Hyoga, não diga nada — e segurou com força a mão do adolescente, tanto querendo passar força como receber. Esforçava-se muito para não desabar na frente do rapaz, que já parecia prestes ao mesmo.

O breve silêncio que se instalou ali foi quebrado pelo escorpiano, ao cabo de alguns minutos:

— Eu quero saber... Mu já voltou?

—Ainda não... — respondeu Shun, levando um copo de água para o grego.

— MERDA!!! — praguejou Milo, largando a mão de Hyoga, antes que a machucasse, tamanho tremor causado pela frustração.

— Não se passaram seis horas ainda… — murmurou o jovem de cabelos verdes, ainda estendendo a bebida, olhando para o chão. Estranhamente se sentia culpado de alguma forma absurda, só por ser o seu mestre o mentor de todo aquele maldito sequestro. Percebendo seu estado, Milo aceitou o copo, e abrandou a voz:

— Tudo bem, Shun. Já vai acabar.

— Sim! E eu vou te ajudar, Milo!

Após beber a água, o escorpiano devolveu o copo e, encarando fixamente o garoto, perguntou:

— É sobre isso que quero falar, alfacinha... tu tem certeza que quer fazer isso mesmo?

O menino pareceu levemente indignado:

— Nem tem que me perguntar isso, Milo.

O escorpiano olhou rapidamente para Hyoga e viu o loiro experimentar simultaneamente desejo por ver descoberto o cativeiro de seu mestre e temor pelo que o namorado iria fazer. Não estava numa posição invejável, não mesmo.

— É porque... pode ser perigoso, você sabe.

— É o MEU mestre quem provocou isso tudo. E é o mestre de Hyoga quem está sofrendo nas mãos dele. Eu tenho obrigação!

— Não. Não tem. Mas eu agradeço, Shun. O que posso oferecer como troca é a garantia de que vou proteger você, OK?

— Você promete, Milo? — indagou Cisne, muito sério.

— Prometo sim, patinho.

O russo apertou-lhe a mão, sob forte emoção, e o grego o puxou, num abraço apertado. Shun, que tinha as mãos nos ombros dos dois, juntou-se a eles.

— Aaahhh, também quero! — e Afrodite se jogou ali, já derramando lágrimas.

— Ai, caramba... — resmungou Máscara da Morte, coçando a cabeça ante aquele abraço coletivo.

— Carlo — Aioria chamou-o da porta — avise a eles... Mu chegou.

— Até que enfim, cacete.

Os quatro se ergueram quase num salto.

— Cês ouviram, né? — disse o italiano, animado.

— Saga já está a postos? — quis saber Afrodite.

Assentindo com a cabeça, o leonino olhou para Milo e Shun:

— Sim. Todos estão se reunindo no Pátio das Estrelas. E vocês, estão prontos?

—Claro. Vamos lá!!! — responderam, quase ao mesmo tempo.

*************

O horizonte já adquiria um tom de profundo anil. Milo perdeu-se naquela cor, associando-a aos olhos de Camus. Sentiu um forte aperto no coração. As últimas cenas vistas ainda rasgavam seu íntimo de alto a baixo. Ver seu amado ser violado por aqueles asquerosos espectros foi muito mais do que ele poderia aguentar, e por ele sequer estaria de pé, tamanha a dor e desolação que era rememorar tais imagens: Camus imobilizado por tentáculos de metal, o rosto desfeito por lágrimas, a expressão de intenso sofrimento, o sangue em seus lábios bem feitos, os hematomas em sua pele acetinada, aos mãos invasoras em seu corpo ferido...

No entanto fazia-se necessário manter na mente apenas uma coisa: descobrir se Camus estava realmente onde Saori achava que estava.

Seu instinto já dizia que sim.

E então...

— Milo — chamou Mu. O outro aproximou-se. Fez-se um grande silêncio — Aqui está, meu amigo.

Entregou-lhe um colar com um grande medalhão dourado.

— Isto é...

— O artefato de que falei. Ouça com atenção: Saga vai usar o golpe em você. Ele já foi informado sobre a localização do castelo remanescente da família de William. Você e Shun vão parar no lugar, porém não no castelo exatamente. Seria muito arriscado se materializarem diretamente no covil do inimigo. Seriam presas fáceis.

— Eu sei. O lugar deve estar bem guardado, a julgar pelo número de... de espectros que vi na última sessão — chegava a doer falar aquilo.

— Vocês devem de alguma forma confirmar se Camus está realmente lá — continuou Saga, trajando sua magnífica armadura — e então, através das Correntes de Andrômeda, que conseguem transpor meus portais dimensionais, voltarão para cá. E enfim, se for o caso, retornar ao local com reforços para efetuar o resgate.

— Entendido... e, Mu... ainda não entendi o uso deste negócio aqui.

— Está vendo este medalhão? — o ariano pressionou um pequeno botão, e o objeto abriu-se, revelando um compartimento — Você vai colocar um pouco da terra do local aqui dentro. Dessa forma, posso sincronizar meu cosmo com esse lugar e efetuar o teletransporte.

— Com a terra? — estranhou o grego, quase incrédulo.

— Sim. A terra é o elemento primordial de Gaia, a Mãe Terra.

— Hum. Entendi, eu acho... bom, vamos torcer que Camus esteja lá mesmo.

— Eu creio que esteja sim — disse Saori — Milo, Shun, por favor, tenham cuidado.

Ikki se aproximou do irmão mais novo, pondo as mãos nos ombros dele.

— Shun, por favor. Volte são e salvo...

— Não se preocupe, Fênix, eu o protegerei com minha vida — alegou o escorpiano, vivamente.

O jovem fez força para assentir com a cabeça.

— Eu peço o mesmo... — falou Hyoga, encarando carinhosamente o namorado.

— Voltaremos sãos e salvos. Mas... e Saga? — indagou Milo, encarando o geminiano — Pelo que o Mestre Ancião disse, esse golpe debilita muito ele...

Todos olharam para o ex-Papa. Ele sorriu levemente. Estava tranquilo como há muito não se via.

— Não se incomodem comigo. Mesmo que eu morresse, ainda assim não pagaria o que fiz.

— Mas eu não desejo sua morte, Saga.

— Eu sei, Milo. Você sempre foi muito honrado e fiel aos seus deveres. Fez o que fez por causa dos meus desmandos... da minha tirania...

O escorpiano pôs a mão no ombro do mais alto, sorrindo-lhe afetuosamente:

— Continua o discurso arrependido depois que o Camus estiver aqui pra ouvir também, tá?

— Sim — o outro grego retribuiu-lhe o sorriso, só que tristemente.

Milo fitou-o, e por um breve momento, lembrou-se da infância, quando idolatrava aquele considerado um deus de força e bondade. De como o admirava, de como queria ser como ele, de como tentava nos treinos impressioná-lo. Apertou a mão, um tanto emocionado:

—Saga… não morra.

— Não morrerei. Preciso pedir perdão a Camus pessoalmente.

— Isso aí.

Após uma última e profunda olhada mútua, Saga caminhou até uma certa distância. Milo, trajando calça e blusa de manga pretas, e Shun com sua armadura de bronze, andaram na direção oposta.

— Boa sorte, meus cavaleiros — desejou Athena.

Saga usava sua armadura dourada a fim de minimizar os danos que previa receber em seu corpo. Concentrou seu cosmo, pouco a pouco esferas luminosas foram orbitando em torno de sua imponente figura. Seus longos cabelos azuis elevaram-se no ar e seus olhos brilharam como as estrelas que se vislumbravam no centro do pequeno universo entre suas mãos. Todos ficaram boquiabertos com tal manifestação de poder; não tinha sido à toa que conseguira usurpar o trono do Patriarca. Seu cosmo era monstruoso e magnífico, justificava a fama de Santo que poderia chegar a ser um deus.

Os demais presentes miraram Milo e Shun com apreensão. Seriam ATINGIDOS POR AQUELE GOLPE. Chegariam realmente ILESOS ao seu destino?

Quando os feixes luminosos convergiram-se em suas palmas, e ele próprio pareceu ter atingido o fulgor de uma supernova, o Cavaleiro de Gêmeos pronunciou:

— EXPLOSÃO ESPAÇO-TEMPORAL!!!!!

E desferiu a rajada faiscante como cometas rumo aos dois Santos, que desapareceram praticamente no mesmo intante. Sequer ouviram-lhe os gritos que eles deram no turbilhão ofuscante para o qual foram sugados. De fato, o Mestre Ancião acertara em dizer que NÃO seria indolor... na verdade, estava bem longe de ser apenas isso. Seus ossos pareciam se partir um a um, e o que sentiram na carne assemelhava-se a perfurações de milhares de cacos de vidro. Seus globos oculares pareciam derreter-se nas órbitas, fazendo-os cerrar os olhos com força. Milo, sentindo a cabeça explodir, tentou segurar a mão de Shun, no afã de proteger o adolescente. Entretanto, não pôde alcançá-lo; Andrômeda já se encontrava longe de seu alcance.

— SHUUUN!!! SHU... — antes que pudesse chamar uma segunda vez, chocou-se violentamente em algo sólido. Após alguns minutos, conseguiu abrir os olhos. Escuro. Tateou a superfície na qual tombara: terra… grama…

— Aaahh… — gemeu, dolorido, apalpando o próprio corpo para verificar se não havia quebrado nada. Olhou ao redor: de fato, não estava mais no Santuário...

Era noite e um frio intenso logo se chocou contra sua pele nada preparada. O pouco que conseguia enxergar se devia ao luar que se revelava por trás das nuvens. Uma floresta... a tênue iluminação provinda do astro celeste refletia-se na densa névoa que se esparramava pelas silhuetas das árvores, conferindo ao local aparência feérica. Havia sido dito que o castelo de William era cercado por uma floresta. Estariam perto?

Viu o Cavaleiro de Bronze a uns seis metros dele. Foi até o menino, preocupado. Tanto por sua condição física quanto pelo temor de que ele pudesse falar algo em voz alta. Deveriam fazer silêncio absoluto, pois certamente encontravam-se em território inimigo.

— Shun... você está bem? — sussurrou — Não faça barulho.

O garoto fez uma careta de dor, sentando-se, esfregando a testa. Respondeu, quase inaudivelmente:

— T-tudo bem, Milo...

— Vem, precisamos nos esconder. Já ocultou seu cosmo, né?

— Já, sim...

— Bom garoto. Sabe onde o portal tá aberto?

— Ali, perto daquela clareira... vê o ponto luminoso no ar?

Apontou para uma luz branca, quase imperceptível graças à neblina, a cerca de oito metros de altura.

— Espero que não apareça ninguém por aqui. É discreta, mas dá para ver que não é algo natural — comentou o japonês, apreensivo.

— Não se preocupe, vai ser rápido. Você fica aqui escondido enquanto vou sondar o lugar. Olha — e apontou a sinistra sombra de um castelo contra o firmamento enluarado, no alto de um monte.

— Estamos perto...

— Sim... calculo que uns 500 metros. Estamos com sorte, está nublando mais. Logo até essa luz da lua vai sumir.

— Milo, vai tentar ir até lá?

— Vou, preciso obter a prova de que Camus está lá dentro, e onde.

— Mas como vai fazer is...

— Shhh! — cobriu a boca do adolescente com as mãos, puxando-o para uns arbustos. Distinguiram a uma média distância dois vultos. O luar refletiu suas súrplices.

— Espectros de Hades — sussurrou o grego — não haveria outra razão para estarem fazendo uma ronda numa floresta escocesa...

— ... se não fosse realmente o castelo de Radamanthys... Milo, só pode ser aqui, isso prova tudo!

— Certo. Agora é verificar em que lugar do castelo Camus está.

— Eu entendo...

— Por favor, não se mova... não manifeste seu cosmo em hipótese alguma, verdurinha. Aqui é um bom lugar. E esse seu cabelo verde ajuda na camuflagem.

O mais novo permitiu-se sorrir, abaixando-se mais e embrenhando-se na vegetação.

— Shun. Se eu não voltar em uma hora, atravesse você o portal.

— Milo!

— E... não se esqueça disto — pediu, recolhendo um pouco da terra fofa e úmida, e depositando dentro do compartimento do medalhão feito por Áries — entregue ao Mu. E traga reforços.

— Milo, por favor... — o menino pegou o colar e o pôs.

— É só uma formalidade, verdurinha, não esquenta. Eu vou voltar — finalizou, dando uma piscadela.

— Por favor... eu não quero que Hyoga sofra mais. Ele... ele gosta muito de você.

O escorpiano deu-lhe um soquinho afetuoso no ombro.

— Ei, eu fiz uma promessa ao Freezer Junior. Fica frio.

Sob os apreensivos olhos verdes, levantou meio corpo, gravando bem o lugar onde deixaria o Santo de Bronze. Sinalizou uma despedida com os dedos indicador e médio, e deu um sorriso encorajador. Saiu dali silencioso como as sombras nas quais se abrigou pelo caminho. Passou por árvores e vegetações próprias das frias florestas temperadas, escondendo-se por vezes por trás dos grossos troncos das coníferas ao ouvir qualquer ruído. Sondava cuidadosamente os arredores, e distinguiu dois espectros que passaram ao longe, indo na direção contrária à que estava Shun. Ficou aliviado.

Abaixou-se mais, praticamente andando de quatro: sábia decisão.

Mais espectros!”. Três... não, quatro.

Procurou contornar no sentido oposto, ainda na rota para a fortificação. À medida que se aproximava, sua pulsação acelerava. Parou para controlar isso. Mesmo ocultando seu cosmo, não seria impossível que batimentos cardíacos pudessem ser percebidas caso muito descontroladas. Não podia colocar tudo a perder, de jeito nenhum! Sua boca estava muito seca. Passou a língua pelos lábios. Já nem sentia seu corpo direito, tal o amortecimento causado pelo frio cruel. Isso o preocupou: dentro de pouco tempo perderia a sensibilidade, o que poderia significar descuido, e descuido poderia significar fracasso. Seu nariz parecia queimar, tanto quanto seus olhos. Sem sua armadura e sem poder ativar o cosmo, encontrava-se desprotegido.

Tinha que ser rápido.

Mas pelos deuses. Por TODOS eles. Como entraria no castelo?

A bem dizer, seguia para lá sem imaginar como o faria. Se a floresta era vigiada por espectros, o que dizer da fortaleza? Mas de jeito algum sairia dali sem ver a face do amado, sem descobrir seu cativeiro. O maníaco do Albiore dissera que não o mataria. Mas... e se Camus tivesse sucumbido? Se não tivesse resistido a tantos suplícios? E ninguém poderia garantir que ele não fosse agredido fora das sessões.

Nada vai melhorar se eu ficar pensando nessas coisas Preciso é seguir adiante “, pensou, decidido. Foi quando viu, à sua frente, porém de costas, encostado a uma árvore, um espectro.

Sozinho?...”

Ele esperou um pouco. Valeria a espera.

Sem seu cosmo, não diferia de um homem comum. No entanto, tinha uma coisa que homens comuns não possuíam.

Suas quase duas décadas de árduos treinamentos. Treinamentos incomuns para homens do mundo. Treinamentos para Guerreiros Santos.

Haveria de ser seu trunfo.

Merda... se ao menos a porra da armadura dele tiver um ponto descoberto... vulnerável...”, analisava em pensamento, simultaneamente tracejando um plano. Por absoluta sorte, o sentinela virou-se um pouco, revelando o perfil.

Havia. Forçando a vista, pôde perceber que uma parte do pescoço era visível tal ponto de ele poder descobrir-lhe a pele. Um ponto curto, mínimo.

Mas descoberto.

O corpo era quase completamente coberto. Além do capacete sinistro, com algo no alto como dois ferrões brancos, uma máscara com grandes esferas vermelhas a proteger os olhos. Isso era uma desvantagem: não poderia ver para onde o espectro estaria olhando. No entanto, a máscar cobria totalmente o rosto, e isso seria incrivelmente valioso para o que pretendia.

Athena”, clamou numa esperançosa e silenciosa prece, “guie minha mão. Guie meus passos.”, e tateando o gélido solo, encontrou um galho de média espessura.

A ponta era bem fina...

Observou o servo de Hades por mais alguns minutos, aproveitando-se do movimento dele de rodear a árvore, provavelmente checando todas direções. Voltou para onde estava.

O maior erro dele foi sua preguiça: queria ficar escorado no tronco, displicentemente. E quando o fez, de forma a ficar de costas novamente, o escorpiano provou a familiaridade com o animal representado por sua constelação: projetou-se no ar, um salto mortal que cortou a névoa, economizando perigosos sons de folhas secas sendo pisadas. Pousou por trás do guarda, felina e perigosamente. Seus olhos injetados foram a última coisa vista pelo espectro, que se virara no último milésimo de segundo, apenas para receber na garganta a ponta do galho que Milo enfiara com precisão assassina, tal qual uma lança. O Santo calculara o ponto que não lhe permitiria nada mais que um gemido rouco. Torceu a arma presenteada pela natureza, extirpando do buraco na carne sangue denso e abundante. Quando foi ao chão, antes que o soldado pudesse fazer qualquer barulho, Milo pisou-lhe com toda força o pescoço, ouvindo desta vez apenas o som de ossos se partindo, e de um arfar terminal. Segurou-o com o pé, levemente ofegante e, por que não dizer, bem incomodado.

“Não foi nada limpo... não sou de atacar ninguém pelas costas. Mas não havia outra saída, nas condições em que estou. Não havia outra saída.”

Por Camus, faria o que fosse preciso.

Milo arrastou o corpo já sem vida por baixo dos arbustos. Milagrosamente encontrou uma pequena gruta num barranco verdejante, de frente para um rio. Olhou em torno, verificando se era seguro ir até ali. Constatando a ausência de mais sentinelas nas imediações, levou o cadáver para a reentrância providencial. Retirou dele a súrplice negra. Vestiu-a.

Era mais pesada do que imaginava! Provavelmente precisaria de cosmo para envergar aquela horrível armadura, que trazia consigo um cheiro nauseabundo de morte. Enrolou o cabelo e o prendeu bem no alto da cabeça antes de pôr o capacete.

Saiu apressadamente da caverna e retomou o caminho rumo ao castelo. Pelo menos não sentia mais frio. Viu que pela entrada principal circulavam alguns guardas. Engoliu em seco ao se aproximar...

— Alto lá, Ferraris de Plecotero! Por que deixou o seu posto antes da hora?

Milo sobressaltou-se, porém não deixou transparecer. Seu interlocutor usava máscara que deixava a voz abafada. Com sorte, conseguiria enganá-lo... se ao menos tivesse ouvido a voz do soldado que matara! Não havia pensado nisso. Pelo menos a altura e a compleição física assemelhavam-se.

— Tenho informações para Lorde Albiore — Milo forçou o tom, deixando-o bem rouco.

— O que houve com sua voz?

— Deve ter sido o frio deste maldito lugar.

O outro riu, debochado.

— Ficando doente como um reles humano? Que vergonha!

— Que tipo de informações traz, Ferraris? Viu alguém suspeito na mata? — demandou um espectro bem alto.

— Sim. Três ou quatro.

— Como eram?

—Com certeza não eram dos nossos.

Os vigias se entreolharam.

— Será que são Santos de Athena? Para resgatar o prisioneiro Aquário?

Milo teve que se esforçar muito para não deixar escapar uma exclamação. Mordeu os lábios, aflito. Seu coração disparou.

— Melhor ir falar com ele, Ferraris. Deve estar na masmorra com o Lorde Radamanthys.

Ante aquele nome, arrepiou-se de ódio. Deixou escapar:

—E o prisioneiro está lá?

— Que tipo de pergunta é essa? — o grego percebeu a desconfiança na indagação do sentinela. Uma gota de suor desceu-lhe pelo rosto.

— É que ouvi dizer que ele seria torturado em outro lugar hoje.

— Ah, é? Não estou sabendo. Ele costuma ser torturado na câmara central, que é maior. Ah, como eu queria ver...

— Dizem que é muito atraente. E que fica muito sexy enquanto está sendo torturado — riu um deles.

— Bem que o Lorde Albiore poderia deixar a gente se divertir com ele também, como deixou Verônica, Laimi, Zeros... eu o vi de relance quando fui levar água e ração à cela dele. Gostoso é pouco... é realmente delicioso!

O ódio fazia todas as fibras do já sofrido Milo vibrarem. Rangeu os dentes, protegido pela máscara. Fez força para manter-se calmo. Estava tão perto!

— Vá, vá logo! — mandou o espectro alto — Eu que não quero arriscar perder aquela bunda gostosa antes de entrar nela. Ainda tem seis dias pela frente... se tantos já comeram, quem sabe não chega a nossa vez?

Gargalhadas pérfidas feriram os ouvidos do escorpiano enquanto ele entrava. Segurou as lágrimas por baixo da nefasta máscara: tinha que manter a serenidade!

Atravessou o pátio principal sob a luz dos archotes que ardiam na noite gélida. Adentrou o castelo, sentindo o temor aumentar: o lugar era imenso! Seria como procurar agulha em um palheiro! Mesmo assim, não se deteve. Levantaria suspeitas vagando para lá e para cá. Passou por um corredor repleto por flâmulas, brasões e quadros centenários. Seus passos ecoavam pelas altas e sombrias abóbodas. Apurou os ouvidos e percebeu o eco de outros passos. Retardou os próprios para tentar escutar o que diziam.

— Vai levar de novo a refeição para o prisioneiro? O desgraçado não come!

— Que posso fazer, ordens do Senhor Radamanthys... é triste me empenhar em minhas receitas soberbas para o miserável nem encostar nos pratos.

— Também... ou ele não come, ou alguém vai lá e chuta tudo, hehehehehehe!

— Ou vira a comida sobre ele, hahahahaha!!

Milo cerrou os punhos, o ódio causando-lhe queimação por dentro. Deteve-se num canto e esperou que os dois passassem. Ao ver que se separaram, foi atrás do que levava a bandeja. Este entrou por uma porta. O grego fez o mesmo. Desciam uma escada íngreme. Percebendo Milo atrás de si, o cozinheiro indagou:

—Ah, oi, Ferraris. Está indo para a masmorra também?

— Sim — respondeu, acentuando a rouquidão — tenho uma mensagem para o Lorde Albiore.

— Entendo. Ei, não quer levar isto aqui pra mim?

— Eu... hã...

— Ah, quebra essa, vai? Não aguento mais descer e subir estas malditas escadas, e à toa! Já que você está no caminho mesmo, toma — e enfiou a grande travessa nas mãos do Santo. Deu-lhe um tapinha no ombro e saiu dali, satisfeito por se livrar de mais um trabalho.

Sim. A sorte parecia estar ao seu lado. Que aquilo durasse, por Zeus!

Milo continuou a descer a escada de pedra, o ar quase lhe faltava, tanto pela máscara quanto pela expectativa... no final, havia um corredor iluminado por mais archotes. Caminhou por ele, olhando as portas gradeadas, procurando o amado. Parecia que todas as celas estavam desocupadas. À sua frente, uma larga parede de pedra anunciava o final do trajeto. Um guarda o saudou.

— Ah, dessa vez foi você que veio entregar a refeição do Príncipe do Gelo? — e girou a enorme chave no cadeado — Bota lá perto dele, mas ele não vai comer mesmo. Não sei por que insistem nisso.

— Ele não comeu nenhuma vez mesmo? Desde que chegou? — perguntou o grego, abismado.

— Se até a comida do cozinheiro particular do Senhor Radamanthys ele recusa... mas vai lá. Se conseguir fazê-lo comer, pode ser que satisfaça nosso Juiz.

A porta não rangeu como o escorpiano esperava. Entrou no recinto. Cheirava a mofo e sofrimentos antigos. Havia um pequeno toalete também, limpo, até. Mesmo assim, não conseguia imaginar Camus utilizando aquilo... passou por uma pilastra onde se viam algumas algemas afixadas e logo depois... sufocou um grito.

Seus olhos encheram-se de lágrimas. Tremores sacudiram-no, e sua garganta constringiu-se.

CAMUS!!!”

( MILO POV )

Grossas algemas e correntes curtas, de forma a apenas possibilitar movimentos mínimos, prendem seus pulsos e tornozelos à parede escura e rochosa. Um cobertor jogado às suas costas o abriga do frio, e isso me assusta: Camus sente frio.

Mesmo sem poder usar o cosmo, ele deve estar muito fraco para que isso aconteça.

Vejo em seu pescoço a vil coleira negra, brilhante como um sorriso malicioso. Em seu peito há bandagens, ataduras avermelhadas em alguns pontos. Ele parece mais magro... lembro de seu olhar envergonhado no dia do piquenique, em que nos amamos pela primeira vez, ao indagar “sou tão magro assim?

Zeus... ele está tão abatido! Hematomas e equimoses machucam-me a vista. Seus delicados lábios rubros e feridos por sucessivas agressões e, creio, autoflagelação... autocontrole... meus olhos úmidos passeiam por toda sua figura, sentada, retraída, miúda. E encontram seus olhos, mais escuros do que nunca, mais opacos do que nunca, sua linda face mais apática do que nunca.

Eu quero tanto... tanto... tanto arrancá-lo dali!...

Torna seu rosto confuso para mim. Tão perdido... perdida como minha sensatez ameaça ficar.

Controle-se.

Eu me abaixo para depositar a bandeja no chão. Fico à altura de seu olhar vago que me acompanha. Eu tremo levemente. Queria tanto... tanto...

Camus, sou eu.”

... falar com você...

“Sou eu, meu amor.”

...ouvir sua voz... Camus... você não diz nada?

Você parece esperar que eu diga algo. Mas eu não posso, meu amor, eu não posso... você comprime os lábios, como se fosse dizer algo.

Vejo você tremer de repente. Um frêmito convulso. Frio? Não... ou... ou...

... você se controla.

Espera que eu diga algo? Ou... espera que eu FAÇA algo?

Você se controla.

Tão digno.

“Camus, não importa o que tenham feito com você. Você é tão puro!” Como quero dizer isso. Como quero falar com você! Você... não, não posso. Nem um sinal sequer.

Não devo.

Nada de arroubos. Nada de impulsividade.

O plano depende de autocontrole. Frieza. Disciplina.

Sem contar a segurança de Shun, sozinho na floresta.

Shun... sozinho... todos aqueles espectros.

Zeus. Preciso voltar. Já sei onde você estará. Eu voltarei.

Empurro a bandeja para você. Isso. Não coma. Ignore essa comida indigna. Amanhã estará se banqueteando comigo, servindo-se dos melhores manjares. Eu vou preparar tudo, meu amor. Você gosta tanto da minha comida, não é? Não sei como, mas eu SORRIO, abrigado pela odiosa máscara.

“Eu te amo, Camus. Aguente mais um pouco. Já vamos tirar você daqui.”

Mas... o que vejo em seus olhos?

Lágrimas?

Por que me fita dessa maneira?

Por que crava em mim tão fixamente esses olhos embebidos em lágrimas cristalinas como sua alma?

Não é dor.

Não é medo.

Não é raiva.

“Camus... será possível que... mesmo sem cosmo... você...”

( FIM DE MILO POV )

( CAMUS POV )

Ainda estou em choque com tudo que ouvi de Radamanthys. A essência de Hades... em Shun! Shun, aquele que Hyoga diz ter a “alma mais pura da Terra”. Então é exatamente essa a condição que o fez possuí-lo, e nele se manter. Que permite com que adormeça profundamente no menino até a hora de emergir para a Guerra Santa... sim, então está próxima... temo por todos. Nenhuma Guerra Santa terminou sem que todos ou quase todos Cavaleiros de Ouro perdessem as vidas... Milo!

Por Zeus... Milo, eu sou egoísta, Athena... queria que Milo tivesse uma vida longa, ou pelo menos... uma vida maior. Como guerreiros, é tolice ansiar por longevidade. Mas meu coração diverge do meu cérebro... Milo fez isso comigo. Me ensinou a sentir, a querer... hehehe, que mais “estragos” não teria feito se tivéssemos tido a suprema graça de continuarmos a viver juntos!

Porém... não tivemos esse direito.

Também me preocupam as palavras de Radamanthys. Seu assédio nefasto. Suas promessas me causam arrepios. Planeja me levar com ele para o Inferno! Enlouqueceu... preciso arrumar um jeito de escapar desse destino, que é MUITO PIOR do que o meu atual... mas... ao mesmo tempo... como posso ESCAPAR DA VIDA? E agora, mesmo que pudesse, NÃO teria esse direito!

Não sem antes avisar Athena sobre Andrômeda!

Sim, essa é a minha missão final!

Aí sim... Athena que me perdoe... e talvez Ela não o faça... aí sim, eu...

A porta se abre com um rangido mínimo. Ouço passos metálicos. Alguém de armadura. Ou melhor... súrplice, que é como chamam essas horríveis armaduras infernais. Um espectro de vistosa e tenebrosa súrplice para diante de mim. Parece representar um inseto asqueroso. Possui uma bandeja nas mãos. Mais uma refeição que vou recusar. E que Valentine vai chutar ou jogar sobre mim. Olho diretamente para seu rosto, sem encontrá-lo: uma hedionda máscara o cobre totalmente. Não se vê sequer nariz e boca, como em algumas proteções. Não posso ver sua face, e isso me incomoda mais do que se visse presas ameaçadoras e olhos lascivos.

Não sei por que, o espectro não se move. Permanece em pé, a travessa nas mãos, apenas me encarando. Meu incômodo aumenta. Agarro mais o cobertor que Wyvern deixou sobre sobre meu corpo ferido. Não quero admitir, mas tenho medo. Acabo me retraindo um pouco. Queria ir até o fim com dignidade, com a cabeça erguida. Mas para quê? Violaram-me até a alma. Não sou mais quem era.

Nunca mais serei.

Inesperadamente, ele se abaixa. Põe a bandeja no chão. Olha para mim. Nada diz, nada mais faz. Apenas fica me olhando, imóvel... e...e...

... eu devo estar com febre novamente.

Longos minutos se passam e você, espectro... apenas me olha por trás desses olhos de rubi. Por trás dessa face de metal. E eu REALMENTE devo estar febril, pois começo a fantasiar que... que é MILO quem está dentro da abjeta armadura.

Que loucura! Milo... nunca... mas, oh... como eu queria que fosse você, Milo... de onde vem esse absurdo que se apossa da minha mente? Febre? Inanição? Eu já enlouqueci?

Esse espectro atravessa-me a alma com essa misteriosa mirada... com esse silêncio... com essa imobilidade... o que você busca?

Não sinto lascívia em seu gesto.

Milo...

...Milo...é...

... É VOCÊ?!

Não, não, é impossível! Eu não tenho direito de ter tais delírios, MESMO COM FEBRE! E devo estar com febre, pois meus olhos ardem tanto... tanto... e logo descubro por que: lágrimas quentes afluem e desabam.

Por que estou chorando?

Não devo chorar na frente do inimigo!

Mas... meu delírio torce minha realidade.

Eu cravo nele meus olhos repletos de pranto, já despido de qualquer orgulho.

Não é dor.

Não é medo.

Não é raiva.

Milo... É VOCÊ?

( FIM DE CAMUS POV )

— Algum problema por aqui? — a voz imperiosa de Valentine se fez ouvir, ecoando na prisão.

Milo ergueu-se quase de imediato. Havia se assustado de verdade com aquela entrada intempestiva. Permaneceu de pé, retomando controle de sua respiração.

O espectro encarou-o com desconfiança. E tornou os olhos violetas para o cativo. Percebeu-lhe o rosto molhado de lágrimas.

— Que estava fazendo, soldado?

—Vim trazer a refeição do prisioneiro.

— E por que é que ele está chorando?

— Não sei, meu senhor — Milo respondeu, caprichando na rouquidão — eu tentei fazê-lo comer à força, deve ser por isso que...

— Isso não é atribuição sua. Deve apenas colocar a comida aí e pronto.

— Sim, senhor. Esperava agradar por conseguir fazê-lo comer, já que está há tantos dias em jejum.

— Hunf. Que o maldito seque. Vai morrer mesmo.

O escorpiano cerrou os dentes. E inconscientemente os punhos. Infelizmente este último gesto não passou despercebido a Harpia.

— Algum problema... Ferraris de Plecotero? É este seu nome, lembrei-me... algo o incomoda?

— Absolutamente, meu senhor.

— Bem, o que faz aqui ainda? — inquiriu Valentine, impaciente.

— Com sua licença — e, resistindo ao anseio de olhar Camus uma última vez antes de sair, dirigiu-se à porta. Entretanto, deteve-se ao ouvir:

—Espere, soldado.

Seu coração disparou loucamente.

O amante de Radamanthys considerou-o, com um sorriso malvado nos lábios.

— Por acaso pensa que sou algum idiota?

Respirando fundo, Milo retrucou:

—Não entendo, meu senhor.

Valentine aproximou-se perigosamente de Milo, ainda envergando o sorriso ameaçador sobre a expressão de quem descobre um segredo:

— Mesmo por trás dessa máscara, NÃO PODE ME ENGANAR. Não foi para trazer comida para o prisioneiro que veio aqui... pensa que me engana? Infelizmente para você... JÁ DESCOBRI TUDO.

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Notas finais
Será possivel que Milo tenha realmente sido descoberto por Valentine? Muita ação no próximo capítulo... até lá! E obrigada por lerem.