Grilhões Eternais
27 Ao resgate, companheiros!!!
Notas iniciais
— SAGA!!! — gritaram alguns dos Santos, ao ver o geminiano vacilar enquanto brandia os braços para o portal, que a duras penas mantinha aberto, sob a forma de uma intensa luz branca. Até mesmo Saori levou as mãos à boca ao vê-lo quase cair. Ele ergueu o rosto fatigado, no qual brilhavam gotas de suor, e apressou-se a dizer, com voz fraca:
— E-estou bem... não se preocupem...
— Saga parece estar sofrendo muito — comentou Ikki, impressionado.
— Não é à toa. Esse golpe requer muito mais energia e concentração do que o própria “Outra Dimensão” — explicou Shaka, franzindo uma sobrancelha — e ele não apenas desferiu o golpe como o está sustentando todo esse tempo... tenho certeza de que é a primeira vez que faz algo assim!
— Está mantendo o portal aberto para que Milo e Shun o atravessem de volta para cá a qualquer momento — completou Afrodite, cruzando os braços, aflito como os demais.
— Shun...
— Não se preocupe, Ikki — falou Virgem, sempre ao lado de “sua” Fênix — Ele vai voltar. Seu irmão é mais forte do que você imagina. E muito corajoso...
— Ele teve a quem puxar...
— ... apesar da cara de menina...
— ... olha quem fala...
— ...você pode comprovar que, quanto a isso, quem vê cara não vê coração, não é mesmo, Fênix?
— Ora... cala a boca, seu idiota...
Seiya estalava os dedos, nervoso.
— Caramba... até quando Saga poderá aguentar?
— Não sabemos. Nunca vimos Gêmeos fazer isso — respondeu Mu, percebendo o rubor na face do ex-Mestre. Notava-se seu angustioso arfar enquanto fitava o portal, com os dentes cerrados.
— Mas com certeza ele não vai sucumbir até os dois voltarem! — pronunciou Dohko, resoluto: ansiava por aquele êxito, tanto pela segurança de Milo e Shun quanto pelo salvamento de Camus... mas também porque sabia que aquilo contribuiria para a remissão do geminiano, que se martirizava pelo que cometera sob influência de seu lado maligno.
“Saga”, pensou a Deusa. Deu dois passos à frente e foi detida por Libra.
— Mestre Ancião!...
— Athena, confie em Saga. ELE VAI CONSEGUIR.
*************
Engolindo em seco, Milo contemplou o ar confuso de Camus ante a declaração de Valentine.
— Sim... eu descobri suas intenções. Não me engana com essa história de trazer comida para este verme miserável... — insistiu Harpia, acercando-se do hesitante escorpiano.
— Eu... de fato, eu...
— Veio assediar o desgraçado, não é?
— ...
— Eu já desconfiava de que vocês, espectros de baixa patente, tentariam de tudo para tal. Estão articulando entre si, não é? Que plano mais frágil... para sua infelicidade, descobri tudo.
E virou-se para Camus, mirando-o desdenhosamente, ao prosseguir:
— A fama deste maldito atravessa as paredes desta masmorra... todos querem um pedaço deste rabo, por certo. Hum. EU MESMO PROVEI. É realmente melhor que comer uma virgem púbere.
Milo estremeceu quase visivelmente. Tinha MUITO que pensar no resgate. Em Shun.
— Não deveria ser tão impaciente, caro Ferraris. Vários já o provaram. Inclusive FORA das sessões...
“O QUÊ???” a dor no peito de Milo parecia que iria fulminá-lo a qualquer instante.
— ... talvez a sua vez chegue também — riu o espectro, levantando o queixo de Camus com o dedo — a vadia aqui ainda tem 6 dias de torturas pela frente. Não duvido que Albiore mande todos espectros violarem esta preciosidade...
O escorpiano mordeu o lábio com tanta força que um filete de sangue desceu-lhe pelo queixo. Por sorte, a proteção da máscara não deixou isso visível. Ponderou se REALMENTE não poderia MATAR aquele demônio, libertar o amado e sair correndo...
Não. Estaria sozinho. E carregando Camus. Contra dezenas de inimigos. TINHA que seguir com o plano. Não poderia arriscar a segurança de Shun. De Saga. Do próprio Camus.
E provavelmente o tempo de que dispunham já escasseava.
— Na verdade, senhor, também tencionava falar com Lorde Albiore. É certo que me aproveitei da situação, como o senhor deduziu... — falou Milo, com voz rascante, providencialmente mais abafada ainda pela máscara — ... contudo realmente precisava informar que avistei suspeitos na floresta. Penso que podem ser inimigos.
— Oh, sim? Bem. Ele deve estar chegando... sabe, soldado. Agora que percebi uma coisa... você não me chamou pelo meu nome NENHUMA VEZ.
O grego arregalou os olhos, apavorado.
— Será que não me conhece? — questionou Harpia, desconfiado.
— Claro que o conheço, senhor.
— Então DIGA o MEU NOME — desafiou Valentine, cruzando os braços. Algo realmente despertara sua suspeita, a princípio de forma vaga; agora, porém, intensificava-se.
Sem saber o que fazer, a Milo só restou guardar o silêncio, buscando, aflito, soluções em sua mente. Não ouvira ninguém falar o nome daquele espectro de cabelos rosados. O que faria agora? Transpirava em abundância.
Camus deu um meio sorriso, suspirando cinicamente, atraindo a atenção dos dois. Perguntou, em alto e bom som:
—Até quando terei que ouvir essa sua voz irritante, VALENTINE?
Furioso, o espectro golpeou o rosto do aquariano com as costas da mão. Milo quase desistiu de tudo e voou no pescoço do agressor! No entanto... O SORRISO DE CAMUS...
— MALDITO! Quem disse que era pra falar o meu nome?!? — vociferou Harpia. O francês deu um riso sardônico, sem se importar com o sangue que lhe vertia dos lábios.
— Desculpe. Não sabia que se envergonhava tanto assim do seu nome — debochou — Deve ser apenas uma das muitas coisas de que se envergonha...
Milo sentiu um imenso orgulho de seu aquariano. Camus O SALVARA! Sem nem ao menos saber quem ele era! Ou será que... seu pensamento foi rasgado pelo som abafado do grunhido dado pelo francês ao ser atingido pelo punho do espectro, novamente no rosto.
“CAMUS!!!”, gritou em pensamento
— Heh... quer saber de uma coisa, Ferraris? — começou Valentine, levemente desfeito pelo rompante de ira — Que tal aproveitar que você está aqui? Ainda faltam umas horas para a tortura de hoje... já que estou entediado, e ele fez por merecer... vou me divertir com este ser inferior.
— Como...?
— Pode fazer com ele o que veio fazer.
— Se... senhor Valentine...
— Oh. Sabe meu nome — ironizou — então agradeça a informação dada por este desgraçado... VAI FODER COM ELE AGORA.
Ambos Santos paralisaram, estupefatos.
— Ele gosta de gozar quando chupam seu pau bem gostoso, não é... Camus de Aquário? — aparou um pouco do sangue dos lábios do francês, cujo sorriso de antes morrera, e levou-o à boca. Após lambê-lo de forma maliciosa, completou — pode começar assim. Vamos, Ferraris. Tire sua máscara e CHUPE O CRETINO, AGORA.
— Se... senhor...
— Já não é apenas um favor que estou te fazendo. É uma ordem que estou dando!
— Eu realmente preciso avisar o Lorde Albiore sobre os...
— TIRE A MÁSCARA!
Inconscientemente, Escorpião deu um passo para trás. O tremor convulso do namorado não lhe passou despercebido.
— O que está acontecendo aqui? — demandou Albiore, adentrando a cela; estudou os três, inquiridor.
Valentine aprumou-se para explicar, não sem um ranço de desprezo:
— Este soldado diz ter um comunicado para você.
— Sim, o que seria?
Um misto de emoções se embolaram na garganta do grego. Vê-lo ali... DIANTE DE SI! Ao mesmo tempo... foi sua maldita chegada que o salvou de ser descoberto.
Ironias hediondas. O mundo está cheio delas.
— Avistei alguns suspeitos na floresta. Não pareciam ser dos nossos. Achei melhor vir avisar o senhor — respondeu, roucamente, o ódio pelo Cavaleiro diante dele trojevando dentro de si.
— Pareciam ser Santos de Athena?
— Não sei ao certo, senhor. Não vi armadura alguma.
— Não usavam armadura?
—Não.
— Poderiam ser habitantes locais? Se bem que esta área é bem deserta — questionou Harpia.
— Não creio, Valentine. Os limites da floresta estão bem guardados. Invasores seriam mortos.
“Shun!... preciso voltar...”, pensou Milo, angustiado. O Cavaleiro de Prata postou-se diante do então calado prisioneiro algemado.
— Será que vieram buscá-lo, Aquário? — indagou, sem inflexão alguma.
Camus sentiu uma pontada no coração.
— Onde você os viu, soldado?
— Ao norte do rio, na direção das montanhas — Milo estudara com afinco o mapa antes de ir. Era a direção contrária à localização do Santo de Bronze.
— Certo. Volte para o seu posto, eles podem retroceder. Vamos enviar homens para essa direção. Vou procurar Radamanthys. Venha, Valentine.
— Entendido — resmungou, insatisfeito por saber cancelada sua "diversão".
— Com sua licença, senhor — a alma de Milo partia-se em mil pedaços ante aquela cena. Nunca imaginaria que com Camus daquele jeito, o que ele mais iria querer fazer seria partir logo dali. No entanto, pelo visto, livrara-o de uma iminente tortura.
Bem, pelo menos por enquanto.
Subiu as escadas à frente dos dois inimigos, controlando-se para não usar sua fabulosa velocidade. Ao ganhar o pátio, apressou o passo, sob a desculpa de retornar logo a seu posto. Entrou na floresta, cruzando com alguns espectros que pareciam já procurar suspeitos.
Embrenhou-se mais por entre as centenas de árvores ressequidas pelos fins de outono europeu, banhando-se na névoa ao caminhar a passos largos porém não afoitos a ponto de despertar atenção. Tinha que se valer de suas habilidades de guerreiro moldado em árduos treinamentos marciais. Ativar o cosmo estava fora de cogitação, seria presa fácil. Temeu não encontrar o local onde deixara Shun. O luar tímido iluminou uma paisagem por ele gravada sob muito esforço: A árvore bipartida. O pinheiro saindo por trás dos rochedos iluminados. O carvalho centenário cercado por arbustos chamuscados pelo frio. O rochedo que assemelhava-se a um urso de pé. A clareira não estava longe. Olhou ao redor, apurando os ouvidos. Silêncio total.
Ao invés de chamar por Shun, retirou o capacete, deixando os longos cabelos azulados caírem soltos. Não seria reconhecido com aquele acessório hórrido. O menino surgiu à sua frente, mansamente; havia acabado de descer de uma árvore.
— Milo — sussurrou Shun, agarrando seu braço — nunca o reconheceria com essa... coisa em você.
— Graças a Zeus... eu estava preocupado — respondeu, em voz baixa, retirando a pesada armadura.
— Você viu ele? Viu o Camus? — indagou, ansioso.
— Vi, sim. Falamos no Santuário, Shun, precisamos voltar. A floresta já tá cheia de espectros caçando intrusos.
— O quê?
—Explico depois, vamos logo!
O adolescente assentiu. Caminharam até a clareira, de onde se avistava o ponto luminoso. O portal diminuíra significativamente.
— Ative seu cosmo somente quando formos atravessar.
— Entendido, Milo. Segure esta parte da corrente. Bem firme.
— OK.
A um sinal entre os dois, Shun concentrou vivamente seu cosmo antes de exclamar:
— CORRENTE DE ANDRÔMEDA!!!
As correntes partiram em velocidade espantosa rumo ao pequeno vórtice, atravessando-o. Imediatamente ambos foram puxados e engolidos pela pressão que pareceu sugá-los através das estrelas.
Caíram pesadamente no chão do pátio anexo ao Templo da Deusa. Para eles, levaram apenas alguns segundos para chegarem ao Santuário. Os Santos correram até eles, preocupados, pois pareciam sentir enorme dor.
— MILO! SHUN!
— Deixem-nos respirar! — ordenou Dohko, erguendo a mão enrugada.
Os recém chegados ofegavam dolorosamente, gemendo e tentando se erguer para não alarmar ainda mais os companheiros. Ikki não aguentou e amparou Shun.
— Shun! Por favor, me diga, você está bem?
— S-sim, Ikki... heh... passar por e-esse portal é bem pior d-do que pelo “Outra Dimensão” — sorriu o menino, aceitando a ajuda do irmão.
— Mestre Ancião tava certo... é c-como se a gente... saísse de uma máquina de lavar — disse Milo, apoiado por Aioria e Máscara da Morte.
— Graças aos céus vocês estão bem! — comemorou Hyoga.
Eles estavam se recuperando e sendo auxiliados pelos amigos, quando viram Saga apenas sorrir, cambalear... e tombar.
— SAGA!!! — gritaram, correndo até ele.
O geminiano perdera a consciência. Athena ajoelhou-se perto dele.
— Saga, Saga!!! Responda! Saga!!! — chamou, aflita.
Com expressão serena e abandonada, ele apenas permaneceu ali, imóvel, os longos cabelos azuis espalhados pelo solo santificado.
— SAGA! NÃO!! Zeus, será que ele... — Milo angustiou-se.
Mestre Ancião juntou-se à Saori e pôs a mão sobre a cabeça do guerreiro desacordado. Com voz calma, disse, de olhos fechados:
—Ele não está morto. Apenas extremamente exaurido. Eu diria que ele escapou da morte por pouco.
— Entrou num estado similar a um coma — reforçou Shaka.
— Aldebaran, por favor, leve-o para o Centro de Atendimento. Vai levar um bom tempo até ele acordar. — orientou o Velho Cavaleiro, referindo-se ao local de atendimento médico e espiritual aberto no Santuário após a vinda da nova Athena.
— Certo, Mestre Ancião — e Touro tomou Gêmeos em seus braços fortes. Escorpião postou-se diante deles e tomou a mão inerte do homem desmaiado entre as suas, ao falar emocionado:
— Saga... muito obrigado. Espere que fique bem para eu te agradecer pessoalmente...
O brasileiro partiu com sua missão, e todos se acotovelaram perante Milo, perguntando ao mesmo tempo:
— Então Camus tá mesmo lá?
— O que aconteceu? Vocês viram ele?
—Como ele está?
—Ele falou com você, Milo?
— Ele tá muito machucado?
—Ele — quando a voz de Milo se ergueu, todos se calaram — Ele... sim, eu o vi. Sei onde está. Quanto ao estado dele... bem... é desesperador. Não tem como perdermos mais UM MINUTO!
Falou vivamente, encarando Mu, que entendeu o recado.
— A terra do local... — estendeu a mão para o escorpiano.
— Aqui está — o grego pôs nas palmas alvas o colar que continha o que o ariano pedira. Este fechou os dedos no amuleto, e em seguida, os olhos púrpuras. Ficou uns momentos assim, concentrando seu cosmo, uma imensa aura dourada desprendendo-se de seu corpo. Os longos cabelos lavanda bailaram no ar, erguidos pelas ondas de cosmo. Levou uns minutos assim, sob os olhares curiosos dos demais, sob o silêncio esperançoso de todos. Então a luz foi se amainando, seus cabelos voltaram a cobrir suas espáduas e costas, e ele anunciou:
— Está feito. Sincronizei meu cosmo com a energia vital e elemental daquele lugar. Através desta terra, que é parte primordial do corpo de Gaia.
— Quer dizer que... que agora pode... pode nos teletransportar até lá? — indagou Escorpião, quase sem caber em si de euforia.
— Posso sim. No entanto...
Mu parecia buscar as palavras. Logo ele, que SEMPRE sabia o que dizer, o que fazer! Aquilo preocupou os jovens.
— ... sob estas condições, há um número limitado de pessoas que posso teleportar.
— Quantas? — quis saber Afrodite.
—Creio que... umas quatro... cinco, no máximo.
— QUÊ? Mas… lá tem dezenas de espectros, não, Milo? — exaltou-se Seiya.
— Sim.
— Eu lamento. Em condições normais, não haveria esse limite tão... severo... — o ariano pareceu desculpar-se.
— Isso não é problema, Mu — declarou Milo, animando o companheiro — Agora que posso usar meu cosmo e minha armadura, sozinho posso acabar com todos eles!
— Neste caso, precisamos agora decidir quem vai para lá. Posso trazê-los de volta, bastando que falem com meu cosmo — Mu assim falou porque sabia EXATAMENTE quem faria questão de ir...
— Nem preciso pedir para ir, né, Milo? Você prometeu que me deixaria ir buscá-lo com você — adiantou-se Cisne, já com a armadura.
— Tô ligado, patinho.
— Se Hyoga vai, eu também vou! — Andrômeda firmou a voz, como a não dar margem para réplicas.
— Shun, não! Você acabou de se esforçar muito para me...
— Eu estou bem — o garoto interrompeu o escorpiano — e não é só por Hyoga. É por ser o MEU mestre que está lá, no centro de toda essa maldição.
— Se Shun vai, eu também vou — disse Ikki, decidido.
— E se Ikki vai, sou obrigado a ir — anunciou Shaka, atraindo os olhares estupefatos de todos. Estava mesmo apaixonado pelo intempestivo rapaz!
— Não estão esquecendo de que EU, mais que todos vocês, tenho o DEVER de ir, não é verdade? — tornou Afrodite, visivelmente irritado.
— Se Afrodite for, nem preciso dizer que irei também! — disparou Máscara da Morte.
— Vocês estão cheios de razão, mas eu sou um dos melhores amigos de Milo, e darei a minha vida para ajudá-lo! — Aioria disse, com o jeito imperativo de sempre.
— Minha Excalibur seria muito útil na Batalha. Posso botar o tal castelo abaixo — Shura não queria ficar de fora, guerreiro honrado que era.
— Meus meteoros também fariam isso! — ajuntou Seiya, afoito.
— AMIGOS! Desse jeito, terão que “tirar no palitinho”! — Dohko ousou brincar, malgrado a gravidade do momento.
— MESTRE ANCIÃO!!! — eles se indignaram a uma só voz.
Ele nem se perturbou, o que já era esperado.
— Athena decidirá. Já que enquanto vocês perdem tempo assim, Aquário encontra-se em crescente perigo.
As palavras do sábio fizeram-nos calar. Saori explicou:
—Sei que todos querem ir, pois são bravos, leais à amizade e a seus princípios. No entanto, vocês ouviram Áries. Ele só pode mandar cinco guerreiros. E mesmo que pudesse mandar mais, o Santuário não poderia ficar tão desguarnecido de seus mais fortes protetores.
Todos muniram-se de ansiosa expectativa para escutar a decisão de Athena. Não se tratava de um papel fácil de ser desempenhado. Contudo, a jovem manteve-se firme ao pronunciar:
—Mu pode teleportar até cinco de vocês. Meus escolhidos são: MILO, por motivos óbvios; além de estar à frente de todo processo, é a pessoa mais próxima de Mestre Camus. HYOGA, por ser discípulo de Aquário; SHUN, por ter sido discípulo de Albiore; AFRODITE, por ter participado da missão na Ilha de Andrômeda com Escorpião, e por ter manifestado ardente vontade de ajudar Camus, mesmo à custa de sua vida, já que matou Cefeu...
— Muito obrigado, senhora — agradeceu Peixes, comovido. Seu senso de justiça apuradíssimo não repousaria se fosse deixado de fora do resgate.
— E a quinta pessoa...
— ... por que tô achando que sou EU? — murmurou Máscara da Morte.
— ... é o Cavaleiro de Câncer. Sua técnica de enviar os adversários para o Mundo dos Mortos pode ser bastante efetiva na batalha contra inimigos de lá.
— Hummm... estou LISONJEADO — resmungou Carlo, levando por isso um beliscão de Afrodite.
— Muito bem, estão todos prontos? — perguntou Mu.
— Há muito tempo. Deixe-me apenas vestir a minha armadura — respondeu Milo, sem disfarçar a impaciência.
Todos fizeram o mesmo. Envergando suas sagradas armaduras, aguardaram instruções do ariano, que apontou para um ponto no Pátio das Estrelas.
— Fiquem reunidos ali, por favor — após pedir, fechou os olhos e prontamente foi coberto pelo intenso brilho dourado de seu poderoso cosmo.
Os jovens selecionados fizeram conforme solicitado. Hyoga tocou o ombro de Milo, ao se posicionar ao seu lado.
— Vamos tirá-lo de lá, Milo.
— Vamos sim, Hyoga.
Sorriram um para o outro. Shun encheu-se de alegria ao ver os dois tão cúmplices no afã de salvar o homem que tanto amavam. Faria de tudo para ajudá-los! Afrodite mantinha-se pensativo, refletindo sobre o absurdo da situação; por vezes considerou-se o verdadeiro culpado pelo que acontecera, e isso moveu seu ardente desejo de participar do resgate de Camus, afora sua amizade com o escorpiano. Já Máscara da Morte conservava no rosto uma cômica expressão de “o que que eu tô fazendo aqui?”, mas era só fachada; considerava-se bastante amigo de Milo, sempre foram eles, Milo e Aioria, um trio unido em todas ocasiões festivas e durante os treinos... e bem ou mal, apesar do jeito frio, fechado e considerado pedante, gostava do aquariano. Não se ressentia por ter sido escolhido pela Deusa, nem um pouco. E isso já era um enorme motivo de orgulho: ser por Ela considerado digno de uma missão, malgrado seus terríveis atos no passado. Faria o mesmo que Saga... também expurgaria um pouco de seus pecados...
Além do mais, tinha que acompanhar seu amado pisciano.
— Muito bem, vamos começar — anunciou Mu, segurando firmemente o medalhão.
— Boa sorte, meus Cavaleiros. Tragam Aquário de volta!
— Certamente o traremos, Athena! — respondeu Escorpião, seu sorriso voltando a ser confiante como no passado.
*************
O castelo estava em polvorosa. Vários espectros dirigiam-se para variadas direções da floresta, designados por seus superiores Radamanthys e Albiore. Santos de Athena foram avistados seguindo em direção à fortificação, eliminando com espantosa facilidade quem se metesse em seu caminho. Não era mistério para ninguém o objetivo dos guerreiros naquela localidade.
Aproveitando-se da intensa movimentação, que inclusive absorveu seu amado e o odioso Cavaleiro de Prata, Valentine sem mais demora dirigiu-se para a masmorra; não houve avisos, tampouco ordens: golpeou sem piedade os guardas que vigiavam a área em que se encontrava o Santo a quem os intrusos obviamente pretendiam resgatar. Não se importou em matar os fiéis sentinelas. Importante era cumprir seu intento.
Não deixaria nem que Aquário fosse resgatado, nem que fosse levado por Radamanthys para o Inferno, para uma vida ao lado do Juiz que amava.
Nunca. Jamais.
O destino de Camus era apenas um.
E ele não se importaria com as consequências.
Adentrou a cela, provocando no cativo um frêmito de desagradável surpresa.
O francês estava muito fraco. Fraco demais. Até mesmo para alertar alguém. E percebera, pelos gritos dos vigias, que não havia mais ninguém que pudesse ouvi-lo do lado de fora. Mal conseguindo manter os olhos abertos, viu o espectro aproximar-se, uma sinistra aura de rancor, ressentimento, inveja... tão forte que mesmo em tão lamentáveis condições foi capaz sentir.
Lágrimas cintilaram nos olhos violetas enquanto ele falou:
— Você realmente é algo de precioso, não? Santos de Athena foram vistos nas imediações. Estão vindo buscá-lo, Santo de Aquário.
O aquariano suprimiu uma exclamação de perplexidade. Não pôde suspender a esperança que fez disparar seu coração.
— Como disse Verônica... você é especial. Todos o querem, não é verdade? Seu amado Milo chegou a esse ponto para tê-lo de volta. E se fosse eu, em seu lugar... Radamanthys... — calou-se, decidindo-se por não se portar de forma tão fragilizada perante seu rival. Recompôs-se e continuou, cortando o raciocínio anterior:
— ... Radamanthys, por outro lado, planeja rechaçá-los não por mero dever de servo de Lorde Hades, mas sim para conquistar um prêmio para toda a eternidade... VOCÊ.
— Então... você sabe das intenções dele?
Caminhando de forma apavorantemente lenta, Valentine aproximou-se do prisioneiro, que involuntariamente comprimiu-se mais contra a parede.
— Sabe de uma coisa, Aquário? Você não merece NENHUM dos resultados.
— O que... o quer dizer? — balbuciou o francês, tentando se esquivar do toque gelado dos dedos de Valentine em sua face.
— Quero dizer — sua voz era baixa, fria e hostil — que NÃO PERMITIREI nem que seja resgatado pelos seus... nem que seja levado por Radamanthys...
O espectro acariciou-lhe o rosto, um brilho nefando no olhar enigmático. Camus apenas encarou-o, sem demonstrar o temor que fez sua pulsação acelerar. Não temia a morte. Não! Até desejava-a. Porém... saber sobre o terrível fardo de Shun mudara tudo de perspectiva. Não poderia morrer, não tinha esse direito antes de avisar Athena: a Deusa certamente poderia salvar o menino antes que a tenebrosa possessão o dominasse por inteiro... e definitivamente. Tinha também que dizer a Milo que o amava, que sempre o amou, que em nenhum momento o culpou por aquela trágica sina.
Morreria de boa vontade DEPOIS de cumprir aqueles dois deveres.
Não antes.
Contudo, a sombra do espectro o cobriu... ele foi amordaçado por ataduras que o outro pegara da caixa de primeiros socorros ali presente.
Os guardas foram mortos. Albiore e Radamanthys ocupavam-se das defesas do castelo e arredores. Nunca imaginariam que quem tiraria Camus das mãos deles seria alguém DE DENTRO da fortaleza.
Ninguém o salvaria.
— Não vai tirá-lo de mim... — sussurrou-lhe Valentine, ao abaixar um pouco a coleira no pescoço do Santo. E cravou-lhe na carne tenra e pálida seus dentes pontiagudos. O francês grunhiu ante a alucinante dor. Foi contido pelo espectro que pôs-se a sugar-lhe o sangue com ânsia bestial: Valentine segurava-lhe os braços e ajoelhara-se por cima dele, prendendo as pernas do cativo entre as suas próprias. A pressão era tão violenta que suprimiu a dor, de forma que Camus agora apenas gemia debilmente por trás do tecido sufocante. Sentia a vida se esvaindo com o sangue que Valentine retirava de seu já extenuado corpo. Convulsionou por baixo do inimigo, consciente de que nada mais lhe restava.
“Milo...”, pensou, antes de cerrar os olhos.
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