Grilhões Eternais

29 Adeus... e me perdoe...


Notas iniciais
Bem vindos ao vigésimo nono capítulo de "Grilhões Eternais". No capítulo anterior, Camus consegue fugir do castelo de Radamanthys pois este permitiu que o médico tirasse do pescoço do aquariano a coleira supressora do cosmo, caso contrário não teria como tratar o ferimento causado por Valentine. Enquanto Milo, Hyoga, Shun, Afrodite e Máscara da Morte lutam com espectros rumo ao castelo, o francês dele está se afastando... e para piorar, extremamente ferido...encontra-se justamente com Valentine. Créditos da fanart ao fanartista. Boa leitura!!!

— Acha mesmo que vai muito longe nesse estado lastimável, Príncipe do Gelo? — zombou Valentine, dando um passo à frente.

O aquariano retrocedeu um pouco, assumindo posição defensiva. O ódio que bombeou seu sangue aguçou seus sentidos, trazendo-o de volta do estado quase letárgico em que estava mergulhando minutos antes. Uma fina neve dançava diante de seus olhos úmidos de ira.

Ouviu uma gargalhada pérfida ecoando. Seu estômago revirou ao reconhecer seu emissor. Valentine estalou a língua, aborrecido.

— Maldição...

Entre os dois surgiu Zeros de Sapo, saltando de bem longe e pousando ali como o anfíbio que o nomeava.

— Hihehahahaha, não vou deixar você matá-lo, Valentine! Lorde Radamanthys quer o Cavaleiro aí VIVO!

— Oh, VOCÊ não vai deixar... — Harpia destilou sarcasmo e desprezo.

— E eu ainda quero saborear mais uma vez esse corpo gostoso... — ajuntou, a língua asquerosa passando lascivamente pelos lábios acinzentados ante a figura do Santo.

Camus cerrou os dentes e os punhos. Tremia de cólera, a ponto de não mais sentir dor. Deu dois passos para trás. Concentrou o cosmo gelado numa das mãos.

— Aaahh, não é a coisa mais linda essa cara de raiva? Venha sem resistência, gracinha... — e investiu contra o francês, que prontamente fez o mesmo em sua direção, só que na velocidade da luz. O peito de Zeros, mesmo protegido pela súrplice, foi atravessado pelo punho de Camus, revestido de gelo pontiagudo: sua mão tornara-se uma verdadeira arma, sem que nenhum dos espectros tivesse percebido.

— IIAAAAAARRRGHH! — berrou Sapo, o sangue descendo aos borbotões — C-COOOMO?

Valentine notou que Camus não apenas atravessou o oponente, como também torcia, rodava o punho congelado ali naquela caixa toráxica: raspava, rasgava as entranhas de Zeros, que gritava, chorava, implorava, evacuava, tudo ao mesmo tempo.

— NÃÃ-NÃÃÃÃO! AAAIIEEARGH!!! N-NÃO ME MATA...

— Claro que não vou te matar... RÁPIDO ASSIM — respondeu o aquariano, a expressão transformada... dura... fria... Valentine chegou a se arrepiar. E foi com gélido deleite que puxou-lhe as vísceras, fazendo uma cachoeira escura descer até o chão.

— UUUUCKKK! GGGHH! — grunhiu o monstrengo, e então parou de gritar. Aquário retirou seu braço de dentro daquele corpo sem vida com a ajuda de um chute. Zeros caiu a alguns metros dali, os olhos arregalados e a bocarra aberta numa prece que jamais encontrou destinatário.

Ofegando levemente, Camus contemplou o cadáver, sentindo pela primeira vez real júbilo em matar um adversário. Valentine pôs-se a bater palmas, cinicamente.

— Muito bem, Príncipe do Gelo... enfim, vejo sua verdadeira face... é realmente espírito de luta ou DESESPERO pelo fato de que NÃO É MAIS O MESMO?

Nenhuma resposta veio, apenas um olhar hostil.

— Encare os fatos, Alteza — fitou-o, sorrindo de leve — VOCÊ NÃO DEVE MAIS VIVER.

— Eu concordo, Valentine — retrucou, aprumando-se, os cabelos ao sabor do vento florestal — E NEM QUERO ISSO. Porém... há algo que preciso fazer antes de morrer.

— Vejo que é sensato ao aceitar seu destino... afinal... você não tem mais por que viver. Nem por seu amado Milo.

O Santo sufocou um suspiro.

— Para que você voltaria para ele? Você está PODRE...

A expressão de ódio de Camus foi substituída por uma de estupefação. O outro prosseguiu, com voz macia e quase cantada:

—Olhe para você... quantos possuíram o seu corpo? Acha que Escorpião vai aceitá-lo depois de ter visto tantos te possuindo? Depois de ver você GOZAR como uma puta no cio em meio à violação? Depois de ter te visto obter prazer com corpos alheios, com bocas alheias em seu sexo que outrora pertencia ao seu amante? Bom... se é que foi APENAS A ELE. Pois você parece gostar da quantidade... da variedade...

Tremores intensificaram-se no corpo que há pouco conseguira recuperar o equilíbrio, a frieza.

— Seu querido Milo pode dizer que te aceita do jeito que é. Que tudo continuará como antes. Mas será tudo mentira, agora que ele viu, agora que ele sabe: você é menos do que uma puta... é uma carne corrompida... SUJA.

Os olhos de Camus encheram-se de lágrimas enquanto sua posição de luta se desfazia aos poucos.

— Mesmo Radamanthys, que no momento encontra-se obcecado por você te jogaria fora em poucos dias... seu corpo corrompido não poderia preenchê-lo por muito tempo. Ao contrário de mim, que só te possuí mediante a necessidade da vingança. Eu, sim, sou PURO. Toda minha vida pertenci apenas e tão somente apenas ao Juiz... eu sim, sou limpo... sou puro... e você, o que é?

Agora as lágrimas vertiam abundantemente pelo rosto paralisado do francês. Digeria aquelas palavras, dava-lhes crédito. Valentine aproveitava-se daquela hesitação para se aproveitar lenta e perigosamente.

— Ninguém vai querê-lo... Camus. Assassiná-lo será um favor que te faço. Não vai macular ninguém com sua existência. Nem Radamanthys... e nem Milo.

E subitamente desferiu um violento golpe a curta distância, que fez Camus voar longe e chocar-se contra uma árvore. Ele gritou de dor e caiu ao chão:

—Aaaahhhh!!!

Ficou de bruços, sobre a terra ensanguentada. Tentou em vão erguer-se antes que o espectro chegasse até ele... ouvia seus passos partindo folhas secas. Aproximava-se.

— Uhhnn...

— Você foi apenas um brinquedo para Radamanthys. E continuaria sendo. Seria passageiro. Um brinquedo que foi manipulado e aproveitado por TANTOS!

Agarrou-lhe pelo braço e o ergueu do solo.

— Aaaahh!..Aaackk! — gemeu, tentando se libertar. Valentine agarrou-lhe o outro braço, trazendo-o para bem perto de seu rosto.

— Ao passo que EU... EU SOU... E ME MANTENHO PURO!

Deu uma joelhada no ventre do aquariano.

— AAAAHHH!!! — caiu aos pés de seu agressor, presa de horrível dor. Valentine agarrou-lhe pelos lisos cabelos, levantando-o para mirar bem aquela face dolorosa.

— É um favor que faço ao SEU Milo. Livrá-lo de alguém imundo como você. Na certa, ele vai me agradecer — riu, histericamente, tomado pelo desejo de prolongar-lhe o sofrimento. Fora por causa DELE que seu Radamanthys ficara frio. O havia desprezado. O havia agredido. O havia humilhado... e abandonado...

Mas ele iria conquistá-lo novamente! Sabia-o bem! Antes, contudo...

— Você foi somente um objeto — rosnou quase grudado ao rosto ensanguentado, mais para si mesmo do que para o Santo de Ouro — Para Albiore foi um instrumento de vingança. Para Radamanthys foi um objeto de prazer. E provavelmente foi um objeto para o seu amado Milo TAMBÉM!

Golpeou com fúria assassina o Cavaleiro, que devido àquele poderoso soco foi atirado a muitos metros dali. Ao cair no chão, sentiu mais vivamente a torção no tornozelo, ocasionada pela queda livre do castelo.

— AAAAAAARRHH!!!

Seu grito de dor foi como a mais sublime música para os ouvidos do espectro de cabelos róseos. Ele permaneceu ali no chão orvalhado e gélido, gemendo dolorosamente.

— Eu queria MUITO brincar mais com você. Muito mesmo. Você não merece morrer tão rápido. Mas Radamanthys e o maldito Albiore podem chegar e me impedir de matá-lo... portanto... vamos acabar com isso — anunciou Valentine, voltando a ficar gravemente sério.

Com a face na grama úmida, Camus tentava acionar sua mente, já que seu corpo parecia incapaz de reagir.

Não, não poderia contar com seu corpo.

Nem mesmo com seus sentidos mais.

Deveria ir além.

Além dos limites da carne, do palpável, do possível.

Tocar o âmago de um real Cavaleiro de Athena.

Meu cosmo... brilhe, meu cosmo... uma última vez...

Não podia morrer antes de cumprir sua última missão.

Queime, meu cosmo...”

Revelar sobre Shun guardar em si a alma do Imperador do Submundo.

... uma... última vez...

Dizer a Milo que o amava.

— O quê?! — balbuciou o espectro, ao ver o brilho dourado envolver o Cavaleiro. Sentiu todas fibras de seu ser latejando com aquela energia fenomenal.

Não deixaria Valentine impedir que cumprisse seus desígnios.

E a revelação sobre Shun poderia mesmo mudar o rumo do destino!

— Queime, cosmo... por... POR ATHENA! — murmurou, decidido.

— Não vou deixar que use esse cosmo odioso!!! — ergueu os dois braços, estendeu as asas de sua súrplice e ativou o poder das trevas.

— POR ATHENA! — clamou mais uma vez o Santo guerreiro.

— DEVORADOR DE VIDAS!!!! — proferiu Valentine, fazendo com que vários raios violetas partissem rumo ao inimigo, ao mesmo tempo que redemoinhos também por ele criados dirigiram-se para lá.

Ajoelhado ainda, o francês ergueu uma barreira de gelo, bloqueando totalmente o ataque do espectro. Foi como um espelho refletindo uma imagem: ao se chocar contra a defesa que Camus erguera, o golpe voltou-se contra quem o desferira.

— NÃO!!! — gritou, antes de ser atingido em cheio pelos espessos e luminosos raios, que cortaram profundamente sua pele em alguns lugares e esfacelou partes de sua armadura. A ventania o projetou no ar, e ele gritou, sentindo o corpo ser trespassado pelo seu próprio golpe:

— EEEEAAAAAAAARRGH!!!

Chegou a arrancar do solo as árvores contra as quais ele se chocou.

Camus conseguiu se erguer, com dificuldade. Ofegava muito, e podia sentir no torso a umidade do sangue que o abandonava. Afastou as pernas, ergueu os dois braços, o que lhe causou uma dor inacreditável. Uniu as mãos.

— Aahh... nng... — era tudo ou nada. TINHA QUE usar seu golpe mais poderoso. Valentine iria levantar. E ele precisava terminar logo com aquilo... não ficaria consciente por muito mais tempo!

— Aaaahh... seu... seu maldito... — Harpia tentou levantar, sem sucesso: caiu de joelhos, apoiando-se com as garras. Resfolegou, de quatro, e então percebeu a pose misteriosa do Santo.

— O... o que... o que vai... que pensa que vai fazer???

O Cavaleiro de Aquário assumira a posição de seu ataque máximo.

— Queime... queime ao máximo, meu cosmo!!! — clamou.

— IDIOTA!!! — riu Valentine, pondo-se de pé — No estado em que está, queimar o cosmo dessa maneira será o mesmo que se suicidar! Não disse que havia algo que precisava fazer antes de morrer?

O risco era real. E naquelas condições, não seria garantido o êxito de sua maior técnica.

Contudo...

O rosto sorridente de Milo em sua mente, sorrindo-lhe... deu-lhe força e confiança... sentiu mesmo as mãos quentes do amante a acariciar sua face...

Réstias de luz convergiram-se para a concavidade formada pela união das mãos de Camus. Seus olhos adquiriram um intenso brilho azulado.

— Está bem! Se quer morrer lutando, farei a sua vontade, lixo de Athena! — e Valentine conjurou seu poder mais uma vez.

Milésimos de segundos antes de bradar, ele viu uma mulher segurando um vaso nos ombros, por trás do Santo... o símbolo de sua constelação... e Camus viu a Harpia alçar voo...

— DEVORADOR DE VIDAS!!! / EXECUÇÃO AURORA!!!

Os dois golpes foram disparados simultaneamente. Entretanto, o poder do zero absoluto fora mais potente, rechaçando o poder das trevas, notadamente inferior ao dele, ainda que estivesse tão ferido... atingiu em cheio o espectro, que foi alçado a uma altura de mais de 10 metros, sentindo as entranhas ferverem pela devastação do cosmo gelado do maior Cavaleiro do Gelo vivo então.

Antes mesmo de efetuar a trajetória de volta à terra, Valentine já sabia que fora derrotado.

Radamanthys!... como te amei!...” foi seu último pensamento. E o impacto de seu corpo abriu uma grande cratera no solo. Camus foi atirado longe com o deslocamento de ar que se seguiu ao estrondo ensurdecedor. Bateu contra uns troncos secos, o que foi melhor do que continuar voando até as rochas.

— AAAAAAHHHN!

Levou cerca de um minuto antes que ele conseguisse se levantar. Olhou ao redor, segurando seu braço, que parecia estar distendido... talvez mesmo quebrado... não viu Valentine... estaria vivo ainda?

Esgueirou-se até poder se erguer. Caminhou sem muito equilíbrio até a borda da cratera e olhou para o interior.

No centro jazia o espectro Valentine, a súrplice estraçalhada e coberta de gelo. Seus olhos violetas já não emanariam rancor, pelo menos nesta vida.

— Não se preocupe, Valentine... você não será o único a partir... — murmurou, pensativo. Pôs-se a seguir na direção mais arborizada, embrenhando-se na floresta. Prontamente voltou a ocultar o cosmo. Ouvia sons ao longe. Espectros.

Misturou-se à vegetação, procurando mesclar-se à natureza. Precisava de um lugar... um tempo... para realizar sua última missão. Penetrou numa zona bastante cerrada.

Quando achou que se encontrava bem escondido, recostou-se num tronco: o frio em suas costas feridas provocou-lhe um sobressalto. Relaxou um pouco, fechou os olhos, concentrando-se:

Milo... MILO!”

A alguns quilômetros dali, Milo largou o cadáver de Giganto no chão ao ouvir o chamado que chegava diretamente ao seu cosmo.

CAMUS!!

Milo, pode me ouvir?

“Camus! Meu amor, sim, sim, SIM! Você está bem? Vou até você!”

“Milo, NÃO! Me escute... eu não tenho muito tempo...”

“Estamos indo até você, fique onde está”, e fez sinal para que os demais o seguissem.

— Milo! Posso sentir o cosmo de Camus! — disse Afrodite.

— Eu também, vamos já até ele — falou Máscara da Morte. Os adolescentes menearam a cabeça, sinalizando que também sentiam o cosmo do Santo de Aquário.

“MILO, NÃO! Pare onde está!”

O escorpiano deteve-se, e os outros logo em seguida.

— O que foi, Milo? — indagou Hyoga, confuso.

— Não sei, ele quer dizer algo antes.

— Dizer o quê? — impacientou-se Câncer — temos que ir logo!

— Espera — fez Peixes — Milo, escute o que ele quer dizer.

O grego assentiu.

“O que quer me dizer, Camus? Precisamos ir logo até você! Está muito ferido?”

“Eu tenho duas coisas para dizer a você... preste atenção, é importante.”

“Me diz pessoalmente! Deixe-nos ir até...”

“MILO, CALE-SE! NÃO TENHO MUITO TEMPO! Você precisa me ouvir! Pelo BEM DA TERRA! E de Athena!!!”

O escorpiano deteve-se novamente.

“Como assim ‘não tem muito tempo’? Camus... você está ferido, não está? O que houve?”

“A primeira coisa que quero dizer é... é algo que deveria ter te dito há muito tempo... lamento que seja nestas circunstâncias que...”

“Não tem que ser nestas circunstâncias”, Milo já adivinhara-lhe o teor. Seu coração se aqueceu malgrado o frio da mata. “Fale pra mim pessoalmente.”

“Milo... eu te amo.”

O grego ficou paralisado. Lágrimas afluiram às margens de suas pálpebras.

“Eu te disse para me dizer isso pessoalmente!”

“Eu te amo. Sempre te amei. Me perdoe por nunca ter tido a coragem de declarar!”

“Por que está me dizendo isso assim, Camus?”, quis saber Milo, trêmulo.

“A outra coisa que preciso lhe dizer... é que... Hades... Hades, o Deus do Mundo dos Mortos, que de tempos em tempos enfrenta Athena e o Santuário na Guerra Santa está... adormecido dentro de Shun.”

“O QUÊ? SHUN? Dentro do Shun? Como...”

“Sim. Não poderei entrar em detalhes. Parte dele está no Inferno... parte dele está nos Elíseos... e outra parte dormita em Shun. Espera possuir o menino quando chegar a hora da Batalha.”

“Mas... Zeus... Camus! Por que está me contando isso assim?”

“Vocês precisam avisar Athena. Ela saberá o que fazer. Salvem a Terra dessa Guerra Santa. Protejam nossa Deusa.”

“VOCÊ vai protegê-la conosco, Camus! Defenderemos a Terra juntos!”

“Não... infelizmente NÃO, Milo.”

— Rapazes, vamos correr na direção do cosmo de Camus. Algo está muito errado com ele — disse o grego, saindo em disparada e sendo imediatamente atendido por eles.

“Camus! Fale comigo! O que pretende, querendo evitar que cheguemos a você?"

“Eu já disse o que tinha que dizer... meu amor...”

“Camus! Continue falando!”

“Adeus... e me perdoe... me perdoe...”

CAMUS!!!”

E a ressonância entre os cosmos foi bruscamente interrompida. Eles pararam de correr, surpresos.

— MESTRE! — gritou Hyoga, desesperado.

— O que foi isso? Ele morreu? — perguntou Máscara da Morte.

— NÃO! Isso não pode ser — balbuciou Milo.

Shun questionou, temeroso:

—Será que foi capturado novamente?

Milo tremia da cabeça aos pés.

— Não... não... estávamos tão perto! Ele... ELE PARECIA ESTAR SE DESPEDINDO!!

— O QUÊ? Se despedindo? Milo… mas o que… o que mais ele disse? — Afrodite quis saber, apavorado.

O escorpiano encarou o Santo de cabelos verdes. Este percebeu a mirada e intrigou-se.

— Falamos disso depois. Agora precisamos encontrá-lo antes dos espectros!

*************

Ocultando seu cosmo com maestria, o aquariano prosseguia floresta adentro. Nuvens muito escuras cobriam o firmamento cinzento. Parecia que choveria a qualquer instante. Um vento frio e cortante balançava seus longos cabelos azulados. À sua frente um extenso rio separava-o da outra parte da mata, ainda mais densa.

O jovem não pôde resistir a beber daquelas águas gélidas. Um último regalo da vida da qual ele estava prestes a desistir.

Desistir?

Um Santo de Athena?

Após saciar-se e deliciar-se com aquele conforto, pôs-se a subir por um barranco acima do solo, repleto de vegetação. Não poderia mais ficar entre seus companheiros tão nobres, puros, justos.

As palavras de Valentine sedimentaram uma ideia que já permeava suas intenções desde que fora violado no castelo.

“Não tenho mais condições de servir Athena. De ser um Cavaleiro. Fracassei desde o início...”, pensou, mirando o céu prateado que testemunharia seu fim.

Tão puro. Tão limpo. Tão magnânimo.

Como ele jamais seria novamente.

Não arriscaria ser encontrado nem por Radamanthys... nem por Milo.

Não ansiava mais por prosseguir, não importasse onde.

“Eu estou sujo. Podre. Milo não merece uma ‘carne corrupta’ como a minha. Milo... intenso como o sol. Milo, que é pura luz e amor... não devo contaminá-lo com minhas trevas e minha dor...” e seus olhos marejados pousaram nas mãos trêmulas e machucadas.

Fora possuído por tantos.

Brutalmente estuprado, seviciado, humilhado.

Como poderia conviver com aquilo?

“Eu seria um fardo para Milo. E Milo deve proteger a Deusa e esta Terra... não deve ficar atrelado a um Santo que desceu tão baixo... que sucumbiu às profundezas... é por amar Milo que farei isto...”

Suas mãos emanaram um brilho azulado e delas formou-se uma espiral de ar gelado que se condensou e moldou uma grande espada de gelo.

Tão afiada como as lâminas mais seculares.

Não muito longe dali, Milo e os outros sentiram a manifestação do cosmo do francês. Entreolharam-se e apenas balançaram as cabeças, saindo em disparada.

“Camus!!!”, pensou Milo, o peso de um mau pressentimento a oprimir-lhe o coração acelerado.

O vento sossegara brevemente, e o céu ficou ainda mais escuro. Erguendo a cabeça, de forma que deixasse o pescoço ferido à mostra, para ele Camus apontou o fio da espada. Segurou-lhe o cabo com as mãos agora firmes, decididas como deveriam estar no momento decisivo.

No momento final.

Direcionou a espada para sua garganta.

Tinha que ser certeiro. Rápido. Limpo.

Definitivo.

Despedia-se da vida como quem se despede das dores.

E seria exatamente assim.

*************

Notas finais
Este foi o capítulo que chorei ao escrever... a sádica aqui também tem um coração, tá! (tá. Sádico u.u) É a primeira vez na minha vida em que escrevo cenas de luta, então, deem um descontinho pra tia Amelinda aqui... não estão lá essas coisas, eu sei. Obrigada por lerem. Espero vocês no próximo capítulo... :'(