Grey Potter
9 De férias
Pov. Grey
Eu estava em cima de uma das caixas de mudança no sótão do apartamento duplex que Remo havia alugado na França, tocando e cantando músicas. Tínhamos combinado que nós dois arrumaríamos o sótão, mas padrinho tinha que mostrar nossa casa na Bulgária para um possível comprador e saiu a algumas horas. Sei que pode não parecer, mas sou responsável o bastante para não colocar fogo no apartamento ou cair das caixas. O que eu tocava era a tradução de Boca, Dreamcatcher. Andava precisando de músicas em que o som da guitarra fosse um pouco mais forte.
— Todos os alvos apontados para você
Feridas feitas sem lâmina
Eu entendo, mesmo sem que você fale
(Aguente firme, aguente firme)
É, oh, sem nenhuma expressão
Como se você já estivesse acostumado
(Estou batendo na porta, é, agora estou batendo na porta)
Não consegue fugir, mas eu sei
Espere, sou uma nerd, o grande paradoxo
De maneira simples, a assassina que te protege
Nas profundezas do inferno, todos imploram igual
Cale sua boca, congele
Um olhar sem razão
Uma pergunta mordaz
(Woo, wah, ah, ah, ah, ah)
A consciência que já pesa
Para eles, não existe
Não pode ser impedido
Meu coração que se aperta
Não posso mais reprimir
Por você
Um aviso de nuvens negras
A noite se aprofunda
Desça, trovão
Caia, trovão, com força
Vou calar a sua boca
Onde está o amor?
Essas palavras são como espinhos
Se te machuca agora
Você não conseguirá abrir, boca
É, feche seus olhos, você está sem fôlego
Uh, fuja, você está distante
Uh, se você der um passo atrás
Lá, nada vai mudar, mudar
É óbvio, óbvio, não
Uh, pegue a chave
Te libertarei
Pare de brincar de esconde-esconde agora
Ande mais perto
Mais, mais, venha agora
Tranque a porta, tranque a porta
Não pode ser impedido
Meu coração que se aperta
Não posso mais reprimir
Por você
Está vindo, soprando
O vento áspero
Desça, trovão
Caia, trovão, com força
Vou calar a sua boca
Onde está o amor?
Essas palavras são como espinhos
Se te machuca agora
Você não conseguirá abrir
Por que você enche seu tempo precioso
Com tanto ódio?
Woo, woo
Anjos demais morrendo agora
Vou mudar sua opinião
Para que consiga respirar de novo
Não, woah
Onde está o amor?
Essas palavras são como espinhos
Se te machuca agora
Você não conseguirá abrir, boca.
—Grey, cheguei! – Remo falou no andar de baixo.
— Estou no sótão! – disse descendo da caixa.
Apoiei a guitarra em um canto e padrinho já aparecia pela porta.
—Vendida! – anunciou se virando para mim.
— Isso significa que o jantar é pizza – lembrei, abrindo uma das caixas no chão.
— Nunca se esquece de promessas com comida, não? – brincou Lupin, vindo até mim.
— Mais do que impossível – respondi.
— Que bom que será Beauxbatons que vai alimentar você.
— Ouvi dizer que lá tem ótimos banquetes, com os melhores pratos da França.
-Oras, e quem te contou? – perguntou com um sorriso maroto. Era como se ele só tivesse oportunidade de brincar desse jeito comigo.
— Louis Laurent – falei com meu melhor sotaque francês.
Laurent é famoso por ter escrito livros enaltecendo Beauxbatons, onde estudou, com poemas, um pouco, exagerados. Ele faleceu a pouco mais de um século, então sua descrição pode estar um pouco ultrapassada, mas as coisas, principalmente as escolas, do mundo bruxo não mudam tão rápido.
— E onde conheceu o senhor Laurent, Grey?
— Jo me apresentou ele – normalmente nossas brincadeiras eram longas, com histórias cada vez mais loucas.
Por quê Jo tem um livro sobre a escola de magia e bruxaria da França? Muitas profecias foram feitas e escritas como poemas. A maioria é apenas boato, mas ela sempre gostou de checar. E agora até entendo porque: a linha do tempo é muito instável, o quando Jo puder proteger o futuro que ela viu, ela vai proteger. Se ela é grifinória? Não, é corvina. Sério, sem sarcasmo desta vez.
— Não sabia que ela tinha contato com ele. Laurent tem o que? Uns 227 anos apenas?
— Ele está na estante dela desde que eu sei ler.
— Muito mais que 227, então. 463? Acho que sim- Remo falou um número aleatório.
— As dificuldades da idade- confirmei, ele chorou de rir e eu gargalhei.
Lupin pegou um relógio de mesa e dois livros e se direcionou para o balcão. Poderíamos guardar tudo aquilo com um movimento de varinha, mas era mais divertido daquele jeito.
— Sua risada é idêntica a do seu pai- comentou ele, enquanto apoiava o relógio no tampo de madeira de tom intermediário. – Sua voz lembra a da sua mãe, mas seu jeito de rir, sem dúvida, vem dele.
Eu peguei uma pilha de livros e me dirigi até uma prateleira, subi no braço do sofá para ter altura suficiente para colocar os livros lá.
— Me conta alguma história deles? – perguntei- Não precisa ser de como eles ficaram juntos- eu desci do sofá para pegar mais livros, — pode ser de alguma pegadinha de vocês – voltei para o sofá. – Só quero saber.
Ele soltou um riso, o exato intermediário entre triste e divertido.
— Tenho um monte delas, pequena. Dos dois tipos.
Ficamos o resto da tarde arrumando o sótão, com Remo contando sobre meus pais até quando fomos deitar. Ele havia ficado com lágrimas nos olhos muitas vezes. E o meu vazio de não lembrar deles ficou um bom tanto menor. Mas tinha um vazio que eu sabia que nunca iriam sumir, não até eu conhecesse e contasse quem eu sou para a única pessoa viva da minha família.
Fechei a porta do quarto e fui em direção ao meu armário. Foram poucos passos até eu cair no chão, o que, para minha surpresa, não fez tanto barulho (deve ter sido culpa do tapete). Uma dor inacreditável feria o lado esquerdo de minha barriga. A dor era uma mistura de queimadura, como se em minha pele pegasse o fogo mais ardente do mundo, perfuração, como se tivesse alguma estaca estivesse sendo enfiada em mim, e como se arrancassem minha pele, mas dez mil vezes pior.
Não sei quanto tempo fiquei deitada no chão do quarto enquanto sentia dor e depois dela passar, mas quando isso parou de acontecer e eu estava forte o bastante para levantar, eu fui até meu espelho e levantei minha blusa. Era outra tatuagem, de uma constelação. E eu havia sido curiosa demais, quando criança, sobre as estrelas a ponto de ter algumas pequenas aulas com o Neil, para conhecer aquela em meu corpo. É a constelação de Leão, ou Leonis em latim, ela representa o meu signo no zodíaco, que, como a criatividade de quem criou foi pouca, é o signo de leão. Sou louca por achar que não é simplesmente por isso que ela esta permanentemente na minha barriga? Bom, mesmo que essa seja maior, não vou precisar cobrir durante o inverno e boa parte do outono.
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