Green Eyes

14 Chicago, 30 de agosto de 1918.


Chicago, 30 de agosto de 1918

O Olhar Diferente

A febre me consome.

Eu não posso mais ignorar o calor que parece queimar minha pele, nem o cansaço que me arrasta a cada passo.

Eu sei que estou doente, mas não posso parar.

Não agora, não enquanto Edward ainda luta pela vida e meu marido se foi, me deixando sozinha, com o coração apertado e os ombros pesados demais para carregar.

No hospital, o ar é abafado e impregnado com o cheiro de remédios e suor.

A dor está em cada canto

As camas estão lotadas de pessoas doentes, e muitas já não estão mais conosco.

Eu vejo os rostos dos outros pacientes, alguns tão frágeis quanto Edward, outros já em paz, como se a vida tivesse os abandonado.

Mas eu continuo aqui, mantendo os olhos fixos em meu filho, tentando desesperadamente trazer algum alívio para seu sofrimento.

Edward está mais pálido a cada hora que passa.

Sua respiração é curta, como se cada suspiro fosse uma luta, e sua febre não cede, apesar dos esforços de Carlisle.

Eu o vejo, trabalhando ao lado de meu filho com uma calma impressionante, uma serenidade que parece estranha em meio ao caos.

Ele não se parece com os outros médicos, nem com os homens que sempre conheci.

Seus movimentos são rápidos, mas tão controlados, e seu olhar... algo em seu olhar me incomoda, me faz sentir como se ele estivesse observando mais do que um simples paciente.

— Edward ainda está estável, Elizabeth, mas precisamos monitorá-lo de perto. — Diz Carlisle, sua voz suave, mas com uma firmeza que me dá uma sensação de segurança, mesmo quando tudo ao redor parece estar desmoronando. Ele limpa a testa de Edward com um pano frio, sem sequer hesitar, como se estivesse acostumado a esse tipo de situação.

Mas, por mais que eu queira crer no seu profissionalismo, há algo nele, algo sutil, que me faz questionar.

Ele parece diferente.

O jeito que ele olha para Edward, com uma intensidade que me faz me sentir como se ele estivesse absorvendo cada detalhe do meu filho, não parece o comportamento de um médico comum.

Há algo em seu olhar que é mais profundo, mais... perturbador.

Eu tentei ignorar isso antes, mas agora, à medida que passo mais tempo ao seu lado, não posso mais deixar de notar.

Ele se aproxima de Edward com uma rapidez que eu nunca vi em nenhum outro médico, e há uma tensão quase palpável em seu corpo. Seus olhos, de um tom dourado inusitado, são sempre fixos, intensos, como se ele estivesse buscando algo além do que a doença visível.

Eu me recuso a pensar sobre isso. Não posso me permitir ficar paralisada por uma sensação vaga e indefinida, enquanto meu filho está aqui, lutando pela vida.

Mas, mesmo enquanto cuido de Edward, tentando aliviá-lo da febre que ainda o consome, minha mente não consegue afastar o desconforto crescente. Carlisle sempre esteve ao nosso lado, desde o primeiro momento em que ele entrou em nossa casa. Mas algo mudou no seu comportamento.

Ele está mais envolvido, mais presente de uma maneira que ultrapassa a profissionalidade que um médico deve manter. O jeito como ele observa as pessoas ao redor, como se estivesse sempre atento, como se cada movimento fosse de extrema importância, é algo que me faz ficar em alerta.

— Você está se sentindo bem, Elizabeth? — Sua voz quebra meus pensamentos. Ele se aproxima de mim, preocupado com a minha febre. — Eu deveria ter cuidado de você também.

Eu tento forçar um sorriso, mas a dor em meu corpo me impede de esconder a fraqueza que me domina.

— Eu estou bem, Carlisle. — Eu digo, tentando esconder minha exaustão. — Mas o Edward... ele ainda está muito mal.

Ele se afasta, mas posso ver que ele está atento a cada movimento meu. Seus olhos dourados brilham, e por um momento, parece que ele está avaliando alguma coisa, algo que eu não entendo.

— Você precisa descansar, Elizabeth. Não podemos ajudá-lo se você também cair doente.

Eu sei que ele está certo. Mas o pensamento de abandonar Edward, mesmo que por um momento, me parece impossível.

Eu sou a única que pode estar ao lado dele agora. Eu sou a única mãe que ele tem.

Mas Carlisle insiste, e finalmente, após uma breve luta interna, dou-me conta de que não posso mais continuar a ignorar a necessidade de repouso.

— Eu vou descansar um pouco, mas você me chama se algo mudar com Edward. — Digo a Carlisle, minha voz rouca. Ele acena com a cabeça, como se já esperasse por isso, e então se afasta para cuidar do meu filho.

Eu me deito, tentando não sucumbir ao cansaço, mas o sono me toma rapidamente, apesar do medo constante que me mantém alerta.

Mas quando fecho os olhos, minha mente continua a vagar.

A sensação de que algo não está certo persiste.

O comportamento de Carlisle... algo não está certo com ele, e eu não posso mais ignorar.

Seus olhos, o modo como ele se comporta, o jeito como parece se concentrar em cada detalhe. Eu não consigo evitar a sensação de que ele sabe mais do que está dizendo.

No entanto, a cada vez que eu olho para Edward, tento esquecer essas inquietações. Tento focar no que importa, que é salvar meu filho, mas é como se uma sombra pairasse sobre o ambiente.

E quanto mais penso nisso, mais a sensação de desconforto se intensifica.

Eu não sei mais em quem confiar, ou no que acreditar.

Carlisle não é como os outros médicos.

Algo nele é diferente.

Algo que talvez nem eu consiga compreender agora, mas que me deixa com uma sensação estranha, como se houvesse algo mais por trás de suas ações.

Não importa o que eu sinta ou pense agora, o fato é que Edward continua em risco, e não posso permitir que minha mente vagueie para outros lugares enquanto ele está lutando pela vida.