Green Eyes
15 Chicago, 10 de setembro de 1918.
Chicago, 10 de setembro de 1918
O Último Pedido
Eu sinto a morte se aproximando, como uma sombra que cresce a cada segundo.
A febre ainda me consome, e o cansaço se tornou uma prisão de onde eu não posso escapar. Os dias e as noites se confundem em uma espiral de dor, e tudo o que eu consigo ver são rostos distantes, vozes apagadas, e a presença de Edward ao meu lado, ainda lutando, ainda se agarrando à vida.
Mas meu corpo não responde mais. Não consigo me mover, e até as palavras parecem um esforço titânico. Sinto a fraqueza me dominando, os pulmões falhando, os batimentos cardíacos diminuindo lentamente. Já estou quase num estado de delírio, e meus pensamentos se arrastam, como se a realidade e o sonho estivessem se entrelaçando.
Mas mesmo em meio a essa névoa, minha mente ainda se concentra em uma única coisa: meu filho.
Meu amado Edward.
Ele ainda está aqui, ao meu lado, respirando com dificuldade, sua vida em jogo. Eu não posso permitir que ele se perca também.
Não, não posso. Eu já perdi meu marido. Não vou perder meu filho.
Enquanto a escuridão me envolve, ouço a porta se abrir suavemente.
Carlisle. Eu sabia que era ele, mesmo sem olhar.
Sua presença é diferente, como uma brisa fria em uma noite quente, mas ao mesmo tempo, ele traz algo de tranquilidade. Talvez porque ele seja, sem dúvida, o único homem que pode salvar meu filho agora. Eu já não tenho mais forças para lutar, mas... Edward precisa dele.
— Elizabeth… — Sua voz ecoa suavemente, mas há uma tensão que a acompanha. Ele sabe o que está acontecendo. Sabe que o tempo está acabando.
Eu tento abrir os olhos, mas é uma luta. Sinto o peso das pálpebras como se fossem feitas de pedra. Quando finalmente consigo olhar para ele, ele está ali, de pé ao lado da cama, sua expressão grave e atenta. Eu vejo nos seus olhos a mesma compaixão que ele sempre teve por nós, mas também uma tristeza, como se ele soubesse que o que eu estou pedindo é algo que vai além do que qualquer ser humano poderia compreender.
— Ele não pode ir. Não pode morrer, Carlisle. Não agora. Ele é... ele é tão jovem. Ele tem tanto a viver.
Minha voz sai fraca, quase inaudível, mas o pedido está claro. Eu sei que Carlisle sabe o que estou pedindo. Ele sempre soube.
— Elizabeth, você precisa descansar. A febre já tomou conta de você. Precisa…
Mas ele não termina. O olhar que eu lhe dou o faz silenciar. Ele sabe que não há mais tempo para palavras vazias.
Eu engulo em seco, sentindo a fraqueza tomando conta de cada fibra do meu ser. Meu corpo está prestes a ceder, mas minha mente ainda está clara. Eu não tenho mais nada para oferecer a este mundo, nada para dar a meu filho, exceto este último pedido.
— Eu... eu não tenho mais forças, Carlisle. Por favor... por favor, faça o que for necessário. Salve Edward. Eu... eu não posso deixá-lo ir também. Não posso ver ele seguir o mesmo destino.
Eu sei o que estou pedindo. Sei que estou pedindo o impossível. Sei que o que ele fará é uma mudança irrevogável, uma transformação que vai alterar tudo para Edward, que ele nunca mais será o mesmo. Eu sei disso. Mas, neste momento, não me importa. Eu estou morrendo, e tudo o que eu quero é garantir que meu filho tenha uma chance, que ele viva, que ele seja mais forte do que a doença que quase o consumiu.
Carlisle se aproxima, sua expressão marcada por um conflito interno. Ele olha para mim, como se tentasse buscar uma resposta, uma desculpa, uma razão para não fazer o que eu peço. Mas eu sei que não há mais nada a ser dito. As palavras não mudam nada. Ele sabe o que deve fazer.
— Elizabeth, eu... eu não sou um deus. — Ele diz, sua voz baixa, carregada de uma dor profunda. — O que você está pedindo... não é simples. Edward nunca mais será o mesmo. Eu não posso mudar isso.
Eu fecho os olhos por um momento, tentando reunir o pouco de força que me resta. Quando os abro novamente, sinto uma tranquilidade estranha tomar conta de mim. Eu sei que é a minha despedida.
Sinto a morte se aproximando, mas não estou mais com medo.
Não quando sei que Edward terá uma chance de sobreviver.
— Eu sei... Eu sei... Mas ele precisa viver. Por tudo que é mais sagrado, Carlisle, faça-o viver. Por mim.
Senti uma onda de dor cobrir meu corpo, eu queimava de dentro para fora. Reuni todas as minhas forças para me levantar, mas fora em vão. Minha hora havia chegado. Desmaiei.
Quando retomei a consciência, olhei para a maca ao lado onde meu menino estava. O rosto vermelho e o corpo tremendo.
Meu Deus, se és bondoso, me leve, mas não leve o meu filho. Eu orava mentalmente segurando meu terço com força.
Eu havia lutado, havia lutado a cada maldito dia para cuidar de meu filho, mesmo quando eu ardia em febre. Mas agora eu não possuía mais forças.
Meu menino estava morrendo. Eu estava morrendo.
Eu sentia o fim vindo lenta e dolorosamente.
Uma mão fria tocou minha testa, era o Doutor Cullen. Ele não se fora.
Seria ele um anjo? Ou o próprio diabo?
Olhei para o seu rosto pálido e depois para suas mães gélidas.
Agora, eu sentia que estava delirando, e uma passagem do clássico romance de Bram Stoker passou diante de meus olhos.
Vampiro? Como os dos livros que eu lia escondida quando mocinha?
Eu não sabia, mas meu peito gritava que ele poderia manter o meu menino vivo. Abri meus olhos e falei o mais alto que pude:
—Salve ele! — Minha garganta ardia.
—nEu farei tudo o que puder. — Prometeu e se aproximou de mim tocando minha mão. Sua pele era rígida como mármore.
—Deve fazer isso. — Apertei sua mão com toda a força que pude reunir e olhei no fundo dos olhos torturados que possuíam um tom peculiar de âmbar. — Você deve fazer qualquer coisa sobre o seu poder. O que os outros não podem fazer, é isso que você deve fazer por meu Edward.
Há um longo silêncio, onde o único som é o meu próprio respirar ofegante. Carlisle ficou parado por um instante, estudando-me com uma intensidade que me deixa sem fôlego.
Ele parece lutar contra si mesmo, contra algo dentro de si. Mas finalmente, ele se aproxima de Edward, que está imóvel, mas ainda respirando, seu peito subindo e descendo com dificuldades.
— Eu farei o que posso, Elizabeth. Mas você tem que entender... a vida dele, a partir de agora, nunca mais será a mesma.
Eu fecho os olhos, aceitando as palavras. Não me importo. Ele não precisa me explicar. Tudo o que eu sei é que eu fiz o que podia. Eu não poderia salvar meu marido. Eu não poderia evitar essa doença insana. Mas, pelo menos, eu poderia salvar meu filho.
Carlisle coloca suas mãos sobre Edward, e vejo a luta interna no seu rosto. Ele se ajoelha ao lado da cama e começa a murmurar algo que eu não consigo ouvir. O ambiente ao redor parece desaparecer, o mundo se tornando uma névoa indistinta.
E então, sem que eu perceba, uma luz forte e imensa preenche a sala.
O corpo de Edward começa a se mover, como se estivesse em um tipo de agonia, mas também de renovação.
A febre que o consumia parece ter diminuído, e ele respira com mais facilidade, mas com uma intensidade estranha, como se seu corpo estivesse se adaptando a algo novo, algo que não faz parte deste mundo.
Eu me sinto serena, sabendo que, mesmo que eu me vá, Edward estará seguro.
Ele terá uma chance de viver, de lutar por uma vida que não será marcada pela doença, mas por algo maior.
Algo que eu não posso compreender completamente, mas que sei que é a única maneira de ele sobreviver.
Com isso, meu coração se acalma, e eu posso finalmente descansar. Sinto a vida se esvair de mim, e, enquanto a escuridão me envolve, sei que Edward vai sobreviver.
Ele vai viver, por mim. Por tudo o que ele representa.
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