13 de setembro de 1918


O Despertar de Uma Nova Vida


Eu acordo com a sensação de que há algo profundamente errado.

Não posso explicar, mas sei que há algo diferente.

O ar ao meu redor parece mais espesso, mais pesado, e eu não consigo entender por que tudo parece tão nítido. Como se eu estivesse vendo o mundo de uma maneira completamente nova.

Eu me forço a abrir os olhos, mas a luz que entra pela janela me faz franzir a testa.

É muito mais intensa do que deveria ser, como se o sol estivesse diretamente em minha pele, mesmo com as cortinas ainda fechadas.

E, então, a sensação de frio percorre meu corpo. Não frio comum, mas uma espécie de… distanciamento, como se eu fosse incapaz de sentir o calor humano que antes definia minha existência.

Meu corpo está tenso, mas não da maneira que eu esperaria. Eu estou forte, mais forte do que deveria. Cada músculo, cada osso, cada centelha de energia parece vibrar em minha pele. E então, a realidade me atinge.

O cheiro. O cheiro no ar… não é mais o que eu lembro.

O cheiro de madeira e do hospital… agora, é intenso.

Como se eu pudesse sentir cada molécula, cada elemento que compõe o ar.

Eu me levanto da cama, sentindo a leveza nos meus passos, mas algo está errado.

Não consigo controlar totalmente o movimento do meu corpo.

Minhas mãos estão trêmulas, e quando as olho, vejo que estão… diferentes.

Não mais humanas, mas quase... sobrenaturais. Como se houvesse uma força muito maior em mim, algo que eu não poderia controlar.

Com um impulso, corro até o espelho do pequeno e sujo quarto e me encaro, e a visão é um choque.

Meus olhos… meus olhos estão vermelhos. Não apenas vermelhos, mas brilhantes, intensos, como se o sangue tivesse se tornado parte de minha alma, parte de tudo o que sou agora.

Eu não consigo acreditar no que vejo.

Não pode ser real. Isso não pode ser verdade.

Meus dedos tocam meu rosto, e o reflexo no vidro parece distante, como se não fosse mais eu. Como se eu fosse outra pessoa, alguém que não conhece mais seu próprio corpo, seu próprio ser.

Quando minha mente começa a trabalhar a pleno vapor, e a memória se impõe nublada, como se uma névoa lamacenta a tapasse, eu não conseguia compreender.

Eu lembrava da febre. Da dor. De minha mãe, fraca e pálida, deitada na cama.

Do desespero em seu olhar enquanto ela me dizia para viver. Mas, ainda assim, eu não conseguia entender.

O que acontecera depois? Como eu cheguei aqui? Como eu me tornei isso?

Eu me lembro das últimas palavras de minha mãe… ou ao menos eu acho que me lembro. Mas agora, com os pensamentos mais claros, algo se destaca, uma falha, uma distorção.

Algo não se encaixa.

Por um momento, vejo flashes daquilo que achei que sabia, mas agora percebo que a realidade e minha memória estão se distorcendo.

As palavras da minha mãe, sua voz pedindo para eu viver… será que isso é realmente o que ela disse? Eu quero acreditar que é, mas algo me diz que não foi bem assim. Algo me diz que minha mente está mentindo para mim.

E então, a sensação de vazio cresce dentro de mim. Algo dentro de mim está errado, e eu sei que o que aconteceu naquela noite no hospital… não é o que eu imaginei. Minha memória, as imagens da minha mãe, o toque de Carlisle… tudo parece distorcido, como se estivesse vendo por trás de uma cortina. Um véu de engano.

— Você não pode mentir para si mesmo, Edward. — Minha própria voz parece um eco distante em minha cabeça. — Você sabe o que aconteceu.

Eu vi as mudanças em meu corpo, senti a força que agora dominava meus músculos.

Eu senti a minha garganta arder em brasas.

E agora, enquanto a verdade me invade, eu percebo que não sou mais um simples mortal. Eu sou… algo além disso. Algo muito além.

Eu fecho os olhos por um momento, tentando apagar a sensação de desesperança que começa a crescer em meu peito.

Eu olho novamente para o espelho.

E, enquanto olho, percebo que algo mais está se tornando evidente. Não sou apenas mais forte.

Eu sinto as coisas de maneira diferente. Eu sinto vozes distintas em minha mente. E, mais assustador ainda, eu sinto um anseio monstruoso por algo que ainda sei.

Com isso, a mente me explode em uma avalanche de relevações.

Não foi apenas a febre, não foi só a doença.

Eu fui… transformado.

Eu não morri.

Mas também não vivo mais como eu vivia antes.

Eu sou… imortal.

E agora, ao olhar para Carlisle, que permanece em silêncio observando-me, a verdade se torna cada vez mais clara. Se tornava mais clara porque seus pensamentos gritavam para mim.

— Você… você me transformou. — Minha voz sai quase em um sussurro, e, pela primeira vez, eu percebo a profundidade daquilo que estou dizendo. — Saia, saia de minha mente.

Gritei segurando os lados de minha cabeça.

Carlisle me observa com uma calma inquietante. Não há um único traço de arrependimento em seu rosto. Na verdade, ele parece… sereno. Como compreendesse tudo.

— Eu te salvei, Edward. Não podia deixá-lo morrer. — Ele diz, com uma voz suave, mas carregada de uma convicção silenciosa. — O que aconteceu não foi fácil, mas era a única maneira de garantir que você tivesse uma chance. A doença não ia deixar você viver.

Mas, no fundo, suas palavras não parecem ser a explicação que eu procuro.

Elas não soam como uma justificativa.

Há algo que não se encaixa.

Algo dentro de mim diz que há mais, algo que ele não está dizendo.

Ele me deu uma nova vida, sim, mas agora eu me pergunto se esse "salvamento" é mesmo o que eu teria escolhido, se eu tivesse o poder de escolher.

Ele me deu uma chance, sim. Mas será que isso é realmente um favor?

— Eu... eu não entendo. — Minha voz falha. — O que sou eu agora? O que aconteceu comigo?

Carlisle suspira, um som suave e quase triste.

— Você é um imortal agora, Edward. Como eu.

Mas mesmo suas palavras, tão diretas, não conseguem afastar a sensação de engano que cresce dentro de mim. Ele pode me dizer o que for, mas a verdade é que minha memória não se alinha mais com o que estou vendo e sentindo.

Eu posso sentir que minha mente está sendo distorcida, que há algo sendo ocultado.

Algo mais profundo, mais complexo.

O medo começa a se esgueirar por minha mente.

Se minhas próprias lembranças podem ser falsas, se a realidade pode ser manipulada assim… como posso confiar no que está acontecendo agora?

Como posso confiar em mim mesmo, quando tudo ao meu redor parece uma ilusão?

E, mais importante ainda, como posso confiar em Carlisle, quando ele, com toda a sua calma e compaixão, pode ter escondido algo ainda mais sombrio por trás desse "salvamento"?

Eu olho para ele, para seus olhos que parecem tão plácidos, e a dúvida cresce ainda mais em mim.

— Você está mentindo, Carlisle. — Digo, a voz firme agora, não mais cheia de incerteza. — Você está me dizendo que me salvou. Mas… você me transformou. E eu não sei se posso confiar em você. Eu não sei o que aconteceu comigo, mas sinto que não me contaram toda a verdade.

Carlisle me olha com uma leve expressão de pesar, mas algo em seu olhar me diz que ele sabia que isso aconteceria.

Ele sabia que, no fundo, eu perceberia. Eu perceberia a mentira.

Eu perceberia que minha nova vida foi construída sobre uma falha, sobre uma mentira.

Agora, mais do que nunca, sei que a jornada que estou prestes a começar não será feita apenas de força e imortalidade.

Será também feita de perguntas não respondidas e de um caminho tortuoso pela verdade.

Eu não sei o que é real mais, mas uma coisa é certa: a mentira que construíram ao meu redor não será o suficiente para me fazer seguir sem questionar.

Eu não sou mais apenas Edward Anthony Masen.

Eu sou algo muito além disso.

E, a partir de agora, vou lutar para descobrir quem eu realmente sou.


Notas finais
- E, assim, finalizo "Green Eyes". - Espero que tenham gostado e se apaixonado tanto por Elizabeth Masen quanto eu. - Achei que 13 de Setembro fosse uma data bem simbólica para o despertar de Edward para a nova vida. - Não deixem de comentar! - Grande abraço!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.