Green Eyes

13 Chicago, 30 de agosto de 1918.


Chicago, 30 de agosto de 1918

A Perda

Nunca imaginei que viveria para ver este tipo de pesadelo.

Hoje, quando olho para as ruas vazias de Chicago, vejo mais do que a quietude que o medo traz.

Vejo a morte, silenciosa, mas presente.

Ela ronda as esquinas, entra nas casas e nos corações das pessoas, e agora, ela entrou em minha vida, devastando tudo o que eu mais amava.

O fim de agosto trouxe com ele um calor sufocante, mas o calor do desespero, esse, era infinitamente mais insuportável.

A gripe espanhola não era mais uma ameaça distante, não uma simples preocupação nos jornais. Agora, ela estava dentro de minha casa, na minha família, e parecia que não havia mais nada que pudéssemos fazer para impedir sua progressão.

Meu marido foi o primeiro a cair.

Na noite do dia 28 de agosto, ele começou a se sentir mal. No início, pensei que fosse apenas um resfriado, algo passageiro. Ele sempre fora forte, resistente, e eu me recusei a aceitar que uma simples doença pudesse derrubá-lo. Mas logo a febre subiu, e a tosse se intensificou. Sua respiração tornou-se ofegante, e ele mal conseguia se manter de pé.

Na manhã seguinte, meu filho também estava mal.

Eu estava atônita, assistindo os dois, meu marido e meu filho, caindo um após o outro.

Não havia palavras suficientes para descrever a dor de vê-los assim, pálidos e enfraquecidos, como se a vida estivesse escorrendo de seus corpos.

Eu os ajudei a se deitar, tentando ser o alicerce que eles precisavam, mas dentro de mim, uma sensação de desespero tomou conta de meu ser.

Eu sabia o que estava acontecendo. Não havia como negar. Os sintomas eram claros. A gripe espanhola os havia alcançado, e nada estava mais fora do nosso controle.

— Elizabeth, você precisa descansar também. Não vai aguentar se não descansar. — Disse meu marido, com um fio de voz. Ele tentou me tranquilizar, mas o medo estava estampado em seu rosto. Eu sabia que ele também estava com medo de não resistir. E pior ainda: sabia que eu também não estava segura.

Naquela noite, o pior aconteceu. Meu filho, Edward, piorou de forma alarmante. Sua febre subiu ainda mais, e ele começou a delirar, falando palavras desconexas enquanto seu corpo tremia. Vi seu rosto ganhar uma palidez fantasmagórica, como se a vida estivesse se esvaindo dele.

Quando meu marido, ainda com dificuldades para respirar, tentou se levantar para ir até o filho, suas forças o abandonaram.

Ele caiu no chão, com um gemido baixo, incapaz de se mover.

O pânico tomou conta de mim, mas eu sabia que precisava agir rapidamente.

Sem mais hesitar, peguei os dois, um de cada vez, e os levei até o hospital. Nunca saberei de onde havia retirado forças para isso.

A cidade estava desesperada.

As ruas estavam ainda mais desertas, e as poucas pessoas que se arriscavam a sair estavam com os rostos cobertos, tentando se proteger da epidemia que já tomava conta de todos os cantos.

Quando chegamos ao hospital, vi a agonia estampada nos rostos de todos ao redor. O lugar estava lotado de pessoas doentes, e o caos era absoluto. As camas estavam ocupadas, e muitos pacientes estavam sendo tratados em corredores improvisados.

Foi aí que o vi pela primeira vez: o Doutor Carlisle Cullen.

Pálido, altivo e de olhos gentis.

Ele estava ali, um médico jovem, mas com um semblante calmo e confiante.

Seus olhos, de um estranho tom de ouro, captaram minha atenção de imediato.

Ele parecia fora de lugar, como se sua presença transmitisse alguma esperança naquele ambiente de desespero. Ao ver nosso estado, ele imediatamente se aproximou e pediu que os levássemos para uma das camas vagas.

— Vou cuidar deles, senhora Masen. — Disse ele com uma suavidade que me deu um pequeno alívio. — Não se preocupe. Farei tudo o que puder.

Enquanto Carlisle tomava conta dos dois Edwards — pai e filho — , eu fiquei ao lado deles, tentando manter a calma.

Mas o pânico dentro de mim não cessava.

Eu sabia que algo muito grave estava acontecendo.

Os médicos estavam sobrecarregados, e nem todos os pacientes estavam recebendo os cuidados que precisavam.

A gripe espanhola não fazia distinção. Todos estavam vulneráveis.

Passaram-se horas, e o estado de ambos continuava a piorar.

O tempo parecia arrastado, como se a vida estivesse se esvaindo lentamente, um minuto de cada vez. Carlisle, por sua vez, fazia o possível para aliviar a dor e os sintomas, mas não havia muito que ele pudesse fazer. A doença se espalhava tão rapidamente que ninguém parecia preparado para combatê-la.

Foi então que, quando eu pensei que já não havia mais esperança, a realidade me atingiu com uma força brutal.

Meu marido não resistiu.

Por volta do final da tarde, com uma última respiração pesada, ele se foi.

Eu estava ao seu lado, segurando sua mão, tentando não deixar a dor me consumir por completo. As palavras não eram suficientes, o vazio dentro de mim era indescritível.

Ele foi embora, com um suspiro que parecia ser o fim de tudo o que conhecíamos.

Eu fiquei paralisada, sem saber o que fazer.

Carlisle se aproximou, com uma expressão sombria.

— Sinto muito, Elizabeth. Fizemos tudo o que pudemos, mas a doença foi mais forte.

Eu não conseguia acreditar no que acabara de acontecer. Como poderia perdê-lo assim, tão de repente, em um mundo que parecia já não ter sentido algum? Ele era a minha rocha, o homem que me apoiava, o pai de Edward. E agora, ele estava... ele se foi.

Mas não havia tempo para lamentos.

Edward ainda estava ali, respirando com dificuldade, sua vida pendendo por um fio.

Carlisle me olhou com uma expressão que misturava compaixão e urgência.

— Ele está muito fraco, Elizabeth. A doença dele também está em estágio avançado. Vou fazer o possível para estabilizá-lo, mas não podemos prever o que vai acontecer.

Os minutos seguintes foram um borrão de ansiedade.

Eu me agarrei à pequena esperança que ainda restava, olhando para Edward e esperando que ele resistisse. O médico fez o possível para aliviar sua dor, mas a febre dele não cedia, e a luta dele parecia mais difícil a cada segundo.

Eu não sabia mais o que fazer.

Eu já tinha perdido o meu marido, e agora... estava prestes a perder o meu único filho, o meu querido Edward.

E assim, com o Sol já se pondo, e a noite chegando, a escuridão tomou conta do meu coração. O hospital estava agora apenas um reflexo de todo o sofrimento que vivíamos, e a vida parecia ter me tirado tudo de uma vez.

E, então, em meio à dor, à perda e ao vazio, restava apenas uma pergunta: como seguir em frente quando a própria vida nos toma tudo o que mais amamos?