Green Eyes

11 Chicago, 20 de junho de 1918.


Chicago, 20 de junho de 1918


Conflito entre Gerações



O aniversário de 17 anos de Edward chegou, e o dia, que deveria ser alegre e festivo, foi marcado por uma tensão crescente, que eu já sentira no ar desde o momento em que ele acordou.

Durante a manhã, quando todos estavam ocupados com os preparativos para o pequeno almoço que havíamos organizado, havia algo no comportamento dele que não me passava despercebido.

Ele parecia mais distante do que nunca, seus olhos fixos em algum lugar além da sala, como se estivesse em um mundo à parte.

Meu marido, por sua vez, estava atento ao comportamento do filho, provavelmente ciente de que hoje não seria apenas mais um dia comum.

Ele havia preparado alguns presentes para Edward, como sempre fez, e até ensaiado palavras de incentivo para esse dia especial. Mas o que ele não sabia – o que nem eu sabia completamente – era o que Edward estava prestes a revelar.

Após o café da manhã, quando o clima estava mais tranquilo, e todos pareciam ter retornado à rotina, o que aconteceu a seguir foi um daqueles momentos em que as palavras ecoam de maneira diferente, e as coisas nunca mais são as mesmas.

Edward se aproximou de nós, um olhar tão sério e profundo em seus olhos que logo senti o peso no peito. Ele respirou fundo antes de falar, como se soubesse que o que diria mudaria tudo.

— Pai, mãe, precisamos conversar. — Sua voz era mais grave que o normal, como se ele tivesse envelhecido vinte anos, e o tom de urgência em suas palavras fez meu coração bater mais forte.

— Claro, filho. — Eu respondi, tentando disfarçar o nervosismo que sentia. — O que aconteceu? Está tudo bem?

Meu marido, que também percebeu a mudança no comportamento de Edward, interrompeu.

— O que houve, Edward? Você parece… diferente. Você está bem?

Ele olhou para os dois, e o silêncio que se seguiu parecia se arrastar por horas.

Edward deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma determinação que eu nunca havia visto.

Eu sabia que ele havia falado sobre a guerra anteriormente, mas sempre de forma vaga, como se fosse algo distante e improvável. Mas agora, não havia mais nada de vago, nada de incerto.

Ele estava decidido.

— Eu decidi, pai. Eu vou para a guerra.

O impacto de suas palavras foi como um golpe direto no coração. Eu congelei, incapaz de reagir imediatamente. Minha mente não conseguia processar o que ele acabara de dizer. O som de sua voz cheia de convicção, de certeza, fez com que o ar na sala ficasse pesado, como se todo o espaço ao nosso redor tivesse diminuído de tamanho.

Edward olhou para ele, sua expressão se tornando uma máscara de incredulidade. Seu tom de voz soou grave.

— O quê? Você… vai para a guerra? — Ele deu um passo atrás, como se estivesse tentando afastar aquela realidade da sua frente. — Você não tem nem 18 anos, rapaz! A guerra é para homens, não para meninos como você! Não entende o que está dizendo?

Eu mal consegui emitir qualquer som, meus olhos voltando-se para Edward em busca de uma explicação, mas ele não parecia ter a mínima dúvida de sua escolha.

— Eu sei muito bem o que estou dizendo, pai. E eu sei o que quero. Eu não sou um garoto. Eu tenho 17 anos, e estou pronto para fazer o que é certo. Eu vou me alistar. Eu quero lutar pela minha pátria. Eu quero ser mais do que apenas alguém que vai assumir o seu império e os seus negócios. Eu não sou você, pai. Eu preciso fazer algo que realmente importe.

As palavras de Edward foram como uma lâmina afiada.

Ele estava me dizendo que sua vida não seria mais a vida que eu e seu pai havíamos planejado para ele.

Não era apenas uma diferença de opinião, era uma ruptura profunda.

Ele estava se afastando, indo em uma direção que eu não poderia seguir, e essa ideia me cortava o coração.

Eu tentei encontrar alguma forma de convencê-lo a mudar de ideia, mas vi que isso era inútil.

Ele estava determinado.

— Edward, querido, você não sabe o que está dizendo! Você tem um futuro brilhante aqui! Você tem tudo o que poderia querer. O que você vai fazer na guerra? Perder tudo isso por uma aventura, por um ideal vazio? — Eu disse, a voz falhando enquanto a angústia se instalava em meu peito. — Você tem uma responsabilidade. Você tem que estudar, seguir os passos da nossa família. A guerra não é o seu lugar. Nós já te demos tudo o que você precisa para ter uma vida próspera. Para ter um futuro feliz com a família que irá construir. O que você está pedindo não faz sentido!

Meu marido estava furioso, suas mãos tremendo com a frustração.

Ele nunca havia se mostrado assim diante de Edward.

A ideia de que seu filho rejeitava o legado da família o enfurecia, e sua raiva estava se tornando incontrolável.

— Você vai entender, Edward. Você vai ver o que está fazendo quando voltar para casa mutilado. Está apenas jogando tudo fora. — Seu pai disse com a voz carregada de desprezo. Ele avançou, seu rosto agora vermelho de raiva. — Você não vai para a guerra. Você vai continuar com os estudos, vai se preparar para o futuro que você tem aqui. Fará Direito em Harvard ano que vem. Eu não vou deixar que você faça essa burrice!

— Não pense que pode falar comigo como com seus empregados. Você não manda em mim! — Meu filho rugiu para o pai com o dedo em riste.

Foi quando algo inesperado aconteceu.

O tapa foi rápido, quase um reflexo, e atingiu meu filho com um som seco.

O estalo ressoou pela sala, e tudo pareceu parar por um momento.

O choque foi absoluto.

Eu fiquei paralisada, sem saber o que fazer.

Edward, meu filho, recebeu o golpe sem dizer uma palavra.

Sua cabeça virou para o lado, mas ele não recuou.

Ele permaneceu de pé, sua postura desafiadora.

Eu gritei, minha voz cortando o ar.

— Edward, o que você fez? Você não pode fazer isso com ele!

Meu marido ficou parado, olhando para Edward com os olhos cheios de raiva e vergonha.

— Ele me desrespeitou! Ele não entende o que está fazendo, Elizabeth! Eu só estava tentando…

Edward, ainda com a mão no rosto, olhou para o pai com uma expressão de dor, mas também de fúria.

— Você não pode decidir por mim, pai. Você não pode me impedir de viver a minha própria vida. Eu não vou ser o que você quer. Eu vou fazer o que acredito ser certo, e nada vai mudar isso!

Ele falou com uma clareza brutal, e, em seus olhos, eu vi algo que nunca havia visto antes: a força de alguém que já havia tomado uma decisão que não poderia ser revertida.

Com um suspiro pesado, ele virou-se para sair da sala, sem olhar para trás.

— Eu vou para a guerra, e nada que você faça vai mudar isso. — Ele disse, já à porta.

Eu me afastei de meu marido, sentindo as lágrimas que finalmente escorriam pelo meu rosto.

O som do passo decidido de Edward ao deixar a sala ecoava em meus ouvidos.

Eu sabia que não havia mais nada a ser dito.

A luta dele era maior do que qualquer coisa que eu ou Charles pudéssemos compreender.

Ele estava indo para algo que ele acreditava ser maior do que a vida que havíamos preparado para ele.

O silêncio tomou conta da casa.

O grito de raiva de meu marido ainda estava ressoando em minha mente.

Mas, acima de tudo, eu sentia uma dor profunda, uma perda iminente, como se algo tivesse sido arrancado de mim.