Green Eyes

12 Chicago, 20 de agosto de 1918.


Chicago, 20 de agosto de 1918

A Sombra da Gripe



A cidade de Chicago nunca pareceu tão silenciosa.

Mesmo nas ruas movimentadas, onde os carruagens e os automóveis costumavam ser constantes e os comerciantes gritavam suas ofertas, hoje havia um eco estranho no ar.

O Sol ainda brilhou com força pela manhã, mas o clima parecia pesadamente abafado, como se uma nuvem invisível pairasse sobre nós, prestes a cair.

A pandemia de gripe espanhola chegou de forma silenciosa, como uma tempestade que se aproxima sem que a gente perceba até ser tarde demais.

E agora, ao olhar pela janela de nossa casa, vejo as ruas desertas, as lojas fechadas, e os rostos ansiosos dos vizinhos, que se esgueiram por detrás das cortinas, observando o que está acontecendo.

Eu nunca imaginei que veria uma coisa dessas.

Uma doença tão rápida, tão letal, capaz de transformar uma cidade tão cheia de vida e movimento em um campo de medo.

Eu já vi guerras e revoluções em livros, mas nada preparou minha alma para o que estamos vivendo agora.

O ar parece pesado e, a cada passo que damos, sentimos como se a vida estivesse sendo retirada de nós, lentamente, sem piedade.

Edward, meu marido, ainda não voltou para casa. Ele tem se dedicado cada vez mais aos negócios, e está fazendo o que pode para garantir que as operações não parem, mesmo com o caos.

Ele sempre foi forte, mas vejo que essa doença está minando sua energia, seu espírito.

Ele tenta não mostrar, mas a preocupação está estampada em seu rosto todas as vezes que ele me olha. Eu não me importo com os negócios agora. Eu só quero minha família segura.

Edward... meu querido filho.

Ele ainda está fora da cidade, estudando, mas não consigo me livrar da sensação de que ele está mais perto de nos alcançar do que eu gostaria de admitir. Fico imaginando o que ele estaria fazendo agora, se ele estivesse aqui, nesta casa, e me pergunto como ele reagiria a tudo isso. Ele tem essa determinação, essa energia que me impressiona e, ao mesmo tempo, me assusta.

Mas a verdade é que, enquanto ele não está aqui, quem mais tem me preocupado são os pequenos sinais de que a doença começa a chegar mais perto. Há uma aflição no ar, algo que não se pode ver, mas que sentimos, como se a cada respiração o perigo estivesse se aproximando mais e mais.

Eu estava na cozinha hoje, preparando um pouco de chá, quando recebi uma visita inesperada.

Minha amiga Margaret, a vizinha da casa ao lado, veio até a porta, com os olhos vidrados de medo e ansiedade. Seu rosto estava pálido, e sua voz trêmula enquanto me contava que a filha dela, a doce Lily, estava muito doente.

— Eu não sei o que fazer, Elizabeth. — Ela disse, quase em um sussurro. — Ela tem febre alta, e não consegue respirar direito. O médico disse que é a gripe, mas... eu não sei se ela vai aguentar.

Eu olhei para ela, tentando manter a calma, mas meu coração estava apertado. O medo começava a ser real. Sabíamos que a doença estava por perto, mas a ideia de ver alguém tão próximo sofrer dessa maneira era aterradora.

— Eu vou lá ajudá-la. — Eu disse rapidamente, pegando meu xale e me dirigindo para a porta. — Você vai descansar. Vou ver o que posso fazer.

Quando cheguei à sua casa, encontrei Lilly, deitada em uma cama improvisada, coberta até o pescoço, com o rosto pálido e suado.

Seus olhos estavam vidrados, e sua respiração era irregular. Ao meu lado, Margaret se contorcia, com as mãos no rosto, visivelmente desesperada. Eu não sabia o que fazer. Não havia nada que pudéssemos fazer.

— O que posso fazer, Elizabeth? — Ela me perguntou, a voz quebrada de aflição.

Eu não tinha respostas. Não havia respostas fáceis para isso. Não havia cura que pudesse ser oferecida, apenas o temor e o aguardar para ver quem sobreviveria e quem cairia. Eu acenei com a cabeça, tentando demonstrar alguma confiança, mas dentro de mim, o medo só aumentava.

— Vamos mantê-la confortável. — Eu disse, tentando soar calma. — Vou voltar para verificar, mas o médico vai precisar fazer mais.

Eu passei algum tempo com Lily, ajudando a refrescar sua testa e a dar-lhe um pouco de água, mas não pude deixar de notar a fragilidade da situação. Era um pesadelo sem fim. Quando voltei para casa, sentia um peso insuportável em meus ombros. A ideia de perder alguém por algo tão inesperado, tão implacável, me fazia sentir que estávamos todos à mercê do destino.

O resto do dia foi tomado pelo medo crescente. O telefone tocou algumas vezes, trazendo mais notícias de vizinhos e conhecidos que estavam ficando doentes. A senhora Lane, a esposa do nosso jardineiro, também foi diagnosticada com a gripe. Eu sabia que as coisas estavam prestes a piorar, e que não poderíamos mais viver como antes.

Quando meu marido finalmente voltou para casa, encontrei-o na sala de estar, sentado em uma das poltronas, com a expressão exausta. Ele me olhou e fez um gesto com a mão, como se tentasse se livrar do peso que carregava.

— Está ficando cada vez pior, Elizabeth. — Ele disse com uma voz cansada. — Cada vez mais pessoas estão caindo. Eu nunca pensei que isso fosse tomar essas proporções.

Eu me sentei ao lado dele, tentando acalmá-lo.

— Eu sei, querido. Estou com medo também. Mas temos que seguir em frente, fazer o que podemos para manter todos seguros.

Não havia nada que pudéssemos fazer agora além de esperar e torcer para que os nossos entes queridos permanecessem a salvo.

Olhando pela janela ao entardecer, senti uma tristeza profunda tomar conta de mim. O mundo ao nosso redor parecia desabar, e eu não sabia por quanto tempo a nossa família poderia escapar dessa tempestade invisível. Uma doença que não discriminava idade, classe social, ou riqueza. Não havia respostas, não havia cura.

E tudo o que eu podia fazer era esperar, com um nó na garganta, que esta sombra que pairava sobre nós passasse, e que aqueles que amamos, especialmente Edward, fossem poupados. O medo agora era palpável. Cada esquina da cidade parecia carregada de uma tensão silenciosa. O futuro era uma neblina, e eu não sabia o que o amanhã traria.