Green Eyes
10 Chicago, 20 de Junho de 1917.
Chicago, 20 de junho de 1917
Desejo de Guerra
Hoje foi um dia marcado por uma mistura de emoções contrastantes.
Pela manhã, Edward parecia estar em um daqueles momentos de reflexão profunda, algo mais sério do que o habitual.
Percebi isso logo ao vê-lo sentado na varanda, com os olhos fixos no horizonte, como se estivesse tentando entender algo grande, algo que estava além do nosso alcance imediato.
Eu sabia que algo estava acontecendo dentro dele, uma transição que não podia mais ser ignorada.
E, embora tivesse tentado manter tudo o mais leve possível para seu aniversário de 17 anos, eu sabia que não poderia mais ignorar os ventos da guerra que estavam soprando ao redor de todos nós.
A guerra estava mais perto do que nunca.
O mundo parecia estar em frangalhos, e eu sabia que, em algum momento, Edward teria de fazer uma escolha difícil.
Ele era um rapaz de princípios fortes e, com a crescente tensão na Europa, eu sabia que, cedo ou tarde, ele tomaria uma decisão que mudaria sua vida para sempre. A nossa vida para sempre.
O dia começou com a visita de uma bela jovem da nossa vizinhança, que, com 17 anos, estava crescendo muito rápido e amadurecendo com uma elegância natural.
A família da moça havia se mudado para nossa região no ano anterior, e desde então, eu percebi que ela e Edward se conheciam um pouco, mas nada mais do que uma amizade educada.
Hoje, no entanto, a jovem, que se chamava Lily, veio até nossa casa para um chá com a mãe, e senti que era o momento de fazer uma pequena introdução mais formal entre os dois.
Lily era linda e extremamente educada. Sua face possuia traços finos emoldurados pelos cabelos negros que constratavam lindamente com sua pele de porcelana. Diferentemente de outras jovens, Lily usava as madeixas que pendiam até a cintura soltas.
A moça usava um belo vestido azul — a cor preferida de Edward — cujo espartilho marcava sua cintura delgada.
Quando Lily entrou pela porta, com sua figura esbelta e sua postura refinada, eu notei imediatamente o modo como Edward a observava.
Era o olhar de um rapaz que estava começando a entender que as coisas estavam mudando, e que as mulheres agora faziam parte de um mundo que ele começava a explorar, mas que ainda lhe parecia distante.
Eu sabia que ele estava num momento crucial, onde o conceito de romance, namoro e até mesmo o futuro começavam a ganhar relevância.
— Margaret, que prazer tê-la conosco, minha amiga! — Eu disse, levantando-me para cumprimentá-las. — Oh, como sua Lily está deslumbrante! — Ela me sorriu timidamente, agradecendo e se acomodando na sala de estar.
Edward estava de pé perto da janela, quase como se estivesse esperando algum sinal, um momento de inspiração para saber o que fazer.
Quando ele finalmente se virou e a viu, houve um momento de silêncio, onde ambos pareceram hesitar antes de se cumprimentarem de forma educada.
— Boa tarde, Edward! — Disse Lily, com uma voz suave, mas cheia de graça. — Eu ouvi muito sobre suas façanhas ao piano, e estou feliz por finalmente nos encontrarmos
Edward sorriu um pouco, sem saber o que dizer, e então respondeu.
— Sim, claro... É um prazer.
Sua resposta foi genuína, mas ao mesmo tempo, distante, como se ele estivesse mais imerso em pensamentos próprios do que realmente na conversa que acontecia ali.
A conversa fluiu, mas eu percebi que Edward não estava totalmente presente.
Ele era cortês, mas distraído, olhando de vez em quando para a janela, como se alguma parte dele estivesse lá fora, perdida em algum lugar onde as bombas estouravam e os gritos dos soldados eram ouvidos a cada instante.
Ele havia falado sobre isso comigo nos últimos dias, e eu sabia o que isso significava.
O desejo que ele tinha de ir para a guerra estava crescendo, mais forte do que qualquer outra coisa.
— Edward, querido. — Eu disse com um sorriso, tentando trazer sua atenção para o momento presente. — Gostaria de conversar um pouco mais com Lily e sua mãe? O chá está maravilhoso, e seria bom aproveitar a tarde.
Ele me olhou, claramente um pouco desconcertado com a situação.
— Claro, mamãe. Vou me juntar a vocês. — Mas, antes de ir até a mesa, ele se aproximou de mim e falou em voz baixa. — Mamãe, eu preciso falar com a senhora mais tarde. É urgente.
Minha preocupação aumentou imediatamente, mas eu apenas acenei com a cabeça, fazendo um gesto discreto.
Enquanto a tarde se desenrolava, Edward estava distante, absorvido em pensamentos que não consegui compreender completamente.
Lily parecia não notar a inquietação dele e continuava conversando com entusiasmo sobre os eventos sociais da cidade, mas eu sabia que minha atenção estava em outro lugar.
Edward estava mudando, de uma maneira que não podia ser ignorada, e estava claro que a guerra estava se tornando um peso em seu coração.
Quando a jovem e sua mãe finalmente se despediram, Edward permaneceu calado, em silêncio, olhando para a porta depois de se despedir educadamente.
Eu podia sentir que ele estava mais distante do que nunca, como se a realidade de ser um homem jovem na véspera da guerra o tivesse atingido de uma maneira mais forte do que eu poderia imaginar.
— Vamos conversar, mamãe? — Edward pediu, finalmente, ao se aproximar de mim. Sua voz estava grave, mais séria do que nunca, e eu percebi que a ansiedade que ele vinha carregando finalmente havia se tornado uma necessidade de falar.
Sentamos no mesmo lugar da manhã, na varanda onde o vento suave batia nas árvores e o sol estava começando a se pôr no horizonte. Era um cenário tranquilo, mas Edward estava claramente perturbado.
— Eu… eu não sei mais o que fazer, mamãe. — Ele começou, a voz firme, mas com uma tremor leve. — Eu não me sinto completo aqui. Eu sei que a guerra está acontecendo, e eu quero ir. Eu preciso fazer algo… sentir que estou contribuindo.
Aquelas palavras me cortaram o coração, e eu sabia o que estava por trás de sua fala.
Edward queria algo maior, algo que o fizesse se sentir como um homem, e a guerra, com toda a sua gravidade e honra, parecia ser a resposta.
A ideia de perder meu filho para a guerra, de vê-lo partir para um futuro incerto, me assustava profundamente, mas eu sabia que essa era uma escolha que ele teria de fazer por si mesmo.
— Eu sei que você quer ajudar, meu querido. — Eu disse suavemente, tomando sua mão nas minhas. — Mas eu temo pela sua segurança. Eu tenho medo do que a guerra fará com você. Você ainda é muito jovem, e eu não quero que você se arrisque sem pensar nas consequências.
Ele me olhou com a determinação que sempre tive medo de ver, mas sabia que era inevitável.
— Eu sei que você se preocupa, mamãe, mas eu tenho um propósito. Eu preciso fazer parte disso. Eu preciso…
Ele não terminou a frase, mas eu sabia o que ele queria dizer.
Ele precisava encontrar algo que o definisse, que o tornasse parte do mundo adulto.
A guerra, com todos os seus horrores, parecia ser o caminho que ele via para isso.
— Eu entendo, Edward. Mas saiba que, seja qual for sua decisão, eu sempre estarei ao seu lado, apoiando você. Só prometo que me ouvirá e pensará com calma sobre isso.
Ele ficou em silêncio por um momento, antes de finalmente se levantar, com o rosto mais sério do que nunca.
— Eu pensarei, mamãe. Eu prometo.
Eu o observei partir para seus quartos, sabendo que o que ele estava prestes a fazer era algo que poderia mudar suas vidas para sempre.
E, embora minha alma estivesse pesada, eu sabia que, como mãe, não poderia impedi-lo de seguir seu caminho.
Eu só esperava que ele fosse mais forte do que imaginava.
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