Notas iniciais
Tebaldi: Desculpe-nos pela demora :P

Ronan.

O rapaz tirou o capuz e seus longos cabelos azuis esvoaçaram com a ventania do Vale. Caminhava solitário por uma parte desértica de Vermécia, mas tinha pressa. Minutos atrás encontrou-se com Elesis, atual líder da Casa Sieghart. Para um desertor como ele, isso não era um bom sinal. Poucos metros a frente, encontrou-se com um jovem encapuzado no meio do caminho e o fitou.

— Harpe... até onde pretende me seguir?

— Até onde os deuses me permitirem, Lorde Ronan – disse o garoto, tirando o capuz e revelando seus cabelos brancos como a neve. Seus olhos eram vermelhos e profundos, sinceros.

— Sabe que agora é um desertor, certo? Se for encontrado aqui em Vermécia pelo exército de Serdin será morto sem que pensem duas vezes – disse-lhe Ronan.

— Eu sei. O mesmo vale para você... recomendo que fuja daqui. Vamos juntos para Ellia – sugeriu o garoto de cabelos grisalhos.

Ronan não aceitou a ideia de bom grado. Ele nada tinha feito de errado para precisar fugir do continente. Por três anos o jovem guerreiro vagou pelos territórios neutros de Vermécia sem ser encontrado.

— Não faz sentido. Eu não teria perdido meu posto como guarda real se não fosse por Cazeaje! O rei de Serdin está sendo manipulado e ele sequer abre os olhos – Ronan cuspiu as palavras como se fossem veneno. Logo se recordou de seu passado e como a guerra começou.

* * *

— Mandarei uma carta para o rei Rencia – dizia a rainha de Canaban, sem expressão nos olhos e nenhuma alteração no tom de voz. – Faz décadas que não o vejo. Lothos, chame aqui Ronan Erudon.

— O líder do exército? Ele é jovem, o que fará com ele? Deve ter doze anos – disse a comandante, um tanto curiosa.

— Não importa. Farei dele meu Guarda Real – disse a rainha, com um tom de aprovação.

— Mas por quê!? Ele é jovem demais para tal cargo!

— Não me questione, Lothos. Obedeça minhas ordens. Chame o garoto aqui, sua lealdade é rara como catalisadores de magia.

— Sim... desculpe-me, Vossa Graça.

Lothos saiu pelas portas do salão com um incômodo em seu coração. Cada dia que se passava a rainha ficava cada vez mais sombria e incompreensível.

— Ronan Erudon, a rainha o convida para ir à sala do trono – gritou Lothos, e todos do refeitório fitaram a comandante.

— O que será que houve? – sussurrou Harpe, inquieto. Podia-se ouvir também muitos outros cochichos.

—Não sei... não me parece bom. Será que ingressei ao exército cedo demais? Sabe, nem sou adulto ainda – disse Ronan, com medo no coração.

— Se assim fosse, não serias o único. Também não completei quinze anos ainda e estou aqui. Tenho treze.

— Ronan Erudon, está aí? – chamou novamente Lothos.

— Preciso ir – disse o garoto, dando fim ao seu pão duro e os torrões de bacon queimado.

Ao se levantar, Lothos o guiou até a sala do trono. A rainha o encarava, mas nada disse até Lothos sair do salão.

— Jura lealdade à sua rainha e ao seu reino? – perguntou a rainha.

— S-sim, eu... juro – disse Ronan, com a garganta seca.

A tensão pesava sobre o jovem guerreiro. Uma leve cobertura de suor lhe escorria pelo rosto e a escuridão do salão em pleno horário de almoço o assustava. As estatuetas de deuses e guerreiros lendários o faziam parecer apenas uma criança chorona, e não o guerreiro prodígio que ele realmente era.

— Preciso de sua lealdade – disse a rainha.

As sombras atrás da senhora sua majestade pareciam se mexer com uma intenção assassina terrível. Ronan cogitou ser apenas sua imaginação, então permaneceu imóvel. Com o passar dos segundos, a escuridão ficava mais densa e se espalhava mais. O garoto reparou algo errado, mas não sentia forças para se mover. As trevas estavam o consumindo aos poucos... logo Ronan perdeu a consciência.

O garoto estava perdido às trevas, nada via, nada ouvia... apenas ficou lá se questionando se aquela seria sua morte, se aquilo era apenas um pesadelo que não chegava ao fim. Ele só queria acordar, estava entrando em desespero, muitas vezes chorou e gritou. Ronan não podia ficar ali. Ele gritou novamente e dessa vez seu próprio coração respondeu. Uma enorme energia, uma massa de luz o tirou das trevas e o libertou do controle da rainha das trevas.

Ao retomar a consciência, o garoto se sentiu deslocado. Algumas casas de uma cidade não tão longe dali queimavam, guerreiros lutavam e gritavam, espadas tilintavam e alguém gritava seu nome.

— Lorde Ronan! Lorde Ronan! – gritava Harpe ao seu lado.

— Onde... onde estou? – perguntou o garoto recém acordado, que nem mesmo reconheceu sua voz.

Ele se sentia mais elevado do chão, mais forte, sua voz havia engrossado. Era como se aquele corpo não fosse o dele.

— O que houve, Ronan? – perguntou Harpe.

— Eu... estava perdido em trevas então de repente uma luz e... acordei – tentou se lembrar o garoto. Ronan percebeu que Harpe também havia crescido, agora parecia ser um adulto.

— Como assim? Você ordenou um massacre a Serdin e aqui estamos, em nosso terceiro ano de guerra.

— Como? Eu o quê? Terceiro ano? – Ronan tinha muitas perguntas, mas desistiu ao notar que Harpe estava tão confuso quanto ele – Eu quem ordeno essa horda de guerreiros?

— Sim, meu senhor.

— Ordeno a todos que voltem para Canaban! – decidiu Ronan, querendo evitar a guerra.

Era um tanto tarde. Mesmo após retornar, tomar entendimento da situação, Ronan não pôde evitar as consequências. O rei de Serdin morreu nesta guerra e o mesmo valeu para a rainha de Canaban. O guarda real liderou todo o país, resistindo à guerra por mais longos dois anos. Após isso, ele fora excomungado pelo próprio povo pela traição à rainha na guerra.

Sabendo das ações de Cazeaje, Ronan foi perdoado um ano depois e recebeu permissão para retornar a seu reino, mas ele preferiu seguir sozinho e travar uma batalha contra a rainha das trevas. Ronan tem como objetivo resgatar a honra de Canaban e por sí só derrotar a rainha da escuridão.

* * *

— O rei Rencia está morto, a rainha de Canaban também. Não posso me perdoar, continuarei como desertor – disse Ronan, por fim.

— Não deve Ronan! – teimava Harpe, sabendo que era inútil.

— Não me importo se você deixar de me seguir. Aqui na fronteira entre Serdin e Canaban, no Vale do Juramento eu deixo meu desejo – anunciou Ronan, falando alto o suficiente para que a terra e o céu gravassem suas palavras. – Eu juro pelo meu orgulho e pela minha honra que derrotarei Cazeaje!

— Mas que droga Ronan! Você sabe que o seguirei até onde os deuses me permitirem, mas desafiar Cazeaje é demais!

— Se eu for insuficiente para derrotá-la, que eu morra tentando – disse o ex-guarda real, por fim seguindo seu caminho. – Vamos, Elesis Sieghart está logo atrás de nós. Ela pode nos alcançar se demorarmos mais – deixou Harpe e sua teimosia para trás. Mas Harpe era muito leal, seguiu seu amigo mesmo tendo receio no coração.

Ronan reparou que seu leal amigo de infância ainda o seguia, mas logo o perdeu de vista. Harpe andava pelas sombras e sempre apoiou Ronan indiretamente. Isso fora passado de geração em geração, a família de Harpe sempre seguiu e apoiou os Erudon nas sombras.

O jovem guerreiro parou em uma cidade abandonada do país devido a fome e a seca, e usou a magia que desenvolveu com os anos para detectar as trevas. Era magia dos Arcanos. Para Ronan, que nasceu em Canaban, magia é como diamante, coisa rara. Em Canaban temos espadachins e em Serdin temos magos. O guerreiro tinha as duas habilidades, tanto talento com a espada quanto com a magia. Esses mestiços eram chamados de Arcanos. Ronan mal sabia controlar sua magia, então apenas a usava para localizar as trevas e para proteção.

Sua magia era branca, pura. Ele dizia que sua espada carregava a justiça e sua magia a glória. Com esse poder, ele podia deter e localizar as trevas, e foi assim que se livrou da possessão de Cazeaje.

Após uma longa busca mágica, Ronan percebeu que a cidade fora abandonada até pelos monstros. Seguiu em frente, indo mais ao norte. Caminhou por dias, passara noites ao frio e tardes ao calor. Por fim, chegou ao limite do continente, em uma praia sagrada.

A praia era sagrada pois lá viveu um guerreiro lendário de Canaban, seu nome era Gaicoz. Ronan deu o primeiro passo no território do santuário e um esqueleto horripilante levantou-se da terra, lentamente.

O esqueleto tinha cerca de um metro, seus olhos não eram nada mais que órbitas flamejantes. Ele vestia uma armadura vermelha e um chapéu de palha que combinava perfeitamente com sua roupa de samurai. Ele tinha em mãos uma Katana e uma espingarda, armas usadas antigamente.

No mundo de Ernas, a tecnologia era algo antigo e coisa que apenas quem teve contato com o reino de Calnat conhece. Este reino, reino arcano onde era-se mesclado magia e tecnologia fora extinguido seiscentos anos antes, em uma grande guerra dimensional. Dizem que tribos demoníacas destruíram o reino e depois desapareceram.

Ronan precisou recuar do esqueleto que investiu, e logo outros começaram a brotar da terra, como se estivessem plantados ali por anos, esperando por desabrocharem.

— Droga! – resmungou o cavaleiro. – Se pelo menos Harpe estivesse comigo...

Não estava. E para seu maior desespero, um esqueleto maior que tinha em mãos uma espada de dois metros surgiu de dentro do castelo.

— Quem ousa incomodar meu sono? – perguntou o mesmo, com uma voz trêmula como os ventos que correm por uma brecha nas janelas das casas.

— Eu preciso passar! – gritou Ronan para o esqueleto chefe.

— Prove que é merecedor de minha ajuda, cavaleiro. Mostre sua honra.

Honra é a última coisa que tenho, pensou. Seu orgulho estava destruído desde que fora controlado e usado por Cazeaje.

— E como provo isso?

— Um guerreiro entende melhor o outro quando ambos lutam com espadas. Mas se você não tiver honra, cortarei sua cabeça sem antes hesitar – respondeu o esqueleto. – Qual seu nome, jovem cavaleiro?

— Ronan Erudon, ex-guarda real do reino de Canaban.

— Eu sou Gaicoz, líder dos exércitos samurais. Orgulho de Canaban uma vez morto por Cazeaje, e desde então minha alma está em meus ossos sem poder sair de minha residência e sem poder descansar em paz até que a rainha das trevas desapareça de vez de Ernas – curvou-se o samurai esqueleto.

— Tudo bem. Resolvemos logo isso – disse Ronan, avançando contra o esqueleto sem hesitação.

Gaicoz não era fraco, desviou com facilidade e deferiu uma crescente com sua espada. Os dois metros de lâmina zuniram ao ouvido de Ronan, que quase não teve espaço para se proteger. O ex-guarda real recuou alguns metros e investiu novamente. O estilo de luta de Gaicoz era antiquado, porém firme e forte. Ronan começou a recuar e ficar sem espaço, até que Gaicoz parou. O rapaz não entendeu o motivo, mas após alguns segundos de observação, Ronan viu-se no limite da propriedade de Gaicoz.

— Não pode me acertar fora dos limites de sua propriedade? – surpreendeu-se o rapaz.

— Posso. Mas seria falta de honra. Não gosto de derramar sangue no território de outras pessoas, é uma falta de respeito.

— Hm... parece-me que não pode – provocou Ronan, tirando proveito da situação e atacando Gaicoz de fora.

— Eu disse que isso é uma falta de respeito. Venha aqui e lute com honra – Gaicoz defendia-se dos golpes de Ronan, ficando cada vez mais irritado.

Ronan começou a rir, mas logo a gargalhada cessou. Gaicoz pulou para fora de seu templo, chutou o peito de Ronan – que gritou de dor – e pulou em cima dele. Sua espada de dois metros estava agora apontada para o pescoço do rapaz, que jazia imobilizado no chão.

— Eu disse que o mataria sem hesitar se não tivesse honra, Lorde Erudon.

Ronan sentia medo. O chute que lhe acertara em cheio no peito ardia e o metal frio que arranhava seu pescoço lhe arrepiava até os ossos. Como foi que ele ficou naquela situação? Era forte. Gaicoz pisava no seu orgulho e ele já não tinha mais honra. Ou talvez tivesse a imagem do que restou dela.

— Ande, tire logo minha vida – cuspiu as palavras como se fossem pragas.

— Dá-me nojo ver um guerreiro de Canaban nessa posição. Você desgraçou meu reino, mas vejo que ainda lhe resta orgulho e algum pouco de honra. Irei te esperar no topo de meu castelo. Se ainda tem honra e desejas viver, venha até mim com toda a tua determinação.

Ronan jurou por sua honra e orgulho que derrotaria Cazeaje. Se ele não tinha honra, seria seu voto inválido? Aquilo ficou martelando em sua cabeça por alguns minutos. Ele não encontrava forças e nem determinação para se erguer e derrotar Gaicoz. Vozes se aproximavam. Ronan podia ouvir, mas não queria se mover. Queria ficar ali para sempre, apenas observando o céu pintado de laranja pelo pôr do sol.

— Ei! É ele! Aquele desestor da Floresta e do Vale! – ressoou uma voz feminina, porém forte e um tanto grossa. Provavelmente Elesis Sieghart...

— Será? Temos que verificar com cuidado – disse uma voz suave, delicada. Era a voz de Lire.

— T-t-t-tá c-certo! V-vamos verificar! – motivou-se Ryan, tremendo de medo.

Ronan pôde ver uma cabeleira ruiva se entrepor a seus olhos e o vasto céu. Ele reconhecia aquele tom de vermelho... agora ele tinha certeza, só podia ser a família Sieghart, proprietária do exército vermelho de Canaban. De fato, Ronan agora estaria morto se Elesis não o tivesse reconhecido.

— Ronan? – perguntou a ruiva, irritada.

O desertor nada disse. Sua garganta estava seca e machucada por causa da lâmina de Gaicoz.

— Você o conhece? – perguntou Arme, soando como se acusasse Elesis de deserção.

— Sim, ele foi o Guarda Real que nos levou a massacrar Serdin — Elesis cuspiu as palavras massacrar e Serdin como uma ameaça.

— Tirem-me logo a vida – conseguiu dizer Ronan.

Elesis e ele se entreolharam, mas Lire e Ryan agiram primeiro.

— O que vocês dois estão fazendo? – perguntou Elesis, autoritária, enquanto Ryan ajudava Ronan a se levantar e Lire bloqueava passagem.

Ronan sussurrou algo, mas ninguém chegou a ouvir.

— Não tem maldade no coração dele, Elesis. Nós, elfos, podemos sentir isso. Vamos deixar que ele ao menos conte-nos o lado dele dessa história. E se a honra dele o matar, gravamos suas últimas palavras em sua lápide – era pedir demais, Lire sabia disso. Mas a garota ia conquistando a confiança de Elesis aos poucos, então obteve a permissão para fazer de seu jeito. – Obrigada, Elesis.

Ronan não entendia mais nada. Dois elfos e uma Maga Violeta tratavam de suas feridas enquanto uma ruiva marrenta resmungava em silêncio. Tudo o que ele queria era morrer logo, encontrar a paz... por que ninguém deixava?

— Ei, qual o seu nome? – perguntou a loura. Sua voz acalmou Ronan, tirou-lhe os medos.

— Sou Ronan Erudon...

— Certo... o que fazia aqui?

— Tentava derrotar Gaicoz... preciso chegar em Ellia... – Ronan não sabia porque estava contando aquilo. A voz de Lire era muito persuasiva, e ele sentia que era o certo contar.

—Gaicoz está morto! – interveio Elesis.

— Calma, Elesis. Vamos deixar ele continuar.

— Preciso... vingar-me de Jun Cazeaje...!

— Oh. Temos o mesmo objetivo. Quer seguir viagem conosco? – ofereceu Lire, de bom grado.

— Ei! – protestou Elesis, mas não pôde continuar. Lágrimas escorriam pelo rosto de Ronan e tanto ele quanto Elesis não conseguiram falar.

Ele via ali a oportunidade que precisava. O perdão... quem era aquela garota? Estava o perdoando sem nem mesmo saber os pecados que ele cometeu?

— Quem... quem são vocês? – foi o que saiu por seus lábios.

— Somos uma elite sem posses. Pessoas que também fugiram de seus deveres por uma causa maior. Não temos poderes em nossos nomes, apenas em nossas armas que fazem a justiça. Somos a Grand Chase – explicou Lire.

Ronan tinha a sensação que podia ficar com eles. Esteve sozinho por três anos e nem mesmo conseguiu escapar do continente... ele tinha de tentar a sorte.

— Antes de ser aceito por vocês, preciso fazer uma coisa.

— O quê? – perguntou Lire.

— Recuperar minha honra. Quando fizer isso, irei encarar meus pecados e minhas punições – Ronan se levantou. Precisava derrotar Gaicoz.

Notas finais
Tebaldi: Deixem comentários com suas opiniões, galera! Espero que tenham gostado! :P