Grand Chase e a Chave do Tempo
2 O Imortal
Sieghart.
– Você é uma pedra no meu caminho, Ercnard. Morra!
Sieghart acordou em um pulo, arfando. Sua respiração estava pesada e a mente, nada clara. Afinal, o que tinha acontecido? Quem era o dono da voz em seu sonho? Sieg de nada lembrava. Sua memória voltava aos poucos como se ele tivesse acordado de um desmaio.
– Oi? Tu estais vivo? – perguntou uma garota loura. Seus cabelos estavam presos em chiquinhas, uma na esquerda e uma na direita. Uma linda flor prendia seus cachos e a garota vestia roupas pesadas, confusas demais para Sieghart cogitar no momento.
– Eu... onde estou? – o homem observou o lugar. Era como um acampamento no meio da floresta.
Sua cama era feita apenas de folhas e não era de todo conforto. Árvores grandes cercavam os dois, mas apenas uma se destacava: uma enorme árvore, maior que todas as outras.
– Agora mesmo estamos em Xenia. Eu encontrei teu corpo nas ruínas de Calnat, provavelmente tu fora um dos "imortais" que lutaram a Grande Guerra Mágica. É raro ver isso hoje, pois faz seiscentos anos desde que os "imortais" desapareceram – explicou a garota, recolhendo algumas folhas de uma árvore não muito longe.
– "Imortais". Nunca envelhecem e nem adoecem, só podem ser derrubados em combate e mortos por Ouro Imperial ou Armas Celestiais. Mas... como eu sei disso? Quem sou eu?
– Tu eras um imortal, Sieghart. Nem mesmo nós, os deuses, sabemos o que aconteceu na guerra de Calnat. Tudo que encontramos foi teu corpo e a espada que tinha te perfurado.
– Deuses? Você é Lisnar? – perguntou Sieghart, apertando algumas das folhas de sua cama.
– Não, eu sou Gaia. Uma deusa de Xenia, represento a Vida – apresentou-se a loura. Ela trouxe até Sieg algumas ervas e prensou contra o peitoral machucado do guerreiro.
Ele era forte, bem definido. Seus cabelos eram negros e bagunçados, mas combinavam com o olhar debochado do homem. Era bonito, mas a cicatriz no abdômen pode vir a trazê-lo problema entre as mulheres.
– AH!! – gritou Sieg, e ao mesmo tempo ele sentiu o corpo mole, o cansaço. – O que fez comigo...? O que está acontecendo...?
– Eu te respondo tudo quando acordares. Agora descansa, talvez tuas memórias voltem quando acordar.
Sieghart queria protestar, mas Gaia estalou os dedos e ele caiu em um sono profundo. Em outro sonho, Sieg via uma garota ruiva lutar ao seu lado. O monstro era um Gorgon – um pequeno parente distante dos dragões, sua pele era como uma casca marrom-alaranjada e escamosa.
– Ele vai cuspir! – gritou a garota.
Sieghart desviou da baforada flamejante do Gorgon e investiu contra o mesmo.
– Não! Temos que...
Ela foi interrompida.
– Não me diga o que fazer, criança. Apenas afaste-se e observe!
Sieg deferiu um golpe na mandíbula da criatura assim que ela ia cuspir mais uma baforada. Quando o monstro estava de guarda baixa, Sieg acertou um chute na perna dele e deferiu um golpe alto com a espada. O corte acertou uma fenda na armadura de pele do Gorgon, matando assim o pequeno dragão.
– Pronto – disse por fim, Sieg – Menos um no meu caminho.
– Você... acabou com um Gorgon Vermelho com tanta facilidade? – enfatizou a ruiva. – Como isso? Quem é você?
– Sou Ercnard, da casa Sieghart. O desastre de Canaban, O Mestre da Espada, A Lenda, O Imortal. Se eu quisesse, mataria Cazeaje com tanta facilidade quanto você tem para matar um coelho.
– Por que você não o faz? – perguntou a garota, surpresa.
– Para chegar a Ellia, preciso atravessar o mar. Para isso, preciso de um navio. Não tenho um navio, criança.
– Minha casa pode fornecer! Daqui à três dias, farei o décimo quinto dia de meu nome. Se unirmos nossa família nessa data, podemos marchar para o norte e esmagar as forças de Cazeaje...
Ela fora novamente interrompida.
– Criança, eu só irei me casar com uma mulher que eu vá amar. Não me interessa o que Cazeaje faz, mas se ela tocar minha família, vai pagar por isso. Não vou até lá lutar por um povo que nada faz por mim. Poupe a si mesma para um homem que a mereça.
A garota não desistiu de seguir Sieghart, mas de repente o sonho mudou. Agora o cenário era de um casamento, e Sieghart era o noivo. Mas com quem se casaria? Por quê?
– Que venha a noiva – disse o Paladino.
A garota ruiva do sonho anterior entrou no local. Ela estava linda, parecia mais velha. Os belos cabelos escarlates estavam em parte soltos, e em parte presos. O vestido branco com fios de prata era o mais belo já visto por Sieghart. Ela chegou ao lado de seu prometido e sorriu, sussurrando:
– E pensar que há dois anos você me rejeitou...
– Não me culpe pelo passado, eu mal a conhecia. Mas agora foi o que eu decidi, eu te amo e agora pertenço a você.
A cerimônia aconteceu num piscar de olhos, unindo assim a Casa Sieghart à Casa Scarlet. Ekaterina Scarlet agora se chamava Ekaterina Sieghart. Chegou a hora dos presentes da noiva, então Ekhaterina ganhou muitos presentes: o senhor seu pai deu-lhe um ovo de dragão; Illya Ferwell, sua protegida, deu-lhe uma bela roupa de dormir.
Incontáveis presentes foram dados a Ekaterina naquela noite e alguns dos presentes couberam mais a Sieg receber. Assim, os dois ganharam presentes.
O sonho mudou novamente.
Dessa vez, Ekaterina parecia ter vinte anos. Sieghart estava dormindo e sua amada tentava agora acordá-lo.
– Sieghart! Sieghart! Acorda!
– O que é? Deixe-me dormir mais um pouco. Só mais cinco estações – murmurou o homem.
– Cazeaje está atacando de novo! Parece que o Gorgon renasceu e voltou a atacar Canaban! Você precisa lutar!
– Você sabe tudo o que eu sei, cuide do Gorgon você mesma. Está incomodando o meu sono! – disse Sieg, agora impaciente. Ele nem sequer abrira os olhos.
– Não posso! Não posso... – Ekaterina estava prestes a chorar.
– Por que não? – perguntou Sieg, abrindo um dos olhos.
– Pretendia segredar isso por mais tempo, mas... estou grávida. Do teu filho.
Um grunhido ecoou por algum lugar do quarto. As paredes de mármore ficaram vermelhas até que um pequeno dragão entrou pela porta.
A cama do casal ficava na parede oposta à porta. Uma gaiola estava pendurada ao teto, em cima da cabeceira de Ekaterina. Além do armário, que ficava ao lado da porta, haviam roupas em um gancho e espadas apoiadas na parede à esquerda do guerreiro.
– Berkas... – Sieghart fitou o dragão. – Ele nunca gostou de mim, mas preciso dele.
– Isso é tudo o que você tem a dizer? Eu estou grávida e você me diz que vai tomar conta de um dragão bebê?
– Alguém precisa acabar com Cazeaje, não? – Sieg não encontrava palavras para dizer sobre o filho que Ekaterina agora carregava. – Ninguém vai tocar na minha esposa, nem no meu filho.
O homem levantou e despiu-se das sedas. Foi até o gancho e pegou suas roupas leves, as quais ele sempre usava em batalha. Ekaterina apenas observou, até ele pedir ajuda com as amarras.
– Você vai... – ela ia dizendo, mas sua voz ficou presa na garganta.
– Sim, marcharei para Ellia com um navio, apenas eu e o dragão. Talvez eu não vá estar presente para o vigésimo dia de seu nome, mas com certeza estarei para o nascimento de nosso filho. Quando eu voltar, Cazeaje estará morta e o perigo será banido de Vermécia – Sieghart demonstrava uma determinação que nunca fora vista por Ekaterina.
O sonho mudou uma quarta vez. Essa fora a última. Sieghart lutava contra Cazeaje, com o dragão ao seu lado. Agora o pequeno réptil não era mais tão pequeno. Havia se passado quatro luas cheias desde que o guerreiro e a fera partiram de Vermécia. Nesse tempo, o dragão havia ficado maior do que um lobo, agora atingindo metade do corpo de Sieg.
O local era escuro, não se via chão, paredes e nem as estalactites que se estendiam por todo o teto do castelo sombrio. Uma fenda dimensional roxa apareceu atrás do herói de Canaban e dela saiu o maior cachorro já visto. Um enorme animal cinza latiu e tentou abocanhar o Mestre da Espada, mas o dragão pôs-se entre eles. Ambos cuspiram fogo, então brasas e o cheiro de enxofre preencheu o lugar. Sieghart brandiu sua espada e abriu um solavanco na armadura cinzenta de pele da Cazeaje.
– Não resista, Ercnard! Você não pode resistir à escuridão no seu coração! Eu sei que as trevas fazem parte de você! – latiu a rainha das trevas.
– Sinto muito, Caze. Não posso sucumbir as trevas se eu tenho um filho para cuidar. E você não vai tocar nele – Berkas prendeu Cazeaje com uma mordida no pescoço. – E só como garantia, preciso matar você.
Após terminar seu "trabalho", o herói saiu pela fenda que Cazeaje abriu. Ao sair, ele encontra com um homem de armadura dourada.
– Então você é o lendário Sieghart. Como foi sua brincadeira lá dentro com a Cazeaje?
– Joguei alguns pedaços de madeira para ela correr atrás. Era uma cadela bem divertida – disse Sieg e Berkas começou a rosnar para o homem.
– Ha ha ha ha! Então precisou de uma árvore inteira. Bem, vim lhe trazer um convite – o homem começou a andar, com sua armadura áurea reluzindo. – Ernasis deseja sua força na Guerra Mágica, em Calnat. Estão tentando dominar nossa dimensão, e depois disso destruí-la. Tribos demoníacas de Elyos invadiram Ernas...
– E você quer minha ajuda para isso? Sinto muito, não vou perder minha vida em uma guerra.
– Bem, se nós perdermos a guerra, todos em Ernas morrerão. Até as três deusas criadoras estão lutando por nós... Ernasis, Lisnar e Armenias. Se preza pela vida de sua amada e o filho que há quatro luas cheias ela carrega, venha comigo... torne-se um Imortal de verdade e una-se a nós.
– Mas... droga! Tenho mais quatro luas para voltar e ver meu filho... diga a Ernasis que eu vou, mas só depois de ver o meu filho.
– Não temos tempo... Precisamos de você agora. Por favor, Sieghart. Eu, Graham, líder do clã dos Imortais, lhe rogo por ajuda.
Sieghart não sabia o que fazer. Se aceitasse a proposta da deusa, talvez nunca mais chegasse a ver Ekaterina. Mas se recusasse, não veria mais nada no mundo.
– Mande uma carta para Ekaterina dizendo que estou adiando minha volta para Vermécia. Vou acabar com todos os inimigos das deusas e voltarei para minha família.
– Muito obrigado, Sieghart. Seu nome será gravado na memória de todos como um herói, um Imortal.
– Chega de conversa. Não estou feliz com isso. Vamos logo.
Sieghart acordou, suado. Sua febre tinha passado e a ferida no abdômen, cicatrizada. Ele sentou na cama de folhas, tonto. Procurou por Gaia com os olhos, mas não a encontrou. Tentou levantar, mas estava fraco e cansado. Esses sonhos... seriam eles suas lembranças?
– Gaia! – berrou o homem, mas a voz o traiu. Saiu baixo e rouco, como se sua garganta estivesse seca por anos.
Por entre as árvores, Gaia andou para perto de Sieg com outro homem perto dela. Ele usava uma armadura de pedra, feia, mas ele parecia forte. Tinha cerca de dois metros e pouco, o que ficava desproporcional perto de Gaia, que não passava de um metro e meio.
– Quem é esse!? – perguntou o gigante, receoso.
– Sieghart. Foi o único Imortal encontrado... estive cuidando dele, mas parece que está sem memórias.
– Gaia! Esses sonhos que eu tive... foram lembranças? Ekaterina, onde ela está!?
– Não sabemos do que tu falas, Lorde Sieghart. Talvez essas sejam as tuas memórias de seiscentos anos atrás.
– Seiscentos anos atrás? Como assim? Eu estava indo para Calnat! Para travar uma guerra contra as tribos demoníacas de Elyos! – gritava Sieg, desesperado por respostas. Sua voz continuava rouca.
– Assim dizem as lendas. Seiscentos anos atrás, um homem da família Sieghart cujo nome nós não sabemos travou uma guerra e deu sua vida para destruir Cazeaje. Não há nada sobre tu em Calnat. Mas agora faz sentido... teu corpo foi encontrado em Arquimídia, não em Ellia. Tu ainda estás vivo.
– O líder do clã dos Imortais me chamou para guerra sob a ordem de Ernasis. Depois disso, parti para Arquimídia e... não me lembro depois disso. Mas eu matei Cazeaje.
– Não... Cazeaje ainda vive, e agora está de volta. Há um grupo, a Grand Chase que está tentando derrotá-la. Podes encontrá-los em Vermécia. Uma das tuas descendentes agora os lidera. Mas eu nada sei, não vivo por tempo suficiente para saber o que aconteceu contigo há seiscentos anos – disse Gaia.
– Então partirei para Vermécia imediatamente. Vou encontrar com Ekaterina.
– Sieg... Ekaterina está morta. Já faz seiscentos anos que tu estiveste em coma. Se tu queres saber da verdade sobre teu passado e o que aconteceu com Ekaterina, procure pela Bíblia das Revelações.
– Droga... – Sieghart parecia arrasado. Talvez foi por orgulho ou por falta de fé, mas Sieghart não deixou uma lágrima lhe escorrer no rosto.
Dias depois, ele estava chegando aos arredores do muro de Serdin.
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