Grand Chase e a Chave do Tempo
3 O Chamado da Floresta
Lire.
Elesis desatava as cordas que prendiam a Aeronave, presente que lhes fora dado pela rainha de Serdin. Após derrotar a Wendy, uma Yeti que estava na Torre Sombria, a Grand Chase foi recompensada por livrar Serdin dos domínios de Cazeaje. O grupo iria agora viajar para o sul, limpando o continente desde a Praia Carry até o Castelo de Gaicoz.
– Está tudo pronto! – gritou Elesis, descendo a Aeronave.
Era um navio voador. Por fora, era exatamente como um navio composto, dois mastros erguiam-se em cada metade da metade do navio. Asas se esticavam pelas laterais e uma barbatana guiada pelo leme ficava na parte de trás do navio, em baixo. No fundo do navio, pela parte interna, tínhamos uns alojamentos para canhões, dormitórios, casas de máquina e tais como.
Apenas o exército de Serdin tem acesso a eles, mas agora a Grand Chase ganhou um próprio. Arme foi a primeira a entrar, seguida por Elesis, e, por fim, Lire.
– UAU! Como é espaçoso! – maravilhou-se Arme.
– Sim, pena que sua bunda gorda vai ocupar maior parte do meu conforto – disse Elesis.
– Oras sua...!
Lire as interrompeu.
– Parem com isso! Nossa, um dia eu acabo perdendo a calma e estrago a fama de Eryuell como elfos passivos!
– Ha ha ha ha – gargalhou Elesis.
O navio era realmente espaçoso. A proa estava vazia, as velas abertas e o leme ficava em cima dos alojamentos, no andar de cima. No segundo andar, havia mais um cômodo cujo a porta ficava atrás do volante do navio.
Elesis tomou o leme e começou a marchar para o sul. Arme sentou na proa, no canto mais distante da ruiva e começou a ler um livro. A elfa se sentiu um tanto sozinha, então decidiu ir falar com Arme.
– Está lendo o quê?
– Ah, Lire! Que susto! – Arme pôs a mão sobre o peito e suspirou. – É um livro do meu avô. Ele pediu para trazer comigo se eu quiser impedir uma tragédia...
– Do que se trata? – perguntou Lire, fitando a capa do livro.
Era uma bola preta, porém um fino arco de luz contornava a metade direita do círculo.
– Uma lenda do passado – explicou Arme. – coisas que talvez sua velha Ama lhe contava quando você ainda bebia leite materno.
– Não tive uma Ama. Muito menos bebi leite materno... na ilha dos elfos as coisas são diferentes. Fui largada na floresta para sobreviver do leite das árvores e os contos dos pássaros cantando toda manhã. Assim aprendi a caçar e respeitar a natureza, me adaptando à ela.
Lire disse aquilo com tanta simplicidade que Arme sentiu um arrepio.
– Comigo não foi tão diferente. Mas não quero falar sobre meu passado. Você também não quer ouvir isso – a maga estava indiferente, como se um enorme fardo pesasse em suas costas.
– Tudo bem... vou falar um pouco com Elesis. É necessário conhecer a nossa líder afinal.
– Não gosto dela. Vá sozinha.
Aí estavam as palavras. Sozinha. Assim Lire se sentia desde que saiu de Eryuell. Longe dos elfos, Lire não conseguia se dar bem com as pessoas. Estava se esforçando para ser uma boa guardiã, queria se dar bem com Elesis e Arme, para trabalharem em equipe e serem amigas, mas estava sendo algo difícil.
Ela se dirigiu até a ruiva, que sorria confiante.
– Elesis. Parece confiante.
– Assim estou. Sempre sonhei em comandar uma Aeronave, desde criança. Desde que meu pai... – Elesis se interrompeu. As lembranças de Eusclud ainda lhe martelavam o coração.
– O que aconteceu com seu pai? Digo, exatamente.
– Na guerra de sete anos atrás ele foi mandado para derrotar Cazeaje. Depois disso desapareceu e nunca mais voltou... seu corpo não foi encontrado, acredito que esteja vivo – Elesis parecia que ia chorar, mas por orgulho não deixou nenhuma gota escorrer.
– Entendo... ele devia ser muito importante para você.
– Minha mãe foi morta pelo Gorgon Vermelho... eu era tão pequena, não tenho nenhuma lembrança dela. Já meu pai... – Elesis sentiu o vento frio bagunçar seus cabelos e se recordou do passado. – Ele me erguia nos ombros, falava sobre Lordes e Ladies, sobre Sieghart e Ekaterina, as lendas de nossa casa... um dia passou por nós uma Aeronave com a Guarda Real de Serdin... ele me disse que um dia eu estaria lá. Esse sonho foi realizado hoje – uma lágrima teimosa desceu pela bochecha de Elesis, mas o sorriso que a garota tinha era quente, reconfortante.
– Nossa... Elesis, eu juro pela minha honra e pelos deuses da floresta que nós vamos encontrar Eusclud. Até que esse dia chegue, nunca vou sair do teu lado. Eu amo a paz em Eryuell mas... não posso ignorar algo assim, sentimentos tão fortes. São esses sentimentos que fazem de nós humanos e nos tornam mais fortes – Lire estava tão comovida por Elesis que quase começara a chorar junto com a ruiva.
– Obrigada, Lire... sinto-me aliviada por ter você comigo – Elesis enxugou a lágrima, e o sorriso dela voltou a ser a expressão confiante e arrogante de antes. – Se você contar o que aconteceu aqui para Arme, minha bota vai encontrar sua bunda no meio da noite.
– Ha ha ha, tudo bem. Manterei em segredo. Meus pais me contaram histórias de botas e bundas, mas essas não são tão gentis e suaves como a sua – Lire sorriu, e sentiu que não estava mais sozinha.
– Ei, vocês duas. Venham ver isso – chamou Arme.
Elesis assentiu para Lire, pois não podia largar o leme. A elfa saiu correndo em direção a Arme.
– Olha, ali em baixo. Nos portões. O que são aquelas coisas? – perguntou a garota dos cabelos púrpura.
– São... Goblins! ELESIS, TEM GOBLINS NOS PORTÕES DE SERDIN!! – alertou Lire, alto suficiente para que o vento não levasse sua voz.
Elesis soltou o leme por um segundo e a Aeronave estremeceu.
–UAAH! TOMA CUIDADO IDIOTA!! – gritou Arme.
Elesis não respondeu. Retomou o controle da Aeronave e desceu a mesma. Ela arrastou no gramado ali em baixo, matando algumas plantas e alguns Goblins. Arme praguejou.
– Sua idiota! Estúpida, descuidada!
– Pare com isso, Arme! – retrucou Lire. – Somos uma equipe, não podemos brigar! Vamos, calma as duas.
– Temos monstros para derrotar, não vou discutir com uma criança – disse Elesis, furiosa.
– Criança? Tenho quatorze anos! Você tem quantos por acaso?
– O décimo quinto dia de meu nome foi há duas luas cheias! Agora senta essa sua bunda aí e espera eu matar todos os Goblins – Elesis saiu dali, sem hesitar. Deixou Arme e Lire para trás e foi fatiar alguns monstros.
– Mas que droga! Não tem como trabalhar com uma pessoa estúpida e infantil como ela! – gritava Arme.
– Arme! Quem é a criança aqui!? Você começou uma briga desnecessária e agora separou a gente! – reclamou Lire, em desespero. Ela não podia perder ali o pouco de confiança e respeito que conquistara.
– Não existe "a gente"! Sou apenas eu, você e Elesis. Por que Lothos tornou ela uma mulher? Por que ela é a nossa líder!?
– Porque ela tem senso de dever, honra. Mas isso não importa! As duas precisam se dar bem, precisam se entender! – Lire puxou Arme para junto dos monstros. – Vamos ajudá-la.
– Não vou mover um dedo por ela. Faça você o que quiser – Arme sentou e cruzou os braços.
Lire foi para o lado de Elesis, cobrindo a retaguarda dela.
– Arme não quer ajudar... desculpa Elesis. Vocês precisam se entender.
– Farei-o quando ela aprender a ter respeito para com seus superiores.
– Ninguém é superior aqui, Elesis. Ambas estão tomando uma atitude infantil. Somos uma elite, trabalhamos em grupo pelo mesmo objetivo. Não podemos nos dar o luxo de ficarmos separadas. Juntas nós somos fortes, separadas somos fracas...
– Tentarei fazer algo a respeito, Lire. Mas se ela não cooperar, não vai poder continuar conosco.
– Elesis, está exagerando...
– Não, Lire. Estou tomando uma decisão extrema por um bem maior. Se eu e ela não nos dermos bem, pode ser a nossa ruína. Vamos substituí-la caso seja preciso.
Lire queria se por contra, mas os Goblins a ocupavam demais para começar uma discussão. Eram muitos, sem Arme elas poderiam morrer ali... era o que ambas pensavam, até que metade da horda dos Goblins caiu.
– Arme? – perguntou Elesis, esperançosa.
Mas a garota nada fizera. Fez uma careta e arregalou os olhos para de onde veio o ataque.
– Investida Fantasma! – gritou o homem.
Ele freou em frente de Elesis, tão perto que Lire pensou que fossem se beijar. A ruiva o afastou com um chute.
– Mas o que é isso!?
– Ekaterina!? – Sieghart se levantou, arrumando os cabelos negros e desgrenhados que foram bagunçados pelo vento.
– Não sou Ekaterina! Quem é você!?
– Ah... – Sieg ficou com o olhar vazio, pareceu sofrer. A decepção abalou bastante as expressões do homem. – Sou Sieghart. Estava procurando pela Grand Chase e... esses malditos estavam no meu caminho. Você podem cuidar deles não é? Estou com pressa. Preciso voltar para Xenia.
– Hã? Xenia? Sieghart? A Grand Chase? – Elesis não tinha entendido nada.
Ela raciocinou um pouco, porém fora tarde.
– Cuidem deles por mim, muito obrigado! Ah, e se virem a Grand Chase, digam para eles me encontrarem em Xenia! – Sieghart correu tão rápido quanto uma Harpia voava.
– ESPERA! VOLTA AQUI! – gritou Elesis, mas os Goblins se interpuseram no caminho.
Quem era aquele? Como sabia sobre Sieghart e Ekaterina? E o que queria com elas?
– Droga... a luta contra esses Goblins não tem fim! – resmungou Elesis. – Precisamos seguir em frente.
– Arme, por favor – implorou Lire.
Nenhuma resposta positiva. Arme virou o rosto e soltou um sonoro "humph".
– Droga... e pensar que eu teria de usar as habilidades secretas da Casa Sieghart nesses Goblins imundos... que seja! – Elesis retomou o sorriso confiante, fazendo assim Lire se sentir mais à vontade. – Arco Fatal! – gritou Elesis, descrevendo uma crescente com sua espada e deferindo um último golpe no chão, derrotando vários Goblins de uma só vez.
– Uau! – impressionou-se Lire. – Também tenho algumas cartas na manga! Cormacolindor Chualet! – uma flecha de fogo foi disparada ao lado de Elesis.
Lire parecia estar rindo dos pobres monstros que agora eram aniquilados. Ela ria e soltava frases em élfico enquanto desintegrava cada ser ali vivo. Elesis sentiu um certo medo, mas Lire era forte e confiável... era uma elfa incrível.
Após todos os Goblins serem derrotados, Elesis e Lire finalmente puderam descansar. O sol já estava se pondo.
– Lire... aquilo foi incrível. O que você dizia em élfico? Era alguma magia?
– Era o de sempre, ué – respondeu a garota com simplicidade.
– O de sempre? Como assim? – Elesis parecia tão perdida quanto Lire quando pisou em Vermécia.
– "Cormacolindor Chualet" significa "Meu coração canta para lhe ver", algo assim. "Eterre Namárië" significa "Vá com Deus" – explicou ela, sorrindo como se fosse algo muito óbvio.
– Ahn... e... por que diz isso enquanto mata monstros?
– Não é óbvio? Costume. Vocês de Vermécia são estranhos.
– Você fala "Deus" como se existisse apenas um, e somos nós os estranhos? Os seis deuses de Xenia e as três deusas criadoras.
–Ah, é que nós, os elfos, só atendemos aos deuses da floresta. Então para nós só há um Deus – explicou Lire, sorrindo e ajudando Elesis a se levantar. – Vamos, temos trabalho a fazer.
– Lire... eu realmente posso contar com você...? – sussurrou Elesis.
– Hm? Disse algo?
– Nada, deixa para lá. Ha ha ha! – a comandante ruiva sorriu calorosamente e subiu na Aeronave. Lá de cima, ela virou para Arme e gritou: – Você vem? Não temos o dia todo, Maga Violeta.
Lire sorriu e entendeu que Elesis fazia aquilo pois a prometera. As garotas retomaram a viagem, e dessa vez Lire decidiu tentaria se aproximar de Arme novamente.
– Oi?
– Ah, você de novo. O que você quer, traidora? – Arme cuspia as palavras com ódio.
– Não é assim, Arme. Temos todas que nos dar bem... por favor. Elesis pretende te chutar do grupo se você não for confiável. Pelo menos pelo...
– Como!? – Arme interrompeu. – Acha que vou obedecer alguém que planeja me chutar da equipe!?
– Não é isso Arme, por favor, entenda. Pelo menos pelo senso de dever, você precisa cooperar. Mesmo que a odeie, deve jurar lealdade e apoio... nós somos as heroínas de Vermécia. Se ficarmos com brigas internas, vamos nos destruir sem mesmo Cazeaje nos tocar.
Arme ouvia calada, refletindo. A garota queria tomar parte no grupo, mas Elesis era uma pessoa difícil de se conviver.
– Por mim, Arme. Tente ser amiga de Elesis... vamos lutar juntas, lado a lado. Ambas vocês são orgulhosas e teimosas, essa teimosia pode vir a nos destruir algum dia. Nós vamos derrotar Cazeaje, vai mesmo deixar teu orgulho nos matar? – Lire falava com calma. Sua voz, suave. Os olhos verdes da garota eram penetrantes, seus cabelos louros brilhavam como ouro. Sua pele aparentava ser tão macia que despertou uma vontade em Arme de poder tocá-la. – Arme...
– Tá bom! Você venceu! Por mais que isso seja doloroso, vou ajudar.
– Obrigada Arme. Eu sabia que... – Lire se interrompeu. – Algo está errado.
– O quê? Eu falei que ia cooperar! – Arme pareceu ofendida.
– Não é disso que estou falando.
Lire correu até a lateral do navio e por lá olhou o continente abaixo dela. Que sensação era aquela? Algo anti-natural... estava de noite e Lire mal podia enxergar, mas um sentimento terrível lhe enchia o peito. Arme chegou ao seu lado e projetou uma luz em seu cetro, iluminando um pouco perto de Lire.
– Pode iluminar lá em baixo? Logo abaixo de nós.
– Posso, mas por quê? – perguntou Arme, curiosa.
– Sinto algo errado. Creio que uma floresta em perigo esteja abaixo de nós.
Arme soltou uma rajada de luz para baixo, iluminando a floresta. Dali, a maga pôde ver claramente um lobo. Era laranja, olhava para cima, como se tentasse ver a fonte de onde vinha tanta luz.
– Um lobo? – perguntou Arme, mas Lire pareceu não se importar com isso.
– Um monstro – disse. – Elesis, vamos descer!
A garota não entendeu direito, mas o rosto preocupado de Lire a convenceu a agir primeiro para depois perguntar. Ao aterrissar, Arme fez três esferas de luz – uma para cada do grupo. "Não me entenda mal, Elesis", dissera ela, "Só pretendo ajudar até derrotarmos todo o mal de Ernas. Depois disso eu te mato". Lire tomou a frente sem hesitar, guiando as garotas.
– O que isso significa, Lire? – perguntou Elesis.
– Estou sentindo, é um chamado da floresta! Bem... nós, elfos, filhos da natureza, podemos falar com os espíritos das árvores. A árvore mais antiga daqui está me implorando por ajuda... sigam-me.
Elesis não entendeu bem, mas decidiu confiar em Lire. Arme não se pôs contra, então tudo parecia dar certo por enquanto.
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