Grand Chase e a Chave do Tempo
9 O Cracken
Notas iniciais
Elesis.
Após um banho quente na aconchegante casa de Valky, Elesis decidiu dar uma volta pelo continente. Caminhou pela grama limpa por aonde veio no dia anterior. À sua direita se estendia uma floresta inabitada, onde apenas o som dos galhos e folhas ressoavam para o gramado, sendo trazido pelo vento. À sua esquerda, um pântano infestado de monstros – musgo, lodo, lama e muitas, muitas Pixies Violetas infestavam o lugar.
As Pixies são geralmente seres da natureza, fadas pequenas. Quando passaram por ali ontem, Valky dissera que eram monstros. Não eram, mas por algum motivo as Pixies dali pareciam seres malignos.
Após mais algumas horas de caminhada – que pareceram apenas alguns minutos para Elesis, que admirava a paisagem da ilha – Elesis chegou ao Lago do Crepúsculo.
O Lago era conhecido porque ali havia um navio pirata antigo. O navio era apenas um rumor, pois ninguém nunca se banhou nesse lago. Alguns pescadores disseram que nele moravam lagostas gigantes e também um caranguejo ainda maior que o tão falado navio.
A ruiva contornou o lago e seguiu seu caminho. Após mais vinte minutos de caminhada, finalmente chegou às Ruínas onde conhecera Jin. As Ruínas da cidade de Prata.
Assim como ela suspeitava, lá estava ele, sentado, meditando. Ela o observou por alguns minutos e logo uma garoa começou a cair. Jin abriu um dos olhos para ver se realmente chovia, mas voltou a ignorar qualquer coisa, o fechando novamente.
– Meditação... – ponderou Elesis. – Talvez eu devesse tentar. Afinal, esse cara nos humilhou ontem em frente à Rainha Negra.
E assim era. Jin demonstrou mais coragem e poder sozinho do que todos no grupo. De onde vinha tanta força era um mistério, mas o grupo não se comparava com o guerreiro solitário. Seu passado era um mistério, seus aprendizados também. Tudo o que sabiam era que Jin era inteligente. E forte. E a chuva agora o imitava – calma como uma serpente prestes a dar o bote e fria com uma mente calculista.
Elesis não soube quando, mas começou a trovejar e chover mais intensamente, então um pensamento lhe veio à mente: ótimo, acabei de tomar um banho quente, agora vem essa maldita tempestade gélida para estragar minha alegria.
Jin abriu os olhos e fez Elesis recuar alguns passos. Mesmo fora da vista do garoto, ela se assustou com o que viu. Diferentemente dos olhos caramelos naturais do garoto, agora eles brilhavam num intenso dourado. Olhou para cima e o brilho cessou.
– AAAAAAAAAAAAAAAH!!! – gritou o ruivo, com um tom de voz dolorido, sofrido...
Elesis pensou no que diabos ele estava pensando enquanto meditava, mas o pensamento lhe escapou logo quando notou as lágrimas de Jin. Talvez fosse apenas à chuva, mas Elesis via o sofrimento em forma de água lhe escorrendo pelo rosto.
– Elesis? – perguntou uma voz feminina.
A ruiva deu um pulo enorme e seu coração quase saiu pela boca. O susto fora grande, mas agora ela se acalmava. Era apenas Valky.
– Que susto você me deu! – resmungou Elesis.
– Desculpa. Ele sempre faz isso. Todo dia ele vem nesse mesmo lugar e medita...
– Sabe o que ele está pensando? – perguntou Elesis, mas logo viu que fora uma pergunta idiota. É claro que não.
– Hoje nós vamos descobrir – Valky puxou Elesis e tapou sua boca. Elas se esconderam em uma casa ali perto e esperaram Jin passar. Ele estava voltando para o esconderijo.
– Você tem certeza de que quer segui-lo assim?! – sussurrou Elesis.
– Olha quem fala.
E com uma troca de olhares, as duas decidiram que a curiosidade era maior. Elas seguiram Jin de perto. O sol estava se abaixando, faltava menos de uma hora para ele se pôr. Elesis ficava olhando para Valky com o canto do olho. Ela era alta, destemida. Tinha longos cabelos rosa escuros e os olhos caramelos-escuros. Em qualquer outra circunstância, ela seria facilmente confundida com a mãe de Jin. Não... talvez uma irmã mais velha. A bela mulher era jovial.
E falando nele, o rapaz sentou-se na beira do lago. Ele tirou as ataduras de seus pés e enrolou sua calça até acima do joelho. Ele adentrou o lago. Elesis questionou-se o que ele iria fazer, até que ele agachou e pegou algumas pedras. Ele arremessava-as uma a uma, fazendo-as quicarem na água até afundarem. Infelizmente, uma das pedras acertou o casco de alguma coisa. O chão tremeu, a água do lago balançava e algo agarrou a perna de Jin. Era uma pinça.
– AAAI! – ele gritou, antes de ser arrastado para o fundo do lago.
Elesis e Valky correram para tentar ajudar, mas era tarde.
– Vamos descer! – disse a guerreira de cabelos rosa.
– Mas... e como vamos respirar?!
– Nunca pescou nesse lago, né? Eu e meu exército já pescamos aqui uma vez. É necessário mergulhar, e para respirar, usamos as conchas lá do fundo. Dentro delas há ar, então Jin não vai morrer tão fácil.
– Ahn... certo, então... vamos – Elesis não parecia convencida, mas precisava tentar. Jin tinha salvado a todos no dia anterior.
Elesis tirou sua armadura e ficou apenas com uma curta saia vermelha e sua blusa regata, de mesma cor. Valky tirou quase sua roupa toda, ficando apenas com roupas de mergulho – semelhantes aos biquínis atuais – de cor roxo escuro. Ambas as guerreiras prenderam o cabelo em um rabo de cavalo e se entreolharam.
– No já! – anunciou Valky. – Um... dois... três... e já!
As duas pegaram certo impulso e pularam na água. Elesis olhou para o fundo do lago e viu as tais conchas – eram gigantes, deviam ter pelo menos um metro de comprimento. Chegar nelas seria complicado... ainda mais com uma espada em mãos – mas Valky não parecia ter esse problema. Ela carregava uma lança consigo e ainda assim nadava com facilidade. Elesis não pôde deixar de ficar admirada. Mesmo sendo considerada uma heroína de grande poder em Vermécia, ali em Silverland ela era tão fraca quanto um Goblin.
Elas chegaram ao fundo do lago e foram recebidas por lagostas mal-humoradas – enormes lagostas de um metro de comprimento com pinças nada amigáveis. As lagostas investiram contra as duas.
A cabeça de Elesis estava girando. Elas haviam afundado pelo menos trinta metros da superfície, não podiam respirar e não conseguiam ver Jin em lugar algum, mas ainda assim Valky empunhava uma enorme lança com tanta agilidade quanto Elesis podia usar sua espada na superfície! Esses Silverlanders são incríveis, pensou ela. Mas agora seu objetivo era outro: as conchas. Elesis já não aguentava mais ficar sem ar.
Enquanto Valky destruía as lagostas, a espadachim olhou para uma das conchas e pensou em como usá-la. Como essa coisa funciona?, perguntou-se. Antes de descobrir, Valky apareceu ao seu lado e pegou uma concha também. Elesis observou a mulher, para entender como se fazia. Valky apenas colocou seu rosto dentro da concha e depois tirou. Logo, soltou a concha e voltou à batalha. Elesis repetiu o movimento e foi ajudá-la. Não sendo muito útil, a cavaleira vermelha de Canaban apenas derrotou duas lagostas, enquanto a outra mais de vinte.
Após usar outra concha, elas seguiram para um ponto mais escuro e fundo do lago. A água estava agitada, bolhas subiam por detrás de uma enorme rocha. As garotas fizeram o contorno e se surpreenderam.
Ponto positivo: encontraram Jin. Ponto negativo: ele estava embaixo de um enorme caranguejo. E quando eu digo enorme, eu digo maior do que uma ilha inteira; cerca de cinquenta metros de puro casco e pinça.
Derrotar aquele monstro em baixo d'água seria algo impossível, mas Valky não sentia nem uma gota de medo. Ela apontou para Jin como se dissesse "ele está lá". Ah, claro, nem tinha percebido!, pensou Elesis. Mas não era isso. Ela na verdade queria libertar Jin.
Valky nadou sobre o caranguejo e estipulou seus pontos cegos. Nadou por eles, sem ser vista e fincava sua lança nas falhas do casco. Irritado, o caranguejo se debateu e tentou encontrar a fonte de suas feridas... enquanto isso, Elesis nadou até Jin e o puxou de lá. Ele estava inconsciente, então a ruiva tentou agitá-lo. Ele soltou algumas bolhas e engasgou, tentando respirar. Elesis deu-lhe uma concha e o rapaz saciou sua sede pelo ar.
– Blurr! Druurrpl! – tentou dizer, mas sua voz foi levada pelas bolhas.
Elesis novamente lhe deu uma concha, fez sinal de silêncio – o dedo indicador em frente aos lábios – e apontou para o caranguejo. Jin logo entendeu e assentiu. Ele realmente parecia calmo para quem teria de enfrentar um caranguejo gigante em um ambiente que é bem mais vantajoso para o crustáceo que para eles. Bem, entrar em desespero não iria ajudar muito também.
Elesis correu os olhos ao redor do caranguejo, procurando por Valky. Seu coração se apertou – ela não estava em lugar nenhum. Um sentimento de culpa começou a preencher seu peito, mas ela o reprimiu. Não podia se dar o luxo de ficar abalada logo agora.
A aura vermelha de Jin o envolvia. Ele podia se mover com mais facilidade embaixo d'água com ela, pois seus movimentos se tornaram rápidos. Elesis também não queria ser inútil, então logo avançou. Sua visão estava encurtada pela água, sua velocidade reduzida em dobro; uma vez pela própria água, outra pela sua espada do pesado aço real de Canaban. Sorte a dela que esse tipo de aço não enferruja facilmente na água. Era uma das melhores espadas.
A ruiva tentava desesperadamente se aproximar do enorme crustáceo, mas ele se agitava e uma corrente poderosa de água empurrava a guerreira como se ela fosse um inseto. Jin, por outro lado, se aproximava com facilidade e acertava o caranguejo com poderosos socos de punho fechado. O Cavaleiro de Prata fez para Elesis um sinal que parecia um "siga-me", e ela fez do pedido uma ordem. Seguiu Jin, contornando o caranguejo e subindo em direção à superfície. O plano parecia bom, fora da água o crustáceo tinha desvantagens.
Ao pular lago afora, uma corrente de ar envolveu os três guerreiros e os ergueu para longe da água. Pelos deuses, era Arme! Essa fora a primeira vez que Elesis ficou feliz ao ver a Maga Violeta. Enquanto eles eram erguidos, o Cracken saiu da água voraz – o que, para seu azar, era o esperado.
– Agora! – anunciou Arme.
Menos de um segundo depois, Ryan e Ronan se revelaram, atacando em conjunto com um poderoso golpe no casco do caranguejo, arremessando-o para fora do lago. Foi aí então que Lire entrou em ação. Ela estava envolta numa das bolhas de ar – as mesmas de Jin, Elesis e Valky – sobrevoando o caranguejo, atirando flechas por seus flancos. Logo o Cracken se encontrava imóvel.
– Ganarrah gamuvah tienani... (Sinto-me muito cansada...) – disse a elfa.
Arme trouxe todos para a mesma margem do lago – a margem onde se encontrava o monstro.
– Mas que dia! – soltou ela. – Vocês desaparecem, nos deixando preocupados, e quando finalmente achamos vocês, olha só! Prestes a serem devorados por um caranguejo feliz gigante!
– Era mais do que um mero caranguejo feliz – sussurrou Ronan, mas Arme o encarou furiosamente. Ele decidiu manter a boca fechada.
– Nós teríamos nos virado sem vocês – disse Elesis, orgulhosa demais para agradecer. Principalmente a Arme.
– Um obrigado seria bem-vindo, certo? – reclamou a maga.
– Por favor, chega de discussões! – interveio Jin. – A culpa foi minha, eu que saí do abrigo e vim aqui.
– Por qual motivo? – questionou Lire.
– É, também estou curiosa – acrescentou Valky. – Você faz isso há cinco anos como se fosse um ritual. A mesma coisa, sempre. Vai às Ruínas de Prata, medita, depois vem para cá e taca pedras no Lago.
– Está bem, irei explicar – Jin desistiu. – Asin me ensinou que meditar sempre nos ajuda na concentração. Nós sempre meditávamos naquele mesmo lugar, isso me ajuda a continuar seguindo em frente. E aqui... neste lago... – Jin limpou a garganta. – Bem, aqui foi o local onde Amy e eu forjamos nossa primeira promessa. Ela iria partir para Xenia no dia seguinte para seguir sua carreira como dançarina e nós nos despedimos aqui. Ela me prometeu que quando me visse de novo, iria tocar violino para mim. Disse que iria aprender a tocá-lo e que iria compor para mim uma música – Jin parecia querer chorar. Elesis imaginou que essa Amy era alguém muito importante para ele. – Eu prometi para ela que me tornaria um Mestre antes disso. Não posso deixar a ilha. Preciso vingar meus companheiros e dar a eles paz. Preciso derrotar Victor e tomar dele o título de Mestre. Não posso encarar Amy assim como estou.
– Isso... é algo muito bonito – admitiu Ryan.
Todos assentiram.
– Bem, – levantou-se Jin. – Não podemos perder tempo. Parece que o norte da ilha já está seguro, com a Rainha Negra morta. Acho que é a hora de nos movermos para o sul.
– Finalmente... – disse Valky, sorrindo. – Depois de cinco anos eliminando Esqueletos pelo norte, podemos finalmente marchar para o sul. Nossas chances aumentaram, assim como os números. Duas pessoas contra um exército de Esqueletos era desvantajoso, levávamos horas para matar centenas deles. E o pior: não podíamos atacar às cegas, tínhamos de ter o cuidado para não sermos cercados.
– Antes disso – disse Elesis. – Valky, eu quero que você me ensine a lutar com suas habilidades. Em Vermécia eu era uma das melhores guerreiras, mas aqui... sinto-me inútil. Contra esses inimigos minhas habilidades só me servem de defesa...
– Tudo bem – assentiu Valky. – Vamos treinar pelas próximas três noites e partiremos quando amanhecer a quarta.
– Desejo me unir a vocês, Lady Elesis e Lady Valky – disse Ronan.
– Ótimo. Vamos para casa.
Todos voltaram para o esconderijo.
* * *
Chegando lá, Jin fez a proposta de continuar a limpar o continente sozinho, como sempre fez, durante o treinamento de Elesis e Ronan.
– Eu protesto! – disse Elesis. – Você não está mais sozinho. Lire, Ryan e Arme irão com você. É uma ordem como líder da Grand Chase.
– Tudo bem – concordou o lutador. – Então partiremos imediatamente.
– Esta hora? Já está de noite! – observou Ronan.
– De noite os monstros perdem poder. Paprion, o Leviatã, besta divina que reina no pântano se fortalece com a lua, e tira proveito disso para nos dar uma pequena ajuda. Mas a cada dia ela está enfraquecendo...
– Estamos perdendo tempo por quê? Pântano é um tipo de floresta! – disseram Lire e Ryan em uníssono.
Jin ficou surpreso com a sincronia dos dois. Eles mesmos estavam surpresos. Ronan pareceu mais confiante ao ver o brilho no olhar dos companheiros, então decidiu que era melhor não discutir.
– Elesis – disse o arcano. – Vamos melhorar nossas habilidades e alcançá-los!
– Não se nós formos mais rápidos! – Jin soltou um sorriso malicioso e seguiu seu caminho, seguido de Lire, Ryan e Arme.
Elesis desviou o olhar por um segundo e quase viu a morte – Valky investira vorazmente. Elesis conseguiu desviar por pouco.
– O-o quê?!
– Nunca abaixe a guarda, cavaleira Vermelha – disse ela. – As valquírias não têm piedade. Venham, os dois!
– AAAAAH – Ronan avançou contra Valky, mas ela simplesmente fincou a lança no chão e o rendeu de mãos nuas.
– Jin me ensinou alguns golpes corpo-a-corpo – disse ela, estalando os dedos. – Vou torná-los guerreiros completos: excelentes em curta distância, semideuses em longa e como vocês já são; incríveis em médio alcance. Venham de novo.
Elesis assentiu e avançou, mas tão rápido que se fale Valky já havia a rendido. Ronan veio em seguida, na esperança de pegá-la com a guarda baixa, mas Valky fora mais rápida e desviou. Habilmente, a valquíria arremessou Elesis por cima dos ombros. Ela caiu em cima do arcano.
– Maldição! Como ela pode ser tão forte?! – resmungou a ruiva.
– Lutar corpo-a-corpo? Em Vermécia ninguém faz isso! Ficar exposto a levar um golpe de um Troll não é uma boa ideia! – observou Ronan.
– Parem de reclamar seus molengas! Em Vermécia eles ensinam a ser moles desse jeito? Nós, de Xenia e Silverland vivemos sob o domínio de deuses! Precisamos ser fortes ou morremos.
Essa acertou em cheio. Elesis sentia-se mimada apenas por viver em Vermécia. Viver sob o domínio de deuses irritados? Ela nunca pensou desta forma. Ela foi preparada para lutar por Canaban, não pelo mundo inteiro... o fardo de enfrentar um deus se for preciso era grande demais. Ela não podia ser mole como estava sendo.
Elesis se levantou.
– Se eu tiver de enfrentar todos os deuses de Xenia para achar meu pai, assim o farei! – um trovão ressoou no céu em resposta. Os deuses ficaram irritados com isso.
Ela investiu novamente. Valky esquivou do primeiro soco, bloqueou o segundo. O terceiro soco foi a ruína de Elesis; Valky segurou seu punho e a imobilizou. Foi então que Ronan atacou – mas Valky usou Elesis como escudo e derrubou os dois.
– Elesis, pense antes de atacar. Ronan, seus golpes estão desajeitados e você não tem um equilíbrio firme. É fácil te derrubar. Mais uma vez!
Aquilo se repetiu durante toda a noite.
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