Gotta Be You - EM HIATUS
10 Secret Friends
Notas iniciais
[Harry P.O.V.]
Quando fechei a porta do banheiro e voltei para o quarto eu estava tremendo. Em parte pela euforia e, em parte, pelo nervosismo, porque eu realmente não sabia dizer o que tinha dado em mim para cheirar o pescoço de Louis daquela forma. Eu apenas não pude resistir.
Veja bem, nós tínhamos passado um dia maravilhoso no parque, logo depois dele ter me tocado em casa, quando disse que queria me ver e, agora, estávamos sozinhos em um quarto lindo, prestes a dividir uma cama que tinha até dossel... Bem, não era de se estranhar que meus desejos estivessem se manifestando daquela forma, não é? Entretanto, aquilo não era certo. Definitivamente não era algo que eu deveria fazer e as razões eram claras e consistentes.
A primeira delas era que eu não sabia se Louis gostava de garotos. Ele nunca tinha dito nada a respeito e suas ações não deixavam transparecer coisa alguma, então, eu estava entrando em um terreno proibido com um cara que podia ou não ser hetero e achar que eu o estava assediando sexualmente. Aquilo não era nada legal.
A segunda razão era que Louis era o meu trabalho. Mesmo se ele gostasse de garotos, como eu gostava e, por algum milagre da natureza, quisesse ficar comigo, aquilo ainda seria errado, porque sua mãe estava me pagando para cuidar dele e não para beijá-lo, cheirá-lo, abraçá-lo ou ter qualquer envolvimento físico desse tipo com ele. O que ela diria se soubesse que eu estava pensando em seu filho daquela forma? O que faria se eu beijasse Louis ou se dormisse com ele enquanto ela estava em seu congresso de Medicina na França? Eu, certamente, não estava pronto para ser preso ou para responder a um processo por causa disso.
Pensando nisso, tratei de tirar o corpo de Louis – que provavelmente estava nu do outro lado da porta do banheiro – da cabeça e me concentrei em arrumar a cama. Encontrei outro edredom em um dos armários do quarto e também o joguei sobre a cama, pois em minha atual situação, era melhor não me arriscar a dividir um cobertor com ele.
Quando Louis finalmente saiu do chuveiro, cerca de quinze minutos mais tarde, a expressão carrancuda em seu rosto me deixou um tanto apreensivo. Será que ele tinha interpretado minha atitude de uma maneira ruim? Será que estava bravo comigo e pensando seriamente em ligar para os pais? Meu Deus, eu não sabia, mas diante daquela terrível possibilidade, decidi agir normalmente e fingir que eu nunca havia tocado nele ou que, pelo menos, não me importava com aquele fato, como se fosse algo corriqueiro que as pessoas sempre faziam umas com as outras, embora eu tivesse plena consciência de que nenhum cara saía por aí cheirando o pescoço um do outro a menos que tivessem uma amizade sólida e repleta de brincadeiras ou um relacionamento.
– Vou tomar um banho. – anunciei, pegando a mochila dele e colocando-a em cima da cama, antes de pegá-lo pela mão e o levar até lá – Você pode se vestir enquanto isso. Quando eu sair do banho, podemos pedir algo para comer.
Louis apenas assentiu.
– Okay. – abri um sorriso nervoso – Certo. Estamos de acordo. – então, corri para o banheiro e passei os dez minutos seguintes, tentando me acalmar e organizar minha mente, pensando que, se Louis quisesse brigar comigo pelo que eu havia feito, ele já teria brigado. Ele nunca media suas palavras mesmo, nunca se importava de extravasar sua raiva em mim. Provavelmente, eu era o único que estava surtando por causa daquilo. Estava tudo bem.
Não. Não estava.
Aquela noite seria longa. Tão longa que eu estava cogitando a possibilidade de forrar um lençol no chão e passar a noite ali, mas fazer isso quando Louis e eu já tínhamos concordado previamente em dividir a cama seria dar bandeira demais. Era melhor eu apenas me deitar no meu canto e não me mover um milímetro. Se isso não desse certo, aí sim eu colocaria a ideia de dormir do chão em prática e dane-se o meu orgulho.
Saí do chuveiro e encontrei Louis já vestido e sentado na cama, bem ao lado de sua mochila. Percebi que deveria ter levado uma muda de roupas para o banheiro, para me vestir lá, pois, mesmo sabendo que Louis não podia me ver, era estranho me vestir na frente dele. O meu corpo traía todas as ideias que eu tinha me esforçado tanto para fixar em minha mente.
– Já sabe o que quer comer? – perguntei após me vestir, caminhando até um balcão perto da parede onde havia um telefone e uma cartilha com os serviços de quarto oferecidos. Passei as páginas até chegar ao setor destinado aos alimentos e me concentrei nos pratos descritos ali.
Havia muitos pratos que, creio eu, eram típicos da culinária sul-americana, como guacamoles, burritos e diversas saladas tropicais, mas também haviam pratos tipicamente ingleses e eu preferi me concentrar neles.
– Podemos pedir duas porções de Bangers e Mash¹, acompanhados com Bubble and Squeak² e um Summer Pudding³ para a sobremesa. – sugeri – O que acha?
– Pode ser.
– Ótimo. Quer um suco de laranja como bebida?
– Pode ser.
– Perfeito. – eu disse pegando o telefone do quarto e fazendo um tremendo esforço para não surtar por causa de todos os “pode ser” que saíram da boca de Louis naquele último minuto.
Fiz nossos pedidos, que foram trazidos ao quarto rapidamente e, depois, no sentamos em volta da pequena da pequena mesa de jantar que havia ali para comer. Foi a refeição mais silenciosa que eu já fiz em toda a minha vida e quando terminamos, fiquei feliz por poder escovar os dentes e ir me deitar.
Louis fez o mesmo, deitando-se em uma ponta da cama enquanto eu me deitei na outra, mas os minutos se passaram e nenhum de nós dois conseguiu pegar no sono, apesar de estarmos tão quietos em nossos lugares que qualquer pessoa poderia pensar que estávamos mortos. O meu corpo já estava doendo pelo esforço de ficar na mesma posição, sem me mover um centímetro que fosse e quando finalmente comecei a sentir câimbras na perna, percebi que não dava mais para ficar daquele jeito.
Qual é?! Eu tinha apenas cheirado o pescoço dele, não era como se eu o tivesse molestado ou o tivesse pedido em casamento, então, porque nós estávamos agindo feito dois idiotas? Louis eu até entendia, afinal ele geralmente agia como um idiota, mas eu não era daquele jeito. Não era todo caladão e mau humorado, então, porque estava agindo como se fosse? O que aquilo tinha a ver com a minha ideia de agir normalmente e fingir que nada demais tinha acontecido?
A resposta era simples: não tinha nada a ver. E no instante em que percebi isso pude, finalmente, respirar de novo e voltar a ser o Harry que eu era, divertido e espontâneo. Espreguicei-me na cama, feliz por poder me mexer de novo e me inclinei para dar um olhada em Louis.
Ele estava acordado, apesar de estar de olhos fechados e eu sabia disso porque sua respiração não estava ritmada e suave como a respiração das pessoas adormecidas costumava ficar. Nem me pergunte porque decidi me aproximar dele e lhe fazer cócegas, porque nem eu mesmo sei, mas acho que eu apenas precisava encontrar uma forma de quebrar o gelo que havia se formado entre nós e aquela foi a melhor coisa em que consegui pensar no momento. Dizer que Louis quase caiu da cama quando encostei minhas mãos nele não seria uma descrição fiel da cena, aliás.
– O que, diabos, você está fazendo?! – ele se voltou para mim com uma expressão irritada e cobriu o corpo com o edredom quase até o queixo – Você ficou louco, por acaso?
– Não. – eu sorri, descontraído – Só queria saber se você ainda estava acordado.
– E não podia simplesmente perguntar? Tinha que me fazer cócegas? Você quase me matou de susto, Harry.
– Ah, por acaso você achou que era a Phyton? – eu brinquei – Achou que ela tinha te seguido desde a montanha russa e que tinha invadido o hotel pela tubulação de ar?
Louis revirou os olhos.
– Tão engraçadinho. – disse de maneira sarcástica.
– Quem sabe ela não está embaixo da cama, só esperando o momento certo de dar o bote. – comentei me aproximando um pouco mais dele – Acho que ela vai esperar até que você durma e, então... Vai pular no seu pescoço! – exclamei voltando a fazer cócegas nele que começou a estapear meus braços no mesmo instante.
– Para com isso. Você não é engraçado. – ele reclamou, mas o sorriso em sorriso em seus lábios o traía – Se tivesse mesmo uma cobra nesse parque, eu adoraria que ela te engolisse.
– Não vai acontecer. Ouvi dizer que elas preferem meninos ricos e mau humorados. – comentei, dando de ombros – Você seria perfeito para a dieta delas.
– Porque eu sou um menino rico e mau humorado?
– Sim. O pior deles. – eu assenti – Desde que voltamos do parque você está com essa cara de poucos amigos e não deve ter pronunciado mais que dez palavras.
– Você também não falou muito.
– Então, você está calado por que eu estou calado?
– Não. – Louis se remexeu um pouco na cama e pareceu pouco a vontade com o assunto – Eu só estou pensando.
– Pensando em que?
– Em uma coisas aí. – ele deu de ombros e eu revirei os olhos.
– Umas coisas aí? Sério?
– Não é nada importante.
– Quer falar a respeito? – propus – Talvez eu consiga te ajudar a achar uma solução.
– Acho que isso não daria certo. – ele abriu um sorriso nervoso e franzi as sobrancelhas.
– Como é que sabe? Você nem tentou?
Louis não respondeu de imediato e, por um instante, eu pensei que ele iria me ignorar, mas quando já estava quase desistindo de obter uma resposta ele finalmente disse:
– Tem a ver com sentimentos, sabe? É sobre... Sobre esse amigo que eu tenho e que, de repente, parece ter começado a gostar de um cara. Acho que ele... Acho que ele sempre foi assim, porque já esteve em um relacionamento com algumas garotas antes, mas nunca foi uma coisa muito legal para ele. Quero dizer, não que as garotas fossem pessoas ruins. Ele só... Só não conseguia se ver em um relacionamento sério com elas. Você entende o que quero dizer?
Eu fiquei em silêncio por um instante, sentindo o sangue martelar em meus ouvidos. Ele, por acaso, estava falando sobre mim? Eu era o tal “amigo secreto” que já tinha se relacionado com garotas duas ou três vezes na vida, mas que nunca tinha se sentido completo porque, na verdade, gostava de garotos? Seria possível que isso estivesse tão evidente em minhas atitudes que até Louis conseguia percebê-las? Ou será que ele não estava falando sobre mim? Ele tinha algum amigo gay? Caramba, será que esse amigo tinha começado a gostar dele e, agora, Louis estava se sentindo incomodado com isso? Ou será que ele também gostava desse amigo? Será que queria que eu o aconselhasse sobre os prós e os contras de ele aceitar ficar com esse cara? Mas porque ele perguntaria sobre isso logo para mim? Será que ele sabia que eu era gay?
Eu quase ri de minhas tolas especulações. Por Deus, eu estava tão nervoso com aquilo que até me esqueci que ele só me perguntou porque eu disse que talvez pudesse ajudá-lo a resolver o problema que o incomodava. Louis não sabia sobre mim. Ele tão pouco estava falando sobre mim. Eu estava agindo como um idiota de novo. Ele só queria um conselho. Um conselho sobre seu amigo que, provavelmente, tinha se declarado para ele e esperava por uma resposta. Por algum motivo, pensar em Louis com outro cara fez meu rosto se retrair em uma careta de desgosto.
– Você ainda está acordado? – ele perguntou com um quê de irritação e eu percebi que ainda não tinha respondido a sua pergunta.
– Estou, sim. – tentei sorrir – Só estava pensando no que você disse, sabe? Esse seu amigo aí, qual é mesmo a questão com ele?
Louis suspirou profundamente.
– Na verdade, eu não sei. Só aconteceu desse cara aparecer e, então, ele começou a agir de uma maneira estranha, pensar em coisas estranhas, sentir coisas estranhas. Não sei bem o que fazer com ele.
– Ah. Está dizendo isso porque o fato de ele gostar de um cara te incomoda?
– Não. Quer dizer, sim. Na verdade, eu não sei. – ele disse por fim – Isso é apenas algo muito novo para ele.
– Entendo. Mas ele está feliz? – eu tive que perguntar. Talvez Louis só estivesse preocupado com a felicidade do amigo. Talvez ele não estivesse realmente tentando decidir se dava ou não uma chance para esse cara.
– Acho que ele está. – ele respondeu sem muita certeza – Pelo menos o mais feliz que já esteve nos últimos seis meses, acredito eu.
Eu pensei sobre aquilo por um instante.
– Então, seu amigo está bem. – concluí – Ele está feliz e finalmente descobriu quem é e o que quer. Não sei qual é o problema. O que realmente está te incomodando nessa história, Louis?
Por um momento me perguntei se Louis era homofóbico ou algo do tipo. Eu nunca tinha pensado nele como alguém tão preconceituoso, mas talvez eu apenas não quisesse enxergá-lo dessa forma. Se ele fosse realmente homofóbico eu ficaria desapontado. Mais que isso, eu ficaria realmente triste.
– Acho que não há qualquer problema. – ele respondeu e eu quase soltei um suspiro de alívio – Eu apenas nunca tinha me sentido desse jeito antes.
– Em dúvida sobre manter ou não uma amizade?
– Não. Atraído por um cara. – ele me corrigiu e eu senti o monstrinho verde e horrível do ciúme cravar as garras em meu peito.
Aquilo era uma droga mesmo. Então ele realmente estava a fim do tal amigo e eu havia acabado de lhe dizer para ir em frente com ele? O quão panaca eu era? Aliás, o quão estúpido era sentir ciúmes de um cara que, na verdade, nem era seu e, mais que isso, era apenas um trabalho que acabaria em exatos doze dias.
– Talvez você não devesse dizer nada ao seu amigo agora. – eu me ouvi dizendo antes mesmo que pudesse me controlar – Se o seu amigo gosta de outra pessoa, talvez fosse melhor você não interferir.
– O meu amigo não gosta de outra pessoa. – Louis riu – Ele só gosta desse cara. Ou, pelo menos, ele acha que gosta. Não tem muita certeza disso ainda.
– Então, qual é o seu papel nisso tudo? – eu perguntei sem entender nada daquilo – Seu amigo gosta de um cara e você gosta dele, mas ele não gosta de você., então, como vai resolver isso? Vai acabar com o relacionamento dos dois?
Eu realmente esperava que a resposta fosse “não”. Além de ser totalmente contra esse tipo de atitude egoísta de interferir no relacionamento de outra pessoa, ainda tinha o fato de que eu, definitivamente, não queria que Louis se envolvesse com esse tal amigo dele, que eu nem conhecia, mas que já odiava.
Louis, no entanto, apenas riu.
– Você está me deixando confuso, Harry. Que história é essa de que eu estou a fim do meu amigo?
– Você não está? – eu o encarei com um misto de esperança e confusão – Achei que era isso que estava tentando me dizer, que você tinha um amigo que tinha começado a gostar de um cara, mas que você estava se sentindo atraído por ele. Não era isso? Eu entendi errado?
– Sinceramente, eu acho que você mão entendeu coisa alguma. – ele continuou rindo e eu não entendi o que havia de tão engraçado naquilo, mas preferi não estender o assunto.
– Nesse caso, acho que é melhor eu ir dormir, então. – respondi de má vontade – Provavelmente, estou com sono demais para compreender o que se passa nessa sua cabeça e, amanhã, terei que dirigir por quatro horas. É melhor eu descansar.
– É. Talvez dormir seja mesmo a melhor opção. – Louis concordou – O dia hoje foi muito longo e muito confuso.
– Foi sim. – eu assenti e desliguei abajur do meu lado da cama, ajeitando-me em meu edredom – Boa noite, Louis.
– Boa noite, Harry. – ele respondeu e o quarto caiu novamente no mais completo silêncio.
Amanhã seria um novo dia e, quem sabe, eu estivesse desperto o bastante para compreender as coisas malucas que Louis dizia porque, até aquele momento, nada parecia fazer muito sentido. Eu só queria saber quem era esse amigo do qual ele havia falado e o que realmente sentia por sentia por ele. Será que eu, pelo menos, o conhecia? Eu esperava, sinceramente, que não.
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