Gotta Be You - EM HIATUS
11 Music & Memories
Notas iniciais
[Harry P.O.V.]
A viagem de volta para casa foi longa, porém, tranquila. Não tivemos nenhum problema com a estrada e passamos a maior parte do tempo nos revezando no comando do som e fazendo um quiz idiota sobre filmes. Tenho que admitir que Louis era bem melhor nisso que eu, pois ele se lembrava de filmes antigos que eu sequer sabia que existiam e, alguns deles, eu me propus a procurar na internet para assistir depois porque Louis disse que eram incríveis.
Já que havíamos perdido quatro horas de nosso dia na volta para casa, decidi que não faríamos nenhuma atividade da lista naquela segunda-feira. Ao invés disso, deixei Louis livre para fazer o que quisesse – e pudesse – e chamei Niall e o restante de nossa banda para ensaiar, já que a apresentação na batalha de bandas seria naquele sábado. Eu ainda estava pensando em como arrastaria Louis até o festival comigo, mas estava contando com sua paixão pela música para me ajudar a convencê-lo.
— Tem certeza que a gente pode ensaiar aqui? – perguntou Skye, nossa baterista, enquanto organizávamos os instrumentos na área de lazer próxima à piscina. Skye era uma garota magra e pequena, cujos cabelos eram de um tom já desbotado de azul e cujo nariz exibia um grande piercing brilhante no septo. Todos nós sabíamos que ela e Marc, nosso baixista, tinham uma espécie de relacionamento bumerangue, mas eles nunca se assumiram publicamente e nós não comentávamos a respeito, embora soubéssemos exatamente quando eles brigavam pelo fato de que um não olhava para o outro durante os ensaios – Não quero ser presa por invasão de domicílio.
— Ninguém vai ser preso. – respondi, enquanto conectava os cabos do microfone à caixa de som – Eu já conversei com o Louis e ele disse que tudo bem vocês virem ensaiar aqui.
Na verdade, Louis não tinha dito exatamente aquilo. Nossa conversa tinha sido mais ou menos assim:
Eu: Já que não vamos fazer nada esta tarde, você se importa se eu trouxer a minha banda para ensaiar aqui?
Louis: Você tem uma banda?
Eu: É uma banda de garagem, mas tenho, sim.
Louis: *silêncio*
Eu: Então, a gente pode ensaiar aqui?
Louis: Por acaso eu me importo com o que você faz ou deixa de fazer?
Sendo assim, acho eu tinha permissão de trazer a galera para ensaiar.
— Essa casa aqui é enorme, hein? – Marc comentou olhando em volta e soltando um assovio – O que você disse que os seus patrões fazem mesmo?
Eles são neurocirurgiões.
— E o filho deles? – Niall quis saber enquanto testava a afinação da guitarra.
— Ele não é neurocirurgião. Ele é cego. – evidenciei, franzindo a testa para a pergunta por que eu achava que já tinha comentando sobre isso com ele antes.
Niall revirou os olhos para mim.
— Não estou perguntando se ele é neurocirurgião, Harry. Quero saber se você já encontrou uma forma de convencê-lo a ir para a batalha de bandas no sábado, porque você não vai poder participar se ele não for com você, certo?
— Ah, isso? – eu sorri – Bem, certo. Mas eu estou trabalhando nisso.
— Porque você não o chama para assistir ao nosso ensaio? – sugeriu Skye.
Marc bufou e olhou para ela com uma cara engraçada.
— Você quis dizer para escutar o nosso ensaio, né? Porque o cara é cego.
— E só de ouvir a sua voz já estou quase desejando ser surdo também. – Louis retrucou, parando à porta da área de lazer com os braços cruzados e fazendo Marc quase engolir a própria língua de susto.
Para ser bem sincero, eu também me surpreendi ao vê-lo parado ali. Com Niall testando a guitarra e Marc dedilhando incansavelmente em seu baixo eu não o ouvi se aproximar, mas talvez a intenção de Louis fosse exatamente essa ou, talvez, nós só estivéssemos muito distraídos mesmo. Seja como for, o silêncio que se instalou na área de lazer, após a sua chegada, foi tão intenso que quando Skye começou a rir parecia que alguém tinha aumentado o som de um microfone até o último volume.
— Eu gostei desse cara. – disse ela batendo sua baqueta em um dos pratos da bateria e, pelo seu tom de voz, deduzi que aquele era um dos dias em que seu relacionamento com Marc não estava na melhor fase.
Antes que Marc decidisse retrucar o comentário e que uma guerra se instalasse ali, optei por me adiantar e apresentar Louis formalmente a todos eles.
— Galera, esse aqui é o Louis. O dono da casa. – eu fiz questão de frisar para que todos, principalmente Marc, soubessem que irritá-lo era o equivalente a pegar nossos instrumentos e ir tocar na calçada – E, Louis, essa é a minha banda, Wild Vortex. Na bateria temos a Skye, no baixo o Marc e quem está na guitarra é o Niall, meu colega de apartamento.
— E aí? – Niall o cumprimentou com um sorriso radiante e um aceno de mãos e eu não me preocupei em lembrá-lo de que Louis não podia vê-lo. Também não me preocupei em levar Louis até cada um de meus colegas porque sabia que ele saberia diferenciá-los pelo som dos instrumentos e pelo tom de voz.
— E aí. – Louis respondeu afastando-se da porta de vidro que levava à área de lazer e, por instinto, eu me aproximei para segurar seu braço e impedi-lo de tropeçar nos cabos de som e nas quinquilharias que havíamos espalhado por ali – Ouvi vocês comentarem que vão participar de um festival no sábado.
— É a batalha de bandas da Koko¹. – Skye explicou – O prêmio principal é de cinco mil libras para a banda vencedora e parece que vai ter muitos olheiros de gravadoras por lá.
— Parece interessante.
— Você não gostaria de ir com a gente? – eu perguntei como quem não quer nada. Se ele dissesse “não” eu teria que amordaçá-lo e trancá-lo no porta-malas do carro enquanto nos apresentávamos, mas se ele dissesse “sim”, então, problema resolvido.
— Hum... Depende.
Deus, porque Louis nunca facilitava a minha vida?
— Depende de quê?
— Se a banda de vocês é tão lixo quanto imagino ou ainda pior. – Louis deu de ombros, despreocupado e eu senti meu sangue ferver.
— Como assim “tão lixo quanto você imagina”?! Não somos um lixo!
— Então, você está me dizendo que são bons?
— Claro que somos! – eu o encarei com um olhar irritado apesar de ele não poder me ver.
Um sorrisinho de canto apareceu nos lábios de Louis.
— Aposto quinhentas pratas que vocês não ficarão entre os três primeiros nesse festival. – ele me desafiou.
— E eu aposto quinhentas pratas que nós ficaremos, sim. – contrapus.
— Aposto o dobro que vocês não conseguem vencer a batalha de bandas.
— Fechado!
— O que?! Não. Harry... – Niall começou a chamar minha atenção, mas ergui a palma de uma das mãos para ele, pedindo que não se intrometesse. Aquilo era entre Louis e eu. E eu não daria o meu braço a torcer.
O sorriso no rosto de Louis se alargou.
— Fechado. – ele me estendeu a mão e eu a apertei sem pestanejar, mas assim que a soltei senti o peso de minhas palavras.
Meu Deus! Eu havia acabado de apostar mil libras no resultado de uma competição onde eu nem fazia ideia de quem seriam os jurados ou os nossos concorrentes? Se perdêssemos eu teria que me prostituir para conseguir pagar a minha parte do aluguel nos próximos dois meses. Dei uma olhadinha de canto para Niall e, pela expressão de derrota no rosto dele, estava claro que ele pensava o mesmo que eu, exceto pelo fato de que ele, talvez, não estivesse cogitando a prostituição como uma maneira de remediar as possíveis consequências de minha aposta maluca.
— Que tal a gente começar a ensaiar agora? – Marc voltou a se pronunciar enquanto Skye nos encarava meio assombrada com tudo o que havia acontecido nos últimos trinta segundos.
— Acho uma ótima ideia já que o Harry tem uma aposta para vencer. – Niall jogou em minha cara e eu abri um sorrisinho amarelo para ele que não funcionou muito bem como um pedido de desculpas.
— Você vai ficar aqui? – perguntei a Louis que parecia ter acabado de receber uma indicação ao Grammy de tão radiante que estava.
Ele sorriu.
— Imagina se eu vou perder a oportunidade de participar do primeiro ensaio da banda que me deixará mil libras mais rico no sábado?
Tive vontade de atirá-lo na piscina, mas, ao invés disso, puxei uma cadeira e o coloquei sentado lá. Faria questão de arrasar nesse festival só para ter o gostinho de fazê-lo se calar. Nossa banda era boa, tínhamos potencial e, no sábado, eu mostraria para todos na Koko porque a nossa banda merecia aquele prêmio e mostraria para Louis porque ele não deveria ter me desafiado.
O ensaio correu muito bem. Ensaiamos as novas músicas que tínhamos preparado para o festival, ajustamos alguns erros em notas e na sincronia e também fiz alguns ajustes nos tons da música. Louis não disse uma única palavra, apenas ficou sentado em sua cadeira parecendo concentrado em nosso ensaio. Eu queria que ele tivesse dito alguma coisa, nem que fosse uma crítica, apenas para que eu soubesse se estávamos no caminho certo ou não. Não que Louis fosse um especialista nisso, mas eu achava que ele sabia o suficiente sobre música para nos dar uma opinião sincera.
Quando o ensaio finalmente terminou, ajudei Skye a desmontar sua bateria enquanto os garotos se ocupavam com os cabos e as caixas de som e, depois, ajudei-os a colocar tudo isso de volta na minivan de Marc, que era o veículo que utilizávamos para carregar a maior parte das coisas da banda.
— Você não deveria ter feito aquela aposta. – Niall comentou quando fechamos as portas traseiras da minivan – Mil libras não vão fazer qualquer diferença para ele, mas se você perder teremos que morar debaixo da ponte.
— Não vou perder esta aposta. – eu afirmei, mas lá no fundo eu não tinha tanta certeza assim – Confio na nossa banda e sei que somos bons. Vamos ganhar essa.
— Espero que tenha razão.
— Nos encontramos aqui de novo na quarta? – perguntei.
— No mesmo horário. – ele deu um leve soco em meu ombro e, depois, foi se sentar no banco do passageiro ao lado de Marc.
— Acho a gente tem grandes chances de ganhar esse festival. – disse Skye parada ao lado da porta traseira da minivan que ela mantinha aberta para poder falar comigo – Outra coisa que acho é que o Louis já sabe disso.
Eu revirei os olhos.
— O Louis está torcendo para que a gente perca.
— Pode ser, mas eu não acredito. Acho mesmo é que ele está garantindo que a gente ganhe, pois todo mundo sabe que nada incentiva mais uma pessoa que ouvir alguém dizer “eu duvido que consiga”.
Franzi as sobrancelhas.
— Está dizendo que acha que ele fez essa aposta só para me provocar?
— Estou dizendo que eu acho que o vi sorrir uma ou duas vezes enquanto você cantava. – ela piscou para mim.
Eu a encarei por um momento, pensando naquilo, mas depois sacudi a cabeça.
— Nem vem, Skye. Você está brincando comigo. Ele não sorriu.
— Entenda que eu só trabalho com fatos e ele sorriu, sim. Não foi aquele sorriso de quem está planejando matar o Batman, mas definitivamente era um sorriso. – ela explicou e então se inclinou pra me dar um rápido abraço – Nos vemos na quarta-feira, Harry.
— Até quarta. – Skye ocupou seu lugar no banco de trás e Marc deu a partida na minivan, acenando rapidamente para mim. Eu os observei até que o carro dobrou a esquina e sumiu de vista e, então, voltei para dentro de casa, fechando o portão automático da propriedade.
Quando cheguei a área de lazer, Louis estava no mesmo lugar onde eu o tinha deixado: sentado na cadeira perto da piscina, brincando de passar um chaveiro de uma mão para outra. Seus óculos escuros me impediam de ver seus olhos, o que agora era novidade, pois ele tinha parado de usá-los dentro de casa desde que eu falei a respeito e eu havia me acostumado a encarar seus olhos azuis o tempo todo.
— Está com fome? – perguntei e ele quase saltou da cadeira porque certamente estava muito distraído para notar a minha chegada.
— Meu Deus, Harry. Você quase me matou de susto.
— Não foi intencional. Achei que sabia que eu estava aqui. – me aproximei dele e toquei seu braço ajudando-o a se levantar – No que estava pensando?
— Pensando?
— Quando eu cheguei. – expliquei – Você estava distraído.
— Ah. – um pequeno sorriso passou pelos lábios dele – Estava pensando em música e... no meu primo, Zayn.
O sorriso dele se tornou levemente mais triste e eu busquei na memória qualquer informação que eu tivesse a respeito desse tal Zayn. Se não me engano, sua mãe havia mencionado que Louis sofrera um acidente de carro e que seu primo havia falecido no acidente, mas eu não sabia se tratava do mesmo primo a que Louis se referia agora. A julgar por sua reação, provavelmente sim.
— Seu primo gostava de música? – tentei uma abordagem menos invasiva, pois não queria simplesmente perguntar “seu primo morreu?”.
— Gostava, sim. Nós tocávamos juntos algumas vezes e escrevemos algumas músicas também.
— Sério?
— Sim. Ainda tenho as letras guardadas em algum lugar.
— E porque vocês não tocam mais juntos? – é isso aí. Eu achava que já sabia a resposta, mas queria ter certeza.
Louis engoliu em seco e respirou fundo e, por um instante, quase me arrependi de ter perguntado, mas antes que eu pudesse dizer a ele que não precisava falar se não quisesse, ele se pronunciou:
— O Zayn faleceu há seis meses. Estávamos voltando para casa e um motorista bêbado bateu no nosso carro. Ele morreu na hora.
Dessa vez, foi a minha vez de engolir em seco.
— Sinto muito pelo seu primo.
— Ele ia ser pai. – Louis disse de repente e senti um arrepio percorrer a minha espinha – Estava noivo e ia se formar em Medicina no final desse ano.
Fiquei sem saber o que dizer, porque eu já tinha dito que sentia muito e não queria repetir isso. Também não queria dizer que era uma perda horrível porque achava que aquilo apenas deixaria Louis mais triste.
— Acho que vou para o meu quarto. – ele disse antes que eu pudesse pensar em algo melhor para dizer – Perdi a fome.
Então, ele se soltou de mim quando chegamos aos pés da escada e começou a subi-la sem dizer mais nada. Pensei em ir atrás dele, mas ele não parecia muito receptivo, então, em vez disso, fui para a cozinha. Era melhor deixá-lo sozinho por um instante, perdido em suas próprias lembranças.
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