Notas iniciais
Olá, pessoinhas! Demorei bastante para postar esse capítulo (oh grande novidade tia Rhyenx demorando para atualizar...), mas finalmente consegui concluí-lo XD Ele está um pouco maior que os outros, o que acho que vai agradar vocês, mas não se acostumem, foi só porque minhas ideias para esse capítulo não couberam em 2.500 palavras kkk Bem, espero que gostem. Boa leitura. ps: tem link para uma música que vai ser citada no capítulo, caso queiram ouví-la no youtube enquanto leem. ^^

[Harry P.O.V.]

— Adivinha quem é a melhor babá de todos os tempos, desde Mary Poppins e te trouxe o jantar? – comentei no exato momento em que abri a porta do quarto de Louis, já psicologicamente preparado para receber outro sermão sobre “entrar em seu quarto sem ser convidado”.

O sermão, no entanto, não veio. Louis pareceu nem se importar com a minha presença e, para falar a verdade, aquilo em vez de me deixar aliviado, me deixou um tanto ressentido e incomodado. Qual é? Minha presença não deveria ser tão fácil de se ignorar assim.

— Louis? – apoiei a bandeja com o jantar sobre um braço e bati à porta de seu quarto com a outra mão – Você me ouviu? Eu disse que trouxe o jantar.

— Eu te ouvi da primeira vez, Harry. Não sou surdo.

— Então porque não me respondeu?

— Que tipo de reposta você queria? “Espero que não tenha trazido brócolis.”? – ele questionou mau humorado – Você já fez o jantar e já entrou no meu quarto. Deixe a comida aí e vá viver a sua vida.

— Ir “viver a minha vida”? – depositei a bandeja sobre sua cômoda, mas não me movi um só passo – O que quer dizer com isso? Que devo descer e assistir a algum programa na televisão ou que devo dar uma passadinha na biblioteca dos seus pais? Pois enquanto eu estiver responsável por você essas são as únicas maneiras como posso “viver a minha vida”.

Ele fechou a cara para mim.

— Eu não te pedi para ficar aqui. Nem queria que aceitasse esse emprego. Por mim, você poderia ir embora agora e voltar apenas quando os meus pais chegassem de viagem, para receber o restante do seu pagamento. Não me importo de ficar sozinho, Harry.

— Bem, eu me importo. Você não pode ficar sozinho, então, pare de ser tão rabugento e aceite isso.

Louis resmungou alguma coisa em resposta que tive certeza de que se tratava de um palavrão, mas não consegui compreender exatamente qual.

— O que foi que houve com você, hein? – mesmo sem sua permissão me sentei num canto de sua cama e fiquei olhando para ele – Ontem a gente se divertiu e pensei que, finalmente, tínhamos começado a nos entender e, hoje, você me trata assim. Não entendo o que aconteceu, Louis.

Ele bufou e eu passei um longo tempo esperando por uma resposta sua – qualquer que fosse ela –, mas tudo o que recebi em troca foi seu mais absoluto silêncio.

— Está sendo infantil. Sabe disso, não sabe? Você não pode começar uma discussão de repente e nem mesmo explicar o motivo.

— Eu não estou discutindo.

— Você está, sim. E, agora, eu também estou e a culpa é toda sua.

— Minha culpa porque?

— Porque eu te trouxe o jantar e em vez de me dizer “Oh, muito obrigado, Harry. Foi muita gentileza sua.”, você começou com essa história de “pode ir embora que eu não me importo.”.

— E qual é o problema?

— O problema é que você não pode dizer esse tipo de coisa para alguém que só está tentando ser gentil...

— Obrigado.

— E eu não quero saber se você... – eu tive que me interromper porque realmente não acreditei no que meus ouvidos tinham acabado de ouvir – O que você disse?

— Eu disse obrigado. – Louis repetiu – Por ter preparado o jantar e por tê-lo trazido até aqui. Aliás, espero que não tenha trazido brócolis. – ele sorriu e meu coração perdeu o compasso por um segundo.

Maldito Louis. Malditos olhos azuis. Maldito sorriso...

— Não trouxe brócolis. – eu lhe garanti, retribuindo ao seu sorriso, ainda que ele não pudesse ver. Eu realmente achava que uma dieta um pouco mais saudável, com mais frutas, verduras e legumes não lhe faria mal algum, mas se ele não queria brócolis, então, nada de brócolis para ele – Vou sair e te deixar comer em paz. Qualquer coisa estarei lá na sala.

— Tudo bem.

Meus lábios formaram outro sorriso sem minha permissão e saí do quarto, voltando rapidamente para a sala onde, alguns minutos antes, eu estava assistindo a um documentário sobre a vida marinha, porém, mal me acomodei de volta no sofá, me lembrei que tinha de perguntar a Louis se ele estava disposto a ir até o shopping comigo amanhã, pois eu definitivamente precisava de uma roupa legal para a apresentação de sábado e comprar um novo vaso de flores para seus pais, para substituir aquele que ele havia quebrado, também não seria uma má ideia.

Larguei o controle da Tv de volta em seu lugar e subi novamente as escadas, pulando de dois em dois degraus. Até pensei em bater antes de entrar no quarto de Louis, mas achei que assustá-lo um pouco seria bastante divertido, portanto, não anunciei minha chegada. Realmente consegui pegá-lo de surpresa ao abrir a porta com tamanho estardalhaço, mas o tiro saiu um pouco pela culatra porque presenciei algo que também me deixou bastante surpreso.

— O que, diabos, você está fazendo?! – eu tenho quase certeza que gritei, mas não havia como ser diferente diante daquilo – Você ficou completamente louco?! E, pelo amor de Deus, Louis, me diz que isso aí não é uma garrafa de uísque!

— Você não sabe bater antes de entrar? – Louis tentou esconder a garrafa da qual estivera bebendo de volta em seu armário, mas fui mais rápido e a tirei de suas mãos antes que ele tivesse a chance. Infelizmente, ao fazer isso, notei também o cigarro bastante suspeito que havia entre seus dedos.

— Isso aí é maconha? – arranquei o cigarro de seus dedos também e dei uma boa olhada nele. Eu não conseguia acreditar que Louis realmente estava embarcando em algo assim, mas ainda que o cigarro não estivesse aceso não restava dúvidas de que aquilo era maconha – Você está se drogando? – eu o encarei com um olhar repleto de fúria e foda-se que ele não podia me ver, dava para sentir a minha ira apenas pelo tom da minha voz – Desde quando faz isso, Louis?

Segurei o cigarro junto ao gargalo da garrafa de uísque e olhei bem para eles. Pelo menos um quarto do líquido âmbar e ardente da garrafa já havia desaparecido e eu não sabia se Louis o tinha consumido todo naquele breve instante em que fui até a sala ou se era algo que ele vinha fazendo aos poucos, mas sinceramente eu nem me importava. A única coisa pela qual eu estava agradecido era pelo cigarro ainda estar apagado e por seu quarto não cheirar a maconha.

— Qual é o seu problema, hein? Não pode beber desse jeito e, decididamente, não pode fumar maconha. Será que você não sabe o quanto isso é horrível? – me dirigi até o banheiro de seu quarto e parti o cigarro em três pedaços antes de jogá-lo dentro do vaso sanitário e puxar a descarga e, então, comecei a despejar o uísque na pia – Você não precisa disso, Louis. Você é bonito, rico e tem uma família que te ama. Porque está fazendo isso? Porque quer estragar a sua vida com essas coisas?

Eu não recebi nenhuma resposta dele, mas nem me surpreendi porque Louis não estava exatamente falante naquela noite. Ele era o tipo de pessoa que fazia birra e se estressava por tudo, então, obviamente, não ia responder a nada que eu perguntasse. Pelo menos não enquanto eu estivesse ali dentro do banheiro, pois, quando eu saísse, eu o agarraria pelos ombros e o sacudiria até que ele me desse respostas.

— O que você está fazendo é uma grande idiotice! – bronqueei – Está me ouvindo, Louis Tomlinson? Isso é uma idiotice!

Não esperei por qualquer resposta dele, mas estava preparado para ouvir uma enxurrada de ofensas ou resmungos que sempre sucediam às minhas palavras, mas em vez disso, o que ouvi foi um baque estrondoso vindo de algum lugar do corredor.

— Louis? – franzi a testa imaginando se ele havia decidido bancar o doido e quebrar algo, mas não obtive resposta – Louis?! – larguei a garrafa de uísque quase vazia sobre a pia e coloquei a cabeça para fora da porta do banheiro para verificar seu quarto, quase me engasgando de nervosismo quando notei que estava vazio – Ah, meu Deus! Louis?!

Saí do quarto mais rápido que um carro da Stock Car, mas parei assim que alcancei a escada porque encontrei Louis caído alguns degraus abaixo, praticamente se contorcendo de dor. Respirei fundo, ao menos um pouco aliviado por ele não ter quebrado o pescoço como imaginei que teria quebrado e me apressei para ajudá-lo.

— O que você estava tentando fazer, hein? Se matar? Não pode sair correndo enquanto leva uma bronca. Por acaso você é doido? – segurei um de seus braços, para tentar colocá-lo de pé, mas ele usou o outro para me empurrar para longe.

— Não preciso da sua ajuda.

— Ah, claro. E exatamente por isso você está aí, caído na escada, se contorcendo de dor.

— Não estou me contorcendo. – ele berrou para mim com o rosto retorcido de raiva e de dor, mas veja que coisa louca: nem assim aquele miserável conseguia ficar menos atraente – E você não é meu pai ou me minha mãe para me dar broncas.

— Bem, você também não pode descer as escadas sozinho, Louis, muito menos pode descê-las correndo, mas aqui estamos. – novamente segurei seu braço e o puxei para mais perto para que eu pudesse avaliá-lo. Fraturas expostas ele não tinha. Isso certamente já era um bom sinal – Diga-me onde está doendo.

Louis me virou a cara e faltou muito pouco para eu não estapeá-lo e fazê-lo terminar de descer as escadas rolando, mas consegui me controlar.

— Diga-me onde está doendo, Louis! Se você não me dizer vou chamar uma ambulância e você terá de dizer isso, pessoalmente, a um médico.

Sua cara de desagrado só aumentou e ele abaixou a cabeça, fazendo bico.

— Achoquetorcimeutornozelo.

— Você o que? – eu não consegui entender absolutamente nada do que ele havia dito, porque ele mais resmungou que falou realmente.

— Eu acho que torci o meu tornozelo! – ele repetiu ainda mais mau humorado que antes e praticamente gritando as palavras na minha cara mas, pelo menos dessa vez, eu o compreendi.

— Vou te levar a um pronto socorro. – fiz menção de me afastar para poder subir as escadas e pegar um casaco e seus documentos, mas Louis segurou minha camiseta me impedindo de fazer isso e quase me derrubando da escada também.

— Não vou para o hospital.

— Você acabou de dizer que torceu o tornozelo.

— Não está doendo tanto. Só me leve de volta para o quarto e me arrume um pouco de gelo.

— Mas você...

— Eu disse para me levar para o meu quarto e me trazer um pouco de gelo, Harry. Você é surdo?!

Olhei bem para ele e depois de pesar todos os prós e contras do que eu estava prestes a fazer, segurei-o pela orelha e, lentamente, comecei a arrastá-lo escada acima, enquanto ele reclamava da dor que eu o estava infligindo e mancava, tentando não apoiar o pé machucado no chão.

— Da próxima vez que você gritar comigo, te faço descer o restante daquela escada rolando. Você me entendeu?

— Solte a minha orelha, Harry. Eu posso processar você por isso, sabia?

— Não pode me processar se estiver morto e é exatamente o que vai acontecer a você se gritar comigo desse jeito de novo, entendeu? Eu não sou seu empregado, nem a sua mãe, Louis. Se gritar comigo, tenha certeza que eu te mato. – esclareci a situação para ele e, quando chegamos ao seu quarto, eu finalmente o soltei e, praticamente, o atirei sobre a cama – Vou à cozinha buscar um pouco de gelo. Fique deitado e coloque o pé sobre um dos seus travesseiros. Aliás, é melhor você também começar a comer o jantar que eu te trouxe se não quiser que eu te faça engoli-lo a força e, pelo menos uma vez na sua vida, me obedeça, caramba! – dei um tapa em sua perna e ele soltou um resmungo, mas eu o ignorei.

Entrei rapidamente em seu banheiro para pegar a garrafa de uísque que eu havia largado por lá e, então desci para a cozinha. Atirei a garrafa no cesto de lixo e abri a geladeira, apanhando o primeiro pacote de ervilhas congeladas que encontrei. Durante muito tempo, enquanto assistia a filmes, eu sempre me perguntei porque as pessoas usavam pacotes de ervilhas ou pedaços de carne congelada para tratar coisas desse tipo, em vez de providenciarem uma compressa com gelo, mas agora eu entendia perfeitamente: pegar um pacote ervilhas era muito mais prático que preparar uma compressa.

— Sabe onde eu encontro algum spray para dores musculares e uma faixa? – perguntei quando voltei para o quarto de Louis e quase ri quando vi que ele realmente estava deitado, com o pé apoiado sobre o travesseiro e com a bandeja de comida sobre o colo, seguindo exatamente minhas ordens. Percebi que com ele as coisas só se resolviam no grito mesmo, então, fiz uma anotação mental para sempre provar quem era o macho alfa daquela matilha quando ele se exaltasse e achasse que tinha o direito de gritar comigo. Apesar disso, fingi não estar me regojizando de orgulho por ele estar me obedecendo naquele instante.

— Tem um kit de primeiros socorros na última gaveta do armário do banheiro. – ele respondeu e voltou a comer. Ainda parecia mau humorado, mas, pelo menos, não estava mais gritando.

— Ótimo. – me sentei na beirada de sua cama e suspendi um pouco a barra de sua calça para depositar o pacote de ervilha sobre seu tornozelo, fazendo-o se remexer um pouco – Fique quieto. Ninguém mandou você descer a escada sozinho.

— Isso está muito gelado.

— É gelo. O que você queria? Que estivesse quente? E você podia ter quebrado o pescoço, então agradeça pelo frio ser o seu único problema.

Me levantei e fui até o banheiro buscar o spray e a faixa. Felizmente, os pais de Louis, levavam muito a sério a história de ter um kit de primeiro socorros. Havia de tudo ali, desde termômetros até algumas doses de carvão ativado, para o caso de envenenamento ou overdose e pensei que isso devia ser uma regalia de médicos. Em meu apartamento, o kit de primeiro socorros de que Niall e eu dispúnhamos não era muito mais que faixas hospitalares, mertiolate, álcool, esparadrapo e band-aid's – e, as vezes, nós nem tínhamos todas essas coisas.

Voltei para o quarto e retirei o pacote de ervilhas do tornozelo de Louis para avaliar o estrago. Seu tornozelo estava começando a fica inchado, mas, pelo menos, não parecia quebrado ou algo do tipo.

— De zero à dez, o quanto isto está doendo?

Ele pensou um pouco.

— Seis.

— Bom. Agora me responda: porque você está usando drogas? – tudo bem, eu sabia que deveria esperar um pouco para voltar aquela questão porque... bem, Louis tinha caído da escada e torcido o tornozelo, mas se ele ainda podia ser um chato e gritar comigo, então podia me responder o que eu queria saber, certo?

Errado.

E está errado justamente porque ele era Louis Tomlinson.

— O que eu faço da minha vida não é da sua conta, Harry. Você é meu acompanhante, não meu terapeuta.

— Parece que seu terapeuta não tem feito um bom trabalho com você, já que está bebendo e se drogando quando seus pais não estão por perto, então, vou assumir o lugar dele por enquanto. Aproveite que já está no meu divã...

— Essa é a minha cama.

— Não me interrompa quando eu estiver iniciando uma sessão. – eu o adverti – E, como eu dizia, aproveite que já está no meu divã e me conte todos seus problemas.

— Eu não tenho problemas.

— Sim. Claro. – apertei seu tornozelo e ele quase derrubou a bandeja de cima de seu colo por causa da pontada de dor que o atingiu.

— Mas que merda você está fazendo, Harry? Isso dói.

— Estou apenas te incentivando a se abrir comigo. – eu sorri – Ouvi dizer que uma dor anula a outra e já que não posso curar os seus problemas emocionais com uma conversa franca, talvez dê certo com dor física.

— Você é maluco.

Apertei seu tornozelo de novo e ele fez outra careta de dor.

— Então, quanto aos seus problemas com as drogas? – insisti.

Louis me xingou de alguma coisa, mas o resmungo foi baixo demais para que eu o compreendesse. Decidi ignorar aquilo e aguardei, em silêncio, me preparando para apertar o tornozelo dele de novo caso ele se recusasse a falar comigo.

Estava na cara que ele tinha problemas, afinal, ficou deprimido por causa da morte do primo mais cedo e, depois, decidiu se afundar em bebidas e cigarros de maconha. Qualquer um com esse tipo de comportamento tinha problemas, aliás, qualquer um que guarde uma garrafa de uísque escondida no guarda-roupa tem sérios problemas.

— Eu não uso drogas. – Louis respondeu de má vontade – Confesso que tenho bebido um pouco mais do que devo nos últimos meses, mas não uso drogas. Consegui o cigarro com um amigo que conhece um cara que vende, mas essa era a primeira vez que eu ia usar, Harry. Eu juro. Nunca fiz isso antes.

— E porque decidiu fazer agora?

Ele suspirou e largou o garfo de volta na bandeja, inclinando-se para depositá-la novamente sobre a cômoda ao lado da cama.

— Dói pensar no Zayn. – disse em voz baixa – Às vezes sinto que ele morreu por minha causa e não sei lidar com isso. Só queria esquecer que tudo aquilo aconteceu.

— Como assim ele morreu por sua causa? Você mesmo disse que um motorista bêbado bateu no carro de vocês, Louis. Não foi sua culpa.

— Eu tinha ido para uma festa naquele dia. – ela passou as mãos pelo rosto rapidamente e se recostou na cabeceira da cama – Quando estava voltando para casa fui pego em uma blitz. Eu tinha bebido um pouco e estava acima do limite de velocidade, então, apreenderam o meu carro e me levaram para a delegacia. Meus pais foram até lá para me tirar da cadeia e o Zayn foi com eles. Ele ia a um jantar na casa dos sogros naquela noite, ia pedir a namorada em casamento, mas teve que me trazer em casa antes porque meus pais tinham um jantar beneficente para ir e eu estava sem o meu carro. – ele explicou – Não era para ele estar naquele cruzamento comigo, àquela hora, Harry. Era para ele estar com a namorada dele. Não era para ele ter morrido naquele acidente.

Eu ouvi tudo em silêncio e me entristeci por ver o quanto aquilo o machucava. Pela forma como ele se referia ao primo, era fácil ver que ele o admirava e que os dois eram como irmãos. Perdê-lo deve ter sido difícil, ainda mais naquelas circunstâncias.

— Não foi sua culpa. – soltei o pacote de ervilhas sobre seu tornozelo e depositei uma mão sobre sua perna, sentando-me mais próximo dele na cama – Você cometeu um erro e seu primo teve que trazer em casa naquela noite, mas foi aquele cara quem bebeu e bateu no carro de vocês. Ele é o único culpado aqui, Louis, não você.

Demorei um segundo para absorver o fato de que Louis estava chorando, porque aquilo era tão impressionante quanto receber os seus raros “muito obrigado”, mas quase me parti ao meio por vê-lo daquela forma. Ele parecia mais que apenas triste. Parecia... perdido. Como se não soubesse mais como seguir sua vida, agora que havia perdido o primo.

— Ei. – eu o envolvi em meus braços sem me preocupar com suas possíveis reclamações sobre abraços indesejados, mas, de qualquer forma, ele não reclamou – Tenho certeza de que o Zayn não te culpa por nada do que aconteceu e tenho certeza que ele não quer te ver triste assim.

— Eu sinto falta dele.

— Sei que sente.

— Eu nem pude ir ao funeral dele, Harry. Eu nem pude lhe dizer adeus.

— Você estava no hospital, Louis. Tenho certeza que o Zayn compreende.

— Era para ter sido eu.

— Não fale isso. – eu apertei um pouco mais forte, porque ouvir aquela declaração realmente me deixava aflito. Sei que eu o odiei a primeira vista, mas, agora, imaginar um mundo sem Louis Tomlinson, seus belos olhos azuis e seu mau humor diário parecia horrivelmente triste – Eu sei que o seu primo era importante para você. Pela forma como você fala, posso perceber como eram próximos, quase como irmãos. Então, sempre que se sentir triste assim ou sempre que pensar nele, Louis, faça uma música. – sugeri.

Ele ergueu os olhos molhados para mim.

— Uma música?

— Você disse que vocês costumavam escrever juntos, lembra-se? Aposto que o Zayn quer que você continue escrevendo, Louis. A música é uma paixão que vocês dois tinha em comum, então, a use para ficar mais próximo dele agora. Coloque tudo isso que você guarda aí dentro em uma letra ou uma melodia. Você não precisa de bebidas ou drogas. Você é muito, muito melhor que isso, entende?

Ele assentiu, mas não me soltou e eu também não fiz questão de me afastar. Abraçá-lo não deveria me fazer sentir tão bem assim, mas fazia e eu não ia soltá-lo enquanto ele próprio não me soltasse, então, permanecemos assim pelo que me pareceu um tempo longo e curto demais. Tudo ao mesmo tempo mesmo e dane-se que isso não fazia sentido. Quando Louis finalmente parou de chorar e se afastou de meu abraço, estranhei o fato de que meus braços sentiram imediatamente a falta do calor dele.

— Obrigado por isso. – ele agradeceu, secando o rosto molhado com as costas da mão – Acho que eu precisava de um momento assim.

— Estou aqui para isso.

— Para abraçar?

Deus, eu realmente queria estar. Ser o ursinho de abraços de Louis Tomlinson não me parecia uma nada ideia ruim, mas, na verdade, eu era apenas a babá. Uma babá estranha e totalmente inexperiente, mas, ainda assim, apenas uma babá.

— Bem... Acho que para isso também. – eu sorri – E para fazer o jantar. E para colocar gelo no seu tornozelo quando você cai da escada por tentar fugir das minhas broncas. E para catar os cacos de vidro dos vasos de flores que você quebra enquanto procura pela cozinha. E para te levar a aulas de equitação. E para que você possa me matar de medo por causa de uma serpente inexistente numa montanha-russa. – contei nos dedos.

Ele riu.

— E para cantar para mim. – acrescentou e eu parei.

— Eu nunca cantei para você.

— Sabe que você tem razão. – Louis se inclinou na cama e tateou o ar a sua frente até alcançar seu violão e o pegar para entregá-lo a mim – Podemos mudar isso agora mesmo.

Eu fiquei ali na frente dele, olhando para o violão que ele me estendia, sem acreditar que ele estava falando sério. A primeira briga que tivemos naquela casa foi justamente por causa daquele violão e, agora, ele simplesmente queria que eu o pegasse e cantasse para ele. Mas em que raio de dimensão eu estava e como não percebi que havia atravessado um portal ao entrar nesse quarto?

— Você está falando sério mesmo? Quer que eu cante para você?

— Olha, para um cara que vai se apresentar diante de centenas de pessoas no sábado, você está agindo com timidez demais para um pedido tão simples.

— Eu não tenho vergonha de cantar. – rebati – Só fiquei surpreso por você querer que eu cante. A gente brigou por causa desse violão uma vez.

— Não, Harry. Nós brigamos porque você foi um intrometido e o tocou sem permissão. Agora eu estou pedindo que cante e estou te entregando o meu violão para isso. Você percebe a diferença? – ele ergueu uma sobrancelha me desafiando e eu só consegui rir.

— Ok. Ok. Nada de tocar no seu violão sem a sua permissão. Eu aprendi essa regra.

— Ótimo.

— E o que você quer que eu cante? – perguntei, finalmente segurando o violão que ele me estendia – Alguma composição própria ou uma música qualquer.

— Nada de músicas qualquer dentro dessas paredes. Cante algo que você escreveu.

— Tudo bem.

Demorei alguns segundos para decidir qual música cantar, mas, por fim, meus dedos começaram a dedilhar as notas de Don't Let Me Go, antes mesmo que meu próprio cérebro percebesse isso, então, essa acabou por se tornar a minha canção escolhida.

Eu nunca havia cantado essa música para ninguém, exceto para Niall que morava no mesmo apartamento que eu e não tinha como não acompanhar a evolução das minhas composições, porém, aquilo não era a mesma coisa que cantar para Louis agora. Niall ouvia as minhas músicas de uma forma mais crítica que emocional, observando as letras e me ajudando com alguns ajustes quando eu lhe pedia, mas Louis... não era como se ele apenas estivesse ouvindo a minha música, era como se ele estivesse vendo a minha alma, sentindo tudo o que eu sentia através daquelas palavras e desvendando todos os segredos da minha vida através daquelas notas. Aquilo era um pouco assustador, na verdade, pensar que alguém poderia desvendar todos os seus segredos apenas com uma canção, mas, ainda assim, era uma sensação incrível.

Louis permaneceu em silêncio, ouvindo-me com atenção enquanto eu tocava e cantava e eu não consegui desvendar o que havia por trás de sua expressão. Quando finalizei a música e dedilhei suas últimas notas pensei em perguntar a ele o que achava da letra, apesar de ter medo de que ele dissesse que tudo estava uma droga – Louis não tinha papas na língua –, mas quase esqueci o meu próprio nome quando ele, simplesmente, se aproximou e ergueu as mãos para levá-la ao meu rosto.

Fiquei estático ali, prendendo a respiração exatamente como aconteceu quando ele me tocou, no dia em que disse que queria me ver, sem saber se eu deveria ou não falar alguma e apenas sentindo o meu coração martelar em meu peito.

— Essa é uma música muito bonita. – Louis comentou em voz baixa – Mas ela é muito solitária e triste. É assim que você se sente, Harry? Sozinho?

— Bem, e-eu... Não. Não. Eu só... Bem, às vezes. – admiti recriminando-me por gaguejar daquela forma. Ele só estava segurando o meu rosto. Qual é?!

— Eu me sinto assim às vezes também. – Louis contou – Mesmo antes de o Zayn morrer eu já me sentia assim. Era como se faltasse algo na minha vida.

— Como se você estivesse andando por aí com um só sapato?

— É. Como se meu coração estivesse pela metade.

— Eu entendo. – confidenciei – Entendo exatamente qual é a sensação.

— É. – ele sorriu um pouco, mas eu ainda não conseguia respirar. Isso seria bem mais fácil se ele retirasse as mãos do meu rosto e se afastasse um pouco.

— Louis.

— Harry. – nós começamos a falar juntos e paramos, esperando que o outro desse continuidade a frase, mas nenhum de nós continuou. Da minha parte, eu podia dizer que me esqueci completamente o que eu ia dizer, mas com Louis eu não sabia se a situação era a mesma.

— O que você ia me dizer? – insisti diante de todo aquele silêncio – Pode falar primeiro.

— Na verdade, eu não sei. – seu polegar se moveu por meu maxilar e comecei a prender a respiração novamente. Minhas mãos estavam suando e a madeira do violão estava se tornando um pouco escorregadia sob elas – Acho que eu não ia dizer nada.

— Bom, eu ia dizer algo, mas... – não terminei a frase.

Tudo o que senti foram os lábios quentes e macios de Louis encontrarem os meus e... Oh, meu Deus! Aquilo era real. Realmente estava acontecendo.

Louis Tomlinson... estava me beijando!

Notas finais
Então, galerinha, espero que tenham gostado do capítulo e, para quem tava esperando beijo: olha só, ele veio haha Aliás, ele começou aqui e termina no próximo capítulo (uhhh). Agora, peço desculpas por fazer nosso querido LouisT se meter com o que não presta nesse capítulo =/ apesar daquelas fotos que circularam pela net há algumas semanas, dele saindo bêbado de uma festa, acredito que Louis não é desses. Não muito pelo menos kkkkk Enfim, vou me despedindo aqui, mas antes... Vocês devem ter notado que Harry e Louis "citaram" alguns trechos da música Half A Heart nesse capítulo, né? Pois não se esqueçam disso, porque essa música ainda vai aparecer por aqui alguns capítulos a frente. Beijos e até o próximo.