Gotta Be You - EM HIATUS
13 Do You Really Want To Be Alone?
Notas iniciais
[Louis P.O.V.]
Os lábios de Harry eram tão macios quanto eu imaginei que fossem. Não sei o que deu em mim para beijá-lo quando eu nem sabia se ele corresponderia àquilo ou se me atiraria do outro lado do quarto com um soco, mas não pude evitar.
Tê-lo ali, comigo, ouvindo o que eu tinha a dizer sobre o acidente com Zayn, me consolando e me dando motivos para seguir em frente, apesar da minha perda, era algo que ninguém nunca havia feito por mim. Primeiro, porque eu não me sentia confortável para falar sobre aquela noite e sobre Zayn com ninguém, nem mesmo com meus pais ou com os psicólogos que eles tanto insistiram em contratar e, segundo, porque o que todos sempre me diziam quando eu estava deprimido era: “Dê tempo ao tempo, Louis. Isso vai passar.”. Mas eles estavam errados.
Coisas como essas não passam, não se tornam mais fáceis com o tempo e não podem ser esquecidas, embora as pessoas achem que esse tipo de conselho ajude. Harry foi o único que entendeu que a morte de Zayn me causava dor e que era normal doer, que era normal eu sentir falta dele e que eu não deveria parar de me sentir assim. Tudo o que eu deveria fazer era usar a falta que eu sentia dele para fazer coisas construtivas, que o deixassem orgulhoso de mim e, não, coisas que me autodestruíssem, como eu vinha fazendo. Sentir a perda de alguém não é errado. Errado é o que nós fazemos a nós mesmo em nome da falta que sentimos dessa pessoa.
Antes eu não compreendia isso. Nenhum psicólogo, por mais bem qualificado que fosse, conseguiu me mostrar que eu estava fazendo tudo errado, mas um garoto intrometido e, até meio bobo, que eu odiei a princípio, conseguiu me mostrar isso com apenas algumas palavras e alguns acordes. Agora, porém, ele também estava me mostrando tudo isso com os lábios.
Apesar de todo o medo que eu sentia de uma rejeição, Harry fez com que eu me sentisse seguro no momento em que sua boca tocou a minha. De alguma forma eu soube, quando seus lábios se uniram aos meus, que ele não me afastaria e que não me julgaria. Senti suas mãos soltarem o violão, que ele ainda segurava após a música e, simplesmente, o empurrarem para fora do caminho, depositando-o no limite do meu colchão, antes de entrelaçar seus dedos longos por entre as mechas de meu cabelo e trazer sua boca para ainda mais perto da minha.
Eu não fazia ideia de como nós tínhamos chegado àquilo, quando toda a confusão havia começado por causa de uma garrafa de uísque e um cigarro de maconha que eu jamais tive coragem de usar, mas, sinceramente, eu não me importava. Se todas as minhas brigas com Harry nos levassem a momentos como aquele, eu brigaria com ele todos os dias e jamais me cansaria.
Aquilo era estranho e, ao mesmo, tempo libertador. Eu já havia me relacionado com algumas garotas, mas tudo entre nós sempre me pareceu superficial demais, estranho e sem sentido. Eu nunca tinha atribuído isso à minha opção sexual, aliás, jamais havia duvidado de minha heterossexualidade, mas, desde que Harry havia entrado em minha vida, ele havia me feito questionar isso. Agora, porém, eu não tinha mais o que questionar. Com os lábios dele nos meus e suas mãos embrenhadas em meu cabelo, eu tinha plena consciência de que havia iludido a mim mesmo ao acreditar que, toda a minha dificuldade de me envolver com mulheres, tinha a ver com a falta de entrosamento entre nós. A verdade mesmo, é que eu ainda não me conhecia de verdade. Estava me descobrindo aos poucos. Agora.
As mãos de Harry deslizaram de meu cabelo para meu pescoço e senti meu corpo pender para trás, conforme ele se inclinava sobre mim na cama. Minha cabeça caiu sobre o travesseiro macio, no mesmo instante em que ele cobriu meu corpo com o seu e eu não sabia que era possível sentir tanto calor, mesmo com um saco de ervilhas congeladas fazendo uma pressão desconfortável em meu tornozelo.
Eu podia sentir uma fisgada incômoda no músculo, cada vez que mexia o pé e, com certeza, precisaria de analgésicos para lidar com aquilo, mas, naquele momento, eu não me importava com a dor. Estava completamente perdido no calor que emanava do corpo de Harry, na textura de suas mãos, que haviam deixado meu pescoço e se aventuravam por meu peito e na pressão que seu membro desperto exercia sobre minha barriga, através do tecido de sua calça jeans.
Aquele, sem dúvida, era o melhor beijo que eu já havia ganhado na vida e eu não sabia muito bem o que esperar dali em diante, mas meu celular parecia nem um pouco propenso a me deixar descobrir, porque começou a tocar, pegando a nós dois de surpresa e quase nos fazendo cair da cama com o susto.
O motivo para tanto assombro, além, é claro, de nossa distração momentânea, era o toque de chamada, que consistia em um grito estridente capaz de acordar até mesmo um defunto. Era um toque digno de filme de terror e, geralmente, eu não escolhia toques assim para diferenciar meus contatos, porque não queria ter um ataque cardíaco cada vez que o telefone tocava, mas esse havia sido escolhido por seu dono e, mesmo o odiando, tive que deixá-lo lá e lidar com os toques que, às vezes, me acordavam durante a madrugada quase fazendo com que meu coração saltasse pela boca.
— É a sua mãe? – Harry perguntou se afastando de mim mais rápido que um raio e saindo de minha cama.
Eu podia senti-lo parado logo ao meu lado, certamente encarando o visor de meu celular, mas não sabia dizer se seu cenho estava franzido ou alarmado agora. Seria bom se eu pudesse tocá-lo para saber.
— Não é a minha mãe. – respondi, esticando a mão em direção à cômoda onde meu celular repousava, ainda guinchando – É o Liam.
— Liam?
Fazia tanto tempo que eu não recebia uma ligação de Liam que já havia até me esquecido de qual era o toque que eu atribuíra ao seu contato. Cada uma das pessoas de minha agenda, possuía um toque diferente que, felizmente, me possibilitava saber quem me ligava antes mesmo de eu atender ao telefone. Liam costumava me ligar todos os dias, às vezes às altas horas da madrugada, mas, desde o acidente, ele havia me contatado tão poucas vezes que cheguei a pensar que tivesse perdido meu número. Talvez eu só o tenha afastado, na verdade. Fiz muito isso com muitas pessoas durante muito tempo.
Sentei-me na cama e cliquei duas vezes sobre a tela para atender à ligação.
— LouisT! – Liam bradou do outro lado da linha assim que ouviu o meu “alô” e sorri um pouco ao ouvir o apelido. Antes, quando Zayn ainda estava vivo, quase todo mundo me chamava assim, mas após sua morte, eu não me dediquei muito a falar com as pessoas, então, o apelido ficou quase esquecido. Meus pais, Marie Anne e os especialistas que eles contratavam para cuidar de mim sempre me chamavam de Louis e isso era tudo o que eu ouvia atualmente.
— Liam, quanto tempo? – eu o cumprimentei, mas, para falar a verdade, nem eu sabia quanto tempo havia se passado desde a sua última tentativa de falar comigo. Isso, porém, não importava de fato.
— Faz uma eternidade, eu acho. – ele sorriu – Como você está, Louis?
— Estou bem. – respondi pensando em Harry e no beijo quente que estávamos trocando segundos antes. Liam uma vez havia me dito que talvez as mulheres não fossem a minha primeira opção de escolha, mas, como o bom amigo que eu era, o mandei ir à merda e fui para a cama com uma garota da nossa escola. Seria engraçado admitir, agora, que ele tinha mais razão do que imaginava.
— Estive pensando e… será que você gostaria de sair um dia? Poderíamos ir almoçar ou sair para tomar um sorvete, quem sabe? – ele questionou e eu contive um “oh” de exclamação.
Sair com Liam não era estranho, na verdade. Ele era um de meus melhores amigos desde o colégio, frequentava a minha casa, conhecia os meus pais, saía com Zayn algumas vezes também, mas nunca tinha me convidado para almoçar ou tomar um sorvete. Zayn dizia que era porque Liam sabia que esse tipo de programa não era para um cara como eu que gostava de baladas e boates e que Liam sabia disso e por isso só me convidava para festas. Eu sempre disse a ele que isso era bobagem. Agora, já não tinha tanta certeza.
— Você quer sair para almoçar? – tive que perguntar, porque me parecia estranho sentar à mesa com Liam, quando geralmente o que fazíamos era curtir a noite, ouvindo o “tuntz-tuntz” da batida de música eletrônica e tomando algumas cervejas.
— Acho que seria legal. – ele confirmou – Não temos saído juntos desde que o Zayn… Desde que você saiu do hospital. – ele se corrigiu, provavelmente porque eu já havia desligado em sua cara três ou quatro vezes nos últimos meses quando ele mencionava o acidente que havia tirado a vida de Zayn e me deixado cego – Estou sentindo a sua falta, cara. Só quero saiba que ainda tem um amigo aqui fora que gostaria de passar algum tempo com você, entende? As coisas não tem que mudar com a gente, Louis.
Aquilo me fez parar um pouco e pensar, mais uma vez, no que eu vinha fazendo com a minha vida. Desde o acidente, eu havia me afastado de todo mundo, evitado suas ligações e visitas e, talvez, eu tenha magoado muita gente com isso, principalmente o Liam. Era com ele que eu estava, quando tive o meu carro apreendido e tive que passar algumas horas detido. Ele havia sido liberado, já que não estava dirigindo e havia telefonado para meus pais e para Zayn, para avisá-los sobre a minha prisão. Durante muito tempo eu disse a mim mesmo que se Liam não tivesse me convidado para aquela festa e se não tivesse telefonado para Zayn, talvez ele ainda pudesse estar vivo e, durante muito tempo, eu alimentei por Liam, mais rancor do que ele realmente merecia e, agora, eu sabia que lhe devia desculpas. Mais que isso, eu lhe devia um de seus melhores amigos de volta.
— Acho que seria ótimo almoçar com você, Liam. – respondi, com um quê de emoção fazendo minha voz falhar um pouco no fim da frase – Podemos almoçar amanhã. Eu estarei livre.
— É sério? – Liam pareceu surpreso por eu ter aceitado seu convite tão rapidamente e a culpa me atingiu um pouco mais forte por isso. Quando alguém que já foi um de seus melhores amigos fica surpreso por você querer vê-lo é um sinal de que você tem sindo um amigo de merda para essa pessoa.
— Sim. É sério. Quer saber, também tenho sentido muito a sua falta. Ficar tantos meses sem sua companhia não é legal. Então, por favor, vamos consertar isso logo.
— Claro. Claro. – eu pude ouvir seu sorriso através do celular – Eu posso passar aí para te buscar. Que tal às 13 horas? Poderíamos ir a uma pizzaria. Você ainda come pizza, não é? Abriu uma pizzaria ótima no centro da cidade.
— Pizza para o almoço parece ótimo. – eu sorri também – Está marcado. Amanhã, às 13 horas. Eu vou te esperar aqui.
— Prometo não me atrasar. – ele garantiu – Foi ótimo falar com você de novo. Tchau, Louis.
— Tchau, Liam.
Desliguei, ainda com um sorriso contente estampado em meus lábios e depositei meu celular novamente sobre a cômoda. Saber que estava a um passo de recuperar minha amizade com Liam me deixava feliz e animado, mas essa felicidade ficou um pouco abalada quando estendi minha mão para tocar o braço de Harry, que ainda estava de pé, em silêncio, ao lado de minha cama, e ele se afastou de mim.
— O que foi? – perguntei sem entender seu distanciamento súbito. Em um instante estávamos nos beijando, completamente quentes sobre a minha cama e no outro estava fugindo de mim? Não fazia sentido.
Ele pigarreou um pouco, mas não se aproximou e nem respondeu a minha pergunta. Em vez disso, ouvi seus passo vacilantes quando ele se afastou um pouco mais e perguntou:
— Como está o seu tornozelo?
— Gelado. Um pouco dolorido. – eu dei de ombros – Harry, você está bem?
— Eu deixei a TV da sala ligada. – ouvi o ranger da porta quando ele a abriu – Também acho que esqueci algo no fogão. Não tenho certeza. Estava meio distraído com a sua queda da escada, mas acho que preciso dar uma olhada. Ver se não coloquei fogo na cozinha.
Ele não parecia muito sincero. Seu tom não soava calmo como de costume e eu não soube dizer o que havia de errado.
— Você vai à cozinha verificar? – questionei, sentindo-me confuso com sua atitude esquiva – Tudo bem. Mas você volta?
— Sim. Eu volto para ver se o seu tornozelo está melhor. Não se preocupe.
— Não estou falando disso, Harry. Você volta para cá? Volta… para mim? – foi estranho fazer aquela pergunta. Pensar em Harry como alguém que eu gostaria de ter na minha cama, mas aquilo era real. Era exatamente assim que eu me sentia. Querendo um pouco mais daquele beijo que havíamos interrompido, mais do toque cálido das mãos dele sobre mim. Acho até que soei como uma criança carente, mas, atualmente, uma criança e carente era exatamente como eu me sentia na vida.
— Não acho que devemos. – as palavras de Harry foram claras e objetivas e também foram como levar um soco no estômago. Ele estava me rejeitando? Porque?
— Achei que tinha gostado.
— Sou seu cuidador, Louis. Fui contratado para ficar de olho em você e, não, para ficar na sua cama. Acho que nos empolgamos um pouco com toda essa situação, mas prometo que não vai se repetir. Vou fazer o trabalho que seus pais estão me pagando para fazer e, depois, você vai poder voltar para a sua vida e eu para a minha. Vamos ficar bem;
Ele saiu do quarto tão rápido que nem tive a chance de perguntar porque estava me dizendo aquilo, mas não quis me levantar e correr ir atrás dele, exigindo uma explicação melhor, primeiro, porque eu ainda sentia a dor em meu tornozelo e, segundo, porque suas palavras me deixaram sem reação.
Era a primeira vez, em meses, que eu me abria com alguém para falar sobre Zayn e sobre o acidente que sofremos e, era a primeira vez, na minha vida, que eu tinha pedido para alguém voltar para mim, mas Harry tinha pegado tudo isso e atirado no chão, como um buquê de flores secas. Doeu pensar nele voltando para a sua vida e me deixando aqui sozinho na minha. Doeu pensar que o entrosamento que imaginei ter surgido entre nós era apenas uma parte de seu trabalho, uma obrigação para ele e doeu muito mais quando o relógio digital ao lado de minha cama apitou doze vezes, indicando que era meia-noite e ele ainda não tinha voltado para me ver.
Ele não voltou por mim ou para mim. Ele, simplesmente, não voltou.
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