Gotta Be You - EM HIATUS
14 I Still Get Jealous
Notas iniciais
[Harry P.O.V.]
Sabe aqueles dias em que, nos dez primeiros minutos, você já não tem mais dúvida de que nem deveria ter se levantado da cama? Pois é. Aquela terça-feira começou assim.
Logo que me coloquei de pé já bati o quadril na beirada da cômoda, enquanto tentava encontrar a porta para o banheiro. Depois, bati o dedinho do pé na perna da cama, enquanto tentava calçar meu chinelo e sair do quarto. Deixei as torradas queimarem, derrubei o pote de geleia de amora enquanto tentava abri-lo e ainda queimei a língua tomando meu copo de leite matinal. Eu poderia apostar que, se eu tentasse escrever uma música, ela sairia péssima e, provavelmente, eu arrebentaria uma ou duas cordas do meu violão na tentativa, então, quanto mais longe eu pudesse me manter de uma folha de papel ou de um instrumento musical hoje, melhor seria.
Infelizmente, para mim, eu não podia manter essa mesma distância de um certo garoto chamado Louis William Tomlinson.
— Bom dia. – Eu o cumprimentei assim que abri a porta de seu quarto, para lhe entregar uma bandeja com o café da manhã, sem parar para bater. Eu havia acordado fazia pouco mais de meia hora e, nesse meio tempo, já havia lidado com meia dúzia de desastres, então, não estava com humor suficiente para me preocupar com as regras idiotas de Louis. Felizmente, para mim, ele estava vestido com uma calça de pijama e uma camiseta regata preta quando eu abri a porta, pois eu acho que teria derrubado toda a comida da bandeja se o tivesse surpreendido saindo do banho, completamente nu, novamente.
— Bom dia, Harry, seu imbecil. – Louis devolveu o cumprimento no seu melhor estilo mal educado e eu respirei fundo, disposto a ignorar aquela ofensa antes que eu decidisse atirar todo o café da manhã na cara dele, em vez de lhe entregar a bandeja.
Eu sabia que ele devia estar bravo por eu não ter voltado para o seu quarto como prometi, mas não estava a fim de discutir aquilo.
— Eu fiz torradas e também trouxe um pouco de leite para você. – Anunciei. – Espero que goste.
— Trouxe mel? – Louis questionou enquanto eu depositava a bandeja sobre sua cômoda, com cuidado. Do jeito que as coisas estavam saindo hoje, era bem capaz de eu derrubá-la se não usasse toda a minha atenção para executar aquela tarefa.
— Trouxe sim. Coloquei ao lado do pote de geleia de laranja. Ambos estão abertos, então, tenha cuidado quando for tirá-los da bandeja.
— Sou sempre cuidadoso, Harry.
Eu tive que rir. Nos dias em que eu estava ali, Louis já havia derrubado mais coisas do que eu podia contar nos dedos de uma só mão e, tudo bem, eu podia até não ser a pessoa mais cuidadosa do universo, mas, pelo menos, eu não tinha quebrado um vaso de cristal caríssimo enquanto tentava achar a porta de uma cozinha que eu jurei saber onde ficava.
— Do que está rindo? – Ele perguntou, mal humorado. – Contei alguma piada, por acaso? Virei um palhaço de circo ou algo assim?
— Ei. – Fiz careta porque, embora eu estivesse acostumado com sua reação exagerada, achei que ele estava passando um pouco dos limites. – Eu só achei engraçado você dizer que é sempre cuidadoso, está bem? Você quebrou o vaso de flores dos seus pais um dia desses.
— Aquilo foi um acidente.
— Eu sei, Louis. E, exatamente por isso, estou pedindo que você tome cuidado quando for pegar os potes da bandeja. Quero evitar que outro acidente aconteça hoje.
— Babaca.
— Como disse? – Eu arregalei os olhos e parei, com mão na maçaneta da porta, sem conseguir abri-la. – Você acabou de me chamar de babaca? Qual é o seu problema, hein Louis?
— O meu problema? – Ele fechou a cara para mim. – Vejamos, Harry. Acho que ele começou quando a minha mãe decidiu te contratar como babá.
— Então, você está me dizendo que a culpa de você ser um completo estúpido é minha? – Eu ri. – Acho que não, Louis. Você já era um perfeito idiota muito antes de eu te conhecer.
— O que foi que você disse? – Ele questionou indignado, mas dessa vez eu não estava disposto a pedir desculpas.
Louis tinha me tratado como lixo desde que eu havia começado a cuidar dele e, na noite anterior, tinha me beijado e me tocado, mesmo estando em uma relação, que ele nem se preocupou em disfarçar quando atendeu o telefone. Por acaso ele pensava que eu era o quê? Um brinquedo? Achava que, se seus pais haviam me contratado para ficar ao seu inteiro dispor, por quinze dias, isso também significava que ele poderia me usar dessa maneira e que eu não teria o direito de me sentir ofendido por ele ter me beijado e, logo depois, ter marcado um almoço com seu maldito namorado Liam? Ele só podia estar louco se achava que eu aceitaria aquilo tranquilamente.
— Eu disse exatamente o que você ouviu. – Respondi enraivecido. – Não me diga que além de cego, agora, você ficou surdo também.
Eu mal tive tempo de desviar para o lado, antes que o pote de geleia de laranja passasse assobiando ao lado de minha cabeça. Louis se colocou de pé tão rápido que quase se enroscou nos lençóis de sua cama, mas ele conseguiu se apoiar depressa e, logo, foi a vez do pote de mel voar na direção da porta.
— Repete o que você acabou de dizer, Harry! – Ele arremessou o copo de leite em minha direção, mas, apesar da bagunça que aquilo causou, o copo não chegou nem perto de me atingir. – Repete essa porra que você acabou de dizer para mim!
Procurei abrigo no canto mais afastado do quarto e tentei encontrar um jeito de me redimir, pois, ainda que eu estivesse bravo com Louis naquele momento, eu sabia que tinha ido longe demais ao insultar a deficiência dele. Eu havia lhe feito uma promessa ontem e não havia cumprido, então, era óbvio que ele estava bravo e, por mais que eu achasse que ele não tinha o direito de estar, já que tinha um namorado e estava me usando como um brinquedo, nada disso me dava o direito de agir como um grande idiota.
— Eu não quis dizer aquilo. – Tentei me desculpar. – Falei da boca para fora, porque você me chamou de babaca primeiro.
— A sua música é péssima. – Louis voltou a me insultar. – Você não tem talento e a sua banda jamais vai ganhar aquela droga de festival do qual vocês querem participar no sábado.
Minha boca formou um “O” de indignação perante suas palavras e eu fechei a cara para ele e cruzei os braços diante do peito, irritado. Me insultar, tudo bem. Agora, insultar a minha música e minha banda, era demais.
— A minha música não é péssima, tá?! – Retruquei ofendido e Louis aproveitou o som de minha voz para descobrir minha localização e atirar o prato de torradas em mim. Ele se estilhaçou na parede ao meu lado e alguns cacos de porcelana minusculos ficaram presos em meu cabelo, mas por sorte não me acertou.
— Você é um músico medíocre e, se quer saber, eu nem gostei daquela música que você cantou para mim ontem. Só quis ser gentil, mas a verdade é que a sua música é horrível e que uma criança de cinco anos seria capaz de compor algo muito melhor aquilo.
— Pelo menos eu componho alguma coisa, né? Não fico pelos cantos, como você, chorando feito uma garotinha e me drogando por que não sou bom o bastante nem para lidar com os meus próprios problemas.
As feições de Louis se retorceram em uma careta de pura fúria e, dessa vez, ele pegou a bandeja de alumínio e a atirou em minha direção, forçando-me a erguer o braço para evitar que ela me atingisse no rosto. Ela se chocou contra o meu braço com um baque metálico e caiu aos meus pés, titubeando pelo chão, enquanto uma dor aguda irradiou pelos meus ossos até chegar ao meu cotovelo, fazendo com que uma sensação de choque se instalasse ali.
— Saia já do meu quarto! – Louis exigiu, furioso, já segurando a base do abajur sobre sua cômoda para atirá-lo em mim também. – Não quero mais que você entre aqui, Harry. Nem mesmo quero dividir essa casa com você. Amanhã mesmo vou ligar para os meus pais e pedir que eles te mandem embora!
Eu estava pronto para retrucar quando o celular de Louis começou a vibrar sobre seu criado-mudo e a mesma música irritante de filme de terror, que havia tocado enquanto nos beijávamos, na noite anterior, preencheu o quarto, sem nos deixar nenhuma dúvida de quem estava telefonando para ele. A raiva, que eu já estava sentindo, se elevou à níveis nada saudáveis e, mais uma vez, eu me apressei em direção à porta, desviando-me dos cacos de vidro no chão, porque eu não queria ter de escutar outra ladainha romântica entre Louis e seu namoradinho de merda.
— Quer saber? Faça isso, Louis! Ligue para os seus pais e peça a eles para me demitirem. – Eu disse sem conseguir me conter. – Você estará me fazendo favor, porque se tem alguém aqui que já não suporta mais ficar sob o mesmo teto que você, pode ter certeza de que esse alguém sou eu.
— Ah, você acha mesmo, Harry? Então, porque você não arruma a droga das suas coisas e dá o fora daqui, hein? Eu já disse, mais de uma vez, que não preciso de você ou da porra da sua companhia.
— Ah, claro que você não precisa! – Eu disse com desdém. – Você já têm o Liam para te fazer companhia, não é? Aliás, porque você não aproveita que vão almoçar juntos hoje e já oferece a vaga de emprego para ele? Aposto que ele nem se importaria de não receber um salário.
— É. Eu tenho certeza de que ele não se importaria mesmo! – Louis afirmou, presunçoso. – Diferente de você, o Liam não fica ao meu lado apenas por causa do dinheiro. Ele se importa comigo, Harry. Ele realmente gosta de mim. Já você, é só um idiota mesquinho.
— Eu sou mesquinho? – Tive vontade de pular no pescoço dele e apertá-lo, mas me contentei em apertar a maçaneta da porta e encará-lo com um olhar mortal. – Ótimo, Louis! Se é isso que você acha de mim, então, vá almoçar com o Liam. Peça para que os seus pais me demitam e chame-o para cuidar de você. Tenho certeza de que ele não vai aguentar um único dia ao seu lado, seu imbecil ingrato e esnobe!
Saí do quarto e bati a porta, mas ainda pude ouvir quando o abajur se estilhaçou na parede e Louis começou a me xingar. O toque de filme de terror, em seu celular, parou e presumi que ele havia atendido à ligação, então, me apressei de volta a cozinha, onde eu ainda tinha algumas louças para lavar.
No fim, eu sabia que seria eu quem teria que limpar toda a bagunça que Louis havia feito em seu quarto e essa era mais uma razão para eu querer matá-lo, mas me contentei em desejar que ele furasse o pé com um dos cacos de vidro no chão, ainda que eu soubesse que, se isso acontecesse, seria eu quem teria que levá-lo ao pronto socorro e também seria eu a quem os seus pais culpariam quando voltassem de viagem. Xinguei baixinho.
Maldito Louis Tomlison!
Maldito emprego de babá!
Maldito Liam com seu maldito toque de filme de terror!
Terminei de arrumar as coisas na cozinha e fui para a sala assistir um pouco de TV. A verdade mesmo é que a minha raiva me impedia de prestar atenção no que quer que estivesse passando, mas eu não estava disposto a voltar para o quarto e ouvir enquanto Louis conversava com Liam no celular. Eu também não podia ir a nenhum lugar muito distante – como a área da piscina, por exemplo –, pois, embora eu estivesse bravo o suficiente para não me importar caso Louis caísse da escada e quebrasse o pescoço, eu também não podia falhar com os seus pais. Eu tinha assinado um contrato de trabalho e eles estavam me pagando para cuidar do filho, então, até que eles me demitissem ou até que eu decidisse estrangular Louis com minhas próprias mãos, era meu dever me preocupar com o bem-estar dele.
Conforme haviam combinado na noite anterior, Liam tocou o interfone da casa exatamente às 13 horas. Tive vontade de atender e dizer a ele para ir se danar, mas, em vez disso, pedi que ele entrasse e avisei a Louis que Liam já estava esperando por ele.
Nem vou tentar fingir que não fiquei morto de raiva quando Louis apareceu na sala, mais bonito do que eu jamais o tinha visto, com seus óculos escuros, uma calça jeans preta e uma camisa social azul, de mangas curtas, mas isso não foi nada comparado a raiva que senti quando abri a porta e dei de cara com Liam.
Puta merda! Eu já o odiava, mas não podia negar que o cara era um gato. Com seus olhos castanhos escuros, a barba por fazer e o cabelo perfeitamente arrumado em topete anos 60, Liam era a descrição de uma obra e arte, mas o fato de que ele estava prestes a ir comer uma pizza com o garoto de quem eu havia começado a gostar mais do que deveria, me fez desejar que ele se engasgasse durante o almoço e sufocasse.
— Oi. Eu sou o Liam. – Ele me cumprimentou com um aperto de mão que, por algum milagre, eu fui capaz retribuir sem me inclinar para cuspir em seu rosto.
— Sou o Harry. – Me apresentei e Liam assentiu e sorriu para mim.
Ele tinha um sorriso bonito.
Tive vontade de quebrar todos os seus dentes.
— Pronto para ir almoçar, campeão? – Liam se dirigiu a Louis que estava sentado precariamente no braço do sofá e lhe estendeu a mão. – Vem. Eu te guio até o carro.
— Obrigado. – Louis tateou o ar, até alcançar a mão dele e, então, se levantou. – Estou morrendo de fome.
— Você vai amar a nova pizzaria. – Liam, enlaçou seu braço no dele e, então, se voltou para mim. – Eu trago ele de volta assim que…
— Você não deve explicação para idiotas. – Louis o interrompeu e o arrastou na direção da porta. – Não gaste a sua saliva a toa, Liam.
Eu quis dizer aos dois para irem para o inferno, ainda que Liam me parecesse ser um cara legal, mas, simplesmente, revirei os olhos e fechei a porta depois que ambos saíram.
Minha vontade era ir até o quarto de Louis, pegar seu violão e arrebentar todas as cordas daquele instrumento idiota, mas eu era um músico. E não um músico medíocre. Meu amor pelos instrumentos musicais me impedia de fazer tamanha crueldade, mas eu ainda estava tentado a abrir seu guarda-roupa e rasgar uma camiseta ou duas.
Em vez disso, no entanto, eu fiz a coisa mais patética que eu poderia fazer: fui até o meu quarto, troquei de roupa, peguei meus óculos escuros e as chaves do meu carro e, depois de trancar a casa inteira, liguei para Niall e pedi que ele me encontrasse na nova pizzaria do centro da cidade.
Eu era um verdadeiro caso perdido.
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