Gotta Be You - EM HIATUS
5 No Pain, No Gain
Notas iniciais
[Harry P.O.V.]
Eu estava deitado, no sofá da sala, com um pacote de pipoca de micro-ondas apoiado sobre o peito, assistindo a reprise de um episódio da terceira temporada de Hart Of Dixie, no CW, quando ouvi os passos vacilantes de Louis ecoarem nos degraus da escada que levava ao segundo andar.
Tinham se passado seis horas – seis malditas horas – desde que eu havia saído de seu quarto e, desde então, eu já tinha almoçado, feito um tour pela casa, assistido dois filmes, lido dez páginas de um livro qualquer que encontrei na biblioteca de seus pais, matado um tempo na área de lazer e voltado para o sofá e, só agora, Louis tinha decidido acabar com sua birra infantil e sair do quarto.
Sinceramente, não achei que ele fosse aguentar tanto. Achei que desistiria daquela babaquice cerca de trinta minutos depois de começa-la, mas ele resistiu por seis longas horas e eu até bateria palmas para sua persistência se a pessoa a quem ele estava tentando irritar com tudo aquilo não fosse eu.
– Harry? – ele me chamou enquanto ainda tentava descer a escada, mas eu nem respondi. Simplesmente afundei um pouco mais no sofá e joguei uma porção de pipoca na boca, mantendo minha atenção concentrada no barulho de seus passos apenas para o caso de ele cair da escada e eu precisar ajuda-lo.
Louis levou cerca de três minutos para chegar ao térreo – algo que eu fazia em quinze segundos – e, quando ouvi seus pés se arrastando pelo chão sala, parei de me preocupar com a possibilidade de ele quebrar o pescoço e voltei a me concentrar no meu episódio de Hart Of Dixie.
– Harry? – Louis me chamou novamente e, mais uma vez, eu o ignorei – Harry, eu sei que você está aqui. Estou ouvindo você mastigar.
Nem me dei o trabalho de responder. Apenas coloquei mais uma porção de pipoca na boca e mastiguei, ainda mais alto, porque eu queria que ele soubesse que eu era tão bom em irritar as pessoas quanto ele.
– Você vai ficar me ignorando mesmo? – “O que você acha?”, continuei a mastigar – Sabe que essa vingança boba é coisa de criança, não sabe? – “Oh, é mesmo? Então, finalmente, estamos falando a mesma língua.”, revirei os olhos – Achei que a minha mãe tinha te contrato para cuidar de mim. – “E eu achei que você tinha dito que não precisava de ninguém cuidando de você.”, atirei uma pipoca no ar e a capturei com a boca antes que ela caísse no meu rosto – Harry... Caramba! Quer para com isso e falar comigo? – “Ser ignorado dói, não é?”, tentei sufocar uma risada de vitória, mas ela acabou escapando de qualquer forma – Ah, que se dane! – Louis vociferou, irritado – Eu não preciso de você. Vou fazer minha própria comida.
Ele se afastou do sofá e seguiu na direção do corredor à direita e eu me sentei, com as pernas cruzadas parcialmente em uma posição de lótus, apenas para observar seu desempenho.
– A cozinha não é por aí. – avisei.
– Cala a boca! – ele virou a cabeça na direção de minha voz e cerrou os punhos – Eu vivi a minha vida inteira nessa casa. Acho que eu sei bem para que lado fica a cozinha.
– Tá bom. – dei de ombros e voltei a comer minha pipoca.
Louis continuou caminhando a passos lentos, tateando com as mãos os lugares por onde passava e eu me perguntei porque diabos ele não tinha uma daquelas bengalas, super úteis, que os cegos usavam. Ele adentrou no corredor e eu me levantei do sofá e o segui, apenas para rir de sua estupidez. Ele estava tão errado quanto à direção da cozinha, mas já que ele queria dar uma de riquinho rude e mimado para cima de mim, então, eu iria deixa-lo dar de cara com uma parede.
Ao final do corredor, Louis tateou os espaços a sua frente e a sua direita e esquerda e, quando não encontrou a porta de correr que levava à cozinha, resmungou um palavrão e começou a dar meia volta.
– Eu te disse que a cozinha não era por aí. – comentei apenas porque eu não ia perder a oportunidade de irritá-lo e, como eu já esperava, ele trincou os dentes e fechou a cara.
– Eu não pedi a sua... Ai! – exclamou ao bater o osso do quadril na borda de madeira de uma pequena estante que havia no corredor, onde repousava um belo arranjo de orquídeas.
– Ops! Não vá por aí. Tem um móvel no caminho. – eu ri, porque eu já estava ciente de que ele iria bater o quadril ali, mas apenas porque eu sou vingativo decidi não avisar antes de acontecer.
– Você é um idiota. – Louis reclamou e se desviou um passo para longe da estante, mas ao tatear o ar a sua frente à procura de qualquer outro empecilho que pudesse atrapalhar sua locomoção, ele acabou esbarrando sua mão no vaso de orquídeas e o derrubando no chão.
– Não! – eu gritei, com um segundo de atraso e, depois, levei uma das mãos ao rosto, desconsolado – Ai, merda. Merda. Merda. Merda.
– Porque você não me avisou que tinha um vaso aqui?!
– Porque eu não imaginei que você fosse derrubá-lo. – resmunguei e Louis deu outro passo para longe da estante, mas como ele estava descalço e havia cacos de vidro por todo corredor, temi que ele pudesse cortar os pés – Fique onde está. – ordenei – Eu vou buscar uma vassoura e uma pá para recolher esses cacos e volto em um instante. Não se mexa um milímetro até eu dizer que você pode.
– Até você me dizer que eu posso? – Louis começou a fazer birra, mas mandei que ele se calasse.
– Faça o que digo se não quiser cortar os pés. – avisei e saí do corredor.
Fui correndo ao segundo andar e entrei no quarto de Louis para pegar seus chinelos, depois, desci para área de serviço e peguei uma vassoura e uma pá. Quando voltei para o corredor, Louis ainda estava no mesmo lugar em que eu o tinha deixado, praticamente imóvel e com uma expressão meio perdida no rosto. Eu tentei não rir de sua expressão de cachorrinho sem dono, mas não fui tão bem-sucedido.
– Está rindo de quê? – Louis se voltou em minha direção, com sua expressão perdida sendo, rapidamente, substituída por uma mais zangada e eu me apressei em fazer meu serviço.
– Não estou rindo de nada. – pulei alguns cacos espalhados pelo chão e depositei seu chinelo bem diante de seus pés, antes de soltar a vassoura e a pá em um canto e me abaixar para ajudá-lo a se calçar.
Assim que minhas mãos tocaram sua perna direita, Louis se sobressaltou e tentou se afastar de mim, mas eu segurei seu tornozelo e o impedi de dar um só passo.
– Eu só quero te ajudar a calçar o chinelo. – expliquei – Tem muitos cacos pequenos aqui e não sei se vou conseguir recolher todos. Estou tentando evitar que você se corte.
Ele não respondeu nada, mas relaxou a perna e permitiu que eu o ajudasse a se calçar. Quando terminei, comecei a recolher os cacos maiores com a pá e quando achei que o corredor já estava parcialmente limpo, segurei Louis pelo braço e o guiei de volta à sala, sentando-o no sofá.
– Vou terminar de limpar o corredor e já volto. – avisei – Depois vou procurar alguma coisa para você comer.
Louis apenas balançou a cabeça, concordando.
Eu demorei mais uns cinco minutos limpando o piso do corredor, antes de achar que ele estava suficientemente seguro para alguém caminhar descalço por ali. Tirei meu próprio chinelo e passei a sola de uns dos pés pelos cantos, só para ter certeza de que nenhum caco tinha sobrado e, então, levei a vassoura e a pá de volta a área de serviço e me livrei do lixo com os cacos, tomando o cuidado de embalá-lo para que nenhum gari se cortasse com as arestas proeminentes.
Quando voltei para a sala, Louis tinha tornado a retirar seus chinelos e estava deitado no sofá, com a cabeça apoiada nas almofadas atrás de si, exatamente como eu estava minutos antes, enquanto assistia Hart Of Dixie.
– Está acordado? – dei um leve tapinha em sua perna, só para ter certeza, pois com aqueles óculos escuros eu não conseguia ver se ele estava de olhos abertos ou não.
– Estou, sim. – ele se remexeu no sofá e se sentou, tateando o chão até encontrar os chinelos e calçá-los.
– Venha. Vamos até a cozinha. – segurei em seu antebraço e o ajudei a ficar de pé – Sua mãe não deixou nenhuma comida pronta, mas tem muita comida congelada e, caso você não goste disso, eu posso tentar preparar alguma coisa. Não cozinho tão mal.
– Comida congelada está bom. – Louis respondeu sem delongas e eu achei assustadoramente esquisito que ele não estivesse brigando e reclamando comigo como sempre estava.
– Você está bem?
– Estou ótimo.
– Tem certeza? – insisti e ele fechou a cara para mim.
– Vá para o inferno, Harry.
Okay. Agora eu sabia que ele estava bem e que ainda era o mesmo Louis mal-humorado e chato que eu tinha conhecido três dias antes.
Na cozinha, preparei uma das lasanhas de frango com queijo que havia na geladeira para Louis e peguei uma latinha de refrigerante para mim e outra para ele. Louis devia estar mesmo com fome, pois comeu tudo rapidamente e acabou com seu refrigerante antes mesmo que eu tivesse chegado à metade do meu.
Recolhi o restante da embalagem da lasanha e a latinha de refrigerante dele e as atirei no lixo da cozinha, com um sorriso satisfeito nos lábios.
– Viu só? A nossa relação não é tão difícil quando você me escuta e não fica dando uma de... Louis! – exclamei quando percebi que ele estava me virando as costas e saindo da cozinha – Eu estou tentando conversar com você, caramba. Aonde você está indo?
– Para o meu quarto.
– Agora?! Mas você acabou de sair de lá.
Ele deu de ombros.
– É. E talvez eu saia de novo quando voltar a ficar com fome, mas, até lá, estarei em minha cama, naquele lugar super legal chamado meu quarto, onde você ainda não pode entrar porque não é bem-vindo. – ele riu e saiu tateando o ar a sua frente para conseguir chegar novamente à sala e eu fiz o que pude para resistir a vontade de correr atrás dele e lhe dar uma rasteira.
Aliás, talvez eu estivesse sendo muito otimista, mas o fato de que Louis havia usado a palavra “ainda” para se referir a regra que ele havia imposto de que eu não podia entrar em seu quarto, me deu um pouquinho de esperança. Quero dizer, se ele disse “ainda”, então, isso significava que essa situação poderia mudar futuramente, não é?
No mesmo instante em que esse pensamento tomou conta da minha cabeça eu quis me dar um soco na cara. Francamente, o cara era um pé no saco, me tratava como se eu fosse um inconveniente que ele estava sendo obrigado a aturar – quando, na verdade, era exatamente o oposto –, passava a maior parte do tempo me xingando ou gritando comigo e, ao invés de eu estar sonhando com dezenas de formas lentas e dolorosas de mata-lo, eu estava sonhando com o momento em que ele me deixaria entrar em seu quarto. O que havia de errado comigo?
– Harry? – a voz de Louis ressoou de algum lugar da sala e eu demorei cerca de três segundos para decidir se eu começava a ignorá-lo de novo ou se esquecia sua falta de educação e ia até lá ver o que ele queria, afinal tinha sido para isso que sua mãe me contratara. Meu lado profissional falou mais alto, é claro.
– O que foi? – questionei, enquanto atravessava a porta de correr que unia a cozinha à sala de estar.
– Preciso que me ajude a subir as escadas. – Louis me pediu e acho que ele teve que tirar tudo de si para me falar isso, pois era óbvio que se desfazer de seu orgulho para me pedir ajuda quase lhe causava uma dor física.
Revirei os olhos e, com um suspiro de derrota, caminhei até ele e lhe estendi o braço, agarrando o seu próprio para uni-lo ao meu.
– Estou pagando todos os meus pecados com você. – comentei mal humorado, enquanto o guiava escada acima.
– Eu não sou tão ruim.
– Diga isso a todos os enfermeiros que te conheceram. – retruquei – Nenhum deles quis voltar aqui.
– Você voltou.
– Eu não sou enfermeiro.
Louis deu de ombros.
– Isso não vem ao caso. O que importa é que você voltou.
– Só voltei porque eu precisava do dinheiro.
– Que seja. Mas você voltou. – Louis disse com propriedade – E isso significa que eu não sou tão ruim, porque se eu fosse, dois mil e setecentos dólares não valeriam todo o sacrifício.
– Eu ainda estou pensando se valem. – resmunguei, mas Louis riu.
– Valem sim. – ele disse assim que alcançamos o topo da escada – São dois mil e setecentos dólares, afinal de contas. Você não conseguiria toda essa quantia, em quinze dias, nem se trabalhasse como striper.
Por mais ridículo que possa parecer me senti ofendido com seu comentário.
– Olha aqui, se eu fosse um stiper conseguiria muito mais que isso, tá bom?! – retruquei irritado – Eu sou um cara bastante atraente.
– Eu não vi nada de atraente em você. – Louis riu e eu quase lhe dei uma resposta maldosa, mas consegui controlá-la um segundo antes que ela escapasse por meus lábios e, foi nesse momento, também, que percebi que ele estava fazendo uma piada.
Aquilo foi bem esquisito. Quem diria que Louis Tomlinson, o garoto que já tinha dito mais de uma vez que não me queria ali, estaria agora brincando comigo ao invés de me xingando.
– O seu humor é uma coisa de outro mundo.
– O meu humor é ótimo. – ele respondeu cheio de si – Mas é só para quem o merece.
– E agora eu o mereço?
Louis bufou de maneira divertida.
– Não se ache demais, Harry. – ele deu dois tapinhas no meu braço e, depois, se afastou – Você ainda é um idiota. Eu apenas estou sem muitas opções de companhia no momento. Não é como se eu gostasse de você.
Então, ele se apoiou na parede e seguiu, tateando, até o seu quarto, deixando-me para trás com uma imensa vontade de atirá-lo escada abaixo, algo que não me abandonou até que eu cheguei a sala e me joguei, novamente, no sofá.
“Dois mil e setecentos dólares”, eu disse a mim mesmo “São dois mil e setecentos dólares!”. Então, eu respirei fundo e voltei a assistir TV.
Aqueles seriam os quinze dias mais longos da minha vida.
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