Gotta Be You - EM HIATUS
8 Can I Touch You?
Notas iniciais
[Harry P.O.V.]
Eu estava na cozinha, terminando de preparar o café da manhã, quando ouvi o barulho estrondoso do corpo de Louis batendo contra o chão da sala. Rapidamente, larguei o que estava fazendo e corri para ajudá-lo, mas não consegui chegar a tempo de impedi-lo de derrubar a mesinha de centro e quebrar quase todos os enfeites que havia sobre ela.
– Louis! – gritei enquanto tentava me aproximar dele que estava jogado no chão, se debatendo como se seu corpo estivesse em chamas – Louis, sou eu. O Harry. Está me ouvindo? Por favor, se acalma.
Como não obtive qualquer resposta por parte dele, me joguei no chão e tentei segurá-lo, mas essa não foi uma tarefa fácil. Louis estava muito agitado e eu tive que usar toda a minha força para contê-lo, mas, por fim, consegui prendê-lo sob o meu corpo e segurar seus pulsos acima de sua cabeça.
– Louis! – eu o chamei de novo e, dessa vez, ele finalmente parou de se debater e pareceu começar a me ouvir – Louis, está tudo bem, ok? Sou eu, o Harry. Está tudo bem, cara.
– Harry? – ele perguntou como se não tivesse muita certeza de que era realmente eu quem o estava segurando e eu pude ouvir o pavor estampado em sua voz.
Ele parecia verdadeiramente assustado, tanto que estava suando frio e seus olhos azuis estavam arregalados de medo. Aliás, aquela era a primeira vez que eu o via sem os óculos escuros e, a visão de seus olhos, ainda que assustados, quase me deixou sem fôlego. Eu sempre ouvi as pessoas dizerem que os olhos de um cego, muitas vezes, poderiam parecer incômodos para quem os via, pelo fato de eles olharem fixamente para um único lugar e, às vezes, possuírem alguma deformidade, mas os olhos de Louis eram lindos. Ele possuía os mais belos e encantadores olhos azuis que eu já tinha visto e, de fato, ficava encarando o meu rosto daquela maneira fixa, mas se eu já não soubesse que ele era cego, teria achado que aquilo acontecia, simplesmente, porque ele não conseguia parar de olhar para mim. Grande ilusão, eu sei, mas as pessoas podiam sonhar, não podiam?
De qualquer forma, finalmente consegui reencontrar a minha voz e respondi:
– Sim, Louis, sou eu. Você está bem?
Ele respirou fundo e umedeceu os lábios, como se estivesse procurando pelas palavras certas.
– Eu tive... Tive um pesadelo. – explicou – Achei que eu estava morrendo.
– Você não está. – eu assegurei – Está tudo bem, Louis. Você apenas caiu do sofá.
– Eu quebrei... Quebrei alguma coisa? Pensei ter ouvido algo caindo no chão.
Olhei para a mesinha de centro tombada no meio da sala e para os enfeites que jaziam, aos pedaços, ao seu redor e suspirei.
– Nada que não possa ser concertado ou comprado de novo. – respondi – Pode ficar tranquilo.
Louis assentiu e nós passamos cerca de trinta segundos imersos em um completo silêncio. Por causa de nossa proximidade, eu podia sentir o calor de sua respiração em meu pescoço toda vez que ele expirava e podia sentir a musculatura de seu peito se chocando contra o meu toda vez ele inspirava. Louis cheirava a primavera, algo entre um jardim de jasmim amarelo e o cheiro cítrico característico de algumas flores silvestres. Era um cheiro agradável e envolvente e, de fato, eu me perdi nele até que a voz de Louis me trouxe de volta a realidade.
– Harry? – ele me chamou em um tom suave e sereno que me envolveu quase tanto quanto o seu perfume.
– O que?
– Será que você pode sair de cima de mim agora? – ele exigiu e, rapidamente, aquele feitiço ao qual eu estava preso se desfez.
Levantei-me de um salto, corando mais que um pimentão de tanto constrangimento e estendi minha mão para ajudá-lo a se levantar também, mas logo me lembrei de que Louis não podia vê-la, então, me inclinei e o segurei pela mão para ajudá-lo a ficar de pé.
– Valeu. – ele finalmente me agradeceu por alguma coisa, algo que nunca tinha acontecido desde que nós havíamos nos conhecido e, contente com aquela pequena vitória, eu me permiti abrir um largo sorriso para ele e, então, olhei para a cozinha.
– Acabei de fazer o café da manhã. – comuniquei – Tem ovos, bacon e, caso você não queira nada disso, tem uma caixa de biscoitos no armário e um pouco de leite.
– Tudo bem.
– Quer que eu te ajude a voltar para o seu quarto para que você possa escovar os dentes?
– Quero.
– Você está bem? – eu me atrevi a perguntar mesmo sabendo que correria o risco de ser xingado como da última vez em que fiz tal pergunta.
– Estou ótimo, Harry. Só não estou totalmente acordado ainda. – Louis respondeu, meio a contragosto, mas não completamente mal humorado como sempre agia.
Era bem esquisito não tê-lo gritando comigo ou me xingando e isso até me fazia pensar que ele podia estar doente ou algo do tipo, mas preferi não fazer comentários a respeito. Era sempre melhor não despertar uma fera que estava adormecida.
Ajudei Louis a subir as escadas e a chegar ao seu quarto e, depois que ele se trancou no banheiro para escovar os dentes e tomar um banho, eu desci novamente para a cozinha, terminei de fazer o suco de laranja que eu estava preparando e, então, coloquei seu café da manhã e o meu em uma bandeja e voltei para o segundo andar.
Fiz questão de bater à porta do quarto de Louis, dessa vez, pois não queria correr o risco de entrar ali sem ser convidado e acabar por vê-lo nu como acontecera antes. Esperei, pacientemente, por sua autorização e, quando finalmente a recebi, entrei e depositei a bandeja sobre a estante que havia no canto contrário ao de sua cama.
Louis já estava devidamente vestido com uma calça preta e uma camiseta regata, mas ainda estava descalço e com os cabelos molhados e meio alvoroçados e, por mais que eu não quisesse admitir, aquele visual combinava muito bem com ele.
– Eu trouxe o café da manhã. – anunciei – Ovos, bacon, suco de laranja e os biscoitos que mencionei antes. O que você prefere?
– De quê são os biscoitos? – ele perguntou, tateando o espaço a sua frente até alcançar a escrivaninha ao lado de sua cama.
Peguei o pacote de biscoitos e dei uma olhada nas informações do rótulo.
– Aveia com castanhas e mel.
– Então, eu quero os biscoitos. – ele respondeu e depois franziu a testa – Você viu os meus óculos? Não consigo achá-los.
– Estão lá na sala. Você estava com eles ontem quando adormeceu e eu os tirei do seu rosto para que você não os quebrasse ou se amachucasse.
– Pode buscá-los para mim?
Eu o encarei por um instante. Ele ficava tão bonito sem óculos, não tinha porque usá-los dentro de casa. Na rua eu até entendia sua necessidade, já que muita gente poderia se incomodar com seu olhar fixo, mas aqui dentro... Não tinha porque ficar o dia inteiro com aqueles óculos escuros.
– Eles não te incomodam? – questionei – Me parece desconfortável ficar com eles no rosto o tempo todo. Talvez você queira deixá-los de lado hoje. Não precisa usá-los o tempo inteiro.
– Não gosto de ficar sem eles.
– Por quê?
– Porque é esquisito quando eu não uso.
– Esquisito para você ou para outras pessoas?
– Esquisito para todo mundo! – Louis esbravejou, voltando a adotar sua postura defensiva e mal humorada de sempre – Ninguém gosta de olhar para mim quando estou sem eles.
– Eu gosto. – retruquei e vi sua expressão raivosa rapidamente se transformar em uma expressão de completa surpresa.
– Você o quê?
– Eu disse que eu gosto de te ver sem os óculos. – repeti – Você tem olhos muito bonitos, Louis. Mais bonitos que os de muita gente por aí. Não deveria ter vergonha deles.
– Eu não tenho.
– Então porque nunca tira os óculos, nem mesmo dentro de casa onde pode relaxar?
Louis não respondeu a minha pergunta, mas eu vi seus lábios se apertarem em uma linha fina, numa indicação clara de que ele estava incomodado com o assunto, então, decidi encerrar aquela discussão ali, antes que ela evoluísse para uma briga louca como a que havia acontecido na garagem na noite anterior.
Peguei o copo de suco de laranja que eu havia levado para ele, juntamente com o pacote de biscoitos de aveia e mel e os levei até sua escrivaninha.
– Vou deixar seu suco e os biscoitos aqui. – avisei, segurando a mão dele e colocando-a bem perto do copo para que ele soubesse onde estava – Você pode comer enquanto eu desço e pego os seus óculos. Eu volto em um instante. – então, saí do quarto e fui a até a sala fazer o que disse que faria.
Os óculos de Louis estavam na estante, ao lado do home teather, exatamente onde eu os tinha colocado antes de dormir. Peguei-os e dei mais uma olhada na bagunça de cacos que havia no centro da sala e lembrei a mim mesmo que, além de limpar toda aquela bagunça depois do café, eu teria que tirar um dia da semana para ir com Louis a uma boa loja de decoração no shopping para comprar enfeites novos para mesa e, também, um vaso de cristal para substituir aquele que Louis havia quebrado em sua aventura para encontrar a cozinha. Eu só esperava que a senhora Tomlinson não fosse descontar esses gastos do restante de meu salário, afinal, tinha sido Louis quem havia quebrado tudo e, não, eu.
Voltei para o quarto e encontrei Louis, sentado em sua cama, devorando seu pacote de biscoitos e o copo de suco. Depositei seus óculos sobre a escrivaninha e me sentei no chão, no canto do quarto, para comer minha porção de ovos com bacon. Não consegui consumir nem a metade dela, pois era um café da manhã muito pesado para mim e fiz uma anotação mental de evitar ovos e bacon no café da manhã, a menos que Louis optasse por comer aquilo. Acho que eu poderia substituir aquela comida por uma bela salada com iogurte natural e um chá verde. Ficaria maravilhoso.
– Harry? – Louis me chamou e eu desviei os olhos do prato a minha frente para ele.
– O que foi?
– Eu posso te ver?
Por um instante fiquei sem saber se eu tinha escutado direito, afinal, aquela frase vinda de Louis, que era completamente cego, não fazia o menor sentido, mas conforme os segundos passavam e ele continuava esperando por uma resposta minha, eu tive que desistir de minha investigação mental e pedir que ele repetisse a pergunta para que eu tivesse certeza de que tinha escutado corretamente.
– Eu perguntei se eu posso te ver. – ele repetiu e mesmo tendo escutado a pergunta duas vezes, ela continuou não fazendo sentido para mim.
– Você quer me ver? – eu questionei franzindo a testa em completa confusão – O que quer dizer com isso, Louis? Como você conseguiria me ver se você é... Bem...
– Cego? – ele inquiriu, mas não havia um tom de acusação em sua voz.
– Bem... É. – dei de ombros – Como isso seria possível?
Louis depositou o copo de suco vazio e o pacote de biscoitos pela metade de volta em sua escrivaninha, bem ao lado de seus óculos e se levantou da cama.
– Vem aqui. – ele solicitou e eu permaneci imóvel por um instante, antes de me dar por vencido e me levantar, guardando o restante de meu café da manhã não devorado de volta na bandeja e caminhando lentamente até onde Louis estava.
– Muito bem. Estou aqui. E agora?
– Chegue mais perto.
– Eu já estou perto.
– Não está perto o suficiente. Eu não consigo tocar em você a essa distância, Harry.
– E para quê você quer me tocar? – eu o encarei alarmado – Não é para me bater, é? Isso seria um golpe muito baixo até mesmo para você.
– Como assim “até mesmo para mim”?
– Você sabe. Você está sempre me agredindo de alguma forma. Das últimas vezes que cheguei perto de mais você me deu um tapa na mão e jogou um copo de vitamina de banana em cima de mim.
Louis sorriu.
– Aquilo foi bem divertido, embora não tenha sido proposital. Eu não sabia que você estava segurando aquele copo.
– Então, meu rapaz, eu gostaria de ter um pouco do seu senso de direção porque sua mira foi certeira. Eu gastei um tempão no chuveiro, depois, para poder tirar toda aquela vitamina do meu cabelo.
– Aposto que não passou tanto tempo quanto eu. Você me ferrou completamente naquele dia.
– Bem, você me deixou irritado. Eu tinha que me vingar, não é?
– Tá. Que seja. – Louis encerrou o assunto – Agora, chegue um pouco mais perto, Harry. Eu não vou te bater. Prometo.
Ainda hesitante, dei mais dois passos na direção dele, aproximando-me até que eu podia olhá-lo de cima e que meu queixo praticamente roçava em seu nariz.
– Eu estou perto. – sussurrei e, na verdade, eu nem sei por que fiz isso. Não me pergunte.
– Eu vou tocar em você. – Louis avisou, erguendo as duas mãos até alcançar o topo de minha cabeça – É assim que as pessoas como eu veem as coisas. Nós as sentimos.
Eu nem respondi. Nem mesmo sacudi minha cabeça para mostrar que eu havia entendido ou que concordava com seus métodos. Só fiquei ali, parado, encarando seus olhos azuis estáticos, pois estava muito concentrado em não hiperventilar. De um segundo para o outro foi como se todo o oxigênio tivesse sido sugado para fora daquele quarto, mas eu tentei me manter calmo e não tremer ou me arrepiar enquanto Louis tocava em mim.
Para Niall e para um pequeno grupo de pessoas, formado por meus amigos mais próximos e alguns familiares, não era nenhum segredo que eu nutria uma atração por garotos desde os meus quatorze anos, porém, fora desse círculo, ninguém mais sabia nada a respeito de minha orientação sexual. Quer dizer, algumas vezes, eu achava que as pessoas olhavam para mim e já desconfiavam, mas eu mesmo nunca saí por aí gritando aos quatro ventos que eu era gay ou coisa parecida. Essa era uma informação que eu compartilhava apenas com as pessoas mais próximas, afinal, ninguém tinha nada a ver com minha vida, mas, em momentos como esse, era um pouco difícil não deixar transparecer os meus desejos e emoções.
Fechei os olhos e prendi a respiração enquanto os dedos de Louis passeavam lentamente por meu cabelo. Eu havia feito um coque nele esta manhã, para que pudesse preparar o café sem me preocupar com algum fio escapando e Louis parou justamente aí.
– Seu cabelo é longo? – ele perguntou apalpando o coque em meu cabelo com suavidade.
– É mediano. – respondi e levei uma das mãos ao elástico com qual o havia prendido de manhã, soltando-o e deixando que meus fios ondulados caíssem como uma cascata dos dois lados de meu rosto.
Louis deslizou os dedos por todo o seu cumprimento, passando depois para o meu rosto, onde delineou minhas sobrancelhas, olhos, nariz, lábios e por fim o queixo, seguindo pela curva de meu maxilar.
– Você é bonito. – disse ele quando alcançou minhas orelhas – Pena que tem orelhas tão grandes quanto as orelhas do Pernalonga.
Eu abri os olhos no mesmo instante.
– Minhas orelhas não são grandes! – rosnei, indignado com o comentário, mas isso só fez Louis rir.
– Eu estava brincando, Harry. Suas orelhas são normais, mas seu cabelo é bonito. Só não o deixe ficar grande demais ou vai ficar parecendo um daqueles cantores de rock dos anos 80. Não acho que isso iria combinar com você.
– Eu também não acho.
– Que bom que concordamos. – Louis soltou minhas orelhas e pousou as mãos em meus ombros – Achei que você fosse um pouco menor também.
– Já fui algum dia. – eu ri e ele finalmente se afastou e voltou a se sentar na cama.
– De que cor são os seus olhos?
– Verdes. Às vezes ficam um pouco azulados dependendo da luz do sol. Já terminou de comer?
Louis assentiu e eu recolhi o restante de seu pacote de biscoitos e seu copo de suco vazio e os levei até a bandeja.
– Você tem alguma tatuagem?
– Tenho cinquenta e três. Por enquanto. – acrescentei porque a minha pele era como o meu próprio caderno de desenhos. Sempre que surgia a inspiração eu adicionava uma nova tatuagem a ela e cada um dos meus desenhos, frases e siglas me definiam de alguma forma.
– Eu tenho dezoito. – Louis comentou, parecendo chocado e admirado, ao mesmo tempo, pela quantidade de tatuagens que eu tinha – Até agora. – ele também acrescentou com um quê de diversão.
Eu sorri.
– Quem sabe, um dia, você queira mostrá-las para mim.
– E, quem sabe, um dia eu possa ver as suas também. – ele retrucou.
– Quem sabe. – eu concordei e recolhi a bandeja de cima da estante, saindo de seu quarto em seguida.
Se aquilo seria possível ou não, eu não sabia, mas eu ainda não tinha perdido a capacidade de acreditar em milagres. Aliás, eu também não tinha deixado de reparar que Louis não havia recolocado seus óculos escuros.
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