Gotta Be You - EM HIATUS
2 A Male Version Of Mary Poppins
Notas iniciais
Tempos Atuais
[Harry P.O.V.]
– Você está demitido! – o Sr. Johnson gritou pela segunda vez como se eu, os clientes e, até mesmo, os transeuntes da calçada, não tivéssemos escutado da primeira – Nunca tive um funcionário tão incompetente. Olha quanto prejuízo você me causou! – ele apontou para o piso ao redor, onde estávamos praticamente chafurdados em sorvete de baunilha – Pegue as suas coisas e se mande daqui.
– Mas, Sr. Johnson, eu...
– Não tem “mas”. – ele refutou, irritado – Pegue as suas coisas e saia agora mesmo do meu estabelecimento. Vou descontar cada centavo desse prejuízo do seu salário, Styles.
– Mas eu ainda nem fui contratado. – protestei, tirando o colete de trainee que estava usando e tentando não escorregar naquela bagunça enquanto me afastava dele – Eu comecei a trabalhar aqui hoje.
– Saia da minha sorveteria! – ele gritou parecendo ainda mais irritado por eu ter esclarecido as coisas – E não se atreva a voltar, se não quiser que eu chame a polícia!
Praticamente escorraçado, depositei o colete de trainee sobre o balcão e corri para fora da sorveteria, derrapando um pouco na curva perto da porta por causa do sorvete que ainda estava grudado em minhas botas.
Aquilo tudo era muito injusto. Eu não tinha culpa se a máquina de sorvete tinha decidido dar problema justamente naquela hora e decidido espirrar sorvete de baunilha para todos os lados. Quando me ofereceram a vaga de balconista só disseram que eu teria de fazer os pedidos e entregá-los aos clientes. Ninguém me falou nada sobre ter que lidar com uma máquina de sorvete possuída pelo diabo. Se eu soubesse que precisaria fazer isso, teria passado antes em uma igreja e pegado um pouco de água benta com o padre, ora essa. A culpa não era minha!
Entrei em meu antigo Toyota Camry e rumei para longe dali, fazendo os pneus cantarem no asfalto e a suspensão do carro ranger um pouco por causa do esforço. Eu mal podia acreditar que, mais uma vez, voltaria para casa sem um emprego. Niall com certeza riria da minha cara quando eu contasse para ele o que havia acontecido na sorveteria, mas eu queria ver se ele continuaria rindo quando eu não pudesse pagar a minha parte do aluguel e das contas no fim do mês e nós fossemos despejados.
Irritado, estacionei o carro perto de um parque e me inclinei para pegar o jornal e a caneta vermelha que eu havia guardado no porta-luvas. A parte dos classificados estava praticamente coberta por xis vermelhos e eu não sabia mais o que ia fazer. Na última semana eu tinha perdido cada segundo do meu tempo procurando emprego, mas meus esforços não poderiam ter sido mais inúteis.
Comecei procurando por empregos que se encaixassem na minha área de atuação, mas não encontrei muitos e, os que encontrei, já não tinham mais vagas disponíveis. Então, passei para os empregos aleatórios: caixa de supercardo, vendedor em uma loja no shopping, office boy, auxiliar de biblioteca... Eu tentei até levar cachorros para passear, mas em matéria de erro, esse foi o pior.
Minha última tentativa tinha sido na sorveteria da qual eu acabara de ser expulso e, agora, minhas opções estavam muito limitadas.
Tinha o trabalho na construção civil – algo para o qual eu não tinha a mínima experiência ou talento –, o trabalho como garçonete – para o qual eu não podia me candidatar porque eu não era uma garota – e, por último, tinha o trabalho como salva-vidas, mas eles exigiam curso técnico de enfermagem e o mais perto que eu já tinha chegado disso tinha sido nas aulas de primeiros socorros ministradas no colegial. Em resumo: eu estava ferrado.
Larguei o jornal em meu colo e recostei minha cabeça no volante, completamente desolado e foi então que, lá no rodapé da página, praticamente invisível em meio a tantos rabiscos vermelhos no papel, eu encontrei a minha última oportunidade.
Levantei minha cabeça rapidamente e ergui o jornal até a altura de meus olhos para poder enxergar melhor o anúncio.
Ele falava sobre uma vaga para ser babá de um garoto de doze anos durante quinze dias, em tempo integral. Não havia especificação de gênero, nem de idade ou sequer pedia experiência na área de pedagogia, além de oferecer uma quantia bastante atrativa de dinheiro por aqueles quinze dias de trabalho, então, eu não via porque não tentar.
Ser babá era a última coisa que passava por minha cabeça quando eu pensava em trabalho, mas com a universidade de férias e minhas monitorias de música temporariamente suspensas, eu precisava de um emprego temporário para pagar as contas e já que nenhuma das tentativas anteriores havia dado certo, então, esta teria que servir.
Dei uma última olhada no endereço citado no anúncio, joguei o jornal em cima do banco do passageiro e rumei para aquela que parecia ser a minha última chance de encontrar um trabalho neste verão. Eu só esperava que a vaga ainda estivesse disponível e que o garoto de quem eu teria que cuidar não fosse uma peste. Eu amava crianças, mas demônios mirins não eram a minha especialidade.
Cerca de vinte minutos mais tarde, cheguei a um bairro bem organizado e repleto de mansões imponentes, com gramados verdes bem cuidados. Acho que eu nem sabia que existia casas tão grandes assim em Doncaster, mas agora que eu estava ali era fácil entender porque a quantia oferecida no anúncio ficava bem acima da média do que uma babá recebia pelo mesmo período.
Verifiquei mais uma vez o endereço citado no jornal e, depois de ter certeza de que estava mesmo no lugar certo, estacionei o carro e desci.
– Eu consigo. – repeti para mim mesmo enquanto seguia até o portão da bela mansão que se erguia, imponente, diante de mim – Posso fazer isso. Sei que posso. Sem problemas.
Respirei fundo, ajeitei minha camiseta preta, já desbotada, da melhor forma que pude e apertei o interfone, esperando apreensivo por uma resposta. Uma voz feminina, ensaiada e comedida, que presumi ser de uma das empregadas da casa, ressoou pelo interfone segundos depois.
– Residência dos Tomlinson. Em que posso ajudar?
– Err... Oi. – comecei de forma nervosa – Meu nome é Harry. Harry Styles. Estou aqui por causa do anúncio do jornal.
Houve um longo momento de silêncio em que quase cedi à minha antiga mania de roer as unhas e, então, o portão automático da casa começou a se abrir, pegando-me de surpresa.
– Entre, Sr. Styles. – a mulher voltou a falar através do interfone – Eu irei recebê-lo no hall de entrada em um minuto.
– Okay. Obrigada. – agradeci, mas a mulher já havia desligado, então voltei rapidamente para meu carro e dirigi até o interior da propriedade, seguindo uma pequena estrada de paralelepípedos brancos que serpenteava por entre a grama de um jardim bem cuidado.
Quando estacionei em frente a casa, a mulher já me aguardava, parada no último degrau de uma escadaria que levava a porta de entrada. Ela possuía cabelos negros que estavam presos em um coque firme e trajava um terninho escuro com um par de sapatos de couro lustrosos que, imediatamente, me deixaram constrangido por causa de minhas botas ainda sujas de sorvete de baunilha. Ainda assim, me forcei a engolir a vergonha e saí de meu Camry, seguindo apressadamente até ela.
Como eu já esperava, o olhar da mulher vagou por meu cabelo um tanto desgrenhado pela correria do dia, passou por minha camiseta preta e calça jeans com rasgos e parou em minhas botas sujas, por um breve instante, antes de voltar ao meu rosto.
– É um prazer conhecê-lo, Sr. Styles. – ela abriu um sorriso educado e me estendeu a mão – Meu nome é Marie Anne Hoffman, sou a governanta da casa.
– O prazer é todo meu. – apertei a mão dela, vacilante.
– A Sra. Tomlinson está esperando por você em seu escritório – Marie Anne indicou a porta atrás de si com um leve aceno – Vou leva-lo até ela.
– Ah, sim. Claro. – assenti e ela deu meia volta, olhando brevemente para minhas botas imundas, antes de me guiar para dentro da casa.
Nós andamos rápido, quase como se Marie Anne tivesse um horário a cumprir e eu fiz o possível para acompanhar seus passos, enquanto tentava não me distrair com o tamanho e com a beleza da casa. Quando, enfim, chegamos a uma grande porta de madeira no final de um dos corredores, Marie Anne parou e bateu duas vezes na porta, antes de abrir uma pequena fresta dela e colocar metade do corpo lá dentro.
– O Sr. Styles está aqui para vê-la.
– Oh. Obrigada, Marie Anne. Deixe-o entrar. – respondeu uma voz suave e melodiosa e, rapidamente, Marie Anne terminou de abrir a porta e fez sinal para que eu entrasse.
Não sei se eu estava mais nervoso por estar em uma casa como aquela – prestes a falar com uma mulher que eu sabia que podia comprar o meu apartamento com Niall e eu dentro dele –, ou se era apenas porque aquela era minha última chance de conseguir um emprego naquele verão, mas quando caminhei para dentro do escritório da Sra. Tomlinson, fiz isso com tanta cautela que era quase como se eu estivesse indo para a forca.
A mulher que encontrei dentro da sala, entretanto, me fez sentir um pouco mais calmo e menos ameaçado ao receber-me com um sorriso gentil e um caloroso aperto de mão.
– Sr. Styles. Muito prazer. – ela me cumprimentou com sua voz suave e calma – Eu sou a Dra. Johannah Tomlinson, dona da casa.
– Harry Styles. – me apresentei embora, muito provavelmente, ela já soubesse o meu nome – O prazer é todo meu Dra. Tomlinson.
– Estou honrada por tê-lo em minha residência hoje. – ela soltou minha mão e me indicou uma cadeira em frente a sua mesa, na qual me sentei rapidamente – Sei que você, provavelmente, deve ter outros lugares para ir ou outras coisas que requeiram a sua atenção, então, tentarei ser breve nesta entrevista.
– Sim. Claro. – concordei, mas na verdade eu não tinha qualquer outro lugar para ir, além de meu pequeno apartamento bagunçado.
– O senhor é um pouco mais jovem que os outros candidatos que passaram por minha casa na última semana. – ela comentou solícita – Posso saber quantos anos tem?
– Tenho vinte e um, senhora.
– Oh. Vinte e um? – ela se surpreendeu – É bastante jovem, realmente. Está cursando a universidade?
– Sim. – respondi prontamente – Estou no terceiro semestre de música.
– Música? – ela franziu o cenho e eu não soube exatamente o que esperar daquela reação – Bem, isso é... de fato interessante. Os outros candidatos eram todos da área de enfermagem. O que o fez se interessar por este trabalho?
– Bem, em primeiro lugar, eu sou muito bom com crianças. – expliquei, esfregando as mãos uma na outra, sentindo-me um pouco nervoso – Não tenho nenhuma experiência profissional na área, mas eu tenho uma irmã mais velha e ela é formada em Ciência da Educação, sabe? Eu aprendi muito sobre crianças com ela, então, eu posso dizer que...
– Espere um instante. – A Dra. Tomlinson me interrompeu, fitando-me com uma expressão completamente confusa – Você disse que é muito bom com crianças?
– Sim. Quero dizer, não que o seu filho seja exatamente uma criança. Ele tem doze anos, então, é praticamente um adolescente, mas eu consigo trabalhar bem com adolescentes também. A senhora vai ver. Vamos nos dar muito bem nesses quinze dias.
– Sr. Styles. – a Dra. Tomlinson ergueu as palmas das mãos para mim como se pedisse um tempo – Creio há um equívoco aqui. Meu filho, Louis, não tem doze anos. Acho que o senhor ainda está com o anúncio antigo.
– Anúncio antigo? – dessa vez fui quem franzi o cenho e a Dra. Tomlinson logo se apressou a explicar.
– O responsável por redigir o meu anúncio para o jornal cometeu um erro ao digitar a idade do Louis. – ela abriu uma gaveta e retirou de lá um jornal com data de publicação mais recente que o meu e o colocou sobre a mesa – Ele escreveu que o Louis tem doze anos, mas, na verdade, o meu filho tem vinte e três. Quase vinte e quatro.
– Quase vinte e quatro? – eu arregalei os olhos, mas depois achei que essa não seria uma atitude muito louvável em uma entrevista de emprego, então, apenas assenti e peguei o jornal que ela havia colocado em cima da mesa para dar uma lida rápida na versão mais recente do anúncio – Entendo. – disse no tom mais calmo que consegui – Isso quer dizer que a senhora não precisa exatamente de uma babá para o Louis, não é?
– Não. Eu preciso mais de... alguém que seja especializado em casos como o dele. – ela explicou, parecendo pouco à vontade – Meu filho sofreu um acidente de carro há seis meses e perdeu a visão.
– Oh. – depositei o jornal sobre a mesa e cruzei minhas mãos sobre o colo – Eu sinto muito.
– Obrigada. – ela assentiu de maneira solene – A questão é que, desde o acidente, nós temos contado com a ajuda de Marie Anne para cuidarmos do Louis. Eu e meu marido somos médicos, neurocirurgiões para ser mais exata, então, nós passamos muito tempo em plantões no hospital e Marie Anne tem sido a nossa salvação nesses últimos meses. Ela tem cuidado das necessidades do Louis e o auxiliado, mas ela entrará em seu período de férias na próxima semana e, infelizmente, meu marido e eu fomos convidados para participar de um importante congresso de medicina, na Itália, nesse mesmo período, portanto, estamos precisando de alguém que possa cuidar do Louis durante os quinze dias em que estaremos fora.
– Entendi. – respondi com um quê de tristeza.
Eu precisava muito daquele emprego e seria horrível voltar de mãos vazias para casa mais uma vez, mas se a Dra. Tomlinson precisava de alguém que fosse especializado em cuidar de pessoas com deficiência visual, então eu não podia ajudar. Eu até já tinha feito algumas boas ações em casos assim, como ajudar um senhor cego a atravessar a rua ou a pegar o trem de volta para casa, mas eu não era nenhum especialista nesse assunto, principalmente em se tratando de uma pessoa cuja deficiência visual havia sido adquirida tão recentemente.
– Bem, então acho que eu já tomei muito do seu tempo. – disse já me levantando – Foi uma honra conhecê-la e agradeço pela gentileza, Dra. Tomlinson. Espero que encontre alguém qualificado.
– Sim. Muito obrigada. – ela apertou minha mão, em despedida e eu me encaminhei para fora do escritório, encontrando Marie Anne na porta, pronta para me guiar até a saída, mas mal chegamos a percorrer metade do corredor, quando a Dra. Tomlinson saiu de seu escritório e me chamou de volta – Poderíamos conversar um pouco mais? – ela pediu e, sem ter certeza do que aquilo significava, eu assenti e voltei para sua sala – Estive pensando se poderíamos chegar a um acordo, Sr. Styles.
– Que tipo de acordo? – perguntei confuso.
A Dra. Tomlinson mais uma vez se sentou em sua cadeira, fazendo sinal para que eu me sentasse também e, assim que o fiz, ela cruzou os dedos das mãos e se inclinou em sua cadeira.
– Tenho apenas três dias para encontrar um bom acompanhante para o meu filho e, até agora, as entrevistas não surtiram grandes resultados. – explicou – Apenas três pessoas se interessaram pela vaga depois que descobriram que o Louis possui deficiência visual e, dessas três, nenhuma retornou no dia seguinte. Meu filho é... uma pessoa difícil.
– O que quer dizer com difícil?
– Bem... Desde o acidente, Louis tem se recusado a interagir com outras pessoas. – ela respondeu sem jeito – Ele perdeu o primo no acidente e, depois disso, se tornou uma pessoa... Como posso dizer? Pouco receptiva a novas interações sociais.
– Ah. – foi tudo o que eu consegui dizer.
Apesar das palavras bonitas da Dra. Tomlinson, eu sabia que o que ela realmente queria dizer é que seu filho tinha se tornado uma pessoa rabugenta e de difícil convivência.
– Achei que isso melhoraria com o tempo, mas Louis está cada vez mais fechado, então, pensei que, talvez, alguém da faixa etária dele pudesse ser mais adequado a esse trabalho. Alguém que ele pudesse ver mais como um amigo que como um enfermeiro, entende?
– Está me dizendo que vai me dar o trabalho? – perguntei, sentindo um sorriso começar a se formar em meus lábios.
– Acho que nós podemos fazer uma experiência. – ela confirmou – Se não tiver nenhum outro compromisso marcado, vou pedir que Marie Anne te leve para conhecer o meu filho e, se vocês se entenderem, o emprego será seu.
– Sério? – eu quase pulei de minha cadeira – Isso seria maravilhoso, Dra. Tomlinson. Eu adoraria tentar.
– Ótimo. – ela se colocou de pé e sorriu – Espero que você e Louis se tornem grandes amigos. Vou pedir que Marie Anne o leve até o quarto dele.
– Tudo bem.
Me coloquei de pé, rapidamente, e acompanhei a Dra. Tomlinson para fora do escritório, onde ela pediu que Marie Anne me levasse até o quarto de seu filho, Louis, e que preparasse um lanche para nós.
Eu só precisava conviver durante algumas horas com aquele garoto para conseguir o emprego, então, eu estava disposto a ser a pessoa mais dócil e amigável que esse mundo já tinha visto. O mau humor de Louis Tomlinson jamais seria páreo para a minha força de vontade.
Bem... pelo menos foi isso que eu pensei, antes de subir as escadas e conhecer aquela peste.
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