Good Riddance

14 É melhor não resistir


Notas iniciais
Mais uma recomendação! AAAAAAAAAAHHH *surta, rodopia, pula na cama, esperneia* Ai, déls, realmente muito feliz aqui com todo o retorno! Obrigada à suzume sama pela alegria, até decidi postar mais cedo (também porque domingo vou precisar estudar bastante, haha)Músicas do capítulo:Que os Urguênses cantam pros fundaceiros: http://atleticaufrgs.tripod.com/fundete_cadela.mp3 (essa música pega pesado, HAHAHA)Que o Fafá canta pro Dré: http://letras.mus.br/jason-mraz/1998108/ e depois http://letras.mus.br/lulu-santos/47147/

André e Fabrício jogavam sinuca de dupla, contra Diogo e Henrique. Já era noite agora, e os outros convidados já haviam se retirado depois de passarem a tarde fazendo bagunça. A empregada teria bastante trabalho para colocar tudo no lugar no dia seguinte. A pobre alma, porém, já estava acostumada a arrumar bagunças piores, vide: as que Diogo fazia normalmente por toda a casa.

Um CD do Red Hot Chilli Pepers tocava como música ambiente, enquanto Gabi tirava um cochilo na poltrona próxima e Henrique dava várias dicas para os garotos, falando sobre oportunidades de pesquisa na faculdade, estudos no exterior, estágios ao longo do curso e até sobre as perspectivas do mercado de trabalho e residências médicas.

Os dois mais novos bebiam de todas suas palavras.

“... E pelo que eu saiba anestesio é o que mais dá dinheiro. Mas sinceramente, que chatice, né?” Brincou e piscou para os garotos, que sorriram de leve. “Eu recomendaria que vocês entrassem em alguma pesquisa, a UFRGS oferece várias oportunidades, e isso acrescenta bastante para o currículo de vocês pra prova de residência. Dependendo do que escolherem, a concorrência é absurda, muito mais difícil do que o vestibular.”

“É difícil ter uma ideia agora. Estamos tão no início...” André comentou enquanto passava giz na ponta do taco. Entrara no curso mais por tradição, do que por paixão. Mas esperava apaixonar-se pela medicina em algum momento da faculdade e achar o caminho que gostaria de seguir, pois seguir com os negócios do pai não era exatamente a ideia que mais lhe agradava.

A ideia de trabalhar com Heitor lhe dava arrepios, para ser mais sincero.

“Acho que quero cirurgia.” Fabrício cogitou, também pensativo, apoiado-se ao taco com o olhar sobre o tio, que se preparava para uma jogada.

“É muito cedo sim, vocês podem ter uma ideia agora, mas há grandes chances de isso mudar ao longo da faculdade, uma vez, duas, várias. O importante é que aproveitem bem esses seis anos, sejam curiosos, busquem sempre por mais. Ser médico é muito recompensador, não só financeiramente, mas também pessoalmente. Há um crescimento íntimo ao longo dessa profissão, que talvez não seja tão forte nos outros cursos. Conhecer pessoas, ajudá-las e receber delas um sorriso de agradecimento, um obrigado. Você cresce com elas. Nunca medicina será algo unilateral. Aprendizagem, ajuda, qualquer contato entre as pessoas é feito bilateralmente. Os pacientes também irão ensinar vocês, mostrar outras formas de ver o mundo, de compreender algo que para vocês não faz sentido agora, ou simplesmente não é importante. Essa profissão que vocês escolheram vão fazê-los pararem para pensar em vários momentos. Ver pessoas com problemas graves, passando por situações difíceis, mas que mesmo assim mantém um sorriso no rosto, a vontade de viver e vencer, por si e pelos outros... Isso não tem preço. Mesmo que às vezes seja difícil, desesperador, nos faça sentir impotentes... Em outros momentos as pequenas e grandes gratificações superam tudo. Vocês tem muito pela frente, então não deixem que o ânimo de ter vencido essa primeira luta, que é o vestibular, enfraquecer. Façam esse ânimo, essa vontade de fazer a diferença, aumentar, que irão longe e não irão se arrepender de ter escolhido esse caminho. Mesmo que os médicos reclamem, acreditem, é muito bom. A gente muda, cresce e aprende constantemente.” Henrique ditou tudo de uma forma que deixou os dois futuros médicos cheios de expectativa. O psiquiatra tinha o dom do discurso, pois o que falava, falava com paixão, e isso podia ser sentido na pele, e apreciado no olhar. André, principalmente, sentiu-se inspirado com tudo que o mais velho falara, pois entrara na faculdade por exigência dos pais, e agora, graças a Henrique, sentia mais vontade de continuar naquele curso, aprender, sentir essas sensações que ele relatara, inclusive com histórias bastante interessantes de sua vida profissional mais cedo.

“Isso foi demais. Até vou começar a estudar pra prova de anatomia na segunda-feira.” Fabrício falou, emocionado. André revirou os olhos.

“A prova é pra daqui um mês. Estude pra prova de biofísica dessa quarta, então.” Lembrou ao moreno, que parecia ter excluído essa informação da mente, já que esboçou uma expressão de surpresa e soltou ‘Baaah!’ num ar de ‘me fodi, não estudei nada até agora’.

“Isso tudo é muito lindo, mas também não hesitem, ou se envergonhem de largar essa vida difícil se sentirem que não tem o dom pra coisa.” Diogo os lembrou e finalmente fez sua jogada. O estalo do taco veio, e logo uma cena incrível se desenrolava na frente do olhar de todos: três bolinhas caindo em sequência na caçapa.

“Ah não é justo! Tu colocou algo nessa mesa pra te favorecer!” Fabrício reclamou, ultrajado por nunca ter conseguido uma jogada como aquela. Aliás, mal conseguia colocar uma bola na caçapa. Tinha de mudar isso depressa, ou sempre seria humilhado pelo tio.

“A única coisa que me favorece é meu talento.” Diogo replicou, pomposo, já procurando com o olhar a melhor jogada para sua próxima tacada.

“Se eu soubesse que o teu tio jogava tão bem, nem teria aceitado jogar...” André murmurou para Fafá. Odiava perder, e até se considerava um bom jogador de sinuca, já que em sua viagem pela Europa passara várias noites em pubs jogando com o pessoal que conhecera por lá. Mas Diogo destruía, não jogava.

“Eu sempre perco, é lamentável.” Fafá balançou a cabeça. Mesmo que Henrique jogasse pior do que um boneco sem dedos, Diogo supria a falta de uma boa dupla.

“O dia de vocês é cheio de ocupações, diferente do Diogo, que passa coçando o saco e jogando sinuca todas as tardes.” Henrique falou, para desinflar um pouco o ego do namorado, mesmo sendo a dupla dele. Se deixasse barato, Diogo passaria o resto da noite gabando-se de suas memoráveis habilidades com um taco, e aí o assunto tomaria um rumo bagaceiro que Henrique preferia evitar.

“Ultraje!” Diogo exclamou, acabando por errar a tacada e acertar de raspão a bolinha que mirara. “Droga.”

“Tio, tu não pode negar. É aposentado com 35 anos.” Fabrício riu.

Diogo entrara em medicina também, mas largara no quarto ano – dois anos antes de se formar! Dissera não ser aquilo que queria para si. Sorte a dele que tinha um avô rico por parte de mãe que, quando morrera, deixara quase tudo para ele (por ser um homem machista e achar que a neta não precisava do dinheiro). A partir daí, Diogo comprara uns apartamentos, colocando-os à venda. Também comprara terrenos em bairros caros, numa época de desvalorização imobiliária, cada um por uns 100-150 mil reais, e recentemente vendera cada um deles por 700 mil. Fizera alguns outros investimentos e, atualmente, só de rendas ganhava uns 15 mil por mês.

Resumindo, era um boa-vida.

Só trabalhava esporadicamente gravando curtas-metragens e até realizando uns bicos como fotógrafo quando ficava entediado demais, já que fizera um curso nesse área há alguns anos, quando Henrique se mudara para os Estados Unidos para terminar o mestrado e doutorado em Harvard. Fora uma época solitária, apesar de viajar e visitar o namorado quase toda hora, atrapalhando-o nos estudos e no trabalho. Mas na época, arrumara o que fazer, participara de alguns festivais de cinema de Gramado e até ganhara algumas premiações com dois de seus curtas!

“Ah, a vida é feita pra ser aproveitada. Vocês que fazem medicina é que gostam de sofrer.” Diogo dispensou com um abano de mão. “Um dia ainda convenço o Rique a largar essa vida e se mudar comigo pro Havaí.” Teve a cara de pau de dizer, depois de todo o discurso enlevado de Henrique defendendo a profissão.

Henrique o cutucou na barriga com o taco, fazendo Diogo dar alguns pulinhos para fugir do toque. Morria de cosquinhas por qualquer coisa; quando Henrique estava com preguiça de argumentar e queria derrotá-lo, era só partir para um ataque de cócegas.

“Pior que eu consigo te imaginar direitinho com uma bermuda havaiana larga, sem camisa, bêbado e dançando a ula na beira da praia...” Henrique murmurou, suavemente, abaixando o taco. O psiquiatra jamais conseguiria viver sem seu trabalho, era parte do que era e, por mais que tomasse várias horas de seu dia e o deixasse frequentemente com olheiras profundas no rosto, era apaixonado pelo que fazia. Tanto pela profissão de médico, quanto de professor.

“E tu iria adorar a visão.” Diogo sorriu largamente e puxou o moreno pela cintura, estreitando-o contra seu corpo musculoso. Henrique era magrinho, não tinha tempo para malhar ou praticar muita atividade física, no máximo praticava natação duas ou três vezes por semana, nos momentos livres que nunca tinham uma regularidade exata.

André sentiu-se constrangido com os dois ‘agarradinhos’ e se focou em sua jogada. Eles haviam se comportado até então, mas agora, já meio bêbado, Diogo vinha toda hora puxando Henrique para si, e já dera no namorado uns bons três tapas na bunda. Mesmo assim continuo indo com a cara deles, pensou consigo mesmo; mas ainda esperava que eles não fizessem mais que aquilo, senão, iria embora. Aliás, dali a pouco teria mesmo que ir, pois ainda precisava se arrumar pra festa e passar na casa da Natália, já que a levaria consigo.

Acabou acertando uma bola na caçapa, tamanha sua concentração em não olhar para toda a proximidade de Diogo e Rique.

“Mazáh, guri!” Fafá exclamou, animado com seu acerto. “Ainda dá pra ganhar!”

“Faltam três bolinhas pra gente, e só a preta pra eles.” André resmungou, voltando a se inclinar para outra jogada. Não percebeu a bela e descarada analisada que Fabrício deu em sua bunda arrebitada, aproveitando o bom ângulo. Quando Fafá percebeu o que fazia, depois de André errar a caçapa, desviou rapidamente o olhar e notou o tio observando-os.

Diogo não deixava passar nada. E ergueu o polegar em aprovação para o sobrinho, dando-lhe uma piscadela maliciosa. Fafá corou e pigarreou, olhando pro relógio.

“Sipá ‘tá na hora da gente largar. Já passa das nove. Falaram pra gente chegar mais cedo na festa pra entrarmos de graça.” Fabrício alertou, lembrando-se desse detalhe somente agora. Os bixos tinham direito a entrada livre, desde que chegassem antes das onze e meia, ou algo assim.

“Querendo fugir antes de perder, é?” Diogo ondulou as sobrancelhas. “Deixa eu só finalizar isso daqui então. Henrique, tenho tua permissão?”

“Vá em frente.” Henrique indicou a mesa para o namorado e já foi guardar seu taco. André e Fafá suspiraram ao ver Diogo, com extrema facilidade, colocar a bola preta na caçapa com uma jogada rápida e precisa.

“Nós precisamos treinar muito sinuca no casl.” André largou o taco sobre a mesa de sinuca e aceitou a mão estendida de Diogo.

“Bom jogo, garotos.” Disse, apertando em seguida a mão de Fafá. “Como recompensa pelo esforço, deixo pra vocês a tarefa de lavar a louça.”

Os garotos soltaram exclamações de desânimo. Gabi, que acordou naquele instante, voltou rapidinho a fingir estar em sono profundo.

XxX

André olhava pro teto, quase caindo no sono pela espera. Olhou para o relógio e viu que já passava um pouco das onze da noite. Porca diaba! Pensou, dirigindo-se mentalmente à Natália, que já estava demorando demais para se arrumar.

“Natália! Vamos logo! Ou quem vai pagar a entrada pra festa é tu!” Gritou, não se importando com o tom alto, já que a amiga morava numa casa e, naquela noite em especial, a mãe da garota também havia ido a uma festa.

“Deixa de ser mala, André! Tu caga dinheiro e fica se preocupando com isso!” Ela berrou de volta, do quarto. André não estava lá porque morria de tédio vendo ela se arrumar, e ainda tendo de dar dicas sobre ‘em qual roupa ela ficava melhor’. Não que também não morresse de tédio estirado ali no sofá, esperando sozinho.

“Não é por ser rico que vou ficar gastando dinheiro à toa!” Retrucou. Era certo que vivia gastando bastante, como em roupas, perfumes, celulares novos, outros eletrônicos de última geração, mas nem por isso comia notas de cem no café da manhã.

Sumariamente ignorado em seu comentário, mais cinco minutos e Natália aparecia. Era uma garota bonita, chamava a atenção sem precisar ser uma modelo de capa de revista. Tinha no máximo 1,60m, cabelos castanhos ligeiramente ondulados e bonitos olhos castanhos que alguns comparavam ao olhar da Monalisa – era difícil adivinhar pra onde realmente ela estava olhando, com seus orbes enigmáticos. André gostava do sorriso dela, de dentinhos pequenos, que a deixava com covinhas nas bochechas amorenadas.

“Pronto, malinha. Vamos indo.” Ela disse de bom humor. “Não sei por que quis tanto que eu fosse nessa festa. É uma festa muito mais pra tu e teus novos colegas curtirem e se conhecerem, sem uma amiga metida no meio.” Ela disse, ajeitando o vestido comportado, mas solto e fresco que colocara, em tons claros.

André deu de ombros. No fundo, bem lá no fundo, havia um motivo. E esse motivo era: na última vez que fora numa festa com Fabrício e somente seus colegas, acabara na cama do moreno e recebera um chupão e uma bela de uma apalpada na bunda. Ir com a Natália o fazia sentir-se mais seguro, em nenhum momento ficaria sozinho e teria alguém com quem voltar pra casa depois.

“Já falou com o Davi?” Natália alfinetou quando saíam da casa. “Eu fiquei sabendo que ele está na casa do Leo. Parece que os pais dele o expulsaram de casa, ou ele que saiu de lá por vontade própria, por não aguentar mais o clima ruim. Amanhã vou ir no Leo pra ver como ele ‘tá...”

André mordeu o lábio rapidamente, mas logo se fez de indiferente, fingindo que não se preocupava. Ele escolheu isso, pensou, justificando-se. Aí se lembrou dos tios de Fabrício e as ideias ficaram ainda mais confusas.

“Depois... Me avisa se ‘tá tudo bem com ele.” Resmungou baixo, como que não querendo realmente que Natália o escutasse. A garota ergueu as sobrancelhas quando o loiro lhe entregou o capacete, mas depois sorriu, satisfeita.

“Tu poderia ir checar por ti mesmo, não é?” Cantarolou a sugestão, colocando o capacete e subindo na carona da moto, abraçando André pela cintura. André ignorou o comentário da amiga e deu partida na moto.

A garota podia sentir o tanquinho suave que o loiro tinha ao abraçá-lo por trás. O corpo era esguio, mas tinha músculos durinhos e modelados. Os braços não eram grossos, mas bonitos e firmes pelos vários anos jogando vôlei e pela musculação que ele começara a fazer algumas vezes na semana. Natália achava André muito atraente, apesar de o rosto ainda ter algo de imaturo.

Falta uma barba nesse rosto. Ela pensava, mas sabia que o loiro ficava mais bonito sem uma.

XxX

“Faltam cinco minutos. Devíamos ir entrando.” Gabi olhou pro relógio, torcendo o nariz. “Temos de aproveitar cada minuto! Dessa vez até a Fran veio!” Disse e se agarrou à amiga, abraçando-a apertado pelos ombros magros.

“Tu faz parecer como se eu fosse uma eremita.” Fran reclamou, dando um tapa no braço da outra. Fabrício deixou as duas tagarelando sozinhas numa discussão de como Fran era realmente um ser que nunca saía, enquanto a acusada se defendia afirmando que saía em quase todos os finais de semana em sua cidade.

Olhou para a entrada da Amrigs e viu o loiro chegando com a moto, passando pela guarita com guarda dos portões. Não pôde deixar de notar, claro, a garota que desceu da moto junto com o loiro, quando ele estacionou. Foi impossível não sentir certo ciúmes, mas não se importou muito, sabia que André tinha uma amizade colorida, e que justamente a traria naquela noite.

“Ai, que gracinha a ficante dele! Parece uma bonequinha!” Gabi exclamou, com aquela voz que as gurias fazem quando acham um bebê ou bichinho fofo, esquecendo-se da discussão com Fran, que concordou com a amiga como se não estivessem brigando há cinco segundos. Fabrício não sabia bem por que, talvez fosse pelos clichês de filmes de comédia romântica, mas estava esperando que a tal Natália fosse algum tipo de mulher fatal, alta, cheia de maquiagem, com curvas sinuosas e ar arrogante.

Ela era o completo oposto.

“Oi!” André logo apresentou a amiga ao trio, que a cumprimentou simpaticamente. “Melhor entrarmos, já é onze e meia!” Falou, puxando Natália consigo à frente, para que não perdessem a oportunidade de entrar de graça.

“Uau! Aquele teu amigo, hein?” Natália falou para o loiro, sugestiva, dando uma espiada em Fabrício por cima do ombro. Não pôde evitar, era um moreno de tirar o fôlego!

“Tu não deveria falar isso justo pra mim, não é?” André falou, enciumado. Só não sabia pra cima de quem. Ora, mas é óbvio que pra cima da Natália! Afinal, era sua amiga e eventual ficante. Natália riu da expressão contrafeita do loiro.

“Somos mais amigos que ficantes ou coisa do tipo. Posso falar esse tipo de coisa contigo.” Explicou, mas sem convencer o amigo. Na entrada, deram os nomes e passaram antes de todos. E antes de subirem as escadas para o segundo andar, onde a festa se desenrolava, passaram por uma sessão de fotos com fotógrafos profissionais, com muito glamour falsificado.

André tentou ignorar o fato de que Fabrício o puxou pela cintura em uma das fotos, sobressaltando-o, e teve certeza de que saiu na foto olhando pro moreno, meio aturdido – aliás, tinha a impressão de que era a segunda vez que algo assim acontecia. Fafá apenas sorriu e o libertou depois, como se nada houvesse acontecido. Irritado com o formigamento na cintura, André puxou Natália e praticamente a arrastou consigo para o andar de cima.

O segundo andar era enorme. Havia um grande espaço inicial, com um palco para as bandas de um lado, e um corredor que levava a outra pista grande. Ainda não estava lotado, mas já havia pessoal da Fundação ali. Não demorou e as duas faculdades estavam disputando através de cantoria, cada grupo tentando gritar e cantar mais alto que o outro.

“Isso até parece aquelas coisas de filme, em que os grupos rivais se enfrentam através de lutas musicais!” Natália gritou para André. O loiro não estava participando muito, não era seu estilo ficar se esganiçando até ficar rouco, mas boa parte de sua turma, junto com uns veteranos, estava ali fazendo frente contra os bixos da Fundação, que cantavam:

Vai me atolar na areia? Não, não, vou estudar! Na UFRGS só tem bichinha, na UFRGS só tem bichinha, na UFRGS só tem bichinha!!! E putinha sem calcinha!

Já os urguênses desciam mais no nível:

Fundete eu não sô lá da PUC

Eu sô diferente, eu vou ser presidente, você secretária, minha faxineira...!

Fundete vem fude comigo, de quatro, de frente

Fodo até seu umbigo

Só não me beije, fundete cadela...

Era difícil entender o que mais eles cantavam. O pior foi ver os fundaceiros ganhando a disputa, por mais que o bixos urguênses se esforçassem para cantar o mais alto possível, a verdade é que os fundaceiros haviam chegado mais cedo e estavam em maior número.

“Parece que vocês perderam.” Natália comentou e deu uma risadinha.

“Está feliz, né?” André a abraçou por trás, sentindo a garota se balançar no ritmo da música que tocava.

“Claro. Mesmo que minha irmã faça gastronomia e não medicina na Fundação.” Comentou, divertida.

XxX

Chegou um ponto em que todos estavam altinhos, dançando em rodinhas, e sempre alguém ia pro meio da roda fazer alguma bobagem para animar o grupo. Em certo momento, Fabrício, claro, acabou no meio da roda. Como não era de se acanhar, começou a dançar de uma maneira masculina sexy, erguendo a camiseta e passando a mão pelo abdômen definido, fazendo as colegas assanhadas assobiarem e gritarem em aprovação, o que o fez rir de divertimento. Duas garotas correram pro meio da roda também e começaram a dançar uma atrás e outra na frente dele, arrancando mais gritinhos e palmas.

André ficou perplexo ao ver que uma das garotas era Natália. Bem, a garota bebera mais que a barriga, e estava bem soltinha. Isso sem contar ela na verdade fora arrastada por Gabi para o meio da roda. André de novo sentiu aquela pontada de ciúmes, e acabou indo para o meio da roda também. Sua ideia era puxar Natália para longe dali, já que Fabrício, nada santo, estava passando as mãos pelas costas da garota, subindo pelos cabelos e a olhando muito profundamente nos olhos, mesmo que risse da situação.

Os planos de André, no entanto, não deram muito certo também. Oras, ele estava bêbado, estava um tanto escuro e confuso naquele salão cheio de gente, e quando deu por si, estava na frente de Fabrício, Natália a suas costas, e seu estômago parecia ter ido dar um passeio por uma montanha-russa nada simpática. Fabrício sorriu de uma forma estranha e o puxou pela cintura, praticamente colando seus abdomens, mantendo o corpo balançando sensualmente no ritmo da música. Os dois se esfregaram num sanduíche apertado entre as duas garotas, que soltaram gritinhos de empolgação.

André achou que iria desmaiar, não sabia se porque toda a bebida que ingerira fora para seu cérebro e fritara seus neurônios, se pelo calor abrasante que o arrematou, ou se pelas risadas, assobios e palmas que eles recebiam. Ao menos os colegas pareciam estar levando aquilo na brincadeira mesmo, dessas avacalhações que os guris têm de se passarem por homossexuais.

Brincadeira, sim, brincadeira. É só uma brincadeira. André garantiu para si próprio, mordiscando o lábio inferior e sentindo os efeitos do álcool deixarem sua cintura mais solta, já que sempre fora meio ‘duro’ pra dançar. As mãos de Fabrício eram firmes em sua cintura, e a boca dele parecia próxima demais, a respiração saindo ofegante por entre os lábios entreabertos; aqueles olhos negros cravados no seu de uma maneira enigmática que lhe arrepiava a nuca suada. Uma fumaça perfumada foi liberada na pista, inebriando as narinas, deixando o ar opaco. A luz piscava de uma maneira que o deixava zonzo, e conseguia sentir a fricção do corpo rígido de Fabrício contra o seu em alguns momentos, em contrapartida com o macio dos seios de Natália às suas costas.

Quando a música estava acabando, Natália acabou se metendo entre os dois, livrando-o daquele sufocamento que o impedia de respirar direito. André a abraçou por reflexo e, tomado pelas sensações fortes, a beijou, sendo prontamente retribuído. Estava com uma tesão desgraçada que queria afirmar para si mesmo ser pela garota em seus braços, não por aquela dança pervertida que tivera com Fafá na frente de no mínimo uns vinte e cinco colegas.

Abriu os olhos em meio ao beijo, tentando achar Fabrício, mas o moreno já se afastara. Suspirou de alívio, abraçando Natália com mais força, lembrando-se de como gostava do corpo magrinho e delicado dela. Era como uma bonequinha mesmo. Sim, porque eu gosto é de mulher. Mu-lher.

XxX

Fafá estava bebendo e rindo com alguns colegas numa outra parte do lugar que não tinha música, só a sonoplastia vinda do salão ao lado. Alguns colegas ele ainda não conhecia direito, então era bom socializar daquela forma mais descontraída, diferente de quando se está na faculdade. Estava rindo de uma piada que um dos colegas recém havia contado, quando viu Fran, Natália e Nati indo em direção aos banheiros, também cheias de risadinhas, saltitantes pelo álcool.

“Hei! Nati!” Chamou a garota, que rodopiou atrás do chamado.

“Que foi?!” Ela gritou em retorno.

“Onde ‘tá o Santa?” Perguntou. Natália franziu a testa, mas então Gabi falou algo para ela, e ela rapidamente fez uma careta de compreensão, junto com uma risada.

“Na real não sei! Ele sumiu, perdi ele de vista. Tu me faria um favor se encontrasse ele pra mim!” Ela exclamou, dando de ombros com as mãos erguidas, e um sorrisinho traquinas no rosto.

“’Tá bom!” Fafá concordou. Pouco depois, de fato, resolveu ir atrás do loiro. Já sabia que ele não ficava muito coerente quando bebia demais, e já tinham bebido bastante na casa do tio, coisa que Natália talvez não soubesse, por isso a pouca preocupação.

Deu umas voltas pelos dois salões, mas nada de encontrar André. Tentou ligar pro celular dele, mas não foi atendido. Suspirou, achando aquele sumiço estranho, mas talvez só o houvesse perdido de vista mesmo, apesar de bastante gente já ter ido embora, ainda havia gente suficiente nas duas pistas para dificultar encontrar alguém; porém, André não estava em nenhum dos grupinhos de colegas dançando.

Fafá foi até as vidraças das janelas e procurou a moto de André, e ela estava lá. Já estava se afastando da janela, quando justamente a pessoa que procurava apareceu em seu campo de visão. André se dirigia até a moto estacionada; parecia meio trôpego, e Fafá não viu isso como um bom sinal. Mesmo que também meio zonzo da bebida, correu em direção as escadas antes que André fizesse alguma bobagem.

XxX

“André!” Fafá chamou a meio caminho do loiro. Correra até ali, mesmo tendo quase tropeçado e rolado escada abaixo há menos de um minuto. Estava mais tonto do que imaginara. O loiro se virou, com uma expressão confusa, ao ouvir a voz de Fabrício.

“Quê?” Ele perguntou.

“Onde tu ‘tá indo, criatura?” Perguntou, percorrendo os últimos passos até o loiro. “Não ‘tá pensando em subir na moto nesse estado, né? Tu devia ter vindo de táxi.”

André parou e piscou, bastante aturdido. Não tinha mínima ideia do que estava fazendo, pra falar a verdade. E acabou rindo da situação.

“Sei lá.” Falou bobamente, dando de ombros e rindo. Fabrício mais uma vez afirmou para si mesmo que bebida alcoólica era um perigo, principalmente quando no organismo de André.

“Vamos voltar então, a Natália ‘tava atrás de ti.” Disse e agarrou o pulso do loiro, tentando levá-lo de volta em segurança. André olhou para a mão que o segurava, analisando aquilo como quem analisa algo raro, difícil de entender.

“Não.” Falou, afundando os pés no chão. “’Tava muito calor lá dentro, e minha rinite trancou meu nariz, ‘tô respirando mal.” Resmungou soando mais bêbado do que nunca, quase infantil. “Vamos dar uma volta aqui por fora.”

Dessa vez quem foi arrastado foi Fabrício. O loiro caminhou para longe do prédio até que chegassem a um minicampo de futebol, vazio e apenas ligeiramente iluminado àquela hora. Havia uma parte dele, no centro, aberta no teto, mostrando o céu cheio de estrelas. Quando chegaram ao centro do campo, André se jogou no chão, deitando de costas.

“Acho que vou dormir aqui.” Declarou, como se fosse algo bastante razoável. “Me acorde quando o sol nascer.” Virou pro lado, se acomodando.

“’Tá brincando, né?” Fabrício riu da cena deplorável. Se gravasse o loiro agindo assim, ele certamente arrancaria os cabelos no dia seguinte. “São recém umas quatro da madrugada.”

“Hora de caminha.” André resmungou novamente, sonolento, inconsciente do que dizia, o que arrancou uma gargalhada do moreno.

“Você não pode dormir aí, Santa.” Disse, condolente, sentando-se ao lado do loiro e o cutucando no ombro. André deu-lhe um tapa na mão.

“Não me chama de Santa.” Retrucou com um bico mal-humorado. Depois voltou a ficar de barriga para cima e virou o rosto para o moreno, olhando-o com as pálpebras estreitadas. “Por que tu se dividiu em dois?”

“Tu bebeu tanto assim?” Fafá perguntou, surpreso. Também sentia os efeitos do álcool, mas ainda estava consciente das coisas ao seu redor e definitivamente não estava com visão dupla! “Tu não sabe mesmo se controlar, né, bestinha?”

“Não.” André choramingou. Se estivesse mais consciente, lembraria Fafá de como ele também ficara podre da festa da matrícula. “A porra da minha cabeça ‘tá girando, acho que se eu levantar, vou vomitar. Hei, para de se mexer!”

“Não ‘tô me mexendo!” Fabrício ergueu as mãos pro alto e riu, olhando pro loiro ali estirado no chão. Os lábios de André estavam entreabertos e umedecidos, e as bochechas coradas pelo álcool. Ah, não é um bom momento pra ficar com essas vontades de novo! Fafá se recriminou ao encarar despudoradamente a boca alheia. Não podia abusar do amigo bêbado, não é? “Vou te dar cinco minutos, depois voltamos.”

André fechou os olhos, ignorando-o.

“Por que tu não canta alguma coisa? ‘Tô com um zumbido chato no ouvido.” Pediu depois de um momento de silêncio preguiçoso.

“Que que tu quer que eu cante?” Fabrício resolveu não discutir. Não era seguro discutir com um bêbado, muito menos com um André bêbado.

“Uma música em inglês dessa vez, que tu curta.” Exigiu o loiro. Gostava de ouvir Fabrício cantar músicas brasileiras, mesmo que nunca tivesse se ligado nelas, mas dessa vez queria algo mais familiar ao ouvido.

“Sem meu violão não fica tão bom, mas ok.” Fabrício suspirou. Dobrou uma perna, descansando um braço sobre o joelho, enquanto o outro braço servia de apoio ao corpo, e começou a cantar uma música do Jason Mraz que gostava muito, pela mensagem bonita que passava, e que lhe dava uma saudades imensa de casa e dos pais.

93 million miles from the sun
People get ready, get ready
Cause here it comes, it's a light
A beautiful light, over the horizon
Into your eyes
Oh, my, my how beautiful
Oh, my beautiful mother
She told me, son, in life you're gonna go far
If you do it right, you'll love where you are
Just know, wherever you go
You can always come home

André, mantendo os olhos fechados, franziu a testa. Ficou impressionado novamente, pois, mesmo em inglês, Fabrício cantava muito bem. Era uma voz gostosa de ouvir, dava vontade de passar até o amanhecer escutando-o, sentindo-se relaxado.

Bebadamente emocionado por aquela voz, André tateou o chão com a mão, até encontrar a de Fabrício, podendo sentir o calor da pele do outro. Talvez fosse o álcool, mas não se achou bobo com aquilo, e sentiu o coração acelerar quando Fabrício segurou sua mão, retribuindo ao toque com um aperto gostoso. Olhou pro moreno, vendo-o de baixo e o achando tão... bonito.

240 thousand miles from the moon
We've come a long way to belong here
To share this view of the night
A glorious night
Over the horizon is another bright sky
Oh, my, my how beautiful
Oh, my irrefutable father
He told me, son, sometimes it may seem dark
But the absence of the light is a necessary part
Just know, you're never alone
You can always come back home

Ficaram alguns segundos assim, até que, tomado por uma indignação devida à beleza da voz do moreno, André se sentou de súbito, o que apenas o deixou ainda mais tonto, e se virou para Fabrício, apoiando as mãos nos ombros alheios. Fabrício parou de cantar e o olhou assustado, por um segundo achando que o outro iria beijá-lo.

“Não é justo!” André reclamou enfezado, fazendo Fabrício piscar se perguntando o que fizera de errado.

“Ahn?” Fez, bobamente, colocando as mãos na cintura do loiro, já que ele parecia que cairia sobre si, caso não o amparasse. E também, claro, porque não iria perder a chance de segurar a cinturinha do outro. Era bobo, mas não burro, oras.

“Não é justo que tu tenha uma voz tão boa assim, e eu nem consiga cantar ‘parabéns pra você’!” André se inclinou mais para frente, e suas mãos subiram para o rosto de Fabrício, apertando e inspecionando-o, enquanto se forçava mais para frente.

Fabrício gemeu de dor pelos apertos, quase perdendo o equilíbrio.

Mais um pouco e cairia de costas contra o chão.

“Me dê tuas cordas vocais!” André exigiu inflamado e nada coerente, tentando colocar os dedos dentro da boca de Fabrício, talvez com a ideia de roubar mesmo as cordas vocais de Fafá.

Um André bêbado podia ser realmente perigoso.

Fabrício explodiu em risadas, acabando por cair mesmo para trás, com um choque dolorido das costas contra o piso da quadra. Com isso, André acabou caindo por cima dele, soltando um resmungo desorientado.

“Não posso te dar minhas cordas vocais.” Fafá falou sorrindo largamente, não se importando em ter um loiro confuso por cima de si. Pôde ver mais de perto as bochechas coradas pelo álcool, os cabelos claros caindo para frente, e os cílios que piscavam repetidamente. “Mas posso continuar cantando pra ti.”

Inverteu rapidamente as posições, antes que André percebesse a situação dos dois e se afastasse bruscamente. André ofegou baixinho com aquela pressão súbita – o corpo quente de Fafá contra o seu, parecendo queimá-lo mais do que se tomasse um banho demorado de água fervente.

Quando Fabrício aproximou os lábios da orelha de André, a pele do loiro se eriçou e uma das pernas involuntariamente se dobrou, enquanto suas mãos permaneciam nos ombros de Fafá e seus olhos se fechavam, apertados, a testa franzida.

Fabrício recomeçou a cantar, num tom sussurrado que parecia roçar na pele assim como os lábios do moreno roçavam em sua orelha, causando-lhe arrepios tímidos.

“Quis evitar teus olhos, mas não pude reagir. Fico à vontade então. Acho que é bobagem, a mania de fingir, negando a intenção...”

André se abraçou com força ao moreno, como se isso pudesse impedir seu coração de bater tão rápido e ajudar sua cabeça a parar de girar como um catavento em um temporal repleto de redemoinhos. Fabrício acariciou com a ponta dos dedos o pescoço e os cabelos lisos do loiro, cantando ainda mais baixo o resto da música:

“E quando um certo alguém desperta o sentimento é melhor não resistir, e se entregar...”

De repente, quase sem perceber, um silêncio permeado pelas respirações pesadas e desregulares tomou conta dos ouvidos de ambos.

“André.”

André ouviu o chamado e estremeceu com um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura da noite. Abriu os olhos e viu que o rosto de Fabrício estava na altura do seu, a mão dele apoiada contra o chão logo ao lado de sua orelha. Sentiu a cabeça girar mais do que antes, fazendo-o puxar o ar pela boca, o coração pulsando na garganta.

“Quê?” Voltou a perguntar debilmente, com os olhos azuis cravados nos negros.

“Tu acha que vai se lembrar disso amanhã?” Fafá perguntou, com ar de dúvida e preocupação. O loiro não entendeu nem um terço do que ele estava falando.

“Isso o quê?”

“Isso...” Fabrício deixou o antebraço bater contra o chão, e seu rosto se aproximou mais do do loiro. André prendeu a respiração, sentindo-se paralisado, mas com uma excitação prestes a explodir no corpo, uma expectativa que não entendia muito bem.

Apertou em retorno o ombro do moreno.

“Se eu lembrar, vou te bater.” Sussurrou em retorno, com os olhos já se fechando involuntariamente, tremulando, pesados além do sono. Sentiu os lábios de Fabrício roçando nos seus, fazendo-o suspirar baixo depois dos segundos suspendendo a respiração.

“Então espero que esteja suficientemente bêbado...” Fabrício fechou os olhos e, com um movimento rápido e quase agressivo, acabou com os últimos milímetros entre os dois, roubando aquele beijo com a gula de quem não aguenta mais a dúvida de se achará aquilo realmente bom ou não.

E, deus, era bom.

Notas finais
André fica tão fofo bêbado. OIJAUIOAJHAIOA (evitando falar sobre a maldade de terminar o cap. assim, haha!)Gente, obrigada mesmo por todo retorno, estou muito animada, mesmo, louca pra ter férias e poder escrever tudo que falta, haha! O discurso do Henrique no início do cap... Tentei transcrever um que um professor que tive esse semestre falou, no dia do médico. Foi muito bonito e me emocionou muito, mas não cheguei nem aos pés, mas enfim... xDBeijos, até final de semana que vem ;*