Good Riddance

12 Segredo de gênio


Notas iniciais
É, poisé. A criatura reaparece meses depois na maior cara de pau *sorriso*
Eu infelizmente não tenho a história pronta ainda. Era minha ideia, escrevê-la inteira e então postar. Mas estava falhando nisso de escrever sem postar, porque ando meio desanimada, aí­ o jeito é postar e ver se com a ajuda de vocês, consigo seguir em frente! :D
Espero que gostem, que não se decepcionem. Prometo que daqui pra frente vou postar, no mínimo, um capítulo por semana, ou um capítulo a cada 15 dias (prevendo final de semestre).
Obrigada a todos que mostraram saudades pela história, e desejo que eu continuasse com ela!

Fabrício resolveu chegar cedo à casa do tio. Seria bom para conversar antes do churrasco de aniversário, que seria ao meio dia e seguiria pelo resto da tarde com vários amigos de Diogo e Henrique, companheiro de longa data do tio. Fabrício estava animado, adorava esses encontros, sempre lhe rendiam boas risadas, sem contar que conversar com aqueles dois era muito prazeroso. Diogo era um crianção (muito parecido com o sobrinho, aliás), já Henrique era maduro e amável, e tinha uma paciência invejável para aguentar as traquinagens do namorado.

Quando Diogo abriu a porta da casa, logo esboçou uma expressão de contente surpresa e abriu os braços para Fabrício.

"Fafá, meu querido, quanto tempo! Eu acho que a última vez que te vi tu ainda não alcançava os meus joelhos!"

"Tio, nós nos vimos faz umas duas semanas." Retrucou Fabrício, revirando os olhos, mas sorrindo ao abraçar o tio.

"Ora, tenho certeza que sim." Diogo retrucou, dando tapinhas nas costas do sobrinho junto com o abraço carinhoso. “Como está a faculdade?”

“Está ótima! Convidei uns amigos para virem para cá, falando nisso.” Fabrício já foi avisando, algo que esquecera, até porque sabia que o tio não se importaria. Diogo era do tipo ‘quanto mais gente pra festa, melhor!’, e carne não faltaria, porque ele também adorava exagerar na comida, como o típico italiano que não era.

“Que belezura! A Gabizinha vem? Tu deveria convidar ela aqui pra casa mais vezes. Bons tempos em que vocês namoravam, assim eu podia ver a guriazinha mais vezes.” Diogo falou, animado. Gostava muito da Gabriela, até porque ela também apoiava suas maluquices em todas as ocasiões. Pareciam dois parceiros no crime quando o assunto era lembrar de todas as gafes de Fabrício. Obviamente que nesses momentos Henrique ajudava, apontando junto com Fafá as gafes de Diogo, que não eram poucas, que fique bem claro.

“Ela vem sim. Mas eu e ela nunca namoramos, tio. Tu sabe como é, a gente ‘tava só ficando...” Fabrício o lembrou, pela trigésima vez. Mais algumas vezes e não discordaria se o tio dissesse que haviam sido casados. Diogo agitou as mãos em descaso enquanto atravessavam a sala e cozinha para chegar ao pátio parcialmente coberto, onde estava a área de churrasqueira e mesa.

“Ah, ficar, ficar! Essas coisas de jovens aí mesmo. Não deixa de ser um namoro em que é permitido trair. Muito espertinhos vocês, talvez eu proponha esse ficar pro Rique.” Diogo sussurrou para Fabrício, parecendo um velho de setenta anos.

“Eu ouvi isso.” Henrique disse calmamente, antes mesmo que eles saíssem para o pátio. Fafá às vezes tinha certeza que o seu outro ‘tio’ tinha uma audição supersônica, o que devia ser bem chato. Imagina escutar até os puns do vizinho? Fabrício já havia seriamente exposto essa dúvida com Henrique, mas só recebera uma gargalhada prolongada como resposta.

“E o que tu não houve?” Diogo rebateu, quando chegaram ao pátio, e foi xeretar a maneira como o namorado preparava o carvão e madeira na churrasqueira.

“Devia agradecer que aprendi a não ‘ouvir’ teus roncos à noite.” Henrique alfinetou agradavelmente, e se virou para Fabrício. “Olá, Fabrício. Que bom que pôde vir! Eu estava justamente comentando com teu tio que as coisas devem começar a apertar agora com a faculdade. Mas não deixe de nos visitar, se não quiser que o Diogo apareça para pernoitar no teu apartamento numa noite dessas.”

Fabrício se acomodou na mesa e abriu a mochila, de onde surgiu uma pequena cabeça branca e peluda, com olhos bastante antipáticos e desconfiados. Soltou uma risada ao acariciar a cabeça de Cherry, que miou olhando feio para Diogo.

“Eu vou continuar vindo. Por enquanto ainda está tranquilo, mas mesmo quando apertar não vou sumir, não se preocupem.” Falou, e notou os pelos arrepiados de Cherry enquanto ela rosnava para Diogo. Cherry era tão antipática que Fafá não sabia como ela o havia aceitado como dono.

“Eu não ronco à noite.” Diogo não deixou o outro assunto morrer. “Eu sou inrroncável! O que tu acha, Fabrício?” Virou para o sobrinho enquanto Henrique balançava a cabeça para o comentário bobo do namorado, junto com um ‘até parece’ sussurrado. “E controle essa gata, ela está me encarando com cara de quem quer arrancar minha tireoide.”

“Não mesmo.” Fabrício abraçou Cherry, com um bico de discordância. “Cherry não machucaria uma formiga. E eu vou saber se tu ronca? Eu quando ronco acordo babando.” Fabrício ponderou, sem nenhum ponto em especial.

“Tu e teu tio são parecidos nisso.” Henrique comentou distraidamente, preparando os espetos e pegando o sal para salgar a carne.

“Blasfêmia!” Diogo rugiu, assustando até mesmo Cherry, que soltou um chiado de desgosto.

Diego era um homem grande, com seus 1,91m de altura. O corpo, forte e musculoso sem parecer-se com um ogro desajeitado. Ele tinha praticamente todo o braço esquerdo, junto com parte do tórax, tatuado com desenhos pretos tribais, e geralmente usava uma braba preta curta. Gabi costumava dizer que ele era daqueles velhos bonitões. E por velho, entenda alguém de 35 anos. Gabi provavelmente entraria numa grande crise quando chegasse aos trinta, e Fafá certamente estaria lá para chamá-la de vovó.

“E não quero saber, coloque essa gata na coleira, jogue no rio, use pro churrasco, só não a deixe solta por aí. Não quero nenhum dos meus amigos mortos, por favor.” Diogo falou e deu um pulo quando Cherry, na ponta da mesa, rosnou e moveu a pata na direção do tio de Fabrício.

Fabrício o ignorou.

“Sabe,” Começou, levantando-se da cadeira e indo lavar as mãos na pia, antes de tomar para si a função de salgar a carne. Adorava fazer churrasco, aprendera com o pai desde cedo. Sabia que o tio morria de preguiça e que, modéstia a parte, era um assador melhor que Henrique. “Vocês estão juntos há uns quinze anos e eu nunca perguntei como foi. Tipo, como foi pra vocês descobrirem que se gostavam... E se já sabiam que eram gays.” Fabrício falou como quem não quer nada.

Os dois olharam para Fabrício, surpresos pela curiosidade repentina, já que o garoto raramente se metia na vida pessoal dos outros, não sabiam se por respeito ou se por falta de tino mesmo em perguntar esse tipo de coisa. Para Fabrício, sempre interessara mais o fato de que o tio estava feliz junto com Henrique, não exatamente como eles haviam chegado naquele patamar do relacionamento.

“Na verdade é uma história engraçada.” Diogo falou, coçando os cabelos negros ondulados e curtos. “O Henrique foi um rapazinho difícil, é até estranho comparar o antes dele, com o agora.”

Rapazinho difícil. Fabrício conhecia alguém bem parecido. Mas de fato, Henrique era tão querido, paz e amor, que era quase impossível imaginá-lo como alguém complicado.

“Difícil como?” Fabrício se interessou e parou de salgar as carnes sobre a gamela por um momento, para olhar melhor para Henrique. “Porque eu consigo imaginar perfeitamente por que tu não iria querer namorar o meu tio, o que faria ele ter de insistir bastante para conseguir te conquistar e- Hei!” Fabrício exclamou ao receber um tapa na cabeça do tio. “Isso dói...” Choramingou, sem poder passar a mão sobre a área dolorida por estar com as mãos engorduradas.

“Pois fique sabendo que justamente porque sou uma pessoa memorável, consegui convencer esse ex-homofóbico que ele gosta é de levar na bunda.” Diogo estufou o peito, colocando as mãos na cintura, como se imitasse a pose do superman em seus piores dias.

“Diogo!” As bochechas de Henrique ruborizaram enquanto Fabrício engolia a gargalhada que quis estourar da garganta.

“O quê? É a verdade.” Diogo deu de ombros.

Henrique ajeitou os óculos no nariz fino e comprido, levemente arrebitado. Todo seu rosto era afilado, mas não o suficiente para ser estranho. Era um homem de uma beleza refinada, estatura mediana e chamativos olhos verdes, assim como os incomuns cabelos escuros, como seda negra, que alcançavam até o final das costas, quase sempre amarrados em um rabo baixo.

“Mas como assim? Tu era homofóbico?! Que loucuragem é essa?” Fabrício perguntou, abismado. Cada vez mais se lembrava de André, e todo aquele contexto o agitou, deixando-o ainda mais curioso.

“Eu era.” Henrique se sentou à mesa e, milagrosamente, Cherry deixou-o passar a mão em seu pelo branco. “Meu pai era muito conservador. Hoje em dia já é bem menos, apesar de algumas restrições. Eu cresci com os conceitos errados, mas fui mudando depois que conheci o teu tio.”

“Mas... Tu era um heterossexual homofóbico, e depois virou gay?” Fabrício perguntou, perdido. Não entendia muito bem dessas coisas. Nunca tivera preconceitos, simplesmente aceitava porque achava os argumentos contra gays, negros, o que quer que fosse, infundados, sem nenhuma lógica. Mas também não era como se fosse um conhecedor do mundo GLS, apesar de ter um tio homossexual.

“Não.” Henrique riu, abaixando um pouco a cabeça. “Eu no fundo sabia que era gay, desde que entrei na adolescência, mas fui me enganando por vários anos, e quanto mais eu queria negar para mim mesmo que era gay, por medo dos meus pais e de todo preconceito, mais homofóbico me tornava. Isso é uma defesa inconsciente que as pessoas podem ter para diferentes situações da vida, ela nos impede de ver conscientemente aquilo que não aceitamos em nós – agimos da forma exatamente contrária ao que realmente desejamos.” Explicou didaticamente.

Afinal, Henrique era psiquiatra e inclusive dava aulas na UFRGS. Fabrício teria aula com ele no terceiro, talvez no quarto e também no sétimo semestre da faculdade. Era o médico mais próximo que Fafá conhecia, já que ninguém mais da família era médico, e fora uma influência positiva para que escolhesse essa carreira. Admirava muito o companheiro do tio.

“E lá vem ele com o papo de psicólogo.” Diogo se intrometeu. “O que ele quis dizer com isso, resumidamente falando, é: amor de pica é o que fica.”

Henrique tapou o rosto com aquilo e balançou a cabeça. Diogo sempre acabava sexualizando tudo quando tinha a oportunidade. O que até fazia sentido dado o nível de apetite sexual do grandão. Não que as perversões sexuais de Diogo fossem o foco daquela conversa.

Fabrício pensava que o tio conseguia ser mais sem noção do que ele próprio.

“A questão é que o Diogo me ensinou a me aceitar, e eu sou muito grato a ele por isso. Depois disso consegui conviver muito melhor comigo mesmo, meus ânimos se tornaram melhores e eu me tornei uma pessoa muito mais mente aberta, de visões menos restritas, o que me ajudou inclusive como profissional.” Henrique discorreu, satisfeito. “E sobre como nos conhecemos... Foi num dos laboratórios de pesquisa. Eu fiz pesquisa no laboratório de bioquímica da UFRGS por três anos, e teu tio sempre estava por lá também. Tu deve ter tido aula com o Diogo, não? Era algo engraçado, havia teu tio Diogo, e o professor Diogo, muitas vezes deu confusão com os nomes.”

“Ah, o Diogo... Esse aí é uma parada. Mande um abraço nosso para ele, e diga que seria bom se marcássemos de ir tomar umas cervejas qualquer dia desses. Aquele lá adorava uma ceva bem gelada! Vivia fazendo festas na casa dele nos finais de semana. Numa dessas festas agarrei o Henrique de jeito e mostrei pra ele do que um gay com tesão é capaz. No dia seguinte ele nem lembrava e -”

“Por Deus, pare de falar dessas coisas com o teu sobrinho.” Henrique voltou a ficar com o rosto corado, o que era bastante engraçado num homem feito, confiante e maduro. “Mas sim, foi bastante complicado. Eu não lembrava dessa noite, mas acabamos nos beijando eventualmente mais tarde, no laboratório ainda por cima, e não havia desculpas dessa vez, estávamos ambos bastante conscientes. Eu entrei em crise depois disso, era difícil aceitar que eu havia... Tu sabe, com outro guri. Logo depois disso teu tio resolveu largar a medicina e eu, com medo de nunca mais nos vermos, decidi me arriscar. A partir daí começou um processo lento de aceitação. Teu tio foi bastante persistente e, acredite se quiser, paciente, e cá estamos nós, quinze anos depois.”

“Uou...” Fabrício estava embasbacado com a história e, para surpresa dos outros dois, ficou sem palavras, e era difícil Fabrício não replicar com alguma coisa, mesmo que fosse alguma coisa idiota. Então é mesmo possível que um guri homofóbico e supostamente hétero seja gay? Era o que o moreno se perguntava.

Não que ele esperasse que André também fosse assim. Aliás, ele não fazia ideia do que esperava, e isso era o mais complicado. Fabrício geralmente não pensava muito, agia como sentia vontade, por instinto, sem se preocupar muito, e era justamente por isso que levava tudo tão numa boa. Mas dessa vez estava sendo mais difícil ser tão simplista, pois era algo absolutamente novo e bastante confuso.

Os mais velhos notaram a expressão ausente e ponderativa de Fabrício, e se entreolharam, talvez pensando a mesma coisa. Que aquela pergunta não havia sido tão casual, e que algo acontecera para que Fabrício se interessasse no tópico. Diogo se aproximou do sobrinho e passou um braço pelos ombros dele.

“O que foi, guri? Conta pro teu tio aqui o que te aflige, que teu velho dá um jeito de resolver.” Disse, com um ar de paizão. Diogo era mesmo como um segundo pai para Fabrício, e por isso o mais novo decidiu ser sincero, queria mesmo a ajuda dos dois, ainda mais agora que sabia que eles haviam passado por uma situação semelhante.

Pegou um pano e limpou as mãos, virando-se para os dois que o encararam compreensivos, dando-lhe espaço para falar o que bem entendesse, se quisesse. Fabrício pigarreou, meio nervoso.

“Tenho andado com vontade de beijar um amigo meu.” Falou, abrindo um sorriso entortado que mais parecia uma careta culpada. “Loucura, né?”

Diogo imediatamente se engasgou com o chiclete que mascava, pego de surpreso, e começou a tossir, tendo de receber uns tapinhas nas costas de Henrique, que continuara bastante calmo após a revelação.

“Isso é tão estranho assim?” Fabrício perguntou, coçando o protótipo de barba que tinha no maxilar. “É, não é? E é tão repentino, eu nunca achei que fosse achar a boca de um guri tão atraente. É curioso...” Refletiu consigo mesmo, segurando então a mandíbula com um ar pensativo. “E tem o pescoço dele também, e a bunda não é nada mal...” Resmungou consigo mesmo.

Diogo conseguiu se recuperar da tosse após alguns segundos, e olhou para Fabrício, que parecia estar resmungando uma lista de justificativas para se sentir atraído pelo tal amigo.

“Desculpe.” Falou Diogo, um tanto sem ar. “Eu não estava esperando algo assim. Ou até estava, mas esperava... Sei lá. Me conte isso direito, moleque. Quem é esse guri? E pare de entrar em detalhes, mesmo que uma bunda bonita seja algo essencial numa relação.” Diogo garantiu e aproveitou pra apertar a bunda do namorado, que o afastou rapidamente com um tapa.

“Não preste atenção nas bobagens do teu tio. Pode nos contar mais sobre isso. Não há nada de estranho, não se preocupe.” Henrique disse, calmo, dando confiança a Fabrício depois da crise de tosse de Diogo.

“Tu deve lembrar dele, tio. É o André, que foi meu amigo de infância. Reencontrei ele na faculdade! Ele está fazendo medicina também.” Fabrício contou, empolgando-se. Era bobo, mas acabava se empolgando ao falar do loiro.

“O quê? Aquele André? O pivetezinho loiro que vivia grudado em ti por não sei quantos anos antes de sumir?” Diogo perguntou, impressionado, e as engrenagens começaram a trabalhar em grande velocidade em sua cabeça.

Lembrava-se muito bem de André e de como ele e Fabrício eram próximos. Aliás, memórias antigas lhe vieram à mente, assim como a ideia que chegara a ter de que Fabrício fosse gay também e descobriria isso quando chegasse à puberdade, época em que começaria a namorar André. É, Diogo era dado a criar teorias e hipóteses para o futuro.

Mas fora algo que não ocorrera. Depois que André foi embora, Fabrício não se relacionou da mesma forma com ninguém, não teve mais nenhuma amizade tão próxima e carinhosa com outro garoto, e Diogo logo se esqueceu daquelas ideias, achando que se precipitara justamente porque, como dizia Henrique, acabava sexualizando tudo, até uma amizade inocente entre dois pirralhos.

Ainda mais que mais tarde Fabrício começou a namorar uma garota e nunca mais deu indícios de ter interesses homossexuais. Só que agora esses indícios apareciam, e justamente pelo guri que Diogo acreditara que era a paixão infantil de Fabrício! Acabou gargalhando daquilo, tendo de colocar a mão sobre a barriga para tentar se controlar.

Fabrício o encarou abismado.

“Eu sabia! Sou mesmo um gênio!” Diogo exclamou entre as risadas e deixou-se cair no banco longo da mesa, mas levantando-se rápido ao ver que Cherry estava sobre a mesa, bem próxima, esperando-o com as garrinhas de fora.

“Como assim?” Fabrício perguntou, perdido. Henrique entendeu aquilo, lembrando-se das suposições que Diogo compartilhara consigo há uns dez anos atrás, algo já praticamente esquecido pelos dois.

“Diogo percebeu quando vocês eram crianças... Que a amizade de vocês era diferenciada. Aliás, há uma história que ele me contou... Como tu era muito criança, não deve se lembrar, mas talvez se ouvi-la, o que está sentindo agora faça mais sentido pra ti, e torne mais fácil lidar com essa situação.”

Fabrício ergueu as sobrancelhas, inclinando a cabeça um pouco para o lado, surpreso e ainda mais confuso, pois jamais esperaria que alguém já houvesse feito suposições sobre a possibilidade de ele ser homossexual.

...

Diogo estava passando um final de semana na casa da irmã mais velha no interior. Era um homem da cidade grande, gostava da confusão, do barulho, mas era bom vir descansar naquela paz e ver a irmã adorada, o cunhado amigo e o sobrinho, de quem gostava muito também. O pirralho era uma peste adorável. Uma pena que Henrique não pudesse vir também, tragado pelos estudos e trabalho. Namorar um rapaz que fazia residência em psiquiatria dava nisso, ainda mais que ele estudava duro pra finalizar a residência em Harvard.

Naquela noite, acordou sem sono e resolveu ir até a cozinha beber um copo de água. Quando se dirigia para lá, notou a luz acesa no banheiro no final do corredor. Achou que alguém a havia esquecido acesa, afinal, todos já haviam se recolhido há algum tempo, e agora era próximo da meia noite. Mania de gente do interior de dormir cedo.

Porém quando chegou ao banheiro, começou a ouvir duas vozinhas de crianças. Logo reconheceu a voz do sobrinho e do amigo que estava sempre com ele, que naquele dia ganhara permissão para dormir ali. Aproximou-se sorrateiramente, não querendo estragar qualquer traquinagem que eles estivessem fazendo. Crianças tinham o direito de aprontar, afinal!

Parou na penumbra, espiando para dentro do banheiro e conseguindo ver os dois parados em frente ao espelho de corpo inteiro que havia ali. André parecia mais pálido do que o normal, enquanto Fabrício tinha um olhar divertido e maldoso no rosto.

“Faltam três minutos. Quando eu dizer já, tu fala Maria degolada três vezes!” Fabrício sussurrou para André, parado um pouco atrás do loirinho. André pareceu estremecer violentamente, encarando com os olhos arregalados aquele enorme espelho, como se um monstro fosse sair dali a qualquer momento. E, bem, era essa a ideia.

“Vamos desistir disso, Fafá. Estou com medo...” André admitiu, fungando. Diogo quase teve uma crise de fofura e uma vontade louca de ir lá dar colo pro pivetezinho. Mas quem fez isso, ou quase isso, foi Fafá, abraçando André por trás, apertando os bracinhos ao redor dos ombros do loiro.

“Não precisa ter medo. Estou aqui, não estou?” Disse, sorrindo pra imagem dos dois no espelho. “Vou te proteger quando ela aparecer.”

“Não. Ela vai matar nós dois! Ela é mais forte que tu!” André tremeu de novo e tentou se desvencilhar para, provavelmente, sair correndo, mas Fabrício o segurou com mais força.

“Então eu chamo ela, tu só espere, vou mostrar que sou mais forte! Mesmo que ela tenha um facão para cortar nossas gargantas!” Falou, querendo mesmo assustar, e conseguindo, já que André se empurrou mais contra ele, erguendo as mãos para apertar os antebraços do moreno.

“Não, Fafá... Espera. Não faz-“ André murmurou, desesperado, enquanto Fabrício começava a contar os segundos no relógio, até chegar ao zero.

“Maria degolada. Maria degolada. Maria degolada!” Fabrício exclamou e imediatamente gritou: “AAAAHHHHH, ELA ESTÁ AQUI!” E de alguma forma a luz do banheiro apagou naquele exato instante.

O berro de André foi o mais alto que Diogo já ouviu na vida, seguido das risadas altas de Fabrício.

“Liga a luz! Liga a luz!!!” André exigiu, e pouco depois os pais de Fabrício apareceram no banheiro, atarantados e preocupados com aquele berreiro, provavelmente achando que alguém estava tentando matar os pivetes.

Diogo também gargalhava.

“O que está acontecendo aqui?” Lucas perguntou, ligando a luz e encontrando um André às lágrimas, agarrado com todas forças a Fabrício, que tentava segurar as risadas enquanto acariciava os cabelos do loiro.

“Diogo, o que tu andou aprontando?!” Isadora logo acusou o irmão. Conhecia a figura, e não duvidava que ele estivesse assustando as crianças.

“O quê!?” Diogo se ofendeu, erguendo as mãos para o alto. “Eu sou inocente! Esse pivete do teu filho que inventou de assustar o amiguinho!”

Isadora lançou um olhar desconfiado ao irmão, mas então se voltou para os dois meninos. Tentou se aproximar, tentando falar com André para acalmá-lo, penalizada pelo choro assustado de André, mas Fabrício rechaçou a mãe.

“Não! Eu que vou cuidar dele.” Determinou, ficando sério.

Isadora e Lucas ergueram as sobrancelhas, vendo o filho levar André com ele para fora dali, em direção ao quarto onde eles estavam dormindo. Lucas, sonolento, coçou os olhos.

“Essas crianças...” Resmungou e voltou para o quarto, querendo cair na cama.

“Estou de olho em ti.” Isadora avisou o irmão, apontando dois dedos para os próprios olhos e depois para Diogo, antes de seguir o marido.

Diogo colocou as mãos na cintura, não acreditando naquilo. Não fizera nada, e saía como o culpado. Suspirou e aproveitou para liberar a bexiga. Depois que finalmente pôde pegar seu copo d’água na cozinha, decidiu passar no quarto de Fabrício, notando que uma luz fraca vinha ali de dentro.

Bateu de leve antes de entrar. Encontrou os meninos deitados juntos. André estava deitado de lado, com o rosto escondido no travesseiro, enquanto Fabrício, deitado à sua frente, acariciava seus cabelos. Parecia falar palavras calmantes para ele, o que era bastante estranho num garoto de oito anos. Primeiro assustava, depois consolava como um adulto maduro.

André parecia já estar entrando no mundo dos sonhos.

“O que foi, tio?” Fafá perguntou assim que Diogo entrou.

“Vim aqui perguntar como conseguiu que a luz se apagasse bem quando falou Maria degolada três vezes.” Perguntou baixinho, com orgulho do sobrinho. Fabrício estufou o peito antes de responder.

“Isso é segredo de gênio.” Disse, com a típica arrogância da criança que teve sucesso numa arte, e estufou o peito de ar.

“Danado!” Diogo estava a ponto de arrancar a pele de curiosidade. Iria checar depois o interruptor do banheiro. “Mas não achou que pegou pesado? O André até chorou... Como ele está?” Perguntou, sentando-se na beirada da cama.

“Acho que dormiu.” Fabrício disse, passando o dedo pela bochecha do loiro. “Está tudo bem, porque eu ‘tô aqui pra cuidar dele. Eu sempre vou cuidar dele, por isso só eu posso assustar ele, se alguém fizer além de mim, bato no idiota.”

Diogo riu, olhando com doçura para os dois.

“Gosta tanto dele assim?” Perguntou, com certa ideia se formando em seu íntimo. Fafá assentiu, solene. “Mas não vai poder cuidar sempre dele, afinal, um dia vocês vão crescer, ele vai se casar, tu vai se casar... As pessoas acabam se separando um pouco.” Disse, apenas para ver qual seria a resposta do sobrinho.

“Não mesmo!” Fafá balançou a cabeça em negativa e passou o braço pela cintura de André, estreitando-o contra si. “André é meu. Vou me casar com ele, e não vou deixar que a gente se separe.”

Diogo arregalou um pouco os olhos. Fafá parecia falar muito sério.

O mais velho passou a mão pelos cabelos negros do sobrinho, com um sorriso.

“Se tu diz. Eu estarei sempre aqui pra apoiar vocês dois.” Falou e se inclinou, beijando a testa de Fabrício. “Boa noite, peste.”

“Boa noite, tio.” Falou Fafá, sem se importar de ser chamado de peste. Estava acostumado.

Diogo apagou a luz do abajur do quarto e saiu, com um sorriso divertido no rosto, e não conseguindo não imaginar aqueles dois namorando no futuro. Não via a hora de contar sua suposição para Henrique!

...

Fabrício tapava a boca, com as bochechas formigando vermelhas, ao final do relato do tio.

“Eu falei essas coisas?” Perguntou, envergonhado. Não se lembrava dessa noite. Na verdade, agora que escutava a história, lembrava-se desse susto que dera em André, adorava dar sustos no loiro, pois ele tinha medo de quase tudo. Mas não se lembrava da conversa posterior com o tio.

“Falou. Vocês eram mesmo muito próximos mesmo, e bem, eu não pude deixar de pensar que acabariam juntos... Eu pensava: que legal, sou gay, e vou poder dar conselhos pro meu sobrinho, já que de mulher não sei nada e não posso ajudar! E agora isso finalmente está acontecendo!” Diogo disse, emocionado, e foi abraçar o sobrinho. Fabrício o abraçou por reflexo, os olhos arregalados.

Era mesmo gay? Bi, talvez?

“Mas nunca me senti atraído por algum guri antes.” Fafá disse, aturdido. “E eu me sinto bastante atraído por gurias também. Como posso ser gay?”

Fabrício só estava confuso, mas como Diogo não era lá muito o rei da sensibilidade achou que o sobrinho não conseguia se aceitar por preconceito, e se afastou, chateado.

“Quando ouço esse tipo de coisa, choro lágrimas de sangue, arranco os cabelos, arranho as faces, rasgo minhas vestes e cubro-me de cinzas!” Exclamou dramaticamente e sacudiu o afilhado pelos ombros, deixando Fafá zonzo. “Não te ensinei a não ser preconceituoso? Qual o problema de ser gay?”

Fafá abriu e fechou a boca, agora confuso por também se perguntar se estaria sendo preconceituoso ou não.

“Pelo amor de Deus, deixe o guri respirar, Diogo.” Henrique se aproximou e puxou Diogo pelo ombro. “Fabrício, é normal que esteja confuso. Não é algo que se espera que aconteça, ainda mais se tu diz nunca ter sentido nenhuma espécie de atração pelo mesmo sexo antes.” Henrique começou a falar, novamente adquirindo um ar didático. “Mas veja, se bem me lembro, tu ficou desolado por semanas, até meses, quando o André partiu. Isso pode ter te deixado tão traumatizado, que reprimiu qualquer atração que pudesse sentir pelo mesmo sexo. No entanto, agora que reencontra justamente a fonte de tuas repressões -“

“Ah, pare com isso! Vocês psiquiatras e psicólogos sempre acham que há um trauma por trás de todas as atitudes humanas! Ouça o que eu digo, Fafá, meu querido, a questão é que até agora tu não havia encontrado nenhuma bunda bonita como diz que é essa do André, por isso não se interessou por nenhum macho. Agora que justamente tua paixão infantil resurgiu das cinzas, a atração apareceu! É só aproveitar, guri!” Diogo era tão simplista quanto o sobrinho.

“Mas... Eu não sei se ele é... E ele é homofóbico também e...” Fabrício murmurou, acuado, sentindo a cabeça girar. Eram muitas informações ao mesmo tempo para seu intelecto, no momento, bastante limitado. Sentia como se houvesse uma ervilha no lugar de seu cérebro.

“Ué? A história do Henrique não te ensinou nada?” Diogo falou, indicando o companheiro com a cabeça.

“Diogo, não é porque isso aconteceu comigo, que todos homofóbicos da Terra são gays.” Henrique o lembrou, mas Diogo o ignorou peremptoriamente. Sua teoria era de que todos poderiam ser bissexuais, tendendo mais pra um lado do que pra outro, ou gostando de ambos os sexos igualmente, mas que todas as repressões sociais impediam as pessoas de explorarem suas sexualidades de maneira plena e livre.

“Parece que teu tio aqui vai ter que te ensinar algumas técnicas de conquista.” Diogo propôs arrogante, como se fosse o rei das paqueras.

“Tu acha...?” Fafá perguntou, não achando estranha a ideia de receber dicas do tio, afinal, ele havia mesmo conquistado Henrique e eles estavam juntos há uns quinze anos! Não fazia ideia de como poderia algum dia beijar aquela boca gostosa do André sem levar um soco nas fuças em sequência.

Ai, meu Deus, eu acabei de pensar que a boca do André é gostosa? Ai, ai. Só rindo.

E, de fato, riu consigo mesmo.

Antes que Diogo respondesse, o celular de Fafá tocou. Ele o pegou desajeitadamente, sem nem ver quem era, tendo tomado um susto com o toque repentino num momento tão crítico.

“Alô?”

“Oi, Fafá. Estou aqui na frente da casa do teu tio. Abre aí.” Era André.

E Fabrício sentiu o coração saltar no peito.

Notas finais
Eu amo essas cenas infantis, por favor. *abraça os mini Fafá¡ e André*
Será¡ que gostaram do Diogo e do Rique? Adoro os dois, são quase uma versão mais madura do Fafá¡ e do André (se bem que o André nunca deixará de ser rabugento...)
Estou em dúvida se posto o extra do Davi e Gui no final da história, ou pelo meio. Mesma coisa com o do Diogo e Rique!
E por fim: http://www.youtube.com/watch?v=A7oXE26aGGw&feature=youtu.be Fiz um vídeo pra fic! Quem não gosta de ver fotos dos personagens, não veja. :}
AH! E não respondi ainda todas as reviews, mas responderei assim que eu voltar da academia!!!
Obrigada a quem leu!
Beijinhos. ;*
(ps.: peço perdão se algumas informações não bateram com as que eu dei no ask, pois mudei algumas ao longo dos caps. que já escrevi! hehe!)