Good Riddance

13 Monte Castelo


Notas iniciais
A história recebeu mais uma recomendação *chora, grita, se escabela, dança a ula, arranca as roupas, e cai de boca no chão* -q Obrigada a Angy por deixar meu dia mais colorido. ♥
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Deixo um beijo especial à Aiko, ela fez um pedido de música, e coloquei pro Fafá cantar. Aqui o link para quem quiser ouvir: http://letras.mus.br/legiao-urbana/22490/. Vocês podem pedir músicas, de preferência brasileira, mas posso considerar alguma em inglês se a letra combinar bastante com os dois, e com o estilo do Fafá. ;D

André também resolvera chegar adiantado à casa do tio do Fabrício. O moreno o avisara por mensagem que iria para lá um pouco mais cedo quando André se oferecera para dar-lhe carona. O motivo para sair logo de casa tinha um nome: Cíntia. A mãe de André vinha surtando por causa de Sascha, já que ela passava o dia espirrando dentro da própria casa. Não que André também não espirrasse, mas não era tanto quanto a mãe. Isso sem contar os sapatos mastigados, os chinelos desaparecidos, os cocos sobre o tapete, e a carinha de quem não sabe nada do labrador.

“Ele é filhote, ainda não sabe se comportar.” André tentara dizer a mãe, mas fora em vão e, então, para fugir dos berros escandalosos dela, nada melhor do que se refugiar em lares alheios.

Pouco depois de ligar para Fabrício, o moreno apareceu na porta de entrada, ofegante e com uma expressão de quem estivera fazendo arte. Fabrício simplesmente não era capaz de esconder uma traquinagem, era quase como se quisesse que os outros soubessem que havia aprontado. André ergueu uma sobrancelha, cogitando a possibilidade de que entrar naquela casa não fosse seguro, porém seria covardia recuar agora.

“Oi! Chegou cedo!” Fafá falou e deu espaço pro loiro. “Entra aí, ‘tava lá nos fundos já preparando o churrasco.”

“É tu quem vai fazer o churrasco?”

“Sim, meu tio sabe fazer muuuuito bem, mas ele sempre diz que prefere comer, e... O Rique não é lá essas coisas, apesar de dar pro gasto.” Sussurrou se inclinando um pouco para frente, como se o outro fosse conseguir escutá-lo (e talvez conseguisse). “Então sobrou pra mim e-“

Fabrício foi interrompido por um latido e o aparecimento súbito da cabeça de Sascha por trás do ombro de André. Isso causou um pulo no coração do moreno, que saltou para trás pelo susto.

“Puta que pariu! Da onde tu saiu, Sascha!?” Perguntou, com a mão sobre o peito. André abafou uma risada e ergueu a mão para acariciar o focinho no labrador, que se contorceu de alegria com a carícia. Poderia ser um perigo dar carinho nele naquele momento, já que o cãozinho tinha mania de se mijar quando ficava muito feliz, mas André descobrira que ele só se mijava quando estava no chão.

“Trouxe ele comigo na minha mochila. Acho que ele curtiu bastante andar de moto, não é, Sascha?” André virou o rosto para o lado e sorriu, dirigindo-se ao cão. Sascha voltou a latir e lhe lambeu a bochecha, o que arrancou do garoto um espirro. Fabrício não pode deixar de pensar que o loiro ficava uma gracinha sorrindo todo bobo pro bichinho de estimação.

“Falando em moto, coloca a tua pra dentro da garagem.” Fabrício falou, lembrando que alguns roubos costumavam acontecer pelo bairro. Aliás, onde que não vinha acontecendo roubos? Deixar uma moto como a do André na rua era pedir por um desastre.

André assentiu e entregou a mochila com Sascha para Fabrício, enquanto este abria a garagem. Pouco depois, eles entravam na casa, descendo as escadas para chegar ao pátio que era um nível abaixo do da calçada, mas enorme e com um belo jardim cuja vista alcançava o Lago Guaíba; visto que era um bairro numa área mais elevada da cidade.

Antes que chegassem até onde Diogo e Henrique estavam, Fabrício teve de contar uma coisinha que ocultara até então.

“Olha, eu sei que tu é todo chato em relação a homossexuais, e aí eu não contei que meu tio que está de aniversário hoje é justamente aquele que é gay. Ele e o Henrique são companheiros há vários anos.” Relatou, colocando Sascha no chão de deixando-o correr à frente, com as perninhas pequenas e ansiosas e o rabinho sacudindo de um lado pro outro.

Fabrício observou atentamente a expressão de André, esperando algum sinal de horror ou nojo. O loiro, porém, colocou as mãos dentro dos bolsos da calça jeans e encolheu os ombros.

“Tudo bem. Não sou trouxa a ponto de destratar ou julgar teu tio dentro da casa dele, e no aniversário dele. E também não sou trouxa de não ter sacado antes que era o Diogo. O planinho teu e da Gabi de me mostrar como homossexuais são legais é meio que óbvio.” Afirmou. É claro que não se sentia muito confortável, mas não gostava de voltar atrás depois de combinar algo com um amigo.

Inevitavelmente pensou em Davi e uma sensação ruim se espalhou pelo peito. Eu sou trouxa, só estou fingindo que não. Talvez buscasse algum tipo de redenção com aquela atitude.

Fabrício entreabriu os lábios. É, não seria tão fácil enganar André. O guri falava não sabia quantas línguas, já viajara pela Europa, tinha memória fotográfica e passara em medicina! Não era nenhum trouxa desatento mesmo. Mas a ideia de que ele viera mesmo sabendo daquilo o animou. André não era um caso perdido!

“Ótimo! E eu espero que funcione. Meu tio está louco para te ver de novo!” Fabrício comentou, animado, e arrastou André com ele. Porém no momento em que chegava a área da churrasqueira, tanto Diogo quanto Henrique se dirigiam para fora.

“Fabrício, aconteceu algo no hospital e vou ter de dar uma passadinha lá. Teu tio vai me levar. Devemos demorar uma meia hora, não muito. Logo estamos de volta.” Henrique informou. “Olá, André, eu sou o Henrique, muito prazer.” Estendeu a mão pro garoto, que a apertou por reflexo. Eles apareciam bastante apressados, algo sério deveria ter acontecido. “O Fafá estava justamente nos falando sobre ti antes. Sinta-se em casa, está bem? E cuide para que ele não coloque fogo na casa.”

Fafá soltou uma risada culpada. Uma vez quase colocara fogo na casa tentando cozinhar pro jantar em que apresentara Gabi aos tios. Mas com churrasqueiras ele se entendia. E se entendia muito bem, graças a Deus.

“Vão preparando tudo. Quero voltar e já ter algo pra comer, hein? Estou morto de fome.” Diogo lamentou. “André, bom te ver de novo, rapaz. Tu cresceu mesmo, meu Deus, vocês me fazem sentir um velho.” Diogo apertou a mão de André, que sentiu os ossos serem esmagados tão forte foi o aperto, e Diogo nem parecia estar colocando força naquilo. “Logo voltamos, se comportem. O pessoal deve começar a chegar só daqui uma hora, uma hora e meia.” Piscou para Fabrício antes de se dirigir para a garagem com Henrique.

“Hei! Só um momento!” André pediu, e os dois se viraram, curiosos. André, um tanto constrangido, tirou a mochila das costas e pegou dali de dentro um embrulho de presente. “Feliz aniversário, Diogo.” Estendeu para o tio do Fabrício. Seria uma falta de educação aparecer na festa de alguém, quase de penetra, sem nem ao menos um presente, certo?

Os olhos de Diogo brilharam.

“Ah, rapaz, o Fafá devia aprender contigo! Esse sobrinho ingrato não me traz nenhum presente.” Diogo exclamou e, com todo seu tamanho, puxou André para um abraço de urso. André agora, além da mão, sentia todos os ossos de seu corpo sendo lentamente esmagados. “Mas não precisava, comigo não tem dessas formalidades.” Diogo disse ao soltá-lo, porém já ia abrindo o pacote, sem perceber André quase se desmantelar no chão pós-abraço.

Sua expressão de surpresa ao deparar-se com o presente beirou a hilaridade.

“Guri, tu não deveria ter gasto tanto comigo! Esse tipo de coisa é mais bem gasto com festa, bebida e putaria.” Explicou, como um pai preocupado com o bem estar de seu filho.

Diogo obviamente nunca poderia ser pai.

André negou com a cabeça, segurando-se para não rir junto com Fafá, principalmente da careta que Henrique fez pelo comentário paterno do grandão.

“Está tudo bem. Eu e o Fafá dividimos... É um presente de nós dois.” Mentiu, para livrar a cara do amigo. Como que a anta do Fafá não comprava presente pro próprio tio?

Fafá olhou para André com a boca entreaberta, sem entender aquilo.

“Mas nós-“ Tentou dizer, porém levou uma cotovelada do loiro.

“Ah, se é assim! Fafá, seu peste, finalmente pensando no teu tio!” Diogo deu um tapa nas costas de Fabrício, que quase o desmontou no chão. Depois de mais algumas palavras, Diogo e Henrique realmente foram, correndo apressados.

“Parece que resta só nós dois.” Fabrício comentou quando o som da garagem fechando chegou até eles. André experimentou um arrepio involuntário. “O que foi aquilo do relógio?”

“Tu é um besta por não lembrar de dar presente pro teu tio.” André ralhou.

Fafá coçou os cabelos com uma mão e sorriu culpado. Ele sempre esquecia esses detalhes, talvez por isso vivesse lembrando as pessoas de seu aniversário quando ele estava próximo, certificando-se de que elas não esqueceriam os presentes. Ora, ser um pouquinho mercenário não fazia mal a ninguém, certo?

“Valeu mesmo, depois te pago metade do preço.” Assegurou, mas André dispensou com um movimento de descaso da mão.

“Esqueça.”

“Faço questão.”

“Eu não quero.”

“Mas vou pagar.”

“Não vai.”

“Vou sim.”

“Ah, cala a boca.” André perdeu a paciência. Dinheiro não faria falta, não era mão-de-vaca. Se fosse bem sincero, admitiria que até gastava um tantinho além da conta. Mas a culpa era dos pais, eles nunca haviam reclamado da quantidade de dinheiro que gastava. Não reclamariam nem se usasse notas de cinquenta para limpar a bunda.

“Tu é muito teimoso.” Fafá constatou, quando já chegavam à área da churrasqueira.

“Tu que é.” André rebateu, desviando de Sascha, que tentava morder os cadarços de seu tênis.

“Eu não.”

“É sim.”

“Sério, a gente ‘tá parecendo duas crianças...” Fafá riu e, com um sorriso safado, encurralou o loiro contra a mesa. Não sabia por que fazia isso, foi algo instintivo. André entreabriu os lábios, e o olhar de Fabrício acabou acompanhando o movimento.

André o empurrou.

“Eu não. Tu que ‘tá.” Respondeu birrento, parecendo-se bastante com um garotinho teimoso. Fabrício riu debochado e resolveu deixar isso passar, ou aquela discussão nunca iria acabar.

“Mas então, tu lembra do Diogo de quando éramos pequenos?”

“Vagamente.” André admitiu. Mesmo com a memória fotográfica, havia coisas que acabava esquecendo. “Lembro mais de nós dois.”

O comentário inocente fez o corpo de Fabrício esquentar, ainda mais com aquele pescoço do loiro exposto bem à sua frente. André não deveria sair passeando por aí com aquelas camisetas com gola em V, ainda mais preta. Preto caía bem no loiro. Fafá resolveu trocar rapidamente de assunto, sentindo que precisava extravasar a energia que se acumulara no corpo.

“Sabe fazer churrasco?”

“Não...” André murmurou, desconfortável. Qual garoto gaúcho que não sabia fazer um churrasco? La-men-tá-vel. Mas nunca tentara por falta de oportunidade mesmo.

Fabrício o olhou curioso.

“Bah, não diga que não gosta de churrasco? Não aceito uma coisa dessas.” Determinou. Churrasco era uma de suas paixões, e alguém que não gostava de carne não podia ser normal. Fabrício jamais entenderia os vegetarianos.

“Eu gosto.” André rebateu. “Mas sou como teu tio, prefiro só comer.”

“Ah, melhor.” Fabrício suspirou, aliviado. Ter convidado alguém que não gosta de churrasco, para um churrasco, teria sido uma bela gafe. “Vamos que ainda tenho que terminar de salgar e espetar a carne, e dar uma ajeitada final no fogo.”

XxX

“Eu acho que a sua gata vai matar meu cachorro a qualquer momento.” André comentou, observando a maneira como Sascha tentava de todas as formas brincar com a Cherry, mas acabava só levando unhadas, patadas e mordidas.

“Que nada. A Cherry ‘tá só brincando.” Fabrício comentou, espetando um pedaço grande de ovelha no espeto.

“Tu realmente precisa rever teus conceitos de ‘brincar’. Daqui a pouco o Sascha ‘tá com um olho a menos!” André exclamou, preocupado, cogitando se deveria ir ali separar os dois.

Mas a culpa era de Sascha, que não deixava Cherry em paz.

“Acho que nossos bichos têm as nossas personalidades, só que trocadas.” André comentou, pensativo.

“Como assim?” Fabrício perguntou, internamente se rindo de toda a preocupação do loiro. Sascha era duas vezes maior que Cherry, a gatinha poderia ser confundida com uma mini bolinha branca! E Sascha não parava de se jogar em cima dela, latindo e rosnando de brincadeira a cada pulo e balançar de rabo.

“Olha isso, o Sascha é tu em forma de cachorro, e a Cherry combina mais comigo. É tão tua cara ficar enchendo o saco quando obviamente a outra parte não quer participar das tuas loucuras.” André explicou, indignado. E Fafá não soube dizer se ele estava indignado com Sascha, ou consigo. Talvez com ambos.

Acabou sorrindo largamente, com seu ar cara de pau.

“Vai ver que por isso tu gostou tanto do Sascha!” Cantarolou, recebendo um olhar amedrontador de André. Pigarreou, com um sorrisinho amarelo. “Quer que eu te ensine a fazer churrasco?”

André o olhou surpreso. No fundo queria saber se virar com aquilo, então, depois de alguns segundos de resistência, levantou-se de onde estava sentado, aproveitando para passar por Sascha e empurrá-lo com o pé para tirá-lo de cima de Cherry, que rosnava e se esperneava inteira tentando escapar do cachorro, e foi até Fabrício.

“Pode ser.” Disse, parando ao lado do moreno.

“Ok!” Fabrício exclamou, todo contente. “Eu já fiz o fogo, depois te explico como se faz, mas é basicamente um carvão bem seco, uns pedaços de lenha e um pouco de jornal para iniciar o fogo, e álcool na medida. A gente faz antes e só coloca a carne quando o fogo já baixou um tanto, aí dependendo da carne e do tempo que tu quer que fique pronto, vai alternando a altura em que coloca a carne.”

“Certo.” André assentiu, atento.

Fabrício começou a explicar os outros passos, sobre como salgar a carne, o que tirar dela, o que deixar, até sobre as melhores facas e tipos de espetos para se usar e ter mais praticidade. Ele sabia mesmo do que estava falando, e André começou a se sentir ridículo por achar atraente toda a confiança e propriedade do moreno para fazer um estúpido churrasco.

“Vai salgando essas sobrecoxas. Nelas tu usa sal fino, e não grosso. Na parte que tem a pele, dá pra colocar bastante, na outra coloca um pouco menos.” Fabrício explicou. André, todo suspeitoso, pegou um pouco do sal e começou a colocar sobre as sobrecoxas já espetadas na gamela.

Fabrício depois de um tempo torceu o nariz. Ele estava colocando muito pouco, então segurou a mão dele e o incentivou a colocar mais.

“Se colocar tão pouco, vai ficar sem gosto. Não te acanha que se ficar salgado demais, todo mundo come mesmo assim.” Fabrício disse, inconsciente do rubor que subiu pelo rosto do loiro.

André percebeu três coisas quanto à mão do Fafá: ela era maior, mais calejada e mais confiante que a sua, ao menos para salgar uma carne. Não era nada legal estar tão consciente da mão do outro, então puxou a sua, um tanto rápido demais, e suspirou.

“Não sou bom nessas coisas de achômetro. Seria mais fácil se tivesse alguma medida exata de quanto sal tem que se colocar.” Resmungou, lembrando-se de por que nunca fora bom para cozinhar; quem sabe cozinhar bem mesmo vai muito mais no feeling, do que por receitas exatas.

“Seria bem mais chato daí!” Fabrício rebateu. “Tenta espetar esse pedaço de picanha aqui.”

André bem que tentou depois que Fafá lhe explicou como segurar a carne e o espeto, mas a maldita carne não parava de se mover sozinha, parecendo fugir da ponta do espeto! E era escorregadia e difícil de manter firme na mão. Sua incapacidade para meramente espetar uma carne o deixou frustrado, parecia não ter força! Talvez devesse começar a pegar mais pesado na musculação, sabia que Fabrício ia quase todos os dias na academia.

“Aqui, eu te ajudo.” Fabrício falou e, sorrateiramente, moveu-se para trás do loiro, levando as mãos até as de André. Agarrou-lhe firme a mão que segurava a carne e endireitou o espeto, colocando força e habilidade naquilo.

André saiu da área de cobertura, só não desligou. Pôde sentir a respiração do moreno às suas costas e toda a presença dele atrás de si, muito próximo. Sem contar as mãos sobre as suas, apertando-as e guiando-as a atingir o objetivo simples. Suor pareceu escorrer por sua nuca, junto com um novo arrepio que percorreu toda a linha da coluna.

“Pronto! Fácil, não achou?” Fabrício perguntou quando a carne estava enfim espetada, um sorrisinho de lado por dessa vez notar o desconforto do loiro. Só não sabia se o desconforto era um bom ou mau sinal. Estava com uma vontade louca de agarrar a cinturinha dele e beijá-lo na nuca, era daquelas vontades difíceis de refrear, involuntárias e quase inconscientes, de quando se está a fim de alguém.

Ele não me acotovelou nem mandou que eu me afastasse.

Foi Fabrício pensar nisso, que André rapidamente recuperou os movimentos do corpo e, no que pareceu uma descarga de adrenalina, acabou por acotovelá-lo bem na boca do estômago. Fafá se curvou em dois com um ganido, mal conseguindo puxar o ar.

“Pra que isso?” Fabrício perguntou num tom sofrido, apertando o abdômen enquanto os olhos lacrimejavam. O pior foi que André não pareceu nem um tantinho arrependido.

“Foi mal. Dá pra colocar na churrasqueira já?” André perguntou, com um ar indiferente, olhando para a picanha como se admirasse uma obra de arte. “Já que isso é pra ficar pronto mais tarde, coloco bem em cima, né?”

“Tu... Aprende rápido.” Fabrício disse, segurando-se ainda meio inclinado sobre o balcão, tentando respirar fundo. “Mas ainda falta salgar.” O lembrou.

André soltou um ‘ah, é’ despreocupado e foi salgar a carne na gamela.

“Sascha, agora sei como tu se sente.” Sussurrou pro cãozinho, que viera cheirar seus pés e latiu em retorno, compreensivo, enquanto André parecia bem atento ao que fazia.

XxX

Fabrício arrancava do violão alguns sons aleatórios, sentado sobre a mesa, quando Diogo e Henrique voltaram, cerca de quase uma hora mais tarde. Felizmente todos os amigos do casal eram uns atrapalhados e enrolados que sempre se atrasavam, então ninguém mais chegara, além da Gabi e do Rafael.

Diogo pensou que parecia até o aniversário do Fafá, e não o seu, mas sorriu, vendo os quatro interagirem, já compartilhando duas caipirinhas provavelmente preparadas por Fabrício, já que o sobrinho tinha um talento nato pra preparar bebidas.

“É assim que vocês cuidam da carne?” Diogo chegou perguntando, fingindo-se de indignado e interrompendo a conversa, latidos (de Sascha, claro) e as risadas.

“Dioooogo!” Gabi se levantou e no momento seguinte já se jogava nos braços do homem. Para Gabi, Diogo era seu tio emprestado. “Que saudades!”

“Guriazinha! Que bom te ver!” Diogo falou, dando-lhe um beijo na testa. “Me conta, como tem sido aguentar a mala do meu sobrinho todos os dias?”

“Já não faço isso desde ano passado?” Gabi rebateu, dando de ombros.

“Eu realmente fico tocado com toda essa demonstração de carinho de vocês pela minha pessoa.” Fabrício falou, largando o violão sobre a mesa e pulando pro chão, indo dar uma espiada na carne, virando os espetos e descendo o salsichão, já quase pronto. “Dá pra colocar mais uns pães já.”

“O quê?! Não tem nada pronto ainda?” Diogo perguntou, sentindo que quase caía de fome.

“Tu disse que ia voltar em meia hora. Meia hora depois que vocês saíram, estávamos aqui comendo uns pãezinhos, e já comemos uns corações. Tu comprou aperitivos até não poder mais.” Fabrício comentou. Havia muito coração, salsichão e pão ainda para colocar no fogo.

“É a melhor parte de um churrasco.” Diogo explicou, com o braço sobre os ombros de Gabi. “Henrique!” Exclamou, quando o outro apareceu também. “Viu só, tu demorou demais e acabamos perdendo a primeira leva de pão e coração.”

“Foi tu quem encontrou o Tadeu e ficou conversando com ele por uns vinte minutos.” Henrique se defendeu, indo abraçar Gabi.

“Ciúmes?” Diogo ondulou as sobrancelhas.

“Deus, não, ele já tem cabelos e barba branca.” Henrique rebateu, revirando os olhos.

“Ué, e qual o problema?” Diogo perguntou, insolente. “Que preconceito, algum dia será tu com cabelos brancos. Aliás, acho que estou vendo um...”

“Só se for dos teus cílios.”

“Ele é metrossexual.” Diogo explicou, indicando Henrique com o polegar, resumindo a indignação do outro. “E morre de ciúmes.”

André disfarçou um sorriso, mesmo que aquela fosse uma clara demonstração de ‘boiolagem’, ao seu ver. Mas Diogo tinha o mesmo jeito meio bobo alegre, espirituoso, de Fabrício. O mais novo tivera a quem puxar, afinal. O engraçado que, mesmo com aquelas cenas, o casal fugia do estereótipos gay, de serem afetados ou desmunhecados. Se alguém os conhecesse fora daquele ambiente em que se sentiam à vontade para se exporem como um casal, ninguém diria que eram gays.

Cruzando os braços, André ficou pensativo sobre isso por alguns instantes, lembrando das coisas que tanto Fafá quanto Gabi, e também Natália, haviam lhe falado quanto a seu preconceito. Era difícil pensar diferente, era como se houvesse uma barreira o impedindo de se desvincular daquilo, mas, ainda assim, ao menos já se sentia mais tolerante, já que estava ali, na casa de um casal homossexual, sem sentir nenhum nojo dos dois – desde que eles não inventassem de se agarrar para todos verem.

Aprendera que aquilo era uma perversão, que não era normal...

Mas jamais demonstraria desagrado por duas pessoas que eram importantes para Fabrício.

Isso novamente o fez lembrar o quanto fora estúpido com Davi, que era também um grande amigo. A lembrança trouxe o mal-estar de volta, e a piora em sua expressão atraiu a atenção de Diogo, que cumprimentava Rafael, para si.

“Andrézinho!” Diogo falou sorrindo, com sua mania de colocar no diminutivo o nome de quase todo mundo (talvez porque perto de si todos fossem minúsculos). Nem se importava com o conhecimento de que André era homofóbico. Já havia lidado com um bem difícil no passado. Foi até André e passou um braço pelos ombros do loiro. “Rapaz, que coincidência boa essa de tu e o Fafazito se reencontrarem na faculdade! Ainda lembro bem de vocês dois correndo juntos de um lado pro outro.”

Apesar de aquela proximidade e simpatia não serem comuns para André, já que geralmente demorava para ter esse tipo de contato com as pessoas, tentou entrar na brincadeira.

“Verdade. Só não sei se foi sorte ou azar.” Disse, sorrindo torto ao olhar para Fabrício.

“Acho que foi azar.” Gabi ponderou, muito séria. “Mas o destino não dá moleza.”

“Meu Deus! Vocês adoram fazer bullying comigo!” Fabrício exclamou, sem acreditar naquilo, arrancando risadas de todos, até de si próprio.

“Isso é porque te amamos!” Gabi se dependurou nas costas do amigo.

“Amamos?” Os outros três perguntaram, em uníssono, como se houvessem combinado.

Gabi gargalhou alto enquanto Rafael sorria de leve, quietão como sempre.

Fabrício tentou se levantar.

“Bah, até o Rique? Ok, já entendi, sei quando não sou bem-vindo. Vamos Cherry, eles não nos querem aqui.” Fez drama, tentando levantar, mas sendo impedido por Gabi e Henrique.

“Deixe a Cherry, ela é bem-vinda.” Diogo interrompeu, arrancando mais risadas de todos e um latido de Sascha, que voltou a se jogar em cima de Cherry, mordendo ‘carinhosamente’ a orelhinha da gatinha. Cherry soltou um miado esganiçado de desprezo.

“Que cancha vocês, hein? Só não me retiro porque precisam de mim para cuidar do churrasco.” Fabrício se justificou e agarrou Gabi indelicadamente pelo pescoço, bagunçando os cabelos dela e arrancando um belo de um grito da menina.

“Que isso. O Rafinha também sabe fazer um baita churrasco.” Diogo lembrou, dando tapinhas de ogro nas costas de Rafael, que quase desmontou no chão como um bonequinho germânico.

Fafá desistiu, o melhor era ficar quieto.

XxX

Àquelas alturas, a casa já estava cheia de gente, mal dava para se mover lá dentro, ou entender o que as pessoas diziam, tal era a baderna. André não gostava muito dessas confusões e até se sentia um tanto claustrofóbico no meio de tanta gente num lugar fechado, então saíra pro jardim.

Também fugira porque Diogo não parava de exibir o relógio que ganhara, de muito bom gosto, para todo mundo novo que aparecia. E aí apresentava André e falava coisas sobre 'como seria bom tê-lo como sobrinho também!' “Sabe como é, se ele e o Fafá se resolvessem...” ou “Ele e o Fafá são quase uma versão mais nova minha e do Rique! No futuro...”, piscava, ou “Acho que eles ficariam muito bem juntos!” Insinuara em uma ou duas vezes. Ok, uma dezena de vezes, deixando André como uma pimenta sem reação.

Então estavam ele e Fabrício sentados ao final do jardim, num canto que parecia escondido dos olhares alheios, apreciando a vista, enquanto dividiam mais uma caipirinha bem gelada entre conversas e algumas notas que Fafá tirava do violão. Cherry estava deitada na grama, próxima dos dois e, milagrosamente, depois de muita briga e birra, deixara que Sascha se deitasse junto, e agora o usava como travesseiro, ambos dormindo tranquilos depois de passarem horas brincando (ao menos na concepção de Sascha).

“Acho que vou explodir. Nunca comi tanto pão, coração e salsichão.” Fabrício comentou, massageando a barriga, que parecia ter dobrado de tamanho.

“E maionese, picanha, costela, frango, ovelha, porco...” André complementou. Também mal conseguia andar. Não conseguia entender como Gabi continuava lá dentro junto com Rafael, ainda se banqueteando junto com quem chegara atrasado. A guria tinha alguma espécie de buraco negro no estômago, para comer mais até que Fabrício.

“Puta merda, e ainda tem a sobremesa.” Fafá riu e tocou umas notas aleatórias no violão.

“Não dá mais!” André riu e se deitou sobre a grama. “Ainda tem a festa de noite. Já ‘tô meio bêbado também, quantas caipirinhas tomamos?”

“Sei lá, umas quantas.” Tentou pensar num número, mas era difícil mesurar, já que ficavam sempre dividindo os copos um com o outro.

Fafá olhou para André, que parecia prestes a cair num sono profundo, aproveitando o solzinho gostoso do meio da tarde. Parece um gatinho de barriga cheia, pensou e riu. André realmente lhe lembrava Cherry.

“E aí, arrependido de ter vindo?” Perguntou, conseguindo ouvir o barulho vindo de dentro da casa, havia mais alguém tocando violão lá dentro.

“Não mesmo.” André disse, sem hesitar.

“Então está convencido que não tem porque ter preconceito contra gays?” Fabrício foi direito, estava bastante curioso. André sentiu o rosto esquentar com a pergunta, e a resposta era difícil. Sentia-se um tanto confuso, pessoas importantes para si eram a favor daquilo. Davi era gay, e Fafá, Gabi e Nati o repreendiam, já Diogo e Henrique eram muito legais e simpáticos.

“Acho que sou mesmo muito idiota por julgar tanto. Mas a ideia ainda me é muito estranha, eu... Não consigo achar normal. Desculpe.” Falou, sendo sincero, mas mantendo os olhos fechados para não ter que olhar pra uma possível careta de decepção do moreno.

Mas Fabrício na realidade sorriu.

“Já é um começo.” Disse, tamborilando os dedos no violão. Ficaram em silêncio por alguns instantes, até Fabrício começar a cantarolar.

“Ainda que eu falasse a língua dos homens. E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria... É só o amor, é só o amor. Que conhece o que é verdade. O amor é bom, não quer o mal. Não sente inveja ou se envaidece.”

Quando André abriu os olhos, viu que Fafá cantava olhando diretamente para si.

Um solavanco no estômago fez toda a carne que havia ali dentro revirar, e o coração acelerou estupidamente. Até Fabrício sentiu o rosto esquentar de leve, já que os olhos dos dois pareciam não conseguir se desencontrar.

Resolveu continuar cantando, já que nada coerente além da letra da música lhe vinha à mente.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria...

“Hoje tu ‘tá estranhamente afinado.” André comentou, já que Fafá cantara bastante mais cedo, junto com um dos amigos do tio. Tentou não parecer afetado pela letra romântica e pelo olhar do outro, e desviou os olhos, voltando-os para o céu claro, as bochechas irritantemente quentes.

“É, e... Epa! Eu ‘tô sempre afinado!” Disse fingindo indignação, largando o violão e deitando-se na grama também, de lado para André, enquanto o loiro soltava uma risadinha por entre os dentes. Ele não sabia, mas suas bochechas continuavam rosadas.

“Quando tu cantou Eduardo e Mônica, me bateu uma nostalgia. Bah, que merda, cara, o tempo passa rápido demais!” Riu junto com Fabrício, os dois já meio altinhos pelo álcool misturado com a comida.

“Engraçado que tu diz que não gosta, mas conhece todas as músicas que eu toco.” Fafá ponderou.

“Mas também, tu toca só as mais famosas.” André rebateu. “E eu tenho boa memória, se é que esqueceu.”

“É, é. A memória monstra.” Fafá riu pelo nariz.

“Se bem que essa eu não conhecia...” Admitiu.

“É Monte Castelo, do Legião.” Fafá informou, mas o loiro não demonstrou nenhum sinal de reconhecimento, apenas conhecia o cantor. “Algum dia tu tem de me dizer umas que tu goste, e eu toco pra ti.” Emendou, num tom que fez André sentir as carnes no estômago virarem borboletas e levantarem voo, causando um alvoroço perigoso que poderia ter um desfecho nada agradável. Carnes, se aquietem, desgraçadas! Pensou, brabo com a picanha de mais cedo.

”Ok...” Murmurou mesmo assim. “E eu te devo uma música no piano.”

“Na próxima vez que eu for na tua casa, tu toca.”

“Já ‘tá te escalando de novo?” André perguntou, num tom debochado.

“Sempre.” Fafá garantiu, sorrindo largamente.

Notas finais
OBRIGADA por todos os reviews! Eu fiquei imensamente surpresa com a quantidade, e por toda a compreensão e carinho! Espero jamais decepcioná-los, vocês são uns amores mesmo! Ver tanta gente lendo uma fic levinha e bobinha como essa, que eu escrevo tão na brincadeira, é muito gostoso! Obrigada, amores!
Até a próxima ♥