Good Riddance

39 Já sei beijar de língua


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=HNrgK8h2xBc - Música cantada pelo André. Nessa versão mesmo. Dedico ao meu querido Thomás, porque ele pediu essa música!

André estava no primeiro andar de casa, sentado em frente ao balcão largo de granito do ambiente que era sala de estar, cozinha e área de lazer, enquanto comia um torta de frango feita pela emprega e assistia à televisão. Seus pais chegaram juntos pouco depois que começou a comer, morto de fome após voltar da academia. Havia intensificado o treino porque estava se achando muito magrelo perto do Fabrício. Apesar de, claro, continuar achando que seu corpo beirava a perfeição. Poucos tinham a sorte de serem assim, quase perfeitos.

Só não dizia completamente perfeito porque estava tentando melhorar e se tornar mais humilde nos últimos tempos.

Estranhou o clima, notando que os pais desciam as escadas em meio a alguma discussão. Por um momento, achou que era novamente aquelas discussões de casado, e considerou bem rápido o retorno daquela rotina estressante, afinal, era recém segunda-feira. Talvez eles terminem logo, pensou, mas se recriminou em seguida, principalmente ao perceber que eles não estavam discutindo entre si, mas concordando com alguma coisa que desgostava a ambos.

“O que aconteceu?” André perguntou desviando a atenção da televisão para eles e terminando de engolir sua torta de frango. Que por sinal, estava deliciosa. Nesses momentos, amava a dona Amélia.

“Tu não vai acreditar meu filho!” Cíntia disse, o nariz torcido pelo desgosto. “Acabamos de ficar sabendo...!”

“Eu sempre soube que aquele rapazinho tinha algo de errado. E o Adriano o deixava livre pra agir como bem entendia! Não surraram o garoto o suficiente enquanto era tempo, agora isso. A Flávia sempre o mimou demais também.” Heitor falava, rude e seco, um ar impassível.

“E-Estão falando do Lázaro? O que ele fez?” Algo dentro do loiro já sabia o que era. Aqueles olhares de desgosto...

“Teus tios voltaram de viagem domingo pela manhã e encontraram um homem de mais de trinta anos na cama com teu primo. É uma pouca vergonha!” Cíntia declamou, ofendida. “Eu jamais esperaria isso, sempre achei o Lázaro um bom menino, apesar de vocês dois não se entenderem. Não consigo acreditar que o Adriano e a Flávia o criaram para isso.”

“E está explicado o porquê! André, tu acertou em cheio em não se envolver com aquele ali. Estava certo o tempo todo, fico aliviado que-“

“Aliviado com o quê?!” André praticamente gritou, assustando aos pais. “Qual o problema? Ele é gay, e daí? Não foi por isso que eu não me dava bem com ele, e sim porque ele era um chato, não tinha nada a ver com a orientação sexual dele.” Defendeu, em parte, o primo. Cada uma daquelas palavras chocadas e desgostosas dos pais cravavam espinhos em seu peito.

“André, não erga a voz para nós. E tu me pergunta o que tem de errado? Tu sabe muito bem o que tem de errado! Teu primo precisa de um psicólogo, nenhum homem de verdade vai e acha bom dar a bunda para outro. Homem foi feito pra ficar com mulher, e vice-versa, qualquer coisa que fuja disso vai contra a natureza.” Heitor determinou, em um ar de ponto final. “Agora termine de comer e suba, antes que eu perca a paciência.”

André riu debochado.

“Tu deve estar ficando louco, né? Acha que eu ainda tenho dez? Onze anos? Pra mandar em mim desse jeito?” Perguntou cheio de escárnio, deixando o pai furioso e a mãe horrorizada. “Fica dois anos distante, mal me manda um email durante todo o tempo em que estive na Europa, e quer voltar pra essa casa e achar que pode sair jogando ordens pra tudo que é lado? E contra a natureza? Tu tem ideia de quantos animais praticam a homossexualidade na natureza?”

André se calou ao receber um tapa que lhe virou o rosto.

A bochecha latejou.

“É melhor tu me respeitar, guri insolente. É isso que acontece quando eu fico um pouco distante? Começa a desrespeitar aos teus pais? Foi isso que tu fez ao teu filho enquanto eu não estava por perto, Cíntia?” Heitor voltou-se aborrecido para a mulher.

“É claro que não. O André só deve estar estressado com o final do semestre na faculdade...” Cíntia tentou explicar, consternada ao ver o filho apanhar. “Não bata no nosso filho, Heitor.”

“Eu não bati metade do que ele merecia. Defendendo bichas agora? Não me diga que se tornou uma?” O pai o olhou incisivamente, e André chegou a transpirar. “Já chega disso, vá para o seu quarto e vamos fingir que essa conversa não existiu. Não quero mais ouvir o nome do teu primo nessa casa. O Adriano e a Flávia que se virem com o viado que criaram.”

André segurou a vontade de socar o pai. Saiu da mesa e praticamente voou escada acima até o terceiro andar, entrando em seu quarto e se trancando ali, fazendo questão de bater a porta. Sabia que discutir com o pai seria em vão e apenas deixaria Heitor e Cíntia desconfiados. Atirou-se na cama de barriga para cima e tapou o rosto com o travesseiro, suprimindo a vontade que tinha de gritar.

Como Lázaro havia sido idiota a ponto de continuar com aquele homem em casa, depois do susto que dera nele? Ou o susto justamente o deixara inconsequente, achando que os pais não apareceriam? Garoto estúpido, ele sempre havia sido meio burro e lento, e por isso André achava-o insuportável, junto com outras razões – também era falso e dissimulado. E agora deve estar pagando com juros por isso, o loiro pensou, momentaneamente penalizando-se. Seus tios também eram homofóbicos; aliás, parecia um mal de família.

E dois rapazes da ‘nova geração’ dos Santayana são gays, olhe que mundo irônico. André teve ganas de gargalhar, mas sua garganta estava apertada demais para isso. Seus pais haviam sido bons pais em vários quesitos, haviam lhe garantido educação, uma vida confortável, mas em outros... Eu deveria sair dessa casa. Ir morar sozinho. Pensou determinado. Mas com qual desculpa? Ainda dependia financeiramente dos pais, pois não trabalhava e a medicina ocupava seus dias quase por inteiro. Cíntia não iria querer que se mudasse.

Ficou com vontade de entrar em contato com o primo. Seria ele expulso de casa? Como ele estaria? Teria apanhado do tio Adriano? No entanto, não tinha intimidade nenhuma com o primo para ir conversar com ele e, até onde Lázaro sabia, ele continuava o mesmo filhotinho de homofóbico de antes. Como eu pude ser dessa maneira antes? Que nojo. Sentiu raiva de si mesmo novamente e socou o travesseiro, atirando-o longe.

E o pior é que ainda precisava estudar para a maldita prova de neurofisiologia e agora não tinha cabeça nenhuma para isso. Sentia raiva dos pais, dos tios, e era inevitável a preocupação com o primo, mesmo que continuasse não gostando dele.

Porque afinal, sentia que passaria pela exata mesma situação no futuro.

XxxX

Davi precisava ser sincero. Jamais imaginaria que André ligaria pedindo por sua ajuda. Essa certamente era a melhor vingança que poderia desfrutar depois da forma como ele agira – apesar de já o ter perdoado. Agora se dirigiam a um estúdio de depilação perto de sua casa, no bairro Bela Vista. Uma mulher de confiança, livre de preconceitos, um verdadeiro amor de pessoa, cujo apelido era Neca, era a dona do lugar. O bom era que ela atendia apenas uma pessoa de cada vez, em horários pré-marcados, ou seja, ninguém veria dois garotos entrando no estúdio.

“Eu juro que te odeio nesse momento. Muito. Demais. Absurdamente. Por que tenho de me depilar?” André perguntou. Não sabia por que estava sendo tão influenciável, porém Davi o havia assustado com certos detalhes, e como se sentia inseguro com aquilo tudo, estava caindo na ladainha dele. E outra, estava fazendo tal coisa simplesmente para desafiar o pai. Mesmo que o Heitor sequer desconfiasse com o que iria gastar sua parte de sua tarde.

“Por quê?! Ora, quando tu transava com garotas, tu gostava delas peludas lá embaixo? E é mais higiênico, sabe. Depois ele vai fazer um beijo grego e é melhor sem pelos. Pelo menos eu acho, né. Experimenta e depois tu vê o que acha. Depois vocês podem conversar sobre isso também.” Foi falando enquanto dirigia, para finalmente estacionar em frente ao estúdio camuflado. Apenas olhando, ninguém diria que o lugar era algo além de uma casa comum.

“Até parece que eu vou conversar com ele sobre isso. Imagina: “Fabrício, tu prefere cu com pelo ou sem?” ARGH, que raiva. Por que fui me enfiar num relacionamento gay?” Bufou inconformado, cruzando os braços sobre a barriga. “É tudo mais complicado, e ainda por cima serei o passivo.”

“Ué, mas se tu quer ser ativo também, vocês podem ser versáteis, oras.” Davi sugeriu com ar de obviedade entediada, e desligou o carro, descendo em seguida. André tirou o cinto e o seguiu, evitando comentar que, quando estava dando uns malhos com Fabrício, não conseguia nem pensar em ser ativo, só queria que o moreno o pegasse forte, o beijasse e... Eu não acredito que estou pensando nisso! Xingou-se com todos os palavrões de sua listinha especial – que não era nada pequena.

Quando Davi tocou a campainha, André tentou fugir.

“Eu não quero mais. O Fabrício que me tolere com pelos.” Deu meia volta, mas Davi segurou-lhe o pulso, rindo.

“Ah não, agora tu veio até aqui, fez eu perder o meu tempo, vai ir até o final!”

“Tu nem precisava ter vindo, era só ter me passado o maldito endereço!” André o acusou estreitando os olhos, mas já não tentava fugir. Por enquanto.

“E perder essa oportunidade? De jeito nenhum. Aliás, diretos iguais né? Se tu ‘tá aqui te depilando, pode mandar o Fabrício ir tirar o excesso de pelo também.” Davi comentou, afinal, havia feito certos pedidos ao Guilherme, pois não curtia pelo demais.

“Ele já é.... b-bem aparadinho lá embaixo e... Eu acho a-atraente como é.” André corou e gaguejou, desviando o olhar. Davi o olhou impressionado, jamais imaginaria que o loiro poderia ser tão fofinho.

Gargalhou sem conseguir se refrear, e foi fuzilado pelo olhar azul do outro.

“O que é tão engraçado?!” André vociferou, apertando os punhos.

“N-Nada não!” Davi exclamou em falsete, e foi quando a porta foi liberada para que entrassem. Chegaram aos fundos da casa onde havia um estúdio pequeno, mas arejado e bem limpo e organizado. Neca, que deveria estar pelos seus mais de quarenta anos, os recebeu com um sorriso repleto de simpatia.

“Davi, meu anjinho.” Ela foi dar beijinhos no garoto. “Veio acompanhar teu amigo, então? Ah, que graça. É a primeira vez, não é, André?” Ela já havia se interado do nome do loiro antes.

“É sim.” André disse infeliz, morrendo de vergonha, mesmo que fosse apenas a Neca ali, e Davi ainda houvesse lhe contado que ela era lésbica e morava junto com a mesma mulher há vinte anos. Era constrangedor ainda assim.

“Então, o que vai ser exatamente?”

“Ele quer ter a primeira vez com o namorado. Então faz o mesmo que comigo, que ‘tá perfeito.” Davi cantarolou indo se sentar para aguardar o loiro.

“Hei, espera! Como ela faz contigo!?” André quis saber, mas Neca começou a empurrá-lo para a salinha da tortura. Ou melhor, da depilação.

“Não se preocupe, meu bem. Isso nem vai doer muito. Vou te deixar prontinho pro teu namorado!” Neca garantiu exultante. Ela parecia ter um brilho sádico no olhar, ou era apenas impressão?

André estava quase gritando por socorro, mas ele gritou mesmo foi quando a mulher arrancou com a cera a primeira leva de pelos. Davi abafou a risada ao escutar o berro do outro que, basicamente, afirmava que seus dias estavam contados.

“DAVI, EU VOU TE MATAR!”

Davi pegou uma revista para ler.

XxxX

“Não. Não. Não. Não. Já chega, okay? Eu decidi, vou terminar tudo com o Fabrício assim que encontrar com ele.” André ia falando enquanto era arrastado por Davi até uma sex-shop.

Davi ignorou aquilo, sabia que o loiro não conseguiria terminar com o amigo de infância. Não depois do que ele lhe relatara. André havia lhe contado boa parte do que havia acontecido desde que ele e o Fabrício haviam se reencontrado. Afinal, era o mínimo que poderia fazer: explicar como de homofóbico acabara num relacionamento gay. Davi também contou sobre o Guilherme e, apesar de o loiro ficar bastante desconfortável com aquela conversa, o menor mantinha a naturalidade, o que ajudava a dissipar qualquer clima estranho.

“Tu tem que comprar lubrificante e camisinhas. Podemos comprar outros acessórios também. Depois passamos na farmácia pra comprar teu kit de enema.” Davi comentou com aquele ar de simplicidade que exasperava o loiro.

“Jamais deveria ter pedido pela tua ajuda.” André resmungou, infeliz. Principalmente porque Davi lhe explicara com mais detalhes como funcionava um enema, e ele não gostara nadinha, nadinha dessa história. Ele quase mandou Davi enfiar aquele enema no cu, mas bem, esse era justamente o propósito do acessório.

“Deixa de ser reclamão! Meu Deus, eu tinha me esquecido de como tu é dramático! Me pergunto como o Fabrício vai te aguentar, haja paciência naquele corpo, viu?” Davi exclamou e empurrou o loiro para dentro da sex-shop.

“Sou eu quem tem de aguentá-lo! Não o contrário! Que absurda a tua forma de pensar.” André declarou afrontado, e olhou ao redor, logo se deparando com um atendente um tanto estranho. Parecia um maníaco sexual, de barba longa, um colete de couro preto, calças de aspecto sujo, olhos negros e atentos. Havia um senhor sendo atendido pelo homem. André entreouviu a conversa. O senhor, que deveria ter seus sessenta anos, pedia por filmes pornôs.

Davi abafou uma risadinha.

“Quem hoje em dia ainda compra filmes pornôs?” André sussurrou para o Davi, que concordou.

“Aparentemente, o tiozão ali.” Davi foi pegar o lubrificante – aproveitando para pegar mais de um tubo e algumas camisinhas especiais, mais confortáveis para sexo gay. E capturou na estante também uns óleos que gostava de usar no Guilherme. André estava xeretando sobre seu ombro.

“O que é isso?” Ele sussurrou, como se falar alto ali dentro fosse perigoso.

“Uns óleos aromáticos, com gosto e que esquentam. Gosto de usar no pên-“

“AH! Não termine essa frase, por tudo que é sagrado nessa vida!” André exclamou dramático, esquecendo-se do perigo e tapando os ouvidos enquanto se afastava. Acabou batendo as costas no senhor que havia pedido pelos vídeos pornôs. Virou-se assustado e o velho o olhou de cima abaixo.

“Tu gosta de pornô?” Ele perguntou conspiratório, e André quis ir enfiar a cabeça numa privada.

“Erm... Não.” Falou para não dar mais corda ao homem. Ele o encarou com evidente desprezo por não ser um apreciador da maravilhosa indústria pornográfica.

“É, tu não tem mesmo cara de quem gosta de pornô.”Ele deu de ombros e se afastou, carregando feliz a sacolinha com seus recém adquiridos vídeos de putaria. André definitivamente queria apagar para sempre aquele dia de sua vida.

Davi saltitou até o balcão e pagou pelos produtos.

“Quando tu estiver mais soltinho, vamos vir aqui juntos para comprar outras coisinhas!” Ele sugeriu com um sorrisinho divertido que claramente debochava da cara do loiro, apesar do André saber que ele não estava debochando, falava sério sobre virem ali dali uns meses.

“Vai sonhando. Eu nunca mais vou repetir nada disso na vida.”

André não sabia do pior. Ainda tinham de passar na farmácia, porém felizmente Davi comprou o kit em seu lugar, não parecendo constrangido ao pedir aquilo à atendente. André se manteve afastado, para a moça não pensar que eram namorados.

“Pronto, André, depois de usar isso, não tem mais chance de passar cheque!” Davi exclamou alegremente quando saíam da farmácia.

“Passar o qu-? Ah, esqueça, prefiro nem saber.” André grunhiu ao entrar novamente no carro. É bom que o sexo seja incrível, memorável, espetacular, abissalmente gostoso, ou eu vou atirar o Fabrício no Guaíba depois das vinte e sete facadas que vou dar nele por me fazer passar por tudo isso em vão, resmungou mentalmente, mesmo que o Fabrício não houvesse pedido por nada daquilo.

Era melhor do que pensar que estava fazendo tudo por contra própria para agradar ao moreno.

“Então... Acho que terminamos. Como estão os fundilhos? Depilar nem dói muito né?” Davi, ao ligar o carro, perguntou, e isso que ele se depilava inteiro. Realmente não gostava de pelos, só gostava dos do namorado, e olhe que ainda o mandava aparar.

“Nem dói? NEM DÓI?” André exclamou alterado, virando-se no banco do carona para fuzilar o Davi, só não o matava ali mesmo porque ele já colocara o carro em movimento. Davi se encolheu um tanto. “Está tudo latejando até agora!”

“Ah, tu mal deve ter pelos, já quase não tem nos braços e nas pernas. Deixa de ser exagerado. Eu te ajudei, não ajudei? Gastei minha tarde de quarta-feira pra isso.” Davi disse de uma forma que deixava claro que esperava algum agradecimento.

Que obviamente não aconteceu.

“E não se esquece de usar aqueles cremes que compramos. Não vai querer a região irritada, coça e fica desconfortável, sabe? Tem que deixar hidratado.” Davi complementou, sábio.

André bufou sonoramente e afundou no banco.

XxxX

Fran olhou chocada para a amiga.

“Como assim vai ir pra Pelotas esse final de semana?” Perguntou desconfiada.

Gabriella corou e passou a mão pelos cabelos ondulados, forçando uma risada.

“Vai eu e o Beto. Já combinei com ele.”

“Tu vai ir encontrar a Daniela? Vocês estão em alguma espécie de relacionamento à distância, ou coisa parecida?” Fran perguntou ainda sem acreditar. Apenas havia visto ela e Daniela se beijando naquela festa na piscina, não achou que elas continuariam dali.

“Beto quer muito ir ver o Milo. E eu... A Dani me convidou para ir lá, conhecer a cidade. Será legal!” Sorriu larga e inocentemente, e Fran suspirou. Não gostava da Daniela, mas estava na hora de aceitar que a amiga gostava, e talvez até de uma maneira diferente. Sabia que não gostava por preconceito prévio e por ciúmes da amiga, mas sempre tivera dificuldade de mudar de opinião depois que pegava antipatia por alguém. Era um defeito seu.

Sentaram-se num dos bancos de pedra que se espalhavam pelo Campus Centro após a aula de histologia, aproveitando o solzinho da tarde que ajudava a amenizar o frio antes da aula de fisiologia dali a vinte minutos. Começaram a discutir sobre o final do semestre. Ainda tinham umas cinco semanas de aula, e várias provas pela frente. Só de pensar, sentiam-se cansadas.

“Ao menos não pegamos recuperação em neurofisiologia. Agora quero ir na festa dos cem dias pra comemorar!” Gabi decidiu. A festa dos 100 dias tinha esse nome, pois era feita pela ATM cuja formatura seria dali a cem dias. Todas as festas da medicina eram feitas por alguma ATM, com objetivo de conseguir dinheiro para a formatura.

“Ah, mas a festa dos cem dias é à fantasia. Já usei a única fantasia que eu tinha lá no Intermed.” Fran fez beiço.

“Isso dá-se um jeito. Oh, ali os guris!” Ergueu o braço e fez sinal para os três, que se aproximaram junto com outros dois colegas, João e Chico. “Guris, vocês vão no 100 dias?”

“Bah, eu não vou.” Chico falou com uma carinha triste. “Vou viajar pra Canela esse final de semana. Ver a família.”

Gabi lhe mostrou língua.

Rafael sentou-se ao lado da Fran, passando um braço pela cintura dela. Estavam ficando, mas geralmente não passavam desses carinhos eventuais na faculdade. Fran corou sem jeito, mas sorriu. Rafael havia tomado uma atitude e convidado a garota pra sair logo depois do Intermed, e ela não conseguira recusar. Foram ao cinema e depois a um barzinho, acabaram ficando novamente, e estavam nessa desde então.

André se sentou também, Fabrício ficou em pé em frente a eles.

“Bah, loucura gurizada, tinha até esquecido! É essa sexta? Ah, eu vou, quando eu não vou? Vamos sim, né? Ou não?” Fafá disse daquela sua maneira que não confirmava nada.

“Eu não ‘tava muito a fim de colocar uma fantasia de novo, mas se vocês forem, eu vou também.” André assentiu, apoiando um braço no ombro da Gabi, que o empurrou no mesmo instante.

“Eu acho que vou de super-homem. O que acham? Eu com aquela cuequinha? Ninguém vai conseguir manter as mãos longe.” João falou. Sempre falava bobagens e fazia-se de irresistível, apesar de ele mesmo admitir vez ou outra que não era nem de perto o que dizia ser.

“Vai nessas, JP.” Fran revirou os olhos.

“É mais fácil não te deixarem entrar na festa.” Gabi alertou.

André pegou o celular quando ele vibrou no bolso. Olhou o facebook e viu que um dos colegas avisava que não haveria aula de fisiologia, pois a professora fora para um congresso de endocrinologia e não conseguira um substituto. Depois da neurofisio, viera a fisioendócrino, que também era difícil, mas zilhões de vezes mais fácil comparada à primeira. Quando avisou aos colegas que estavam liberados da aula, foi aquela festa, todos contentes por poderem ir para casa antes das três da tarde, em vez de saírem de lá às seis.

“Tu quer ir lá em casa agora?”André perguntou num sussurro ao Fabrício. “Meus pais não vão estar lá...”

Fabrício não precisou pensar duas vezes.

XxxX

André sentiu falta de chegar em casa e ser recepcionado por Sascha, como acontecia desde que entregara o cachorrinho aos tios do Fabrício. Olhou para o moreno quando desceu da moto, vendo-o tirar o capacete. Agora sempre levava um capacete extra no pequeno compartimento de carga da moto — às vezes precisava dele para carregar livros ou outros materiais.

“Deveríamos ter ido pros teus tios, eu poderia ver o Sascha.” Comentou, chateado.

“Podemos ir agora, eu não me importo.”

“Hmmm... Não, mas eu quero ter um tempo apenas nós... Erm... Bem, vamos entrar logo.” Disse caminhando para dentro da casa. Subiu direto para o segundo andar ao perceber que a Amélia estava na área de lazer mais abaixo, passando roupa. Jogou-se no sofá da sala de estar puxando Fabrício junto. “Que saco, me esqueci da empregada.”

“Ela é fofoqueira?” Fafá perguntou divertido, sentando-se propositalmente próximo do loiro.

“Não sei, mas se meus pais perguntarem alguma coisa, ela vai contar.” André não duvidava, afinal, eram eles que pagavam o salário dela. Mordeu o lábio ao perceber que o moreno começara a acariciar seu rosto e cabelos com a ponta dos dedos.

“Podemos ir pro quarto.” Fafá comentou como quem não quer nada, o timbre suave e próximo, e roçou os lábios em sua orelha. Pinicou, e André se encolheu. Aquela barba por fazer sempre lhe causava arrepios. Puxou fundo o ar antes que os lábios do moreno cobrissem os seus, num beijo lento, mas quente. Segurou-lhe a nuca, arqueando levemente a coluna ao sentir a mão dele acariciar-lhe o abdômen.

Fabrício virou mais o corpo, aproximando mais seus corpos e afundando a língua na boca do loiro de tal forma que a cabeça do André foi forçada para trás e afundou uns centímetros no estofado. André segurou a cintura do Fafá, quase se esquecendo de que não estavam sozinhos naquela casa, mas assim que se lembrou, afastou o rosto suavemente, corando ao ver o moreno sorrir, de olhos ainda fechados, como se ainda aproveitasse a sensação deixada por aquele contato.

“Hmm... Tem certeza de que não quer pro quarto?” Fafá perguntou baixo, num sugestão rouca, ao voltar a aproximar os lábios da orelha do loiro, roçando-os na bochecha e pescoço do André. Este se eriçou inteiro, sua jugular pulsando de uma maneira que poderia ser considerada patológica.

“Estou te devendo uma música!” Se levantou rapidamente, lembrando-se daquilo ao olhar para o piano de cauda da sala. Foi até ele e se sentou no banquinho, quase feliz por ter alguns minutos para se acalmar. E, de qualquer forma, tinha aquilo em mente quando convidara o moreno. Fabrício logo se sentava ao seu lado. “Tu quer que eu toque agora...?”

“Claro! Eu tinha esquecido que tu ‘tava me devendo uma música. Tu fica muito bonito tocando, quando tocou Epitáfio pro Davi, eu adorei...” Fafá sorriu largamente, ar de meninão quando André o olhou de esguelha, meio constrangido com o elogio, mas ao mesmo inflando as narinas com orgulho.

“Realmente, eu toco muito bem, mas já treino há oito anos, tocar bem seria o mínimo depois de tanto tempo, ou eu já teria desistido.” Endireitou as costas, adquirindo uma aura pomposa. Fafá riu do jeito esnobe do loiro, que de certa forma tentava esconder o constrangimento. Ele ainda não sabia lidar bem com seus elogios. “Eu treinei essa música essa semana pra tocar pra ti...” André admitiu, e mordeu rapidamente o lábio inferior. “Só lembre que eu não canto nem um terço tão bem quanto tu.”

“Eu gosto da tua voz.” Fafá sussurrou ao ouvido do loiro ao passar um braço pela cintura dele.

André sentiu um formigamento espalhar-se por sua orelha e regiões próximas, mas se aprumou novamente, pigarreando. Esticou os dedos finos e longos, considerando que a palma era pequena, e começou a passear pelas teclas, como se conversasse com elas. A música Fafá reconheceu rapidamente, apesar de mais acústica – Use Somebody, do Kings of Leon.

I've been roaming around

Tenho andado por aí

Always looking down at all I see

Sempre menosprezando tudo que vejo

Painted faces, fill the places I can't reach

Rostos pintados, preenchendo lugares que não alcanço

You know that I could use somebody

Você sabe que eu preciso de alguém

You know that I could use somebody

Você sabe que eu preciso de alguém

André cantava calmamente, envolvido pela música, seus dedos seguindo as teclas como se elas os chamassem e adorassem seu toque suave e gracioso. Sua voz era um pouco mais aguda que a do Fabrício, mais sussurrada enquanto cantava, mais cuidadoso ao articular cada palavra ritmada, esforçando-se para manter a afinação, mas nem por isso tornando a canção forçada. Pelo contrário, dedicava-se aquilo com atenção, cuidado, sem pressa, sentindo a canção, e Fabrício o achava lindo daquela forma.

Someone like you, and all you know, and how you speak

Alguém como você, tudo que você sabe, como você fala

Countless lovers under cover of the street

Amantes incontáveis disfarçados nas ruas

You know that I could use somebody

Você sabe que eu preciso de alguém

You know that I could use somebody

Você sabe que eu preciso de alguém

Someone like you

Alguém como você

Someone like you

Fabrício estava se emocionando com aquilo. Aquela letra era tão linda e, de fato, parecia se encaixar tão bem para o loiro. Para os dois. André o olhou de esguelha no momento de pausa, as bochechas visivelmente avermelhadas, e Fabrício suspeitava que as suas não estavam muito diferentes. Sorriu para o loiro, que desviou rapidamente o olhar, continuando a cantar, agora de olhos fechados e a testa vincada em concentração. Mas Fafá percebeu que ele estava se esforçando para não sorrir também e perder o ritmo da música. Seus dedos tremiam de leve, apesar de não errar o ritmo, ou as teclas.

Off in the night, while you live it up, I'm off to sleep

Saio andando pela noite, enquanto você vive, vou dormir

Waging wars to shake the poet and the beat

Começando guerras para sacudir o poeta e a batida

I hope it's gonna make you notice

Espero que isso faça você notar

I hope it's gonna make you notice

Espero que isso faça você notar

Someone like me

Alguém como eu

Someone like me

Alguém como eu

Someone like me, somebody

Alguém como eu, alguém...

Fabrício estava com uma vontade irresistível de tocar o rosto absorto do loiro, sentir a pele macia na ponta de seus dedos, beijar as bochechas avermelhadas ou os lábios rosados com os seus. Abraçá-lo... mas sabia que isso o atrapalharia, então se conteve, concentrando-se em apenas olhá-lo e deixar a música fluir entre os dois.

I'm ready now, I'm ready now, I'm ready now …

I'm ready now…

I'm ready now, I'm ready now, I'm ready now …

I'm ready now…

Estou pronto agora…

I've been roaming around

Always looking down at all I see…

Painted faces, fill the places I can't reach

You know that I could use somebody…

André terminou a canção, deixando os dedos descansando sobre as teclas – eles ainda tremiam –, e respirou fundo antes de encontrar coragem de abrir os olhos e olhar para o moreno. Assim que o fez, viu-o sorrindo e o olhando de uma forma que espalhou uma emoção lancinante, quase deliciosamente sufocante, por seu corpo. Suas coxas se tocavam, sentados lado a lado como estavam, e Fabrício ergueu a mão e tocou-lhe o rosto, de uma maneira doce.

“Vou dar um jeito de te cobrar mais músicas.” Fafá garantiu, sorrindo. André sorriu de volta, sentindo aquela tensão pré-beijo instalar-se entre eles. Sentiu como se fosse beijá-lo pela primeira vez, suas mãos suavam e o coração batia convulso. Queria mais que tudo beijá-lo, seus lábios formigavam e já podia sentir o perfume do moreno inebriando seus sentidos.

Mas pulou pra trás, quase caindo do banco, ao ver Heitor subindo as escadas, e parando ao encontrar os dois rapazes.

“P-Pai? O que está fazendo aqui?!” Perguntou, a voz falha e os olhos completamente arregalados.

XxxX

[...]

Heitor chegou de Porto Alegre e perguntou à Cíntia onde estava o filho. Ela acabou admitindo, depois de tentar desviar o assunto, que ele estava provavelmente na casa do filho dono da padaria da cidade. Padaria! Heitor brigou com a mulher, não gostava de gente de classe baixa, achava-os péssima influência para o filho tão novo. A cada dia tinha mais certeza de que precisavam se mudar para a capital, onde o filho teria uma educação mais adequada e entraria em contato com amigos de pais mais abastados. Não a ralé.

Foi até a bendita padaria por ele próprio e, ao entrar, deparou-se com o garotinho, filho do padeiro, tentando tocar alguma coisa no violão para o André, que estava sentado no sofá numa área mais aconchegante do lugar, bastante atento e curioso. O menino, que deveria ter a idade de André – nove anos – começou a tocar e cantar.

Já sei namorar
Já sei beijar de língua
Agora só me resta sonhar
Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora só me falta sair

Heitor achou a escolha da música um absurdo para crianças daquele tamanho. Mas por algum motivo, continuou observando a cena, com curiosidade. O garoto moreno se atrapalhou pela metade da música e esqueceu o resto da letra. Reclamou, mas André apenas riu, e olhou curioso para o rapaz.

“Mas então...Tu já sabe namorar e beijar de língua?” O loiro perguntou, repleto de inocência. Fafá corou e coçou os cabelos, sem saber muito bem o que dizer. Era evidente que nunca fizera nenhuma daquelas coisas.

“Já.” Ele disse mesmo assim. “Eu sei beijar de língua!”

“Duvido!” André disse sem acreditar, empinando o nariz. “Nunca que tu vai aprender a fazer alguma coisa antes de mim!”

“Mas ‘tô falando a verdade!” Fafá garantiu, meio envergonhado por ter mentido. Num rompante de impulsividade, segurou o rosto do loirinho. “Vou te provar!”

André arregalou os olhos, mas na curiosidade inocente da infância, ficou parado e entreabriu a boca. Foi puxado pelo braço antes que o Fafá se aproximasse.

“Que pouca vergonha é essa?” Heitor perguntou, furioso com o que havia visto. Seu tom atraiu o pai do Fabrício, Lucas, que estivera atendendo a uma cliente no balcão.

“Algum problema por aqui, Sr. Heitor?” Ele perguntou educadamente. Aquele homem era o mais rico e influente da cidade, obviamente que o conhecia.

“O seu filho estava tentando dar um beijo de língua no meu. Bem na sua cara. Uma pouca vergonha!” Rosnou para o outro, torcendo os lábios.

“Devia ser apenas brincadeira de criança, não tem porque ficar tão irritado e ofendido. Eles nem deviam saber direito o que faziam.” Lucas tentou apaziguar os ânimos do homem.

“Pode ser brincadeira para ti, mas eu não vou deixar meu filho na presença de um gayzinho que está claramente tentando influenciá-lo para o mau caminho. Tenha uma boa tarde.” Disse, apesar de não ter um pingo de educação na voz, e arrastou o filho para fora da padaria, não se importando com o brilho irritado que queimou nos olhos negros do dono do lugar.

Quando estavam no carro, Heitor olhou para o filho pelo retrovisor.

“Tu nunca mais – nunca mais – faça uma coisa dessas. Beijar outro garoto é errado, eu já te disse isso antes, mas parece que tenho de reforçar. É bom que não permita algo assim de novo, ou vou ter de te corrigir na base de surra.” Deixou bem claro pra o filho.

André estremeceu e assentiu, segurando o choro. Tinha muito medo do pai quando ele usava aquele tom.

“E não quero que se encontre mais com aquele garoto. Ele é má influência.”

André concordou novamente, em silêncio, mas isso ele sabia que não poderia cumprir. Motivo por que o pai acabou tão irritado ao flagrá-lo uns meses depois descendo a lomba com o mesmo rapaz, logo antes de se mudarem para Porto Alegre, algo que Heitor começara a planejar desde aquele primeiro flagra.

Notas finais
SOCORRO! *fugindo de tudo e todos* Só digo uma coisa: Até o próximo cap.! E feliz páscoa!!! Beijos!