Good Riddance

6 Idiota intolerante


Depois da aula primeira aula de Integração Básico-Clínica, que havia sido sobre reanimação cardiorrespiratória, no prédio de psicologia perto da FAMED, Fabrício viu André andando mais à frente pelo caminho arborizado em direção à saída para a Ramiro Barcelos e deu uma corridinha até ele, depois de fazer um sinal para Gabi, Fran e Rafael.

André estava na companhia de outros dois garotos, quando foi assaltado por Fabrício, este logo passando um braço por seus ombros, o que fez o loiro se inclinar para frente pelo súbito peso extra. Era perto do meio-dia agora, e o estômago de Fabrício estava satisfeito com a ideia de almoçar do RU da saúde — isso se refletia em seu sorriso animado abrilhantando o rosto com a sombra de uma barba.

“E aí? Já sabe como me reanimar quando eu tiver uma parada?” Perguntou para André, propositalmente desacelerando o passo para que os outros dois garotos seguissem sem eles.

“Nós não tivemos a aula prática ainda.” André rebateu. “Mas de qualquer maneira, tu eu provavelmente não me daria ao trabalho de reanimar.” Tirou o braço de Fabrício de cima de seus ombros.

“Estou vendo que estamos amigos de novo, já que tu já se sente à vontade para me matar.” Fabrício rebateu com um sorriso sarcástico.

“Te matar não.” André dialogou calmamente. “Te deixar morto. É bem diferente.”

“Claro que não! Se um médico tem o poder de salvar alguém e não o faz, pode ser acusado de homicídio.” Fabrício argumentou.

“Tu ouviu isso de quem?”

“Sei lá, mas é assim.” Garantiu, e André deu de ombros, colocando a mão no bolso. “Tu vai participar do trote hoje? É gincana na Redenção, e é o último dia. Amanhã não tem mais.”

André abriu a boca para soltar um ‘não!’ bastante sonoro, afinal, não queria se sujar e se submeter a mais das brincadeiras dos veteranos. Já não bastava ter-se fantasiado de bombeira sexy e rebolar na frente de todo mundo? Porém, ao olhar para a cara pidona de Fabrício, acabou por soltar um suspiro. O que havia naquele garoto, que era tão fácil ir ‘na onda’ dele?

“Posso ir dar uma olhada.” Comentou displicente, não dando importância ao assunto.

“Vamos ficar na mesma equipe!” Fabrício cantarolou, satisfeito com a resposta do loiro, porque, uma vez que estivesse lá, não teria como fugir. Um sorrisinho diabólico chegou a surgir no canto de seus lábios, mas rapidamente tratou de disfarçá-lo.

Acabaram indo juntos para o RU, e na fila se juntaram aos amigos de Fabrício. André notou que o moreno e Gabi pareciam ter uma intimidade ímpar, que Fran tinha um ar sério, mas este subitamente sumia quando ela lançava umas piadas ou frases hilárias nos momentos mais inesperados, e que Rafael tinha um jeitão introspectivo e caladão, porém quando falava atraía a atenção de todos – talvez por ser uma raridade ouvir-lhe a voz.

“Então, vocês ficaram sabendo?” Gabi perguntou assim que todos se sentaram numa das várias mesas do restaurante, cada um com sua badeja enorme em frente. Os garotos e garota olharam para ela em interrogação. “Vai ter uma festa semana que vem! Vai ser ali no Direito, aberta pra geral, não tem que pagar nada, porque vai ser ao ar livre mesmo. Vamos?”

“’Bora.” Fabrício falou de imediato. Era do tipo que sempre estava disposto para tudo, parceria para todos os momentos, tanto que havia sido difícil se manter caseiro e estudioso no ano anterior. “Tu vai, André? A Fran nunca vai em nada, nem o Rafael, por mais que eu insista. É sempre eu e a Gabi...”

“Tem tempo ainda. Semana que vem eu te digo.” André disse, não conseguindo de novo negar completamente. Gostava de festas, não tinha nada contra sair de noite nos finais de semana, só queria ver se essa festa seria mesmo boa, afinal, era aberta para todo mundo e poderia ser uma baita ‘rafuagem’. E André odiava essas bagunças com gente bagaceira e sem-noção.

Já Fabrício por outro lado deve adorar! Pensou, mastigando um pedaço meio duro de carne.

XxX

Depois da última aula do dia, Histologia, que acabou pelas duas e meia da tarde, todo o pessoal foi ‘capturado’ pelos veteranos. De novo tiveram que andar em 'elefantinho' até o Parque da Redenção, que felizmente não era muito longe do Campus Centro. Lá o pessoal havia preparado uma gincana com várias brincadeiras envolvendo tinta e situações constrangedoras.

Fabrício e André ficaram no mesmo time, e André, mesmo depois de acabar todo sujo por causa de uma guerra de bexiguinhas repletas de água com tinta, também acabou se divertindo. Só não gostou quando chegou a brincadeira mais constrangedora do dia.

Sobre uma lona escorregadia com água e tinta, duplas de cada equipe tinham que encenar posições sexuais, e estourar um balão entre as partes íntimas. E precisava ser com pessoas do mesmo sexo. É claro que Fabrício escalou André para ir com ele.

Ganhava quem fizesse a posição mais engraçada e difícil.

“Então, faremos assim: tu deita do chão e tenta jogar tuas pernas em direção à cabeça, até teus pés baterem no chão, aí eu coloco o balão atrás de ti, subo em ti e estouro.” Fabrício explicou, antes de chegar a vez dos dois. André arregalou os olhos e se engasgou ao perguntar:

“O quê?!” Quase teve uma crise de tosse.

“Meio fraco, né? ‘Tá, mas não ‘to conseguindo pensar em outra coisa, parece que todo mundo já fez tudo.” Fez bico, inconsolável com a ideia de não conseguir pensar em algo criativo.

Não era por achar a ideia fraca que André havia ficado tão boquiaberto.

“Por que tu não deita na lona e eu fico por cima de ti, então?” Sugeriu.

“Não! Tive outra ideia!” Uma lâmpada pareceu acender sobre a cabeça de Fabrício. “Eu faço uma ponte, sabe? Deito na lona e me ergo formando uma ponte, aí tu pega minhas pernas e ergue elas, e põe o balão e- porra! Acabaram de ter a mesma ideia que eu." Olhou inconformado para a dupla que fazia exatamente o que tinha pensando. "‘Tá, ficamos com a outra, mas acho que vou me posicionar em cima de ti pelo lado contrário, para dar uma inovada.“ Fabrício deu de ombros; nem havia escutado a parte sobre André querer ficar por cima.

No segundo seguinte foram chamados, e Fabrício foi empurrando André até que ele cambaleasse para cima da lona e acabasse caindo de bunda, escorregando na tinta. Os veteranos e colegas riram, mas André mal conseguiu prestar atenção. Por algum motivo seu coração estava acelerado quando Fabrício segurou seus tornozelos e ergueu suas pernas, puxando-as até que a ponta de seus pés batessem na lona acima de sua cabeça. Fabrício tinha força, e se movia com agilidade.

Fabrício pegou o balão do veterano num malabarismo, e foi para trás do loiro. Apenas o início da coluna de André, próxima ao pescoço, estava no chão, o resto tudo estava erguido.

Fabrício colocou o balão sobre a bunda do loiro e ‘encaixou-se’ a ele, pressionando até que o balão estourasse, sob incentivos dos que os observavam. André engoliu a expressão assustada, mas as coisas realmente ficaram complicadas quando ele sentiu uma fisgada estranha nas entranhas, como andar em uma montanha-russa cheia de curvas e quedas. Ficou grato quando o balão explodiu, e se ergueu rapidamente quando Fabrício se afastou, rindo.

Sem dizer nada, distanciou-se rapidamente de tudo aquilo, querendo um momento de paz; mas Fabrício seguiu-o logo depois.

“Hei, tu ‘tá bem?” Tocou-lhe o ombro e o segurou, impedindo-o de continuar se afastando. André se virou com um sobressalto e se afastou do toque, ainda agitado. Não entendia aquela sensação, parecia ter corrido uma maratona.

“Estou indo para casa.” Declarou. “Até amanhã.”

“Mas-“ Fabrício ainda o seguiu alguns passos, porém André caminhava veloz e determinado em ir embora. O moreno franziu as sobrancelhas, mas não queria perder o resto da gincana. Se saísse também, seu time ficaria desfalcado demais, não podia prejudicar os colegas, por mais que quisesse saber o que se passava com André.

Suspirou e voltou para junto dos amigos. Sua equipe não foi das melhores, mas acabou por se divertir. Ao final, todos foram obrigados a entrar na grande fonte no centro do parque, que jorrava água até uns dez metros de altura. A água não era das mais limpas, mas todos já estavam sujos de qualquer maneira.

“Ai, que nojo!” Gabi se sobressaltou quando formaram uma roda ao redor do centro da fonte, de onde a água jorrava. “Tem um mendigo nadando aqui nessa água!”

Fabrício riu.

“Acho que ele ‘tá te convidando para ir nadar também, olha ali! Ele gostou de ti.” Apontou e Gabi soltou um gritinho de nojo abafado e se abraçou a Fabrício, ao ver o Mendigo não muito longe, sorrindo-lhe e piscando ao mandar beijocas.

“Agora todo mundo cantando!” incentivou o veterano, William, que entrara com eles dentro da água, para guiá-los. “Hoje é o último dia de trote, cantem bixos!!!”

E seguiram cantando:

Chora bixarada, bixarada chora, chora bixarada que chegou a tua hora! Bixo não é gente, bixo não é nada! Bixo leva trote e veterano dá risada!

Misturado com:

Acetilcolina! Eu estudei e passei em medicina! Braquiorradial! Eu estudei e passei na federal!

XxX

André, depois de chegar em casa e tomar um longo banho, foi para o quarto assistir a mais alguns episódios da temporada de House. Por algum motivo havia decidido assistir a seriados médicos depois de entrar na faculdade. Não que achasse que eles possuíssem alguma didática, mas talvez houvesse ali algum fundo de verdade. E, para ser sincero, havia se identificado com House. Não achava que teria muita paciência com os pacientes...

“Fabrício com certeza vai ter.” Ponderou, enquanto olhava para a tela da televisão do home teather que possuía no quarto; seus braços atrás da cabeça para lhe dar apoio. “Ele provavelmente vai ser aquele médico sorridente que todo mundo adora.”

E de novo estava pensando no ex-melhor amigo de infância. No dia anterior, depois do trote à fantasia, haviam ido juntos, com algumas outras pessoas, comer no Mcdonalds. Conseguiram conversar um pouco mais, mas logo Fabrício já se perdia na conversa com toda a galera.

“Ele fala demais...” Murmurou, já mal prestando atenção no seriado. “Nunca gostei de pessoas muito espalhafatosas e extrovertidas. Geralmente são falsas porque tentam ser legais com todo mundo...”

Mas no fundo sabia que esse não era o caso do Fabrício. Ou achava que não. Mas implicava que era esse o caso. O que verdadeiramente sabia, era que não aguentava mais se distrair por pensar nele. Inclusive sonhara com o moreno dançando Lady Gaga em seu quarto na noite passada!

“Fiquei traumatizado.” Explicou para si mesmo. “Foi uma visão dos infernos...” Mesmo sendo uma visão dos infernos, André alcançou o celular e assistiu de novo o vídeo do amigo dançando. Acabou soltando risadas contidas novamente. Era impossível não rir daquilo.

Uma batida na porta o distraiu.

“Entra!” Disse, e logo a silhueta da mãe surgia na porta entreaberta.

“Filho, o Davi está aqui.” Ela abriu espaço e um garoto adentrou no quarto. Era um rapaz de cabelos cor de mel e olhos verde-claríssimos, magrelo e um pouco baixinho. Havia sido colega de André no colégio; era um de seus melhores amigos.

“Oi, Davi!” André se sentou na cama.

Cíntia logo avisou que iria mandar a empregada preparar uns lanchinhos e trazer aos dois. Assim que ela saiu e fechou a porta, Davi se aproximou um pouco mais da cama. Parecia nervoso, e André ergueu uma sobrancelha, curioso.

“O que aconteceu? Tu não parece bem.”

“Eu... Eu vim para te contar uma coisa, André. Eu decidi que não vou esconder mais dos meus amigos, até porque... Estou namorando agora.” Falou baixo, ainda constrangido de olhar diretamente para o loiro. Parecia sentir medo dele. André não entendeu nada daquilo.

“Está namorando? Bah, mas quem diria! Logo tu que nunca vi pegar nenhuma garota?” Riu. Era mentira, já havia visto Davi ficar com algumas meninas, mas bem poucas. Talvez duas. Não entendia o que havia de errado em namorar. “O que foi? Ela é feia? Pobre? Chata? Gorda?” Tentou adivinhar. Davi era igualmente rico, todo o círculo de amizades de André era.

Bem, quase todo o círculo...

“Não, não é nada disso.” Davi balançou a cabeça e, com um suspiro, ergueu o olhar para André. “Falo porque tu é meu melhor amigo, e espero que me entenda, porque meus pais nunca vão me entender.”

André ficou sério também, sentindo que o que Davi tinha para falar não era uma brincadeira. Ele viera até ali especialmente para aquela revelação.

“Pode falar.” André incentivou, ao que Davi assentiu.

“Não é uma guria.” Explicou. “Estou namorando um guri. André, eu sou gay.”

Lentamente, os olhos de André se arregalaram e o queixo se entreabriu. Não conseguiu assimilar aquilo. Por mais que Davi fosse bonitinho e tímido, ele não tinha nada que desse alguma dica de que era gay. Nunca falara algo que o denunciasse. Inclusive, já havia ‘menosprezado’ alguns homossexuais antes quando estavam juntos e viam algum assumido. Porque a família dele, como a de André, era conservadora e preconceituosa. Era assim que André havia sido criado, acreditando que aquilo era errado, nojento, algo que não podia ser chamado de normal.

E agora seu melhor amigo lhe dizia que estava namorando alguém do mesmo sexo. Não conseguiu lidar com aquilo. Lembrou da sensação que sentiu à tarde, que o deixara desnorteado por um bom tempo, e foi como levar um soco nas fuças. Era como se Davi estivesse tirando uma com a sua cara. Sua expressão endureceu, adquirindo certo ódio.

Levantou da cama e foi até a porta, abrindo-a.

“Vai embora.” Mandou, seco. Davi se virou, arregalando os olhos também, uma expressão magoada imediatamente tomando seu rosto.

“Mas, André-“

“Vai embora, Davi! Mas que merda! Minha casa não foi feita para gente como tu! Isso é uma casa de família, e não um antro de bichas! Agora vaza!” Gritou.

Os olhos de Davi umedeceram. Era visível o quanto aquela rejeição o machucava, pois já tinha poucos amigos, e os pais o expulsariam de casa se soubessem. André era seu melhor amigo... Achava que ele poderia aceitá-lo, ao menos ele. Levantou-se da cama e andou alguns passos até a porta.

“Achei que fôssemos amigos.” Sussurrou, parando ao lado dele.

André sentiu um aperto enorme na garganta, como se algum gigante houvesse colocado as mãos ali e agora o sufocasse pouco a pouco. Seus sentimentos eram conturbados demais; uma raiva seca o invadia, e simplesmente não podia aceitar que seu melhor amigo fosse gay. Não Davi! Já até havia se trocado na frente dele nas vezes em que haviam, por exemplo, acampado juntos quanto subiam a serra nas férias de julho. Como poderia se sentir confortável perto de uma bicha? Como poderia ser amigo de alguém assim? Era desprezível.

“Se tu queria que continuássemos amigos, não deveria ter me contado. Tu pode me procurar de novo quando tomar algum juízo e desistir de dar a bunda para outro cara.” Não sabia por que, mas tinha a impressão que Davi seria a ‘fêmea’ da relação.

Davi não aguentou aquilo. Não conseguiu nem retrucar, xingá-lo, ou algo do gênero. Estava na casa dele de qualquer forma, não podia arranjar uma briga justo ali. Então simplesmente saiu do quarto e praticamente correu até a porta de entrada da casa de três andares daquele bairro nobre.

Já André bateu a porta e atirou-se na cama. Levou as mãos até o rosto, esfregando-o, como se tentasse se livrar de algo que o sujava. Soltou um urro de raiva e agonia, um misto de culpa e nojo de si próprio o enchendo.

“Ué, cadê teu amigo, André?” Perguntou a empregada, ao aparecer com uma bandeja com sanduíches e suco e encontrar apenas o patrãozinho deitado na cama, de olhos fechados e testa enrugada, como se tentasse resolver mentalmente uma difícil conta de matemática.

“Foi embora. Pode levar o lanche. Eu não quero.” Replicou, sem emoção.

Aquele definitivamente não havia sido um bom dia.

Notas finais
Posição do André e do Fabrício: http://sphotos-f.ak.fbcdn.net/hphotos-ak-ash4/428325_342191022491525_608361195_n.jpg E aqui a galera dentro da fonte: http://sphotos-e.ak.fbcdn.net/hphotos-ak-ash3/531781_266338283453396_1057787540_n.jpg . André, que isso, menino? Não foi assim que eu te eduquei! UHUHUAHAU! Ai, tadinho do André, tanto a aprender e amadurecer ainda... Cabecinha tão limitada! . Obrigada a todos que estão comentando: Bruna Uzumaki, RayUzu, Nymeria, Nath, Guilherme Vier, Pandora Beaumont, Okumura Yui, Mayan, menina dos olhos, Diana R Barros! ♥ . Beijão!