Good Riddance
8 Eu Dançaria Tango no Teto
Notas iniciais
"Tu acha que há um grande significado por trás das estrelas?" Perguntou Fabrício, sentado na beira do lago com os pés dentro da água. Começava a escurecer e as estrelas despontavam no céu. Eles estavam meio úmidos, mas o dia e a noite quente faziam com que as roupas secassem rápido.
André olhou para o céu com os olhos semicerrados, tentando encontrar algum significado nos pontinhos luminosos que se erguiam lá no alto. Não encontrou nenhum e se sentiu incomodado por não ter uma resposta para dar ao amigo. Então mentiu, como se pudesse ler grandes descobertas naquela disposição de pontos que não lhe diziam nada.
"Tem sim," Disse, e apontou para um grupo de estrelas. "Está vendo aquelas três? Se tu juntar os pontos, elas formam um triângulo. Isso quer dizer que... Nós sempre temos três caminhos diferentes para... Escolher na vida!" Completou, orgulhoso por ter encontrado algum significado.
A expressão de Fabrício tornou-se impressionada e ele estava de queixo caído.
"Uau, eu nunca iria pensar numa coisa dessas. E quais são os três caminhos?" Perguntou Fabrício sem desgrudar os olhos do céu, ainda tentando localizar o tal triângulo.
André deu de ombros.
"Aí depende da situação, não é? Não posso saber de tudo." Desconversou o loirinho, porém já convencido de que falava uma honorável verdade.
"Talvez meu tio saiba." Cogitou Fabrício, procurando outros desenhos. "Aquilo é um urso?"
"Onde?" André voltou a olhar para cima. "Não estou vendo."
"Ali! Ali, olha!" Fabrício apontou com toda a certeza do mundo, e o loiro estreitou os olhos, desesperando-se por não conseguir enxergar. E Fabrício usou sua concentração para empurrá-lo facilmente de volta ao lago.
Estarrecido, André retornou à superfície com um grande escândalo. Quem olhasse, acharia que estava se afogando em seus últimos e dramáticos suspiros.
"Seu idiota!" Chamou, furioso, e tentou tocar água num Fabrício risonho, de bochechas avermelhadas pela travessura.
XxX
Quando André chegou no concentra na casa do Lauro, a maioria do pessoal já estava lá, com exceção das garotas. Havia uns dois garotos que haviam passado em medicina para o segundo semestre daquele ano, logo eram bixos da galera do primeiro. Os outros eram colegas mesmo, mas André percebeu que ainda não sabia o nome da maioria.
O loiro cumprimentou o pessoal já meio bêbado, e foi encontrar Fabrício na cozinha, conversando com o paulista e um garoto enorme, mais de 1,90m de altura e braços grandes demais, chamado Pedro. Fabrício abriu um sorriso e ergueu o copo com vodka e energético em um cumprimento empolgado.
“Porra, André, já estava achando que tu não iria vir!” Passou o braço pelos ombros do loiro e passou o copo para ele. “Aqui, bebe um pouco. Eu vou preparar outro.”
A habilidade de Fabrício para preparar bebidas era impressionante. André tomou um gole da dele e estava no ponto exato. E a caipirinha que o moreno preparou em seguida também ficou ótima. André até sabia se virar, como qualquer adolescente normal, mas nunca ficava assim tão bom.
“A gente ‘tava mesmo aqui comentando que foi surpreendente entrar na medicina e não encontrar aqueles riquinhos esnobes que se acham superiores e melhores que os outros. Aí eu lembrei da tua existência!” Fabrício abriu um sorriso maroto, e ele, paulista e Pedro gargalharam pela maneira fúnebre com que André o encarou.
“Me desculpe, mas eu estou longe de ser o único riquinho da nossa turma. Não é minha culpa se tu é o mais pobre.” André replicou, e Fabrício ergueu as mãos para cima, com uma careta igual ao do meme “ui!”, o que arrancou mais risadas.
“Riquinho até pode ter, mas loiros aguados de nariz empinado já são algo mais raro.” Fabrício obviamente estava – além de já no ponto alegre do álcool – aproveitando para implicar e irritar o loiro. Até que achava engraçado aquele jeito estressado de André; ele era assim desde bem novo.
“Pobretões caras de pau que invadem a casa dos outros para aproveitar a piscina e filar a comida que não tem em casa também.” André lembrou, sorrindo debochado. Fabrício pareceu se dar por vencido. Não era como se ele não soubesse que era cara de pau.
“Vocês parecem duas comadres brigando, de boa.” Pedro apontou.
“Está mais para aquelas briguinhas de quarta série que o guri fica implicando com a guria só para chamar atenção dela.” Paulista contrapôs, e soltou um “huuuum!” sugestivo junto com Pedro. “Não vai dizer que ‘tá de olho no loiro, Fabrício!”
“Vai ver ele quer dar o golpe do baú.” Pedro sugeriu, rindo.
André sentiu uma queimação no rosto com aquilo. Olhou para Fabrício, mas este apenas gargalhou sem se importar com a brincadeira.
“Vocês notaram a bunda que ele tem quando ‘tava de bomberinha sexy no trote à fantasia?” Fabrício lembrou e abriu um sorriso sugestivo para André, que ergueu as sobrancelhas, arregalando um pouco os olhos. A sério que Fabrício havia reparado em sua bunda?
“Não, eu estava de olho na bunda do Chico.” Paulista brincou e os três riram. André refreou uma risada e crispou os lábios.
“Bando de bichas.” Revirou os olhos, balançando a cabeça e bebendo mais um gole da vodka. Os outros riram ainda mais. Já haviam passado do ponto e estavam bem alegres. André chegara atrasado porque Natália havia aparecido em sua casa, como esperado; mas ele dera um jeito de fugir antes que o sermão ficasse sério.
“Ui, ui, ui. Vamos ver quantas tu pega essa noite, Santa.” Fabrício falou.
“Santa?! Porra, que merda de apelido!” André falou e imediatamente se arrependeu. Assim que os outros dois riram do apelido, o loiro compreendeu. Era assim que seria chamado pelo resto da faculdade.
“Hei, vocês! Parem de monopolizar as bebidas, e tragam umas para a sala!” Diego apareceu à entrada da cozinha. Era um garoto moreno com marcas de espinha na cara, baixo e magrelo, mas com um jeito engraçado. “Estou ali tentando aterrorizar os bixos, mas eles estão duvidando que eu fui mesmo amarrado no teto com fita crepe e depois mergulhado numa banheira com piche. Preciso de gente para confirmar a história.”
André, que não havia participado de todos os dias do trote, se assustou.
“Fizeram isso contigo?” Perguntou, pasmo. A gargalhada foi unânime. O loiro ao menos agradeceu por estarem todos bêbados e, com sorte, não lembrariam de sua gafe no dia seguinte.
“Esse Santa é uma parada mesmo.” Fabrício deu uns tapinhas nas costas de André e, pegando mais algumas bebidas, arrastou o loiro de volta para a sala com eles. Naquele momento as garotas – Vanessa, Luana e Gabriela – chegaram, completando a noite.
“Alguém pode ir no super comprar mais uma bebidas?” Lauro perguntou. O supermercado Zaffari ficava quase em frente ao prédio de três andares, atravessando a rua. Todo mundo fez corpo mole, então Fabrício se ofereceu, mesmo que os outros dissessem que os futuros bixos deveriam ir comprar as bebidas.
“Eu vou contigo.” André se levantou do sofá, onde conversava com a Luana, e seguiu com Fabrício para fora do apartamento.
Os dois seguiram para a rua e chegaram rapidinho no supermercado. Fabrício ficou emburrado pelas risadas eventuais que André continuava soltando, depois de ele tropeçar nas escadas e cair de bunda nos degraus, tendo quicando umas três vezes antes de conseguir se segurar e levantar.
“E aí, por que chegou tão tarde?” Fabrício perguntou uma hora, quando já estavam dentro do supermercado.
“Ah, uma amiga apareceu lá em casa.” André desconversou, mas isso apenas atiçou a curiosidade já naturalmente elevada do moreno.
“Só amiga, é?”
André deu de ombros. Não é como se ele e a Natália já não houvessem tido uns rolos. Nunca nada oficial, eram mais como amigos com benefícios, que ficavam eventualmente, sem compromissos, mas que não deixavam de ser amigos, e apenas amigos em outras ocasiões.
“Tipo... Tu e a Gabi, eu acho.” André ponderou. Não sabia bem qual era a relação entre Fabrício e a garota, mas eles pareciam bem próximos. Fabrício riu, porque o loiro não era o primeiro a achar que ele e a Gabi tinham algum rolo.
“Eu e a Gabi somos apenas amigos. Já ficamos algum tempo no ano passado, mas agora não rola mais.” Fabrício explicou. “Ela é minha melhor amiga aqui em Porto Alegre. Não conheço muita gente além do pessoal que conheci no cursinho, e agora na faculdade. Estou aqui há um ano, apenas.”
“Deixou muitos amigos para trás?” André perguntou. Não duvidava. Fabrício tinha uma facilidade exasperante para fazer amigos.
“Ah, era aquela galera que eu conhecia desde pivete. Sabe como era lá, cidade pequena e essas coisas... Mas tu ainda não explicou por que se mudou do nada de lá.” Fabrício lembrou. Era algo que vinha querendo perguntar, mas sempre esquecia, ou perdia a chance.
“Meu pai achou que eu teria uma educação melhor na capital, e os negócios dele mudaram e ele acabava tendo que viajar quase toda a hora. Aí resolveu mudar. Isso sem contar que ele odiava me ver traquinando pelas ruas contigo. Quando nos mudamos, ele encheu minha agenda: era escola, curso de inglês e espanhol, natação, vôlei e aula de piano. E eu ainda tinha de ler um livro por semana e depois contar a ele sobre o que havia achado da história.” André suspirou ao lembrar daquela rotina. Ao menos depois de voltar de viagem e passar no vestibular, Heitor não vinha mais controlando tanto todos os seus passos.
“Teu pai parece bem rígido.” Fabrício se impressionou. “Mas que foda tu saber piano. Tinha um na tua casa, né? Se bem me lembro...”
“Sim. Ele também me obrigava a treinar todo sábado o que eu havia praticado nas aulas da semana. Só depois de no mínimo uma hora tocando ele deixava eu, sei lá, ir jogar vídeo-game, ou ver TV.”
“Vou ir lá na tua casa para te ouvir tocar, qualquer dia.” Fabrício avisou, causando uma risadinha nasalada em André. “Ver se teu pai te doutrinou bem, e se toda essa disciplina valeu à pena.”
“Claro, né. Mesmo se eu não convidasse, tu apareceria, de qualquer maneira. Mas fique sabendo que eu toco muito bem, obrigado.” Torceu os lábios num sorriso sarcástico. Humildade nunca fora seu forte. “Tu não toca nada?”
“Toco o básico: violão. Adoro música brasileira.” Fabrício estalou a língua e piscou, enquanto pegava outra garrafa de vodka.
“Bah, acho uma droga.” André admitiu, encolhendo os ombros. Nunca havia gostado muito de nada brasileiro. Tinha a ideia de se mudar do Brasil depois de se formar. Só não continuara no exterior, porque a Cíntia era muito sentimental e ficava com muitas saudades, sempre pedindo para que voltasse e cursasse a faculdade no país. “Eu quase entrei em Cambridge para cursar medicina... Tenho dupla cidadania porque meu avô materno é inglês e minha mãe, também inglesa, me deu à luz lá...”
“Caralho! Duplo caralho!” Fabrício soltou, um tanto alto demais para um supermercado. Havia uma criança perto e o pai dela olhou feio para o moreno, que se desculpou erguendo a mão em um sinal de paz. André sorria debochado, achando graça das atitudes do amigo. “Primeiro! Caralho-“ Falou Fabrício, dessa vez usando o palavrão num tom baixinho. “Como tu pode não gostar de música brasileira?! E segundo: caralho! Como tu nunca me contou que era na verdade inglês?”
“Sou inglês e brasileiro. Vivi a vida toda aqui. Só ano passado fiquei pela Europa, viajando e fazendo alguns cursos.” Explicou. “E tu gosta de caralho, hein?”
“Bestinha.” Fabrício deu-lhe um empurrão no ombro, sorrindo. “Bem, ao menos agora sei que, se algum dia eu quiser ir para Inglaterra, tenho pouso por lá.”
“Tu é muito cara de pau mesmo.”
“Uma hora tu se acostuma.” Fabrício sorriu brilhantemente. “Acho que é isso. Vamos pro caixa.” Indicou o caminho com a cabeça – como se André não soubesse onde ficavam os caixas. “E quer ver uma música brasileira que aposto que tu gosta?”
“Hum...?” André não deu muita atenção, mas praticamente se engasgou quando Fabrício, depois de pigarrear, começou a cantar. Ali, no supermercado, alto o suficiente para todo mundo escutar.
“Por você, Eu dançaria tango no teto, Eu limparia os trilhos do metrô, Eu iria a pé do Rio a Salvador. Eu aceitaria a vida como ela é, Viajaria a prazo pro inferno, Eu tomaria banho gelado no inverno...” O que André não sabia era que Fabrício era um grande defensor da cultura brasileira, incluindo as músicas.
“Ok, já entendi!” André disse exasperado, dando-se por vencido. Haviam parado numa das filas dos caixas, e havia um monte de gente olhando. André odiava chamar atenção desnecessariamente, mas não pôde deixar de reparar que o moreno cantava muito bem, arrancando até uns sorrisinhos de um grupinho de três garotas saidinhas, ao cantar todo cheio de charme e trejeitos.
“Gostou da música?” Fabrício perguntou. “Vou cantar até tu dizer que gosta.”
“Se tu continuar cantando, é mais fácil eu começar a odiá-la.” André rebateu, abrindo um sorrisinho amarelo para as garotas. De repente, não gostava da maneira que elas secavam Fabrício e cochichavam entre si.
“Por você! Eu deixaria de beber! Por você! Eu ficaria rico num mês! Eu dormiria de meia! Pra virar burguês! Eu mudaria até o meu nome! Eu viveria em greve de fome, Desejaria todo o dia... a mesma mulher!” Fabrício havia percebido a atenção das garotas, e começou a cantar especialmente para elas, arrancando mais risadinhas tímidas.
André o puxou de volta para a fila.
“Ok, adoro a música. Agora cale a boca.” Falou, rendido, com um quê de irritação na voz.
“É do Barão Vermelho.” Disse o moreno.
“Eu sei, idiota!” André suspirou. Seriamente, Fabrício era uma sequela social.
XxX
Já era perto da meia noite quando o pessoal deixou a casa do Lauro. No caminho até o Campus Centro, foi aquela algazarra. Todo mundo estava meio alterado e encheram as ruas de risadas, conversas e até gritos. Andando ao lado de Fabrício, junto com dois bixos – Maurício e Rodrigo – com quem o moreno socializava, dando ênfase aos terrores do trote, André entreouviu a conversa do grupinho das garotas, que vinham logo atrás.
“Eu quero ele.” Luana falou para Vanessa. As duas eram primas, ambas loirinhas, baixas e magras, mas Luana havia passado para o segundo semestre. “Até o final da noite, ele é meu.”
“Quem?”
“O Fabrício.”
“Espera, tu quer ficar com o Fabrício?” Gabi perguntou, metendo-se na conversa das duas. André pensou que ela teria um ataque de ciúmes, mas no lugar disso a moreninha gargalhou. “Boa sorte.”
“Por que boa sorte?” Luana quis saber. André já andava propositalmente mais devagar, espichando as orelhas.
“Porque o Fabrício é tão pateta, que tu pode dar mil sinais, e ele nem vai perceber. Tu só vai conseguir ficar com ele com um ataque direto.” Gabi explicou o quanto o amigo era um cabeça de vento.
“Ah, isso não é um problema.” Luana soltou uma risadinha.
André voltou a apressar o passo, antes que elas percebessem que estava dando uma de enxerido. Aproximou-se de Fabrício e cochichou no ouvido dele.
“A Luana está a fim de ti.” Despejou. Amigos contavam esse tipo de coisa um para o outro, afinal. Fabrício abriu uma expressão surpresa, e olhou por cima do ombro.
“Sério?” Sussurrou e acabou por sorrir para Luana quando ela lhe sorriu e abanou. “Ela é bem gatinha, né? Mesmo que eu prefira as morenas...”
“Ela é. Tem uns peitões, mesmo sendo magrela. Parece até americana.” André colocou as mãos no bolso. Não entendeu por que o outro iria preferir as morenas. Loiras também eram bem bonitas, não é? Que idiotas essas preferências, pensou estranhamente ofendido.
André deu um tapa na nuca de Fabrício.
“Para de olhar e ser tão óbvio. ‘Tá parecendo aqueles velhotes babões.” Avisou, mas Fabrício apenas resmungou, massageando a nuca. Havia doído. O loiro tinha uma mão pesada.
“É que para ser sincero, faz tempo que eu não transo com ninguém.” Fabrício admitiu, com um suspiro. “’Tô na seca. Ano passado tive uns rolos, mas nos últimos meses antes do vestibular só me dediquei aos estudos, e nas férias acabei voltando pra ficar com meus pais e amigos, mas não peguei ninguém. Fiquei com uma guria na festa da matrícula, eu acho, mas só.”
“Aí ‘tá pensando em tirar a seca com a Luana?” André perguntou.
“Ah, sei lá. Se rolar... Se não também, beleza. Mas que eu ‘to quase como aqueles velhos babões, isso é verdade. Com a exceção de que o meu-“ Fabrício apontou para os 'documentos' no meio das pernas, soltando um assobiou que soou como um ‘fiu-fiu’. “Ainda levanta.”
André gargalhou daquilo.
“Se tu diz...”
Atravessaram a Rua Avaí e chegaram à Av. João Pessoa, bem em frente à faculdade de Direto da UFRGS, onde já puderam escutar os barulhos da festa e ver a aglomeração de pessoas no espaço que durante o dia servia de estacionamento, entre os prédios antigos.
“Chegamos!” O pessoal começou a gritar e soltar uns berros empolgados. Festa grátis e um bando de jovens bêbados... André ainda achava que a noite teria algumas confusões.

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