Good Riddance
9 E a Luana?
Notas iniciais
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http://www.youtube.com/watch?v=ujr4dkJP378 - Música que eles cantam. Coloquem pelo 2:55 min, que a música cantoria está mais animada, como geralmente se canta, rs. ;*
O lugar estava mesmo lotado, em algumas partes do campus era até difícil de caminhar entre a multidão de jovens segurando copos de plástico com bebidas, ou latinhas de cerveja. Lá, o pessoal que havia ido à concentra acabou encontrando outros colegas de turma.
“Meio estranho isso daqui, ao ar livre.” André comentou para Fabrício, que bebeu um gole da cerveja que tinha em mãos, enquanto se achegavam a um grupo que estava animado cantando a música ‘principal’ do INTERMED.
"Se ficar chato, a gente vai pra outro lugar." Deu de ombros.
O INTERMED Sul era um evento exclusivamente direcionado para acadêmicos de Medicina, professores e médicos já formados das escolas médicas do sul do país. O evento envolvia disputa de jogos entre todas as faculdades de medicina do sul do Brasil, regado a muito álcool, música e festas. Os veteranos insistiam aos novatos para que participassem. Naquele ano, o INTERMED aconteceria na praia de Torres, no Rio Grande do Sul mesmo, no mês de abril.
Como Fabrício já havia bebido demais, entrou na roda de colegas e começou a pular com um dos braços erguidos, na mesma empolgação dos outros, cantando junto com eles. André achou que não havia bebido o suficiente para aquilo, até porque um monte de gente olhava para aquele grupo sem entender – só quem era da medicina entendia, e havia muita gente ali que era de outros cursos.
André bebericou da latinha que Fabrício lhe entregara, observando os garotos e algumas garotas cantarem:
Vamo, vamo Urguês!
Que esse ano eu vou...
Arrombar o cu de fundaceiro,
Não é tão simples quanto pensa!
Nele cabe muito mais do que a dispensa!
Cabe o cavalão
Cabem 3 UFRGS inteiras
Cabe uma bananeira
E TODOS NÓS!
A medicina da UFRGS tinha uma rixa ‘saudável’ com a medicina da UFCSPA, chamada de Fundação, outra faculdade federal voltada para as ciências humanas. No INTERMED, a Fundação era a principal rival da UFRGS, sendo que as duas sempre disputavam o primeiro lugar no evento. E as músicas sempre eram uma ofensa pessoal principalmente aos ‘fundaceiros’.
“Hei, André!” Gabi chamou, aproximando-se. “Quer dar uma volta comigo?” Ela se inclinou conspiratória. “A Luana quer ver se consegue chegar no Fabrício, aí ela vai atacá-lo quando ele estiver meio sozinho.”
“Aposto que ele vai gostar disso.” André falou, mas tinha vontade de dizer que Fabrício não gostava de loiras, e que não queria ir dar uma volta. Mas foi mesmo assim, Gabi arrastou-o mesmo antes que concordasse. Era uma garota energética, quando calibrada com algumas doses de álcool.
“Imagina se não! A Luana é linda, e tem esse jeito cheio de iniciativa e confiança que os garotos gostam.” Gabi comentou, com um sorriso. “O Fafá é tão querido, ele super merece uma garota bem legal também.”
“Eu pensei que vocês dois tivessem algo...” André sondou.
“Tivemos, mas passou, e continuamos só amigos. Hoje em dia ele é quase como um amigo gay.” Gabi riu.
“Ele já namorou antes?” André não sabia por que estava tão curioso, mas estava; no entanto achava que era apenas curiosidade natural, e uma maneira de manter uma conversa com a Gabi. Atravessaram a multidão até chegar a um espaço mais aberto, perto de alguns banheiros ecológicos, os quais já tinham filas à frente.
“Namorou sim. Foi um dos motivos até, de não darmos certo. Ele namorou essa garota lá da cidade dele dos treze aos dezessete anos... Eles acabaram brigando um pouco antes de ele se mudar para Porto Alegre, e ele ainda não a havia esquecido completamente ano passado.” Gabi contou, depois parou, aproveitando estarem num lugar mais vazio, e ponderou. “Nossa, não sei se deveria ter te contado isso, mas acho que está ok. O Fafá raramente fica brabo ou chateado com alguma coisa, só coisas muito sérias. E vocês já são amigos de longa data, mesmo que tenham se reencontrado só agora. Ah, e que legal isso, já disse? Eu tenho amigos que infância que lembro até hoje, mas nunca mais os reencontrei.”
André reparou que ela ficava tagarela quando bêbada. E se pegou também pensando sobre o que ela havia dito. Se não houvessem se separado, Fafá teria namorado essa garota por quatro anos? Mas o que estou pensando, não tem nada a ver uma coisa com a outra... Balançou a cabeça e bebeu mais um pouco. O melhor era ficar bêbado logo.
“Foi mesmo incrível. Mas o idiota demorou pra me reconhecer.” André lembrou-se, indignando-se ligeiramente, ao mesmo tempo em que pensava se Luana e Fabrício já estariam ficando. Gabi riu, sacudindo a mão.
“Ele é tão avoado. No dia da matrícula não reconheceu nem a mim! Saiu de casa e esqueceu de colocar as lentes, aquela anta.” Disse, como qualquer melhor amiga, enchendo o outro de xingamentos. André ficou surpreso – e internamente satisfeito – com a informação. Isso explicava muita coisa. Seu humor até acendeu um pouco mais, e sentiu-se inclinado a, quem sabe, também xingar os fundaceiros.
Gabi olhou em volta, com um bico nos lábios.
“Que chato aqui, nem dá pra dançar. Não gostei, deveríamos subir até a Independência e ir para o Cabaret, ou o Beco.” Disse, mas então os dois garotos, futuros bixos Maurício e Rodrigo, apareceram, e os quatro entraram numa conversa que se estendeu por mais de meia hora. Alguns amigos haviam trazido bebida, e a ofereciam, fazendo-a circular pela roda e, quando André deu por si, estava mais bêbado do que gostaria, ficando com o rosto afogueado ao rir das bobagens embriagadas do grupo.
Teve um breve lapso de memória na noite. Em um momento estavam lá, conversando animadamente, interagindo até com outras pessoas que nunca haviam visto na vida. Num piscar de olhos, estavam andando pelas ruas quase desertas, em direção ao Cabaret, que não ficava tão longe dali. Ao que parecia, Gabi havia usado de seu jeitinho femininamente alcoolizado para convencer todos a irem a um lugar onde poderiam dançar. André tinha um braço ao redor dos ombros dela, e se perguntou se estavam ou não ficando.
XxX
Fabrício sorria, conversando animadamente com Luana. Os dois seguiam à frente do grupo, subindo a Barros Cassal para chegar à Av. Independência, onde ficava o Cabaret. Fabrício já estava aos beijos com Luana quando foi chamado por Gabi. Ele havia sido literalmente atacado pela loira. Num momento, estava cantando as músicas do INTERMED com os colegas e outros estudantes da medicina que se juntaram a eles, e no instante seguinte, tinha os seios fartos da loira comprimidos contra seu peito, e os lábios dela pressionados aos seus. Não teve muito que fazer além de retribuir, aliás, retribuiria de qualquer forma, pois não era todo o dia que uma garota bonita se colava nele daquela maneira esfomeada.
“Então tu vai viajar mês que vem?” Fabrício perguntou. A maioria do pessoal que havia passado para segundo semestre iria viajar. Ao menos, os que eram ricos. Se Fabrício houvesse passado para segundo semestre, ficaria lesando em Porto Alegre, no mais puro tédio, até agosto.
“Vou pra Inglaterra, sempre quis conhecer lá.” Luana contou, e a partir daí seguiram por uma conversa sobre viagens até chegarem ao Cabaret. Pagaram vinte reais para entrar e, como já passava das duas da manhã, estava praticamente lotado. Mas ainda suportável. Era terrível quando nem respirar era humanamente possível, mas naquela noite estava agradável, na medida do possível.
Pela entrada, Fabrício se sobressaltou quando alguém pulou às suas costas, e braços rodearam seu pescoço. Virou a cabeça para o lado e se surpreendeu ao ver que era André, sorrindo estupidamente, como qualquer bêbado feliz.
“Lucrou a loira, então?!” Ele perguntou, alto. Na verdade, não esperava resposta. “Mesmo não gostando de loiras, hein. Aproveita, Luana, ele não gosta dos teus cabelos, mas tu tem peitos grandes o suficiente para-“
Gabi puxou André antes que ele acabasse falando demais.
“Ele já está bem bêbado.” Gabi sorriu amarelo. Também estava alegre, mas raramente perdia o controle a ponto de ficar que nem o loiro. Fabrício estava com as bochechas vermelhas, mas soltou uma risada demorada.
“Tu parece mais divertido assim, André.” Disse.
“Eu sou sempre divertido!” Garantiu o loiro e, inesperadamente, segurou o rosto de Gabi e a beijou. Em suas ponderações bêbadas, havia chegado à conclusão de que provavelmente estava ficando com ela. Afinal, por que não?
O queixo de Fabrício caiu ao ver aquilo e, por algum motivo, mesmo bêbado, não gostou de ver os dois amigos se beijando. Nem a forma como André passou um braço pela cintura de uma Gabriela aturdida, e a carregou consigo para longe deles.
“Hei!” Fabrício tentou segui-los para o interior do lugar, mas Luana o segurou.
“Deixa eles. Vamos ir dançar com os outros!” Ela pediu, e acenou para Vanessa, e outros colegas. Fabrício os seguiu, com a testa franzida, mas logo balançou a cabeça, não querendo deixar seu humor se abalar.
XxX
Gabi ria enquanto André a puxava.
“André, nós não estamos ficando, ok?” Ela avisou. “Tu está tão bêbado que acho que irá cair a qualquer momento.” A garota deixou que André se abraçasse a ela, no meio da pista, justamente para evitar que ele caísse.
“Ah, tudo bem, então...” O loiro disse, sem se preocupar.
“Tu é bonitinho, mas é estranho ficar com colegas de aula.” Explicou perto do ouvido dele, falando alto para se fazer ouvir devido ao som alto.
“’Tá tudo bem, mesmo. Droga, eu estou tão bêbado quanto estou me sentindo?” André teve um momento de lucidez.
“Eu acho que está! Tu parece bastante bêbado para mim.” Gabi replicou, condescendente. “Só não vomite em cima de mim, por favor.”
“Ah, eu estava justamente pensando em fazer isso. Mas, ok, vou me segurar.” André sorriu torto, movendo um pouco o corpo para dançar junto à morena.
“O Fafá foi mesmo até tua casa pra te convidar a vir?” Gabi riu. “A Fran me contou que deu a ideia de ele passar por lá e te incomodar até tu ceder!”
“Foi a Fran, é? Terei uma conversinha com ela mais tarde.” André falou em ares de quem planejava uma vingança sangrenta. “Ele foi sim, levou até sunga e se jogou na minha piscina, e depois fez chantagem para que eu viesse.”
“Isso é a cara dele! Mas tu está gostando!?” Ela perguntou, e o loiro hesitou.
“Sim... Eu gosto muito do Fabrício...” Confessou, e acabou sentindo o rosto arder quando a morena riu alto, mesmo com a música.
“Estou falando da festa!” Gabi riu mais e lançou um olhar afiado pra André, como se lesse algo a mais na expressão do loiro. André limpou a garganta e passou a língua pelo lábio seco.
“Claro. Estou conseguindo me distrair dos meus... problemas.” Comentou desviando o olhar. Eles ficaram dançando por um bom tempo, conversando entre uma música e outra; porém, em certo momento, ao olhar por cima do ombro da Gabi, André viu algo que não gostaria, e que acabava com a razão de ter ido até ali.
Davi estava na festa também e, no momento, estava prensado na parede, tendo os lábios devorados por um rapaz mais velho, talvez uns vinte e cinco anos, alto e loiro, musculoso, com os cabelos arrepiados e toda a pinta de bad boy.
André ficou tão sem reação, que até Gabi parou de dançar e virou a cabeça para seguir-lhe o olhar. Depois voltou a encará-lo com as sobrancelhas franzidas.
“O que foi?” Perguntou, confusa. “É uma casa meio alternativa essa, é normal ter alguns homossexuais.”
“Isso nunca pode ser chamado de normal.” André falou, sentindo-se bem menos bêbado. Mesmo assim, soltou Gabi e cambaleou até Davi e o outro protótipo de estuprador. Talvez fosse isso, aquele depravado havia seduzido Davi, que era inocente e tolo demais para encarar o mundo.
Quando conseguiu chegar até eles, que não estavam longe, empurrou o loiro alto para longe de Davi, que arregalou os olhos ao vê-lo.
“André!” Davi exclamou, pasmo. André nem sabia o que dizer, e acabou se sentindo estúpido por ir até ali, então apenas olhou para Davi com uma expressão triste, de quem não consegue compreender aquilo, de quem não podia compreender, e deu-lhe as costas, seguindo para as escadas que levavam para o piso da saída.
Lá em cima, conseguiu encontrar Fabrício e Luana sentados num sofá, conversando e namorando, enquanto dividiam um drinque comprado no bar. André se aproximou dos dois, sem pestanejar.
“Estou indo embora, mas acabo de descobrir que perdi meu dinheiro. Pode me emprestar pro táxi e depois eu te pago?” Perguntou, apalpando os bolsos novamente. Tinha antes cinquenta reais no bolso da calça, mas alguém deveria ter levado, ou na festa do Direito, ou ali dentro. Nem sequer sentira.
“Quê? Indo embora?!” Fabrício perguntou, levantando-se. “O que foi, está se sentindo mal?”
“É mais ou menos isso.” André disse.
“Vai lá pra casa. Eu moro no apartamento atrás do Armazém do Sabor, quase aqui do lado. Toma.” Entregou as chaves para ele. “É o 704.”
André teria recusado, mas estava bêbado demais para isso, então apenas deixou a festa, sentindo-se infeliz. Fabrício ficaria lá aos beijos com a loira, e Davi com o outro loiro. Não sabia qual das duas coisas o deixava mais perturbado. Por que me importo tanto? Não conseguiu deixar de pensar que ao menos Fabrício não conseguiria levar Luana pro apartamento, já que estaria lá.
Mas eles podem transar em qualquer lugar. Pensou, descendo com dificuldade as escadas para chegar à rua. Quando o ar fresco da noite encheu seus pulmões, apertou os olhos. Ora, e daí? Ele que trepe até desmaiar. Sentia-se tão confuso, bêbado e perdido. Mas mesmo perdido, conseguiu chegar ao apartamento de Fabrício sem acabar caindo na rua e dormindo ali mesmo, feito um mendigo sem causa.
O apartamento do moreno era minúsculo e, depois de ir ao banheiro igualmente minúsculo e bochechar com pasta de dentes e lavar o rosto, caiu na cama. E foi surpreendido por um miado feroz e um arranhão em seu braço.
“Puta merda!” Exclamou, tonto, erguendo-se e levando a mão ao braço ferido. Até sangue escorria pela unhada que levou. Como que Fabrício o mandava ir para um lugar onde havia uma máquina mortífera em forma de gato?
Estava para se levantar, para ligar a luz, mas então a porta do apartamento se abriu e o próprio dono do cubículo a ligou.
“André, tu ‘tá bem?”
“Ai, não diga que tu trouxe a Luana pra cá, mesmo comigo aqui?” Gemeu, jogando-se na cama e tapando o rosto com o travesseiro, esquecendo-se que podia ser atacado novamente pelo gato.
“Claro que não!” Fabrício fechou a porta e foi até a cama. “Eu fiquei preocupado, porque tu parecia prestes a vomitar e...! Ah, teu braço está sangrando!”
“Culpa do animal irracional que tu mantém nessa cama e... Ai!” André voltou a exclamar e se encolher ao receber uma mordida no pulso.
“Cherry!” Fabrício se aproximou e pegou a gatinha branca no colo. “Que menina malvada.” Repreendeu. “Não morda as visitas.”
“Tu sabe que ela não te entende, não é?” André perguntou, checando.
“É claro que ela entende! Ela sempre me obedece. Ela é uma lady.” Fabrício assegurou e a colocou sobre o travesseiro, e agora a gatinha realmente parecia mais calma, não parecendo mais querer atacar o loiro.
Fabrício deitou-se na cama ao lado de André.
“Tu 'tá bem?” Perguntou.
“Não...” André admitiu, num resmungo. Se não estivesse bêbado, teria mentido, mas parecia necessitado de desabafar. “Meu melhor amigo é gay, e eu não consigo aceitar isso. E vi ele na festa, aos beijos com um grandalhão com cara de imbecil.”
“Por que não consegue aceitar?” As sobrancelhas de Fabrício se aproximaram, ao franzir a testa. “O que há de errado com ele ser gay?”
“Como assim, o que há de errado?! Não é natural!” André se engasgou. O pior era não encontrar bons argumentos para explicar os porquês. Só sabia que não era certo, fora com esse conceito que crescera.
“Não é natural porque colocaram na cabeça das pessoas que não é. Tem gente que gosta, e pra elas gostar é o natural. Desde quando orientação sexual muda quem a pessoa é? Se ele era teu amigo antes, e tu gostava dele, por que deixaria de ser agora? É a mesma pessoa...” Fabrício falou, mas falava tudo num tom tranquilo, sem se alterar.
André continuava com o travesseiro sobre a cabeça.
“Desde quando é defensor dos gays? Vai dizer que é um, também?” Perguntou, na defensiva, a voz abafada pelo travesseiro. O Davi que conhecia não ficava se contorcendo contra uma parede, prensado por um grandão, pra todo mundo ver.
“Meu tio é homossexual. Não vejo nenhum problema, ele continua sendo a pessoa querida e divertida que sempre foi, mesmo depois me contar sobre isso. E se eu fosse gay, o que tu faria? Iria deixar de falar comigo também?” Perguntou, puxando o travesseiro para longe do loiro, para ver-lhe o rosto.
O coração de André palpitou com a ideia.
“Droga, para de falar merda.” Pediu, irritado. “Isso tudo é nojento, e estranho. Não quero pensar nisso, só quero dormir.”
“Está sendo teimoso! Nem tem argumentos pra defender teu preconceito idiota! Aposto que foi o teu pai que te encheu com essas ideias, ele sempre foi um mané controlador, pelo que tu mesmo falou no supermercado!” Puxou André pelo ombro quando ele tentou se voltar para a parede e evitar encará-lo. “Se tu acha tudo tão nojento, conviva com isso então.”
André arregalou os olhos ao ver Fabrício se aproximar e prendeu a respiração, sentindo-se lento e pesado demais para afastá-lo. A mão de Fabrício deslizou por sua cintura, e os lábios pareceram prestes a tocar nos seus. André fechou os olhos e puxou o ar, perdido, débil, mas o rosto de Fabrício se desviou no último segundo e caiu sobre seu pescoço, em um beijo que sugou-lhe a pele, junto com uma mordida.
O loiro gemeu e se contorceu, colocando as mãos no peito de Fabrício, sentindo-se como que se afogando, buscando por ar, debatendo-se, mas o moreno o envolveu com um braço, e deixou a mão deslizar mais para apertar-lhe a bunda em cheio, um apertão forte que arrancou outro gemido de André, que sentia a língua e os dentes do moreno brincando em seu pescoço de uma forma que causava calafrios intensos.
Quando Fabrício se afastou, sorria maroto, e soltou uma risada abafada ao ver o estado do loiro – ofegante, perplexo, com o rosto afogueado e os olhos atrapalhados.
“Tu ‘tá com a expressão de quem gostou até demais, hein!?” Disse, malicioso. “É aí, achou muito nojento?” Perguntou e sentiu uma vibração de antecipação. Não queria que André tivesse achado nojento, mas não se importou em pensar na razão disso.
“Filho da puta!” André o empurrou e se ergueu um pouco da cama, levando uma mão à testa. “Deus, como tu pode ser tão... tão...” Não conseguiu nem encontrar as palavras. Estava engasgado e rouco.
Fabrício ergueu-se e foi até o banheiro, voltando com álcool, algodão e pomada.
“Preciso limpar esse arranhão, pode infeccionar.” Disse e se sentou na cama, puxando displicente o braço de André, que tentou escapar, mas o moreno era mais forte, e impôs sua vontade de limpar-lhe o corte. “Sabe, tu deveria te colocar no lugar do teu amigo. Ninguém escolhe ser gay, e considerando todo o preconceito que existe, é claro que ele preferiria ser hétero se pudesse escolher. Mas não se escolhe, e quem vai perder um amigo por algo tão bobo é tu.”
André não falou nada. Continuou emburrado até que Fabrício terminasse e, assim que pronto, deitou-se na cama e se virou para a parede, fechando os olhos para dormir. Não queria mais olhar para a cara do Fabrício, não queria acreditar no que ele havia acabado de fazer.
E o pior, sentia uma parte do corpo em especial latejando, enquanto permanecia dolorosamente consciente de Fabrício deitado logo ao seu lado; sua mente enchia-se com o que ele havia dito. O tio dele era gay... Lembrava-se de Diogo da época da infância, e de como o homem era extrovertido e de bem com a vida, muito parecido com o Fabrício. Naquela época, não lembrava de ter preconceitos.
Em que momento isso havia mudado? Se não tivéssemos ficado nove anos separados... Voltou a pensar, mas bufou consigo mesmo por conta da ideia que vinha duas vezes na mesma noite.
“E a Luana?” Perguntou em algum momento.
“Ah, é!” Fabrício soltou estupidamente, sonolento. “Tinha esquecido dela. Acho que ficou lá na festa.” Murmurou, acariciando Cherry que se aconchegara sobre sua barriga. “Será que ela ficou braba que saí de repente?”
“Idiota... É claro que ela não deve ter gostado.” André sussurrou baixinho, mas não se sentiu penalizado pela garota ter sido abandonada sozinha no Cabaret.
“E será que eu devo voltar lá?” Fabrício ponderou. “Ou ligar para ela?”
“Não!” Disse rápido, rápido demais, e tentou consertar. “Erm... Tu ‘tá aí todo podre, só vai irritar mais ela se voltar nesse estado.” Nem sabia se era verdade, desde quando ele entendia as mulheres? Nenhum homem no mundo entendia, e ele não seria o primeiro na história. Acabou virando para o lado de Fabrício, que notou o movimento e virou-se para André também, deixando Cherry escorregar para o espaço entre os dois com um miado indignado.
“Sabe...” Fabrício comentou, com um sorriso arteiro. “Gostei de apertar tua bunda.”
“Cala a boca!” André bufou, corado, mas era uma sorte que o pequeno apartamento estivesse escuro, apenas com a luz da rua entrando pela janela parcialmente aberta, delimitando os contornos do rosto de ambos. Fabrício alargou o sorriso, e os dois se fitaram em silêncio por um bom tempo, até que o moreno fechou lentamente as pálpebras e começou a ressonar baixinho.
André ainda ficou acordado e, agindo sem pensar, acabou estendendo a mão e tocando o rosto de Fabrício, contornando a linha do maxilar do moreno com a ponta dos dedos, subindo-os para sentir a maciez do cabelo curto e negro. Depois a afastou rápido, pressionando a mão contra o próprio peito, agitado como quem havia acabado de fazer algo proibido e errado. Suspirou de olhos apertados. Durma, imbecil, tu está bêbado e agindo feito um doido.
Mas ainda demorou um tanto para pegar no sono; o pescoço ainda formigava onde Fabrício o beijara e mordera.
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