Good Riddance

22 Ciúmes? O que é isso?


Notas iniciais
Tava pouco criativa pra títulos dessa vez (Nock, perdão!, ahahah!) Quero agradecer MUITO à Isisyuuki e ao deeziin pelas recomendações! Fiquei tão, tão, TÃO feliz! Muito obrigada mesmo, awn, tão lindo isso! Boa leitura!

Pela segunda vez num período mais curto do que gostaria, André acordou um tanto desorientado. Só que, dessa vez, não era ele quem tinha o braço circulando a cintura de outra pessoa, e sim ele quem estava aprisionado por um braço pesado. O loiro abriu lentamente os olhos que ainda estavam extremamente pesados, grogue demais para raciocinar quem era o ser que também dormia com o corpo colado ao seu, na clássica posição de conchinha.

As memórias de antes de cair no sono foram voltando: a festa na Ashclin, a corrida até o hospital, a cantoria besta do Fabrício, a fato de quase terem perdido a viagem, as quatro horas de viagem em que mal havia como dormir pela cantoria e bagunça sem fim dentro do ônibus, o episódio da chegada ao campus da Ulbra em Torres, onde seria o evento, e terem de ficar mais duas horas esperando no frio, em pé, perto de onde seria o alojamento da UFRGS, pois houvera um problema na organização e os urguênses estavam sem seus crachás do evento.

Por fim, o fato de a cara de pau do Fabrício ter finalmente servido para algo útil. O alojamento da medicina seria num anexo de um dos estádios onde aconteceriam alguns jogos. No primeiro andar havia um salão com grande espaço para montar as barracas. No segundo havia um auditório cujas cadeiras haviam sido deslocadas para liberar mais espaço. Os veteranos mandaram os bixos ficarem no andar de baixo, que seria mais abarrotado e também mais barulhento; porém Fabrício se esgueirou para o segundo andar, arrastando o André junto, e montou a barraca do loiro num camarote lateral, mais elevado, do lugar.

Ali teriam mais silêncio e privacidade. E isso que ainda conseguiram escutar a música alta do andar de baixo. Coitado dos outros bixos, André pensou momentamente penalizado, talvez por efeito do sono. Catou o celular jogado próximo do travesseiro e olhou as horas. Eram 8h45min, o que significava que haviam dormido 2h45min. Mas isso também significava... Que o primeiro jogo de vôlei era em 45 minutos! André se remexeu ansioso, os sentidos retornando ao corpo que ficara subitamente alerta.

Só que isso o fez perceber mais conscientemente da posição bastante peculiar em que os dois se encontravam. André estacou na mesma posição, arregalou os olhos e percebeu duas coisas: a respiração do moreno fazia cócegas em sua nuca, e ele estava com uma ereção matinal. E, por ele, entenda o traste do Fabrício. André achou que iria morrer. Ele quis morrer. Ele quis sinceramente morrer naquele momento.

No entanto, primeiro daria um jeito de castrar o Fabrício. Depois pensaria na melhor forma de suicídio. De preferencial a mais indolor possível, pois ele não era masoquista. André apertou os olhos, sentindo uma avalanche de calor subir pelo pescoço até arder todo o rosto. Era só dar uma cotovelada no Fabrício, ele se afastaria e deixaria de sair agarrando qualquer coisa enquanto dormia. Não que André se considerasse uma coisa qualquer. Mas também não se considerava um travesseiro, caramba! Mas se fizesse isso, a situação ficaria estranha, não? Quero dizer, não é sempre que dois amigos acordam agarrados e um deles tem uma ereção!

André começou a suar frio, o coração acelerando e a pele se arrepiando cada vez que a respiração do moreno batia-lhe na nuca. Não sabia o que fazer, de novo se sentia paralisado, esperando alguma salvação externa, como antes fora a mensagem avisando que o ônibus estava saindo. Mas se ficasse ali parado feito um retardado, ambos iriam perder o jogo! E André era um dos titulares e, modéstia a parte, era o que melhor jogava em meio àquela tigrada.

Durante aqueles minutos de grande dilema, Fabrício se remexeu ainda adormecido, com um resmungo baixo, friccionando o corpo ao do André e o abraçando mais apertado pela cintura, deixando o loiro quase sem ar. André sentiu a ereção do moreno apertar-se contra sua bunda, e levou uma mão à boca, perplexo com aquilo. E ainda mais perplexo com o fato que... Que...

André se levantou num rompante de adrenalina, empurrando descuidadamente o Fabrício no processo, e correu para fora da barraca o mais rápido que conseguiu, praticamente arrebentando o zíper da entrada.

Fabrício acordou alguns segundos depois, tão grogue e sonolento quanto André, e olhou para a entrada da barraca, que estava aberta. Olhou pro lado e viu que o André não estava ali. Piscou aturdido, bocejando longamente e se espreguiçando, coçando as costas enquanto tentava amenizar o gosto ruim da boca como se mascasse um chiclete de boca aberta. Aí teve um click e olhou também pro relógio. Eram 8h55min! Em meia hora tinham o jogo de vôlei, e ele nem sabia em quais dos estádios seria!

“Por que o Santa não me acordou também?” Fabrício se perguntou confuso e, procurando na mala, pegou escova de dentes e pasta, antes de também sair da barraca e rumar para o banheiro.

XxxX

André chegara ligeiramente atrasado, mas era o técnico do time, então não teve de ouvir muito sermão. Somente da japinha da Atlética da UFRGS que era responsável pela organização de vários jogos quisera comer seus olhos. Fabrício ficou na torcida, já que era da reserva. Como era cedo e praticamente todo mundo fora dormir pelas seis da manhã, não havia quase ninguém para torcer pela UFRGS, somente uns gatos pingados da Xaranga que batiam tambor parecendo nem ter dormido desde a chegada.

Fabrício bem que estava podre de sono e cansaço, mas ainda havia três jogos naquele dia, e ele provavelmente participaria dos dois do futsal, um às 11h30min e outro às 17h00min. No outros dias haveria um jogo de vôlei e um de futsal até o domingo, e sexta pela manhã (às 8h00min da manhã!) haveria as competições de corrida. Fabrício se perguntava como aguentaria acordar cedo por quatro dias seguidos, indo dormir todos os dias tarde após as festas. Isso seria um mistério a ser desvendado.

Por hora, ele olhava abismado para o jogo. Em particular para certo loiro em quadra que era o desespero do time adversário. André jogava muito bem, os saques eram fortes e difíceis, e os ataques eram praticamente sempre garantia de ponto. O time da outra faculdade era fraco, mas isso não diminuía o fato de que André realmente era bom. Fabrício sentiu uma espécie de orgulho pelo amigo, era ótimo olhá-lo correr, pular e cortar a bola em cheio, fazendo-a cravar na quadra adversária, enquanto ele pousava no chão com desenvoltura.

O jogo acabou rápido – cada set era de 15 pontos apenas, então em 50 minutos, o time da UFRGS já havia ganhado. André saiu dali limpando o suor. Parecia mal-humorado. Aliás, desde que acordara parecia bastante mal-humorado, com uma aura especialmente ácida. Fafá já sabia que o loiro sofria de mau-humor matinal, e achou que o fato de ter dormido tão pouco o houvesse maximizado. Porém, imaginava que ao ganhar ele fosse ficar mais animado.

“Daleooo! Primeira vitória do Santa! Agora só vai!” Fafá se aproximou todo animador apesar da expressão carrancuda do loiro – que sequer cumprimentara os colegas de time antes de se afastar. André parou e esticou o braço, apontando o dedo indicador pro moreno.

“Não chega perto de mim.” Avisou ameaçadoramente e simplesmente pegou a mochila onde estavam suas coisas e rumou pro vestiário. Não gostava de se sentir suado e sujo por muito tempo e, mesmo que tivesse um jogo dali uma hora, iria ao menos tomar uma ducha. Fafá o seguiu como Sascha o seguiria, farejando intromedito a razão daquela atitude do loiro.

“O que foi? O que te deu? Nós ganhamos, tu deveria estar feliz!” Disse e se postou bem em frente ao André, impedindo-lhe a passagem. André suspirou e apertou a palma da mão contra a testa, empurrando então o cabelo úmido para trás.

“Jogos muito fáceis me irritam. É isso. Eu gosto de adversários fortes, que me desafiem, e não essas partidas bestas de quintal que parecem pura perda de tempo.” Explicou sem paciência. Não era uma completa mentira, mas isso não o irritaria tanto. A razão da irritação era outra, popularmente conhecia como ‘pau duro’. Não pão duro, mas pau duro mesmo, e André não gostava nada de lembrar-se disso.

Se fosse somente a ereção do Fabrício, ele poderia conviver com aquilo, fora um acidente, mas ter tido uma ereção também... Absurdo! Estava frustrado, nervoso e assustado. Não podia ter acontecido. Não podia. André não queria pensar sobre isso. Só que olhar o rosto todo sorridente do Fabrício não colaborava para que esquecesse, e acabava descontando aquele misto estressante de emoções em cima do moreno. A culpa é dele mesmo! Pensou quando uma vozinha sussurrou-lhe no ouvido que estava sendo injusto com o amigo.

“Vou ir tomar um banho. Vá indo na frente, nos encontramos no outro campo. Eu não quero que tu me espere.” André deixou bem claro ao passar pelo Fabrício, evitando encará-lo.

Fafá coçou os cabelos ainda sem entender nada. Uma vitória era uma vitória. Mesmo sendo fácil, era a garantia que avançariam e chegariam a adversários mais fortes, e isso deveria ser o suficiente para deixar alguém feliz.

Esse loiro tem umas ideias estranhas, Fafá concluiu, e resolveu seguir com o pessoal da Xaranga para fora do estádio, pra pegar uma das combes ou ônibus que ficavam circulando pelos estádios e complexos do campus. Queria ir acordar a Gabi e a Fran para ir vê-los jogar, mesmo sabendo que isso lhe custaria uns tapas.

É injusto que elas possam dormir tanto, pensou com um sorrisinho mal-intencionado.

XxxX

O jogo do futsal estava bem animado, e havia bem mais gente do que no de vôlei, apesar de muita gente ainda estar dormindo. Fran e Gabi certamente estariam não fosse o Fafá ter entrado na barraca e se jogado entre as duas. Ele precisou sair correndo da barraca depois disso para poupar a própria vida, mas no fim ali estavam as duas. Torcendo enquanto conversavam, a despeito do barulho das duas bandas. Gabi balançava no ar uma bandeira da UFRGS.

“Eu não dormi o suficiente. Foi o tempo todo aquele pessoal louco da UEL com a música lá nas alturas do lado do nosso alojamento! Porra! Que raiva daqueles caras!” Fran reclamava, com olheiras sob os olhos.

A galera da UEL já tinha uma má fama de longa data no Intermed, diziam que eram os mais loucos, encrenqueiros, sem noção e arruaceiros. Os garotos pintavam os cabelos de laranja e faziam moicanos, então era fácil reconhecer alguém da UEL. Além do fato que, se você visse alguém fazendo algo bizarro, havia grandes chances de ser da UEL.

“Os guris tão jogando um bolão, né?” Gabi ignorou as reclamações da Fran, ou aquilo iria longe. “Eles são bem sincronizados! Acho que vamos ter vitória no futsal masculino! Ah, e olha ali, que engraçado!” Gabi apontou para a pessoa que estava fantasiada de cavalão, que era o mascote da medicina da UFRGS. A fantasia era basicamente um cavalo mal-encarado e fortão. “Ainda bem que os guris não deixaram o bigode crescer, esses guris da UFRGS bigodudos é um dos castigos de Deus sobre o mundo.”

Fran riu, concordando. Assim como a UEL tinha a cultura de pintar os cabelos e fazer moicanos, os urguênses deixavam o bigode crescer, e alguns faziam um cavanhaque. Fafá ficara todo animado com a ideia, mas como Fran e Gabi insistiram pra que ele não deixasse crescer, ele acabou não deixando, até fizera a barba para ir. Fafá era um querido, sempre acabava fazendo o que as amigas pediam.

“O André é muito competitivo, parece que quer matar alguém em quadra.” Fran notou. “Já o Fafá fica bem centrado, mas parece mais tranquilo. Acho que é a primeira vez que vejo o Fabrício um pouquinho mais sério.”

“O Fafá tem esse jeito todo louco, mas quando o caso exige seriedade, ele fica super centrado, até parece gente.” As duas riram, e começaram a lembrar das bobagens que o moreno fazia, imitando as falas e caretas e rindo-se até se acabar. Ao final, estavam ofegantes, e até perderam um gol que o André fizera por conta disso.

“Por que tu e o Fafá não deram certo ano passado? Eu acho que vocês combinam.” Fran falou assim que as duas se recuperaram da dor no abdômen. “Ele é bonito, querido, inteligente, de bem com a vida, e imagino que beije bem...”

“Ui, ele tem uma baita pegada sim.” Gabi falou num ar malicioso. “E na cama também, ele é super carinhoso, mas sabe ser... Rawr! Sabe?” Soltou fingindo arranhar alguém, fazendo a outra ir.

“Então! Por que dispensou?” Fran estava abismada.

“Ah, sei lá. Ano passado ele ainda parecia gostar da ex. E o Fafá é muito intenso, sabe? Ele exige muito de ti numa relação, e não é fácil entrar no ritmo dele. E justamente o fato de que ele aceita muitas coisas e releva muitas outras às vezes pode ser cansativo, porque tu vai se sentindo culpado pelas coisas, e nem recebe um puxão de orelha por elas! E ele é romântico demais, só que comigo parecia forçado, como se ele estivesse sendo romântico só porque achava que o certo é ser romântico, e não porque realmente queria, e isso me incomodava, o que parecia reforçar a ideia de que ele ainda era a fim da ex dele e-“

“Ok, já entendi!” Fran a parou antes que ela continuasse interminavelmente.

“Ele é perfeito da forma dele. Só não é meu tipo. Ele é meu tipo pra amizade, eu amo ele, mas pra namoro e coisas assim eu acho que eu sou daquelas idiotas que curtem um cara mais problemático.”

“Então temos de achar um cara problemático pra ti nesse Intermed. Um cara da UEL, quem sabe?”

“Sua tchó, tá louca?! Que tipo de amiga empurraria um cara da UEL pra outra?” Gabi puxou os cabelos cacheados da Fran, que soltou um grito e retribuiu. Dali as duas começaram uma briguinha ridícula e perderam o final do jogo, em que os urguênses venciam de 5 x 2.

XxxX

O café da manhã e almoço eram oferecidos para todos os estudantes numa área coberta, e estavam incluídos no preço pago para ir ao Intermed. André, Fabrício, Gabriella, Fran, Rafael e outros colegas foram juntos almoçar, jogando conversa fora. A área de alimentação ficava um pouquinho longe do alojamento dos urguênses, mas nada exagerado – uns dez minutos de caminhada.

“Eu ‘tô caindo de fome. Vou comer como um porco, ou comeria um porco inteiro.” Fabrício declarou enfático, apertando o estômago e fazendo careta.

“Olha o canibalismo!” Gabi implicou.

André revirou os olhos, enquanto os outros gargalhavam. O loiro continuava com um péssimo humor, e isso já começava a incomodar o Fabrício. Ele tivera esperanças de que as coisas iriam fluir bem no Intermed, mas o André nem o olhava na cara! Fafá se lembrava do que havia feito no hospital, quase agarrara o loiro. Talvez ele estivesse irritado com isso...

André ia conversando na frente com uns colegas, Fabrício atrás com outros. Quando estavam chegando, Fafá foi abordado por uma garota. Era uma garota de origem indígena, com todos os traços característicos: cabelos e olhos cor da noite, pele azeitonada, um rosto arredondado que adquiria covinhas proeminentes quando sorria com dentes muito brancos.

“Dani!” Fafá a cumprimentou. “Guria, que que tu ‘tá fazendo por aqui?”

“DANI!” Gabi apareceu feito um furacão e abraçou a garota também. “Menina, perdemos o contato contigo! Como tu ‘tá? Tu passou em medicina então? Foi pra onde? Meu Deus, isso que dá tu não ter face e não atender o celular!”

“Oi! Amores, eu ‘tô fazendo medicina na UFPEL! Passei lá! Consegui convencer meus pais a deixar eu continuar a estudar em casa, e fazer vestibular lá!” Ela disse sorrindo. “Senti muita saudades de vocês! Vim pro Intermed imaginando se vocês viriam também!”

“Bah, vem almoçar com a gente então e conta as novidades!” Fafá convidou, ao que a índia aceitou imediatamente. “André, essa é a Dani, foi nossa colega no cursinho até outubro.”

André a cumprimentou, e então Fafá, Gabi e Dani seguiram na frente conversando animadamente. Já Rafael, Fran e André ficaram um pouco mais para trás. Fran torceu os lábios.

“Eu não gosto dessa guria.” Disse bastante séria. Rafael não falou nada, apenas colocou as mãos no bolso.

“Por quê?” André perguntou curioso. Fran suspirou, mas acabou contando tudo.

“Eu fiquei sabendo, depois que ela já tinha saído do cursinho em outubro, que os pais dela a tiraram de lá não porque ela transou com um cara, e os pais dela não gostaram disso como ela contou, e sim porque ela, que ‘tava morando com a irmã em Porto Alegre, pegava todo o dinheiro que os pais mandavam e que a irmã ganhava trabalhando e gastava em roupas, festas e não sei mais o quê. Aí o dono do apartamento ameaçou as duas de serem despejadas, e então a verdade veio à tona. Eu falei com a irmã da Daniela, nós nos conhecemos coincidentemente num encontro de amigos em comum. A Amanda diz que nunca mais quer olhar na cara da Daniela. E outra, ela tem esse jeito todo despojado e amigo, mas quando a Gabi e o Fafá estavam ficando, ela falava mal da Gabi pra irmã dela e não sem mais quem, e ainda ficava se insinuando pro Fafá quando a Gabi não ‘tava por perto, e a porta do Fabrício nem se ligava!” Fran discorreu, enquanto fulminava a garota pelas costas. “Eu nem contei nada pros dois da história, porque antes quando tentei contar pra Gabi sobre ela dar em cima do Fafá, a Gabi me disse que não tinha nada a ver. Eu já não ia com a cara dela, nunca fui, depois dessa história dela roubar o dinheiro da irmã por oito meses, foi demais. Cadela filha da puta.”

André arregalara os olhos durante a história.

“Eu também achava que havia algo de estranho sobre ela, só não sabia o que era. Mas me mantive imparcial.” Rafael comentou, ainda com um ar meio imparcial. Porém nunca fora muito chegado na guria, por ser mais quieto, ela costumava excluí-lo por completo, agindo como se ele nem existisse. E Rafael não se importava em tentar chamar atenção, nunca se importara com isso.

“ARGH! Que nojo dessa guria!” Fran se exaltou. Era o tipo de pessoa que não escondia quando não gostava de alguém, e tampouco escondia quando adorava. Era muito sincera em seus sentimentos. “Vamos almoçar longe deles. Por favor, eu imploro, não vou aguentar aquela cadelinha contando as novidades.” Fran implorou.

“Tu não vai contar nada dessa história pra eles?” André perguntou, vendo de longe a aglomeração onde as pessoas pegavam os pratos e talheres e seguiam para se servir num Buffet improvisado, e depois se sentavam em mesas espalhadas sob o toldo de proteção.

“Não sei se vale à pena. Não vamos ficar juntos o Intermed todo. Só espero que ela não invente de ir agarrar o Fabrício. Não quero amigo meu ficando com uma safada descarada que nem ela.”

André sentiu o peito se apertar. Também não gostou da ideia do Fabrício e ela ficarem. Olhou para o trio e reparou como a Dani já abria inúmeros sorrisos pro moreno, fazendo questão de ficar bem perto dele. O estômago do loiro se contorceu, e não exatamente de fome, apesar de estar quase caindo de fome e também planejasse comer como um porco, como Fabrício, mas um porco com classe. Sentou-se com o Rafael e Fran, e mais um colega que se juntou a eles, mas a todo o momento espiava por cima do ombro o outro trio sentado não muito distante.

XxxX

Os jogos da tarde foram igualmente cansativos, mas a UFRGS venceu os dois e passou, tanto no futsal quanto no vôlei, para as quartas de final. André estava ainda mais estressado. A Daniela viera torcer nos dois jogos. Durante o jogo de vôlei, ela ficara sentada junto com o Fabrício o tempo todo, de tal modo que o loiro mal conseguira se concentrar e errara alguns ataques. Depois da vitória no futsal, ela viera abraçar efusivamente o moreno e, foi somente aí que André reparou, ela tinha uns peitos enormes.

O que mais irritava o André era que, após o jogo de futsal, que terminara pela seis e meia da tarde, eles foram comemorar reunidos com vários colegas as vitórias com muita cerveja e petiscos no bar-quiosque que fora montado próximo do estádio dos alojamentos da UFRGS.

E Fafá cantava e tocava agora a música Daniela, do Biquini Cavadão.

Dane-se o emprego, o salário, o patrão
Dane-se o medo, a loucura, a razão
Dane-se a moda, se é brega ou 'Armani'
Dane-se tudo que não tiver Dani

Só penso nela,
Quem é ela,
O nome dela... é Daniela!

Pela primeira vez, André tinha vontade de jogar aquele violão longe. Era uma sensação muito estranha, não se lembrava de já a ter sentido antes. Era algo opressivo, e mais irritante que zumbido de mosquito durante a noite. A música era boa, mas somente se não houvesse uma Daniela ali junto, se Fafá não estivesse sorrindo enquanto cantava pra essa Daniela, e se essa Daniela não estivesse sorrindo de volta, sem nenhum medo de deixar transparecer o interesse que tinha no moreno.

André olhou, através de seus óculos escuro Ray-Ban, pra alguns urguênses vestidos com blusa azul e saia branca, que se autodenominavam ‘fundetes’ enquanto rebolavam, dançavam e davam em cima dos outros guris. A implicância entre as faculdades chegava a esses extremos, de guris da UFRGS se vestirem de guria só pra incomodar e irritar os fundaceiros, dançando de maneira esquisita ao som da música do quiosque. Se o humor do loiro não estivesse tão negro, ele estaria rindo tanto quanto os outros que observavam.

Cansado daquilo, e realmente exausto fisicamente, André se levantou e só avisou a Fran e o Rafael que iria ir dormir um pouco antes da festa, senão não aguentaria a noite, e nem as competições de corrida na próxima manhã. Saiu sorrateiro e deu graças a deus que, no segundo andar do alojamento, havia certo silêncio, já que todos estavam do lado de fora.

“Hei, Dré, vai na festa hoje?” Uma das colegas, a Vanessa, perguntou.

“Vou sim. Onde vai ser?”

“Tem que pegar ônibus pra ir. Vai ser numa casa de festas numa praiazinha vizinha de Torres, pelo que fiquei sabendo!” A Vanessa avisou. A conversa não demorou e logo o André estava deitado de barriga para cima na barraca, tapando os olhos com um dos braços.

“Se ele quer ficar com ela, ele que fique... Mesmo que ela seja uma ladra de parentes.” Murmurou consigo mesmo, apertando o lençol na mão. “Que droga, por que estou tão irritado...?” A vontade era de quebrar alguma coisa. Ou muitas coisas. “É culpa daquele idiota por esfregar aquela ereção na minha bunda, isso estragou meu dia desde cedo.” A sensação opressiva pareceu subir para a garganta, deixando meio claustrofóbico. “Que merda!” Levou ambas as mãos aos cabelos, apertando-os como se quisesse arrancar uns tufos loiros fora.

Depois respirou fundo e fechou os olhos, tentando relaxar. Justamente a imagem daquele que queria esquecer lhe veio à mente – um dia em que Fabrício levara o violão para a aula e tocara na rodinha de colegas no campus centro num intervalo entre anatomia e fisiologia, nas cadeiras em frente ao bar da arquitetura. Naquele dia, não havia nenhuma Daniela para estragar o momento.

André, que tinha a memória absurda para qualquer coisa, lembrou-se da letra que lhe chamara atenção e começou a cantar baixinho:

Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção

E quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção

Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição

E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar...

Num rompante, André abriu os olhos interrompendo a canção, e uma lembrança perdida até então lhe assaltou a mente como uma criminosa que apunhala sem compaixão o coração de sua vítima.

“Tu acha que vai se lembrar disso amanhã?”

“Isso o quê?”

“Isso...” Fabrício deixou o antebraço bater contra o chão, e seu rosto se aproximou mais do do loiro.

“Se eu lembrar, vou te bater.”

“Então espero que esteja suficientemente bêbado...”

A sequência seguinte dos acontecimentos atropelou-lhe a mente, passando-se numa sucessão de sensações, pois durante todo o tempo em que se beijaram, André estivera de olhos fechados. O loiro se sentou na barraca com o peito explodindo e o coração palpitando na garganta. Tapou de novo a boca com a mão, não conseguindo acreditar naquilo. Ainda por cima haviam sido flagrados pela Natália. Pela Natália!

Por isso no dia seguinte ela dissera que não queria mais sexo sem compromissos. André sentiu-se estúpido ao extremo. Ele e Fabrício haviam trocado um beijo! E um beijo nada casto, tampouco fugaz. Um beijo intenso. E isso quando ele nem ainda percebido o quanto era um idiota por ser tão preconceituoso! Ou seja, naquela noite era um homofóbico hipócrita que se agarrara com o amigo de infância. E ainda gemera sem nenhum pudor durante o beijo, e só Deus sabia o que mais teria feito caso Natália não houvesse aparecido.

André novamente sentiu vontade de morrer.

E, dessa vez, nem se importou em pensar em alguma forma indolor de suicídio.

Notas finais
Música do Biquini Cavadão: http://letras.mus.br/biquini-cavadao/281078/, amo essa música, haha! Vários comentários sobre esse capítulo. 1) Dré se entregou total, até ereção teve. 2) Será que ele vai conseguir seguir o ritmo intenso do Fafá num relacionamento? E isso que o Fafá nem amava a Gabi, imagina como vai ser com o Dré, aiajhiajhi! 3) Nyah cortou meus comentários, eu esqueci o que mais tinha falado aqui antes, U_U Vídeos dos urguênses se vestiando de fundetes: https://www.youtube.com/watch?v=JzJkg09Rppk https://www.youtube.com/watch?v=uCTqmFTz0Hk, pra vocês verem que eu não invento nada dessas putarias, uahauhauahua! Beijão, obrigada a todos que comentaram cap. passado!