Good Riddance
23 Banho de mar
Notas iniciais
Já era mais de dez da noite.
As gurias já tinham sumido para irem se arrumar para a festa, e os garotos estavam bebendo numa rodinha perto do quiosque, jogando conversa fora, ou cantando em conjunto músicas famosas brasileiras ou internacionais. Gabi era a única guria que continuava ali com os colegas, mas até ela estava sentindo que precisa ir se arrumar, ou perderia a viagem com os amigos até a outra cidade.
“Vou indo me arrumar, gente. Até depois.” Ela se despediu, já se pondo a caminhar; porém o Fafá se levantou também, decidindo acompanhá-la. “Então... Tu e a Dani é?” Ela perguntou quando se distanciaram alguns metros do resto da galera.
“Ahnn?” Fafá não entendeu nem a pergunta, nem o tom insinuante da amiga. “Que que tem eu e a Dani?”
“Tu ‘tava dando em cima dela, não? Até cantou aquela música pra ela... Foi no mínimo sugestivo.” Gabi explicou, revirando os olhos. Dani só faltara pular em cima do Fabrício e devorá-lo ali mesmo, na frente de todos. Gabi, em seu íntimo, não se sentia exatamente confortável com a ideia do moreno ficando com a amiga em comum, mas não se meteria no assunto se fosse o que Fabrício queria.
Fafá soltou uma risada longa.
“Que isso, jovem! Eu gosto daquela música, só ‘tava cantando pra animar a gurizada, aproveitando a desculpa de que tinha uma Daniela ali.” Fafá riu-se mais. Nem havia percebido o interesse da Daniela, e Gabi teve de rolar os olhos novamente para o jeito tapado do moreno. Como ele conseguia ser tão inteligente pra umas coisas, e tão burro pra outras?
“Ai, Fafá, só tu mesmo! Só devo te avisar que ela achou que tu ‘tá super a fim dela.” Gabi fez-lhe o favor de informar enquanto caminhavam pela grama, passando à frente do estádio onde mais cedo haviam ganhado no futsal. “Só te liga hoje na festa...”
“Ciúmes?” Fafá se inclinou para a amiga, ondulando as sobrancelhas. Gabi empurrou-lhe o rosto para longe, balançando a cabeça como se pedisse para que os céus colocassem alguma luz sobre aquela cabecinha avoada.
“MORTA de ciúmes.” Gabi disse com uma ênfase irônica.
Fafá soltou mais uma risada divertida.
“Eu não quero nada com ela.” Esclareceu tranquilo. “Eu já tenho outra pessoa na mira.”
“QUEM?!?” Gabi quase deu um pulo de exaltação, parando de caminhar e se virando pro amigo. Era a primeira vez que ouvia o Fabrício dizer que estava com interesse em alguém! No ano anterior, fora ela quem dera em cima dele e o chamara para sair. Fafá era tão lesado nesse tipo de coisa, que às vezes parecia até um tanto assexuado. Gabi achava que ele ter namorado por tanto tempo durante a adolescência não lhe fizera bem. “Quem é? Quem é? Vai, Fafá, conta! É da nossa turma? Quem? A Vanessa? A Carol? A Ana? A FRAN?”
Fabrício riu da cara de curiosa mórbida de Gabi, mas passou os dedos pelos lábios como se fechasse um zíper, chaveando na ponta e então jogando a chave fora por cima do ombro. Gabi quase entrou em surto, invadida por uma necessidade vital de saber quem era a pessoa. Era questão de vida ou morte. Tentou de todas as formas convencer o moreno a lhe revelar-lhe quem era a ‘moça’ durante o resto do caminho até o alojamento, mas Fafá apenas sorria enigmático, ignorando os apelos da guria.
Gabi ficou desolada, mas disse a si mesma que iria descobrir quem era. Aquele momento era épico! O Fafá correndo atrás de alguém? Ele havia lhe contado que com a ex-namorada ele também não fizera nada, fora a Thaís quem determinara que iriam ficar e depois namorar. Ou seja, Fabrício nunca mexera um dedo pra conquistar ninguém, e agora estava na caça? Era de enlouquecer qualquer amiga enxerida.
Fafá, depois de conseguia fugir da Gabi, subiu para o auditório e então para o camarote onde estava a barraca que dividia com o loiro. Quando entrou nela, deparou-se com o André sem camisa, apenas com calça jeans e meias, procurando pelo resto da roupa dentro da mala enorme que ele havia trazido – pelo menos o dobro da do Fabrício. André levou um susto com a entrada repentina do Fabrício na barraca, e o moreno deu-lhe uma bela analisada, perguntando-se se ele ainda estaria de mau-humor.
“E aí? Conseguiu dormir um pouco?” Fafá perguntou tirando os tênis. “Eu bem que deveria ter vindo tirar um cochilo também. ‘Tô caindo de sono.” Fafá olhou pro loiro, que tinha a cabeça baixa e parecia estranhamente avermelhado. Era normal o loiro ficar ruborizado devido à pele clara, porém geralmente ele tinha um motivo: vergonha, irritação, até quando ficava animado.
“Dormi o que deu. Toma aqui.” André entregou ao Fabrício um comprimido ainda no pacote já rasgado. “Vai impedir que estejamos podres amanhã, senão não vamos conseguir levantar pras corridas.” Explicou. “Tem de tomar mais um quando voltarmos.”
“Mazah guri! Tu pensa em tudo!” Fafá pegou uma garrafinha com água e tomou o engov. André deu de ombros e continuou a procurar a camisa, num silêncio desconfortável. Fafá franziu a testa, não estava entendendo nada daquilo. Primeiro o loiro passava o dia irritado, agora parecia todo constrangido e mal o olhava na cara.
Se aproximou dele e colocou a mão sobre o ombro dele.
“André-“
“Não me toca!” André se exaltou e empurrou a mão do moreno para longe com um tapa. Fabrício o olhou perplexo, enquanto André devolvia o olhar de uma maneira igualmente atormentada, a respiração mais rasa e rápida que o normal. A imagem dos dois se beijando passou pela cabeça do loiro novamente, e ele deu às costas ao Fabrício, procurando nervosamente pela camisa.
“Qual o teu problema hoje?!” Fabrício não quis deixar para lá e segurou o braço do André, virando-o novamente para si, ambos ajoelhados dentro da barraca. O loiro tentou se soltar do aperto, mas o Fafá o segurou pelo outro braço, impedindo-o e mantendo-o quieto na marra. André parecia à beira de um ataque de nervos, e Fabrício não tinha ideia do que estava acontecendo, aquela atitude não fazia nenhum sentido!
“Me larga!” André se debateu mais, porém Fabrício foi igualmente teimoso e continuou a segurá-lo ainda mais forte – toda vez que André tentava empurrá-lo, segurava a mão dele, os braços, dali a pouco estaria segurando as pernas. Mas o que aconteceu antes disso foi que os dois caíram sobre o colchonete – André por baixo, tendo os pulsos comprimidos um de cada lado do rosto pelas mãos decididas do moreno.
Ambos se encararam ofegantes, olhos azuis nos olhos escuros. O próprio Fabrício sentiu-se corar pela posição do André abaixo de si: as coxas dele estavam sobre as suas que permaneceram dobradas, de modo que as pernas dele estavam abertas, o quadril ligeiramente erguido, e ele ainda estava sem camisa deixando ver o peito subir e descer rapidamente enquanto o tanquinho do abdômen se contraía no mesmo ritmo.
André estava com aquela expressão de surpresa e vergonha que Fabrício adorava provocar.
“Não vai me contar o que tu tem hoje?” Fabrício perguntou não deixando nenhuma escapatória ao loiro que não responder. André mordeu o lábio inferior, um sinal de sentia-se desconfortável, e virou o rosto, evitando o olhar do outro. André na realidade não conseguira dormir nada, passara o tempo todo se perguntando o que iria fazer, ou como iria agir na frente do moreno.
Uma dúvida o atormentava: Fabrício se lembrava daquele beijo? Porque ele agira como sempre depois daquilo, e ainda interagira de uma forma toda natural com a Natália, mesmo depois do sermão que recebera dela. André apertou os olhos ao se lembrar do sermão, lembrava apenas de umas palavras ou frases soltas, mas o tom brabo dela era inigualável. Chegara a pegar o celular antes para ligar para ela só para brigar – e assim descontar um pouco do conflito que sentia –, mas absteve-se. Não tinha coragem de deixar outra pessoa saber que havia se lembrado daquilo.
“Não tenho nada. Vamos pra essa festa logo, talvez eu só precise beber.” Mas não o suficiente para perder a memória, pelo amor de Deus, completou em pensamento. Fafá não se convenceu muito, porém o tom do loiro parecia ligeiramente mais ameno. Incapaz de se aguentar, considerando as vezes em que já havia se refreado antes, Fabrício soltou um dos pulsos do loiro e segurou-lhe o rosto, deixando a ponto dos dedos roçarem na nuca dele.
“André-“ Chamou baixo, e aproximou-se mais um pouco. André sentiu o coração tentar quebrar uma das costelas do tórax, e arregalou os olhos por aquele milésimo de segundo em que o mundo parece congelar em uma cena decisiva.
Em que apenas duas escolhas podem ser tomadas.
E a escolha do André foi empurrar Fabrício para o lado e se afastar dele, capturando na mala uma camisa qualquer e a colocando rapidamente. Fabrício caiu sentado para o lado e suspirou, em dúvida se agira precipitado demais, ou se o loiro que era realmente difícil. Fafá em alguns momentos tinha certeza de que André também queria aquilo e iria se render, em outras achava que estava vendo coisas onde não existiam.
“Eu vou ir encontrar o pessoal. Nos vemos na festa.” André avisou enquanto colocava o cordão da caneca de alumínio da medicina a tiracolo e saía, pronto pra cair na noite. Ou justamente o contrário. Talvez eu deva ficar com alguma guria e deixar isso pra lá, pensou e foi justamente pensar em esquecer, que a lembrança do beijo retornou ainda mais forte, deixando-o novamente com vontade de ir bater a cabeça contra a parede.
Pelo caminho, encontrou o Rafael e, sem nem dizer nada, o agarrou pelo braço e começou a arrastá-lo consigo em direção aos ônibus que já levavam os mais adiantados para o local da primeira festa.
“Hei! Que é isso?” Rafael perguntou.
“Vamos indo.” André não quis explicar muito.
“Mas e os outros?” Riu do outro, tropeçando nos próprios pés já que era sumariamente arrastado. “A Fran tinha me pedido para esperá-la.”
André estacou largando o Rafael, que quase deu de boca no chão pela liberdade súbita. O loiro lembrou-se de ter escutado uma conversinha entre a Gabi e a Fran, sobre a última estar a fim do alemão. André suspirou, imaginando que teria o pescoço esfaqueado caso não esperasse a de cabelos cacheados. Teria de encontrar outras pessoas para acompanhá-lo mais cedo pra festa, ou esperar junto com o Rafael com o perigo de o Fabrício se arrumar rápido e os dois se toparem em seguida.
Não tenho para onde fugir! Chegou à conclusão com certo desespero.
“O que que te deu? Tu não parece muito bem...” Rafael o olhou, ajeitando as roupas. Estava de barba feita e com um bigodinho ridículo que, quando André olhou mais atentamente, lhe deu vontade de gargalhar. “Agora ‘tá rindo sozinho.”
“Esse teu bigode.” André debochou, e Rafael passou o dedo indicador e polegar pelo bigode, alisando-o.
“É charmoso.” Explicou, parecendo realmente acreditar naquilo. Pobre coitado iludido, André pensou condescendente, e então soltou o ar pela boca, olhando para trás.
“Onde ‘tá a Fran, hein?”
“Não sei. Ela e a Gabi devem vir juntas.” Rafael colocou as mãos no bolso, parecendo querer falar alguma coisa por um momento, mas sem encontrar a coragem.
“O que foi?” André cruzou os braços encarando os ares subitamente constrangidos do alemão.
“Tu acha... Que eu tenho chance com a Gabi?”
Puta que pariu! Agora fodeu! André pensou verdadeiramente chocado com a pergunta. Aquele tipo de coisa não era nada legal! Fran ficaria chateada, Gabi não saberia o que fazer, e Rafael acabaria odiado por ambas. Maldita confusão dos infernos, ‘tá tudo dando errado! A raiva do mundo do loiro aumentou a níveis alarmantes.
“Claro que não, idiota! Vocês não tem nada a ver! Tu é todo caladão, ao menos devia ser mais atento ao que acontece ao teu redor e ver qual guria é a fim de ti mesmo, cego do cacete!” Falou mal-educado e passou por ele, decidindo ir sozinho pra festa de uma vez, deixando para trás um Rafael paralisado de olhos arregalados.
“Hei! André?! O que tu quer dizer com isso?! Volta aqui, cara!” Rafael gritou e saiu correndo atrás do loiro, esquecendo-se de que tinha de esperar pelas gurias. “André!”
“Todo mundo é estúpido nessa faculdade!” André exclamou para o alto, atraindo alguns olhares abismados pelo caminho. E teve de aguentar Rafael, pela primeira vez (para aborrecimento do mais novo), falando feito uma matraca tentando lhe arrancar respostas durante todo o trajeto de ônibus, em meio à gritaria e às músicas que as pessoas cantavam.
Pode ser gorda! Pode ser feia! Só não pode ser gorda e feia! Uns rapazes bêbados começaram a cantar. André massageou as têmporas, tentando aguentar essa e outras barbaridades.
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Fafá foi mais tarde com a Gabi, a Fran e a Dani, além dos outros colegas, como o Tiago, o Chico, o Pedro e o Gabriel. Depois de muito procurar, chegou à conclusão de que só na festa encontraria o André. Resolveu manter a cabeça leve, não queria passar o resto do Intermed se preocupando, então levaria na naturalidade, apesar de estar meio perdido com as atitudes do loiro.
O trajeto no ônibus foi uma bagunça, ia junto gente de várias universidades, e sempre rolava uma implicância. Quando chegaram, Fafá ficou impressionado. O lugar era muito bacana, à beira mar, feito todo de madeira com um aspecto que fazia a pessoa se sentir no Havaí.
Tiveram de enfrentar uma fila já bastante grande para conseguirem entrar.
Do lado de dentro, havia um espaço grande protegido pelos muros de madeira, onde ficava a construção também de madeira rústica de dois andares, uma pista do lado de fora em um quiosque enorme e quadrangular, com um palco onde algumas bandas deveriam tocar. Mais atrás, havia duas pequenas casinhas geminadas onde ficavam os banheiros. O lugar já fervia e ainda muita gente pra chegar.
Cerca de 3500 estudantes de medicina haviam ido ao evento.
“Vamos dançar!” Gabi determinou e puxou Fran para a pista.
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“E então ele me beijou. Tu consegue acreditar? Ele me beijou! Se aproveitou que eu ‘tinha bebido demais, e me beijou.” André discorria com uma guria aleatória que, após a revelação, saiu de perto de si olhando-o como se ele tivesse algum problema. André bufou e se jogou num dos bancos ao ar livre que havia em frente à casa de dois andares.
Bebera um pouco mais, tentara dar em cima de uma guria, mas acabara contando mais do que devia, mesmo sem nem saber como chegara àquele assunto. Aquilo parecia estar assombrando-o! Chegou à conclusão de que era um bêbado que falava demais, apesar de não estar assim tão bêbado, apenas mais falador. Uma sorte que a guria nem o conhecia, e ela que se ferrasse, nem queria ficar com ela pra começo de conversa. Aliás, não estava com a mínima vontade de ir flertar guria nenhuma. Estava com sono, talvez devesse se encostar melhor naquele banco e-
“ANDRÉ!”
O loiro saltou aturdido do banco, o berro ressonando como um eco infernal em seu ouvido – muito pior do que as músicas que vinham das três pistas diferentes que o local possuía. Olhou para a guria à sua frente, e o que viu foi a morte em forma de uma Franciele com as mãos na cintura e um olhar genocida.
“A culpa não é minha!” O loiro ergueu os braços para o alto, mas levou um tapa, dois, três bem dados no braço. Gemeu de dor, fechando os olhos, erguendo os braços para tentar proteger o rosto daquele ataque frio e calculista.
“Maldito! Por que tu falou tudo pro Rafael? Ele veio se desculpar comigo por não querer ficar comigo! Que humilhação, levei um fora sem nem ter tentado nada!” Fran pegou a orelha do loiro e começou a arrastá-lo em direção à pista do quiosque.
“Heeeei! Eu ‘tava tentando ajudar!” Exclamou achando que teria a orelha arrancada.
Eu vou matar o Rafael, pensou pelo caminho.
“Pois só piorou tudo, e tu nem era pra saber de nada disso!” Fran berrava de frustração. “Ai, que raiva! Agora tu vai dançar comigo na pista, e fingir que ‘tá tri a fim de mim, eu não quero nem saber. Mas nem ouse encostar esses lábios fofoqueiros em mim!”
“Eu nem queria mesmo...” André murmurou, o que só lhe garantiu um aperto maior na orelha.
No fim acabou na pista dançando com a amiga, perto do palco. Outros colegas apareceram, e entre eles a Gabi, o Fafá, o Rafael e a Dani. André os ignorou e continuou dançando com a Fran, passando as mãos pelas costas magras dela, tentando transparecer que ‘tava super a fim, mas mantendo os lábios distantes, como ela determinara. Queria manter ao menos uma orelha intacta. A outra talvez já estivesse com o dobro do tamanho, e latejava como o inferno.
Acabou olhando primeiro para o Rafael, que para sua surpresa não pareceu feliz com o que via, e depois para o Fabrício, que os olhou rapidamente com certa suspeita. O loiro achou o plano perfeito, isso ao menos mostrava para todos que estava supostamente a fim da Fran, e não do Fáb... André se conteve antes de terminar mentalmente a frase.
O que lhe irritava era ver a Daniela tentando a todo o momento se esfregar no Fabrício.
“Não acredito que botaram essa música.” Fran falou divertida. A música Conga la Conga, da Gretchen, começou a tocar. “O Fafá dançando essa música é um sarro!”
André teve medo de imaginar; porém, nem precisou gastar neurônios para tão traumática imagem mental, pois os amigos do moreno tiveram a mesma ideia e o empurraram para o palco. Fafá tentou fugir, mas não teve para onde, então, como não costumava se fazer de rogado (ao menos quando não tinha nenhuma escapatória), deixou-se ser jogado no palco e começou a dançar. André achou que era seguro observar. Olhar não tirava pedaço, oras!
Fabrício começou a dançar de uma maneira que André jamais conseguiria colocar em palavras. Se tentasse, diria que era uma maneira Fabrício de dançar. Meio bobo, meio sexy, o moreno mantinha um sorrisinho maroto no rosto enquanto remexia o quadril e torso, movendo os braços ou fingindo movimentos sexuais que levavam às gurias mais próximas do palco à loucura, berrando de excitação. Em alguns momentos ele levantava a camisa, exibindo o tanquinho do abdômen bronzeado, e as meninas grudadas no palco erguiam notas de cinco, dez, vinte reais para botar nas calças do moreno.
Em certa altura da música, ele tirou a camiseta, para delírio generalizado da mulherada, e a girou no ar antes de tocá-la do palco. André teve certeza de que ele havia mirado quando a camiseta caiu bem na sua cara, enchendo seu nariz com o perfume do moreno. André resmungou e arrancou a camiseta da cara, mas a segurou, e voltou a olhar para o palco, vendo Fabrício continuar a dança com um sorriso mais sacana. Ele já devia ter uns cinquenta reais ou mais pendendo na barra da calça.
Um calor se espalhou pelo corpo do André, e um arrepio subiu pela coluna e o fez tremer a partir dos ombros. A excitação gerada pela cena captada pelo olhar vidrado quis descer para certa região exclusiva da anatomia masculina. Não olhe, não olhe, não olhe! André mordia furiosamente o lábio inferior.
Entretanto, toda a excitação foi para o espaço quando outra pessoa subiu no palco e, no maior descaramento do mundo, se aproximou do Fabrício e tascou-lhe um beijão ali na frente de todos.
“Aquela cadela!” Fran gritou ao lado do loiro. Ela já estava mal-humorada antes, e isso não a ajudava a segurar a boca agora. Daniela se abraçou ao Fabrício e praticamente o engoliu com um beijo cinematográfico. André deixou o queixo cair e chegou a esperar que o Fabrício a afastasse, com uma bela careta de nojo, porém ele apenas a segurou pelos ombros e pareceu... retribuir!
Filho da p...!
Se antes André estava com raiva do mundo, naquele momento ele sentiu raiva de todo o universo e possíveis extraterrestres vivendo pacificamente em outros planetas. Mataria todos! O despeito foi tanto que não aguentou continuar a ver aquilo. Deu as costas para o palco e rumou para a saída do lugar. Toda aquela barulheira e aquele formigueiro de gente não o deixavam pensar, ou respirar. Alguém parecia ter colocado uma pedra em sua garganta.
“Já vai tão cedo, guri?” Um dos seguranças perguntou. André enfiou uma nota nem sabia de quanto no bolso dele só para que ele calasse a boca, e saiu para a rua, deparando-se com a orla da praia, a brisa do mar, e o próprio mar, enegrecido e sábio mais adiante, com suas ondas silenciosas. Em vez de ir para um dos ônibus, André pôs-se a caminhar em direção à praia, com a boca com um gosto amargo e uma sensação de areia nos olhos.
Tirou os tênis e foi em direção à água, para sentir a temperatura, sentindo os ombros rígidos a cada passo. Esforçava-se ao máximo para não chorar, segurando soluços estúpidos. Isso não faz sentido, balançou a cabeça tentando afastar aquelas emoções, e foi quando teve um sobressalto – alguém colocou a mão em seu ombro.
Virou-se nervoso e deparou-se justamente com o Fabrício, que de alguma forma o seguira. Detalhe que ele ainda estava sem camisa, exibindo o torso, abdômen e braços sarados.
“Não me diga que ‘tá pensando em ir tomar um banho de mar!” Fafá sorriu brincalhão, e no fundo era um sorriso um tanto culpado. Não queria ter beijado alguém na frente do loiro.
“Não sou louco como tu pra ter uma ideia dessas.” André rebateu mordaz e voltou a lhe dar as costas. Olhar para o moreno lhe dava mais raiva. Não entendia direito o que sentia, mas reconhecia ser aquela sensação de quando Fafá cantara para a Daniela...
Andou alguns passos, a esmo, tentando compreender toda aquela frustração, aquela vontade de chorar de tanta raiva e mais alguma coisa que não conseguia dar nome. E foi novamente surpreendido, sentindo todo o corpo se eriçar.
Fafá o abraçara para trás, prendendo seus braços nas laterais do corpo.
“Que humor negro é esse? Não me diga que ‘tá com ciúmes?” Fabrício soltou uma risadinha buliçosa contra seu ouvido, e chegou a morder-lhe a orelha na sequência, arrepiando novamente o loiro, dessa vez de cima abaixo. André virou parcialmente o corpo, tapando a orelha com a mão e olhando perplexo para o mais alto.
“Ciúmes?! Como eu estaria com ciúmes? Eu nem conheço essa Daniela!” Exclamou sentindo o rosto arder mais do que conseguia lembrar. O coração bateu frenético, ciúmes? Ciúmes? Ele nunca havia sentido ciúmes de ninguém antes! Nem conhecia a sensação! Não mesmo! Não.
“Não, loirinho, eu não ‘tô falando da Daniela.” Fabrício rolou os olhos e sorriu mais largamente, um tanto predatório ao encarar o loiro. Os dois estavam bem próximos, Fafá ainda abraçava André, e seus rostos se encontravam a centímetros de distância. André sentiu-se embriagado pelo perfume forte do outro, ou seria ele que estava sensível demais?
“’Tá falando de quem então? De ti? Sai pra lá, tu ‘tá bêbado.” Tentou se soltar e conseguiu, livrando-se do abraço do outro. Fafá continuou com o sorrisinho maldoso no rosto e, sem aviso, arrancou-lhe os tênis da mão.
“Posso até ‘tá bêbado, mas é tu que vai voltar sem tênis pro alojamento!” Exclamou e, para horror do André, disparou a correr pela praia, feito um cachorro que roubara os tênis do dono.
“Fabrício!” André chamou. Aqueles tênis eram caros e haviam sido um presente de aniversário da Natália. Se algo acontecesse com eles, estava ferrado. E André não confiava nada no bom senso de certo cachorro. Não teve outra escolha senão disparar também atrás do Fabrício. “Devolve meu tênis, maluco da porra!”
Fabrício, depois de vários minutos, só parou de correr porque tropeçou num buraco disfarçado na areia, e André, que estava logo atrás, acabou se chocando contra as costas do moreno e os dois caíram embolados no chão.
“Por que tu parou tão de repente?” André reclamou, sentindo uma fisgada no pulso da mão que usara como apoio ao cair. Ergueu o olhar e percebeu que estava praticamente deitado sobre o torso nu do Fabrício, que massageava a cabeça com uma careta. A posição trouxe de volta o constrangimento, e as bochechas pinicaram.
“Isso traz lembranças.” Fafá falou divertido, referindo-se ao paintball em que eles também se engalfinharam no chão. O moreno de súbito inverteu as posições e prensou o loiro na areia, arrancando uma interjeição baixinha de susto do André. “E me faz lembrar que tu me deve um pedido...”
“Tu não pode fazer ele agora!” André falou rapidamente, nervoso, sentindo todo o corpo corresponder ao contato e proximidade entre os dois. A noite tinha uma brisa fresca, mas continuava quente, fazendo-o suar de leve sob a camiseta, a pele tornando-se febril.
“Por que não?” Fafá franziu a testa.
“Porque tu ‘tá bêbado.”
“Nós nunca criamos cláusulas de uso do pedido quando fizemos a aposta, Sr. Santayana.” Fafá desconsiderou, colocando uma mão suja de areia no queixo do loiro, olhando-o de uma maneira pouco convencida. André mordeu o lábio já prévia e tentadoramente inchado, na opinião do Fabrício.
“Mas isso é senso comum...” Explicou tentando soar o mais persuasivo possível; e o Fabrício, bobo como era, ainda parou para pensar sobre aquilo, erguendo a cabeça e olhando para o horizonte, meditativo.
Uma lanterna pareceu acender sobre a cabeça do moreno segundos depois, e ele voltou a sorriso daquela forma que deixava André não com só com um pé atrás, mas com pés, mãos, cabeça... Aquele sorriso de quem queria e iria aprontar.
“Então vou te dar duas opções: ou vamos tomar um banho de mar, ou eu vou usar o meu pedido.” Deu o ultimato, aproximando mais o rosto do loiro.
André sentiu-se capturado em uma armadilha.
“Não vale chantagem! E ‘tá louco?! Eu não vou tomar banho de mar no meio da madrugada, com um bêbado!” Disse o loiro. Nem ele, nem o Fabrício estavam exatamente bêbados, apenas haviam extinguido aquele freio social básico que todo o ser humano deve ter para conviver em sociedade.
Se bem que André achava que ele era o único com algum senso-crítico ali.
“Então acho que vou cobrar o meu pedido...” Fafá sussurrou, olhando bem dentro dos orbes azul-claros do loiro, e deslizou uma mão para dentro da camiseta alheia.
André ofegou arrepiado.
“Por que não pede pra Daniela ir pro mar contigo?” Perguntou com ciúmes mal disfarçado que o fez corar ao percebê-lo no tom. Eu não acredito que estou mesmo com ciúmes... Foi incapaz de negar, só de lembrar-se do beijo sentia o sangue borbulhar nas veias, e uma vontade de estrangular o Fabrício. Maldito, como ele pudera retribuir aquele beijo?
Fafá sorriu daquela forma predatória e um tanto satisfeita e se ergueu-se, começando a abrir lentamente o zíper da calça jeans, o olhar pregado no loiro vulneravelmente estendido no chão.
“Porque eu não ‘tô interessado nela.” Replicou displicente.
André arregalou os olhos e chegou a se sentir meio zonzo com a cena sufocantemente sensual. Não queria ver aquilo, não queria, não queria... Mas manteve os olhos bem abertos e focados no moreno, os lábios entreabertos deixando escapar uma respiração agitada.
“O que tu fez com a minha camisa?” Fafá se lembrou de repente, quebrando o clima.
“Ahn?” André piscou repetidas vezes, tentando parar de olhar para o moreno com a braguilha da calça aberta deixando o cós solto e um tanto abaixado, o que permitia vislumbrar-se o elástico da cueca preta que ele usava. “Eu joguei no lixo.”
“QUÊ?!” Fafá exclamou atônito. “Aquela camisa era nova! Presente do Diogo e do Rique!”
“Desculpa...” André mordeu o lábio abaixando o olhar, e Fabrício se surpreendeu com a expressão adoravelmente arrependida do loiro; era surpreendente ver o loiro desse jeito, mas ainda assim resmungou qualquer coisa, decidido a não deixar barato – pegou André pelos tornozelos e começou a arrastá-lo rapidamente em direção ao mar.
“Fabrício!” André tentou sacudir as pernas, as costas ardendo pelo contato áspero com a areia, mas as mãos do moreno pareciam aço ao redor de seus tornozelos. “AHHH! EU ‘TÔ DE ROUPA! ROUPA DE MARCA!” Tentou se virar e se segurar em alguma coisa, mas havia apenas areia e tudo que conseguiu foi encher as unhas dela.
“É melhor tirá-las rápido então!” Fafá exclamou sem dar arrego, e riu do pânico alheio.
André se desesperou mais ao perceber que a água estava bem perto e acabou dando um jeito de tirar ao menos a camiseta. A calça pelo jeito ia pro brejo. Ou era o que ele imaginava.
Fafá o largou de repente, quando estavam a centímetros da areia molhada pela água do mar, e, com uma risada safada, se ajoelhou rápido, segurou-lhe as barras das calças e se levantou puxando-as junto, fazendo o loiro quase dar uma cambalhota no chão junto com uma interjeição assustada.
Fafá tocou a calça bem longe, na direção oposta da água.
“Prepare-se, nem todos têm o privilégio de observar isso.” Fafá alegou cheio de marra ao chutar os próprios tênis para longe e começar a retirar as calças.
André não conseguiu refrear uma gargalhada quando o moreno se desequilibrou e caiu de bunda na areia molhada com as calças arriadas até o meio das pernas.
“Botou tanto olho que até me faz cair no chão!” Fafá acusou, refreando-se para não rir, e terminou de tirar a calça e a atirou na mesma direção que a do André.
André continuou com o ataque de risos. Fora pateticamente hilário – e tal patetice definitivamente não fora culpa sua. Fabrício terminou por rir e se levantou novamente, andando para trás e alcançando as ondas fracas da margem. Chutou a água com o pé, criando uma chuva que caiu exatamente em cima do André, que exclamou um palavrão pelo choque térmico e se levantou num único pulo, fixando um olhar mortal no Fabrício.
“Conga la Conga.” Fafá girou dando dois pulinhos e fazendo os movimentos de jogar os braços para frente e puxá-los contra o quadril que ia pra frente ao mesmo tempo, e imediatamente pôs-se a correr pra dentro do mar, fugindo da tentativa do André de molhá-lo também.
Os dois entraram correndo no mar, jogando água um no outro, até que acabaram mergulhando mais no fundo, quando uma onda maior se formou à frente. Quando emergiram, iniciaram a típica brincadeira de tentar afogar um ao outro, alternando entre fugir e atacar. Os corpos eram escorregadios, as risadas eram liberadas e nada custavam, e os dois aproveitavam ao máximo para tocarem um ao outro, agarrando pelo pescoço para tentar sufocar, abraçando por trás para derrubar na água, mergulhando e tentando puxar o outro pelos tornozelos, entre outras formas de ataque. André sentiu-se livre por descarregar toda aquela energia negativa que havia se instalado em seu corpo, e por estar fazendo isso junto com o Fabrício.
A exaustão e falta de fôlego então os atingiu, e eles emergiram rápido depois de minutos em baixo da água lutando por controle, parando um em frente ao outro, ofegantes. André segurava o Fabrício pelos braços, e este pousara as mãos na cintura esbelta do loiro. As respirações agitadas se misturaram entre os dois, muito mais quentes que a brisa do oceano.
André não sentiu vontade de se afastar – apesar de aquela proximidade obviamente não ser normal entre dois amigos e muito menos a forma como ela o afetava e o deixava expectante por algo mais. Era difícil pensar em por que aquilo poderia ser tão problemático, ali, isolados no mar longe da costa.
O contato com o vento deixava a pele eriçada, e somente a região que Fafá tocava queimava de uma maneira gostosa.
“Nós estávamos assim quando eu senti vontade de te beijar pela primeira vez.” Fafá confessou em um murmúrio, quebrando o silêncio agitado por ondas, vento, respirações e batidas descontroladas de dois corações.
“O que tu ‘tá dizendo, idiota...?” André corou violentamente.
“Que eu ‘tô loco por ti. Ainda não percebeu?”
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