Good Riddance

11 Bela Adormecida


Notas iniciais
Agradeço à Guima pela recomendação surpreendente, fiquei tão feliz. Amada ♥
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Dedico esse capítulo à Zumbi da Vingança, que está de aniversário por esses dias! Feliz aniversário, flor! *-*
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Música do capítulo: http://letras.mus.br/engenheiros-do-hawaii/12888/

A aula de MASC naquele dia era para toda a turma, e uma professora convidada viera falar sobre pacientes adolescentes — o que era comum da fase, o que não era, complicações recorrentes desse período da vida. A aula era numa das salas da FAMED e havia começado às 08h30min; agora já eram 09h15min e havia apenas mais quinze minutos de aula.

Foi quando Fabrício entrou na sala segurando um sanduíche de três pães, enorme, enquanto dava uma boa mordida nele. Só pela maneira charlatona de ele entrar na sala de aula, totalmente atrasado e descarado, e ainda soltando um ‘E aí professora, cumé que vai?’, já arrancou risadas dos colegas. André, sentado junto a Gabriela, Rafael e Fran, girou os olhos, não acreditando naquilo.

“Quem é tu?” Perguntou a professora. Para sorte de Fabrício, era uma professora também descolada, que passara a aula inteira fazendo piadinhas sobre adolescentes.

“Sou o Fabrício!” Fabrício disse, sorrindo e sentando-se numa das cadeiras à parede. A sala tinha inúmeras fileiras de cadeiras, mas deixava um espaço entre elas e a parede, para que as pessoas pudessem circular e o professor chegar ao fundo da sala, onde ficava a mesa, computador, projeção e quadro.

“Então tu é o Fabrício!” A professora exclamou, quase numa acusação. Fabrício soltou um “han?” e olhou para os colegas, ondulando as sobrancelhas como que pedindo que alguém lhe explicasse aquilo.

“A gente ‘tava falando no início da aula que é tu que sempre passa os slides.” Explicou a garota que estava sentada próxima à mesa da sala, justamente fazendo esse ‘serviço’.

“Ah! Sim, bah, sou eu sim! Desculpa aí, professora.” Fabrício falou e sorriu para a turma, divertido. Havia algo no sorriso do moreno que fazia os outros rirem. Seu sorriso tinha algo de retardado, para falar a verdade. André balançou a cabeça, não aguentando não sorrir. Ainda mais quando Fabrício deu uma mordida maior que a boca no sanduíche e ainda deixou uns pedaços da salada caírem.

“Fabrício.” A professora chamou, e atraiu a atenção do garoto que tentava recolher o que caíra no chão, com as bochechas estufadas pela comida. A turma já gargalhava. “Quantos anos tu tem, Fabrício?”

“Huum. Huuum.” Fabrício mastigou para conseguir responder. “Tenho 19, professora.” Falou e virou o rosto para a turma, rindo.

“Então ‘tá na fase ainda.” A professora disse. “Levanta e caminha um pouco pra gente, Fabrício.”

“O quê? Agora? Ãhn?” Fabrício perguntou, perdido. Mas com incentivo dos colegas, acabou levantando e caminhando pela sala, sorrindo daquela forma pateta para os colegas, que soltaram mais risadas.

“Não falei para vocês?” A professora perguntou, quando o moreno sentou. Ela imitou por um segundo o que parecia um orangotango caminhando – algo que fizera antes para ilustrar a maneira como os adolescentes rapazes caminhavam. A turma explodiu em risadas, já que se assemelhava bastante com a forma com que Fabrício andava.

“Que cancha essa professora, hãn gurizada?” Fabrício exclamou, também rindo. André suspeitava que ‘cancha’ havia sido uma expressão que o próprio Fabrício criara.

“Me diz, Fabrício, tu faz o que fora da medicina?” Ela perguntou, já que antes comentara algo sobre os alunos da medicina terem de cuidar para não deixar de ter uma vida social devido aos estudos. Fabrício deu mais uma mordida no sanduíche enquanto pensava, e passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os.

“Bah! Além da medicina...” Parou e pareceu em meio a uma dúvida cruel. “Que eu faço além da medicina, hein, gurizada?” Perguntou olhando pros colegas, que riram com aquele ar de ‘e como eu vou saber?!’.

“Vai muito em festa?” A professora quis saber.

“Às vezes, às vezes.”

“Bebe muito álcool?”

“Ah, social, né, na medida.” Explicou, rindo e piscando pros colegas de novo, e arrancando mais risadas. André já estava tapando o rosto com a mão para esconder os risos.

“E outras substâncias...?” A professora inquiriu, com um ar sugestivo, já que antes havia falado sobre abuso de drogas na adolescência. Fabrício riu, indicando a professora com a cabeça com um ar de ‘essa daí não deixa escapar nada!’.

“Ah, o pessoal aqui sabe que eu tomo uns produtos!” Falou, rindo mais. A turma explodiu em risadas com a piadinha interna. Naquelas semanas de aula, Fabrício falava aos quatro ventos dos produtos que havia começado a tomar, para a academia, coisas como Whey e supercalóricos para moldar a musculatura.

A professora fez uma careta fingindo espanto, provavelmente entendendo que se tratava de alguma brincadeira.

“A professora deve estar achando que eu sou louco, né, gurizada?” Fabrício perguntou pra turma. “Mas vocês sabem que eu não sou louco, né?”

A turma riu e alguns soltaram uns ‘nããão, imagina!’, bastante irônicos.

“E esse sanduíche, é teu almoço, Fabrício?” A professora ainda perguntou, já que o moreno havia voltado a encher a boca com ele.

“É, é sim. Não, na verdade não. Mais ou menos. Mas aquele RU, sabe como é né, até com AIDS a gente sai de lá.” Disse, meio de boca cheia.

“Hoje o RU vai ‘tá fechado, Fafá.” Gabi falou alto para o amigo escutar.

“Ah, é? Pow, que bom. Legal.” Disse, aéreo, mas ficou em dúvida de novo. “Ou não?” Todos voltaram a rir.

“E tu sente que tem algo que acontece de estranho contigo, Fabrício, algo diferente?” A professora ainda perguntou, dando um rápido sorriso cúmplice para os estudantes.

“Ah, acho que não... Não.” Fabrício ponderou por uns segundos, mas então algo lhe veio súbito à mente. “Ah! Tem algo! Tem vezes que estou falando com alguém, assim, só eu e a pessoa, e de repente esqueço do que ‘tava falando com ela!” Disse, como que impressionado com o que lhe acontecia. “Hein? Não é assim com vocês, gurizada?” Perguntou pra turma, não aguentando e rindo com eles de si próprio.

"E na morte? Tu pensa na morte, Fabrício?" Ela ainda perguntou, já que antes também comentara sobre o tópico, em relação aos adolescentes.

"Morte? Morte como?" Fabrício perguntou. "Assim, acho que todo mundo já pensou em morte, né?"

"Já pensou na morte dos teus professores?" A professora não deixou barato. Fabrício soltou "Ah!" meio de quem queria escapar do assunto, e coçou a nuca.

"De nenhum em específico não, né? Só assim, no geral..." Comentou, sorrindo largamente inocente, e fazendo os outros gargalharem outra vez.

A professora, de bom-humor, decidiu finalizar a aula.

“Bem, nós acabamos de ter uma demonstração em primeira mão de alguém que ainda vai demorar uns anos para sair da adolescência!” Brincou, atirada, se despedindo enquanto a turma ria pelos cotovelos.

Alguns colegas se levantaram e foram dar uns tapinhas no ombro de Fafá, afirmando que ele era mesmo uma figura.

“Malandra essa professora, hein? Mas vocês devem tudo achar que eu sou louco, né? Que gurizada medonha.” Fabrício disse, com um ar expansivo, mas até mesmo um pouco preocupado, que o deixava ainda mais engraçado.

“Ai, Fafá, só tu mesmo. Vamos, a gente tem que ir no hospital que temos monitoria de bioquímica.” Gabriela falou ao se aproximar. “Trouxe jaleco?”

“Trouxe, trouxe.” Disse, saindo com os amigos para fora da sala, todos contentes porque ela havia acabado mais cedo, já que geralmente aquela aula ia até as dez e meia. Isso quando não começassem a, em grupos de três, irem a postos de saúde uma vez a quinze dias. Fabrício havia ficado elétrico quando viu que ele e André iriam ao mesmo posto, no mesmo dia. André já ficava preocupado com a possibilidade de o médico do posto expulsá-los por culpa do moreno.

“Por que chegou atrasado?” André quis saber. “Isso é raro vindo de ti, está sempre na primeira fila copiando tudo.”

“Ah, meu despertador não tocou. Vocês vão tirar sangue hoje pro trote solidário?” Perguntou, mudando completamente de assunto, algo que acontecia com frequência, já que, como ele mesmo havia admitido, frequentemente se perdia em meio a algum assunto.

“Podemos fazer isso depois da monitoria, vai sobrar tempo, e nem temos aula hoje de tarde! Eu vou amanhã ficar nos supermercados. Vocês pegaram para hoje?” Gabriela perguntou.

“Eu peguei para hoje. Aí não tenho que vir até aqui amanhã só para isso.” Fran falou, já que morava em outra cidade. O trote solidário envolvia doações de sangue, e meio período em frente a supermercados espalhados pela cidade, tentando recolher doações de alimentos que seriam entregues a instituições carentes. “Estou no supermercado da Ipiranga.”

“Estou no Nacional daqui da Oswaldo.” André falou. “Mas parece que vai ser só eu e a Vitória lá, porque tem uns que decidiram não participar.” Comentou. Achava errado não participarem, ainda que fosse chato, era mais válido do que o trote sujo de antes, do qual apenas uns dois ou três se negaram a participar.

“Eu vou contigo então! Eu esqueci de colocar meu nome e me escalar. Mas quero participar.” Fabrício falou. “E tu, Rafa?”

“Vou com a Fran no Ipiranga. ‘Tô na mesma situação e amanhã vou para Bento visitar meus pais.” Colocou as mãos no bolso e seguiu em silêncio, como era seu costume.

Chegaram ao hospital ao lado da FAMED e encontraram o monitor na entrada. Subiram então ao terceiro andar, onde havia uns sofás para descanso, e discutiram um pouco do caso. Ainda havia mais dois colegas no grupo, e decidiram que quem iria entrevistar o paciente seria um deles, uma garota chamada Marianne que decidiu arriscar ser a primeira a fazer aquilo.

O paciente era um senhor diabético que estava internado. Tinham de recolher a história dele, da doença, histórico familiar, hábitos de vida, enfim, tudo, para apresentação e discussão do caso em sala de aula. E aquilo durou mais do que poderiam imaginar.

O monitor os apresentou ao paciente, indicando-os como alunos da medicina que queriam lhe fazer algumas perguntas. O senhor não viu problema; era bastante simpático, mas meio surdo, e começou a contar todas as histórias de vida que nada tinham a ver com a doença. Tagarelava ininterruptamente, com uma voz baixa e engrolada difícil de entender, e houve um momento em que André acotovelou de leve Fabrício para que ele parasse de dormir em pé.

“Que mancada.” Ele sussurrou para o loiro, que girou os olhos. A salvação veio quando a irmã do paciente apareceu e começou a responder as perguntas de forma objetiva. Algo que deveria ter durado meia hora, durou uma hora e meia! Mas todos saíram dali felizes por, pela primeira vez, terem entrevistado um paciente.

Quando saíram pro corredor da ala de internação, Fabrício comentou:

“Essas coisas de que alguns pacientes contam até quantos fios de cabelo tinham em cada ano da vida é mesmo verdade.” Riu e pegou da mão do André o copo de plástico com água, que o loiro havia se servido numa maquininha dali.

“Ai, Fabrício, por que não pega um copo só pra ti?” Fran fez uma careta. Era uma garota cheia das frescuras com bactérias e sujeira, sempre surtava no RU e acabava comendo quase nada, mas era até justificável.

“Ah, não dá nada! A gente divide a mesma herpes.” Fabrício não deu importância e jogou o copo no lixo. Gabriela caiu na gargalhada, e André ergueu uma sobrancelha.

“O que exatamente tu quer dizer com isso?” Perguntou. Fabrício colocou um braço pelos ombros do loiro e o olhou.

“Que são poucos que existem. Mas que tu é um deles!”

“Ih, lá vem...” Rafael murmurou, arrancando uma risadinha da Fran.

“Um deles o quê?” André perguntou, exasperado.

“Um dos homens lindos!” Fabrício exclamou alegremente, com um ar de brincadeira e deboche.

“Ih, sai pra lá!” André se desvencilhou do moreno, enquanto os outros riam da cena.

“O Fafá andou tomando os produtos dele hoje.” Gabriela explicou como se fosse lógico.

“Certo, pessoal, vamos voltar para o terceiro andar para discutir um pouco do caso?” O monitor apareceu e perguntou, e todos concordaram.

Eles voltaram e discutiram, já para saber o que iriam falar em aula, discorrendo sobre os hábitos do paciente que o levaram a desenvolver o diabetes, e os sintomas que ele apresentava.

Fabrício se acomodou no sofá, olhando para André quando ele começou a falar num momento, parecendo lembrar-se com exatidão das explicações do professor em aula, que fechavam com o que haviam visto. E ele deve lembrar mesmo, Fabrício recordou que ele tinha uma memória absurda.

O pensamento que não conseguiu evitar era que o loiro ficava bonito de jaleco, parecendo-se já com um médico falando sobre seu paciente. Deus, não! Não me diga que eu tenho fetiche com médicos!

Ainda era bastante estranho sempre que se lembrava da vontade que sentira de beijar o loiro há quatro dias, na piscina. Já era sexta e durante a semana a irritação de André parecia ter diminuído. Aliás, desde os momentos dos dois na piscina ela já diminuíra. Fabrício sentia uma fisgada nas estranhas quando lembrava daquilo, e do chupão que dera no pescoço do loiro. O vergão já havia sumido, mas demorara bastante, talvez bem de perto ainda desse para ver um leve tom amarelado na pele clara do outro.

Será que tenho fetiches por pescoços também? Vinha também olhando bastante para o pescoço de André, o que era um tanto bizarro. Aliás, por sorte, aquela vontade de beijar André não aparecera de novo, o que o fazia pensar se não havia sido apenas ‘coisa de momento’. Mesmo assim, iria esperar para ver. Não achava, de qualquer forma, que viria a ter algo com o loiro, André era bastante hétero, mesmo quando ficava vermelho por uma bobagem ou outra. Sua dúvida maior era consigo mesmo, fora uma surpresa querer beijar outro homem; afinal, fora a primeira vez.

XxX

“Odeio agulhas.” André admitiu em um sussurro para Fabrício. Haviam ido ao banco de sangue do hospital de clínicas. Por algum motivo ficaram para trás: os outros deram sorte e foram atendidos primeiro. Gabi não pudera doar por estar menstruada e ligeiramente anêmica devido a isso, e já tinha ido embora.

Agora os dois esperavam sentados num pequeno corredor, depois de terem dado nome, respondido a um questionário e verificado se estavam ou não anêmicos. Aptos a doar, bastava esperar, mas André podia ver do pequeno corredor parte da sala onde alguns já tiravam sangue, deitados com o braço esticado, agulha no braço e a bolsa enchendo aos poucos. Sentira um arrepio ao ver a residente enfiar a agulha em um colega que estava em seu campo de visão.

“Não gosta de agulhas, mas quer ser médico?” Fabrício perguntou, debochado, cutucando o abdômen do loiro sentado ao seu lado. André abriu uma careta.

“Não gosto delas me picando. Nos outros não é o real problema.” Explicou, nervoso, mordiscando o lábio.

“Mas é só uma picadinha de nada! Nem dói.”

“Eu sei que não dói!” André resmungou. “Mas não é algo racional. Quando eu era menor, na primeira vez que fui tirar sangue, uma mulher sem experiência tentou encontrar minha veia, mas ela errou e, no lugar de tirar e tentar no outro braço, começou a chafurdar a agulha dentro do meu braço. Doeu pra caramba! E ela ainda fez a mesma merda no outro braço. Só quando eu comecei a chorar é que ela chamou algum médico experiente, aquela doente. Fiquei com os dois braços inchados sem poder dobrá-los por um dia inteiro. Desde então tenho horror a tirar sangue. Vacina, essas coisas, nem me importo, mas tirar sangue... Sempre acho que vai doer como daquela vez.” Cochichou tudo, com o corpo inclinado para perto do moreno para que apenas ele lhe escutasse, e apertava a mão no apoio da cadeira.

“Calma.” Fabrício disse e colocou a mão sobre a do loiro, sem pensar. Fez um carinho nela que tentava transmitir conforto. “Não vai doer, tu vai ver. Aliás, acho incrível que tu venha doar sangue mesmo tendo esse problema.”

“E-Eu sei.” André puxou a mão, recolhendo-a. Aquele toque carinhoso o deixara com uma agitação no peito. “Sou mesmo muito benevolente.”

“E modesto.” Fabrício retrucou, desviando o olhar. Suas bochechas pareceram um tanto quentes ao perceber a maneira com que havia tocado a mão do loiro. Não é nada demais, era só um mísero toque em amigos, oras. Não acredito que estou me preocupando com isso. Pensou, mas acabou sorrindo de canto, consigo mesmo.

“Se eu desmaiar,” André começou, e Fabrício não soube se ele falava a sério ou não. “Tu vai ter que dar um jeito de me levar até em casa.” Exigiu, e depois levou a mão à testa. “Acho que estou ficando meio tonto...”

“Tu nem tirou sangue ainda, coisa dramática!” Fabrício riu e empurrou a cabeça do loiro, aproveitando para bagunçar os cabelos alheios. André o afastou como se enxotasse um cachorro inconveniente, e isso fez Fabrício lembrar-se de perguntar: “E como está o Sascha?”

“Ainda está vivo. É um belo progresso, já que consegui impedir minha mãe de virar uma assassina de filhotes. Ela não para de reclamar da quantidade de pelos que o bicho solta.” Lamentou, o que o ajudou a se distrair da ansiedade. “Ele come como um boi e descobriu que adora roer meus tênis, mas... Eu gosto dele.” Admitiu, relutante, com um suspiro. Fabrício sorriu. Mesmo que tentasse disfarçar, André era mesmo uma manteiga derretida com o cãozinho.

“Tu mais do que gosta dele, Santa. É como no meu caso, tu me adora, mas não admite.” Fabrício se vangloriou, estufando o peito e sorrindo afetado quando André lhe lançou um olhar descrente com uma sobrancelha arqueada.

“Eu me perguntava se teria de comprar uma mordaça para quando o Sascha crescesse, mas pra que esperar, não é? Posso já usar uma em ti.” André rebateu, com a língua afiada. Fabrício deixou o queixo cair e ainda tentou atacá-lo, como faria um cachorro brabo, mas bem naquele segundo André foi chamado, e ele se levantou rápido, fugindo do que quer que Fabrício pensasse em aprontar.

André parou no meio do caminho até a sala.

“Se eu morrer-“

“Vai logo, dramático!” Fabrício sorriu. André mostrou-lhe a língua junto com uma careta e então foi. O moreno se acomodou na cadeira, com um sorriso idiota, e se espichou um pouco. Logo mais algumas pessoas também entraram no corredor de espera. Mais alguns minutos, e ele foi chamado.

Foi até a sala e arregalou os olhos ao ver André deitado com os olhos fechados.

“Ele está bem?” Perguntou a uma das residentes. “Ele desmaiou?”

“Ah, sim. Isso pode acontecer. Ele desmaiou pelo nervosismo, que baixou a pressão dele. Mas isso não é problema pois não foi por perda de sangue, logo vai acordar.” Ela explicou, com um sorriso. “Não precisa se preocupar.”

Fabrício não acreditou que André havia mesmo desmaiado. Iria tirar com ele pelo resto da vida – isso se não acabasse levando uns sopapos quando o loiro perdesse a paciência. Era estranho, mas achava divertida a maneira rabugenta do outro, porque parecia dar mais significado aos momentos em que ele sorria, ou brincava e era mais espontâneo. Já desde quando eram crianças gostava disso.

Depois de beber um suco que uma médica recomendou, deitou-se numa das macas e não teve problemas com a agulha. André estava na maca ao lado, e Fabrício virou a cabeça e ficou observando-o enquanto os 500 ml de sangue da doação se esvaíam de seu corpo.

Naquele dia, ele e André supostamente teriam de evitar exercícios físicos, mas isso seria impossível. O Intermed era em duas semanas, e eles estavam no time de futebol e vôlei. Ambos jogavam tão bem que acabaram sendo aceitos como titulares no futebol. No vôlei, Fabrício ficara na reserva, mas André pegara titular também, e ainda estava servindo de técnico para o time feminino, já que treinara vôlei por tantos anos.

Não perguntei a ele se iremos dividir a mesma barraca. Fabrício se lembrou. Ah, o melhor é só dizer que vamos, e ponto final. Não tinha barraca, algo necessário no Intermed, e o loiro, rico como era, certamente tinha alguma bem confortável e espaçosa.

Suspirou, voltando o olhar para o teto e, como sempre acontecia quando se distraía, independentemente de onde estivesse, começou a cantarolar baixinho.

Pra ser sincero
Não espero de você
Mais do que educação
Beijo sem paixão
Crime sem castigo
Aperto de mãos
Apenas bons amigos...

Pra ser sincero
Não espero que você
Minta!
Não se sinta capaz
De enganar
Quem não engana
A si mesmo...

Nós dois temos
Os mesmos defeitos
Sabemos tudo
A nosso respeito
Somos suspeitos
De um crime perfeito
Mas crimes perfeitos
Não deixam suspeitos...

“Hei, tu sempre fica com esse ar de cantor bobo da corte quando tira sangue?”

Fabrício piscou, saindo de seus devaneios, e viu que André acordara.

“E tu sempre desmaia como uma garotinha quando está nervoso?” Rebateu, sorrindo buliçoso. André assoprou uns fios de cabelo que caíam sobre seus olhos.

“Vá pro inferno.” Disse. “E não conte a ninguém.” Acrescentou, um tanto preocupado.

“E eu lá tenho cara de fofoqueiro?” Fabrício se remexeu na maca, o que fez a residente que estava perto pedir para que ele ficasse parado.

“Se quer mesmo a verdade...” André começou a dizer.

“Não. Seja um bom amigo e minta.” Fabrício o interrompeu. André soltou uma risadinha e olhou para o teto, com uma expressão serena.

“Acho que tu é muito confiável. Sempre achei isso. Daquele tipo de pessoa que a gente pode sempre contar quando precisar.” Falou, não tão alto. Fabrício ergueu as sobrancelhas, impressionado.

“Ou tu está sob sérios efeitos da doação de sangue, ou está mentindo. Está mentindo?” Quis saber, e lhe pareceu essencial saber se aquilo era mesmo verdade. Gostaria muito que fosse, mesmo que não fosse nada de mais, realmente.

“Tu disse para eu ser um bom amigo. Agora, será que minha definição de amigo também é mentir para agradar?” Sugeriu, com um ar maldoso. Fabrício quis atirar sua bolsa de sangue na cara do loiro, mas acabou rindo de leve.

“Ordinário. Isso vai ter volta. Vou acabar contigo hoje no futebol.” Fabrício ameaçou, causando um arrepio nos braços do loiro, que ignorou aquilo.

“Puuuts. Tem treino hoje, e eu achando que iria para casa descansar depois de passar a tarde no supermercado.” André suspirou e voltou a fechar os olhos.

“E não se esqueça que amanhã tem o churrasco de aniversário do meu tio. E de noite tem aquela festa para os bixos de todas as faculdades do Rio Grande do Sul, ou algo assim, que nós temos entrada de graça.” Fabrício o lembrou.

“Ah, não tenho sossego.” André murmurou. Logo uma mulher veio e lhe liberou para sair, pedindo para que fosse a outra salinha e comesse uns bolinhos e tomasse um suco antes de ir embora.

Logo Fabrício também foi liberado e seguiu para a salinha, onde André tomava um suco de caixinha, e ouvia sem muito interesse o que um garoto desconhecido, gordinho e de óculos falava.

“Estou morto de fome.” Fabrício entrou dizendo, e capturou um dos bolinhos sobre a mesa, metendo-o quase inteiro na boca. O rei da etiqueta, evidentemente.

“Espero que tu nunca faça uma coisa dessas na frente dos teus pacientes.” André fez uma careta de nojo. Não era mesmo uma visão muito agradável, mas talvez fosse comum nos tempos em que os homens moravam nas cavernas.

“Ainda vou demorar a ter pacientes. Só se tu quiser brincar de médico comigo um dia desses e- Opa!“ Fabrício ia dizendo, debochado e de boca meio cheia, mas parou e, num reflexo, se aproximou de André e o segurou pela cintura, impedindo o loiro de se espatifar no chão.

“Ah...” André soltou, meio zonzo. “Acho que minha pressão caiu de novo.” Murmurou, segurando-se inconscientemente a Fabrício. Depois de piscar algumas vezes, ergueu o olhar para o moreno, e corou ao notar a situação em que se encontrava.

Fabrício se agitou, nervoso, percebendo que aquela sensação e vontade de provar da maciez da boca do loiro voltara, pela segunda vez na semana. Detalhe que estava com a boca cheia de bolo. Se essas vontades continuassem a aparecer de modo exponencial, as coisas certamente ficariam complicadas. Fabrício não era dos melhores em reprimir seus impulsos.

O pigarro vindo do gordinho que se empanturrava de bolinhos fez com que os dois se afastassem um do outro, com ares constrangidos delineando suas face. Fabrício foi o primeiro a dar de ombros e fingir que nada havia acontecido, apenas bebeu um suco e perguntou se André ainda comeria mais.

“Não. Acho que vamos indo, então.” André sugeriu, dirigindo-se à saída. Fabrício o seguiu.

“Calma lá, bela adormecida, anda perto de mim porque senão vai dar com os dentes no chão se desmaiar de novo.” Disse divertido, e passou o braço pela cintura do loiro, sorrindo inocente para ele.

“Bela adormecida? Vai se foder.” André tentou empurrá-lo.

“Ué? Não foi uma agulha que te fez desmaiar e dormir?” Fabrício riu e não o soltou. “E olha a linguagem, ainda estamos dentro do hospital...”

Os dois saíram discutindo dali, pegando a Oswaldo Aranha para ir direto ao supermercado onde passariam a tarde esmolando alimentos.

Notas finais
MASC - MÉTODOS DE ABORDAGEM EM SAÚDE COMUNITÁRIA

Obrigada a todos que continuam aqui comigo, a despeito da minha dificuldade de conseguir atualizar na frequência que eu gostaria! Eu me diverti muito com esse capítulo, coloquei muitas situações que tem algum fundo de realidade. ^.^ Cap. é meio filler, mas acho importante mostrar a dinâmica e crescimento da amizade deles... :D Beijos, pessoas mais queridas desse mundo! ;*