Notas iniciais
Opa, chegamos com mais um capítulo, como estão? Finalmente temos a atualização dessa história, estávamos super ansiosas para postar mais coisas de gkbh! Foi tão bom saber que vocês gostaram do primeiro capítulo, e ainda mais da nossa parceria. Estamos amando escrever juntas, e saber que foi algo tão bem recebido por vocês nos deixa ainda mais empolgadas. Agradecemos pelo carinho, esperamos que gostem do capítulo de hoje! Boa Leitura!




NICO

Nico andava pelo centro com cautela, sempre atento às placas de “contrata-se” e às ruelas estreitas. Não queria se meter em brigas, mas ainda tinha muitos inimigos por aí.

Andou pela praça da imprensa, com suas fontes e as barraquinhas de comida. Logo depois dela, passou pela Androminus Academy, colégio gigantesco e requintado, feito apenas para famílias que tinham casas em condomínios luxuosos em Manhattam. Aquela instituição representava o extremo oposto da vida de Nico. Poderia apostar que ninguém ali dentro sabia de um pingo da realidade que acontecia na periferia do outro lado da cidade, onde Nico morava.

Era engraçado.

E era mortalmente trágico.

Contornou os muros elegantes da escola, atraído pelas dezenas de lojas que pareciam pagar bem ao seu redor. Procurou atentamente nas vitrines algum anúncio, qualquer sinal de que teria uma oportunidade ali para ele.

Estava quase perdendo as esperanças.

Viu um vulto mais rápido que as demais pessoas passando na frente de uma cafeteria, e seus instintos aguçados o levaram àquele lugar sem sequer perceber.

Não estavam contratando ali, mas logo ao lado do estabelecimento, tinha uma daquelas ruelas tão familiares da cidade grande. Poderia ter um assassino se escondendo ali, ou o corpo de uma pessoa drogada demais para se levantar do lixo. Talvez até um grupinho que burgueses metidos atormentando algum aluno da base da cadeia alimentar.

Oh.

Bingo.

Três garotos de uniformes desarrumados e com cheiro de perfume caro faziam uma rodinha fechada em torno de alguma pessoa no chão. Depois de esticar o pescoço, Nico viu um garoto loiro usando o mesmo uniforme que eles, todo encolhido abraçando sua mochila.

“Vamos lá, princesa, passa o seu número pra mim” riu um ruivo, o maior do grupo.

Ele agarrou os cachos quase que compridos do loiro e puxou sua cabeça para cima.

“Ah não! Você não vai sair comigo porque eu não sou o Homem de Ferro, né?!”

Bom, não era problema de Nico. As ruas eram assim mesmo, cheias de briguinhas imbecis e garotos babacas assediando meninas e meninos. Pobre alma aquela que se torna alvo.

Deu de ombros e continuou a andar, preparando a lixeira de situações para se esquecer em prol da consciência intacta. No entanto, antes de ignorar por completo, ouviu algum deles falando:

“Vai, Ethan, pega a mochila dele.”

Ethan era um nome comum. Poderia ser qualquer um no mundo, existiam milhões de Ethans por aí.

Não precisava ser ele.

Nico sabia. Não precisava.

Mesmo assim, ele voltou alguns passos e se esgueirou para perto de uma caçamba de lixo, de onde os meninos não o veriam.

Um garoto asiático do cabelo muito preto e muito liso se agachou no chão e tomou à força a mochila do loiro.

“Não!”

Dali, Nico pôde ver com clareza.

Sim, era o Ethan certo.

Tomado pelo impulso e cego pela fúria, ele saiu do esconderijo e pegou o asiático direto num mata-leão. Ethan largou a bolsa imediatamente e os outros dois ficaram paralisados por um instante.

“Não sabia que tinha parado de traficar e começado a ser um desses valentões irritantes de escola” sussurrou Nico bem perto de seu ouvido.

“Mas que porra…?!”

O ruivo deu um passo à frente, pronto para voar em Nico, mas Ethan levantou a mão:

“Hércules, não! Fica longe, cara.”

“É conhecido seu?” indagou o outro menino do grupo.

“Sim, Luke” Ethan tentou sorrir, mas com muita dificuldade, já que o golpe estava bem encaixado e só não o estava sufocando porque Nico não queria.

E ali, naquele momento estranhamente improvável, Nico não sabia mais o que fazer.

Ok, vira Ethan, queria matá-lo mas não era como se pudesse. O garoto indefeso ainda estava no chão, todo encolhido, e mais dois ratos de academia estavam ali para surrar a sua bunda.

Não era uma boa situação.

“Escuta, Ghost” Ethan falou com dificuldade. “Por que não me solta e esquecemos isso, hm? Essa área nem é sua.”

“Você faz ideia do quanto eu te procurei?” Nico rosnou. “Acha que vai ir embora assim? Depois de toda a merda que você jogou no ventilador?”

“Espera” bradou Hércules. “Estamos em três, por que porras você abaixaria a cabeça pra esse nanico?”

Nico deu um sorriso frio.

Deixou o pescoço de Ethan em paz e pegou sua mão pelo dorso, posicionando o polegar no lugar certo. Em dois segundos, o garoto estava no chão, os dois braços para trás, a cabeça numa posição estranha, o joelho de Nico em suas costas. Ele gemia de dor.

“Pode vir” Nico deu de ombros.

Do chão, o asiático alertou:

“Não venha.”

Mas Hércules foi mesmo assim.

E, mesmo com a ajuda de seu outro amigo e com as mãos de Nico praticamente atadas em Ethan, ganhou a surra mais rápida e dolorosa de sua vida.

Nico tomou impulso com as pernas e deu-lhe uma chave no pescoço, derrubando-o. Quanto ao outro, Luke, ele só teve de acertar uma joelhada dolorosa nas costelas. O garoto era o mais covarde de todos e logo se esgueirou para longe, sem saber direito o que fazer.

Hércules então segurou seu tornozelo e o forçou numa posição desconfortável, o que deu abertura para um chute bem no meio da cara. Por mais que tivesse a chance, Ethan se manteve imóvel no chão.

Luke, numa repentina coragem, acertou um soco no rosto de Nico, que segurou-o pelo punho e pela nuca, batendo sua cabeça na caçamba de metal. Confuso e sangrando na testa, Luke se afastou de novo.

“Eu disse” Ethan revirou os olhos.

Nico deixou-o se levantar e tropeçar para longe dele.

“Não se metam com ele. Vamos, Hércules, Luke.”

O asiático puxou os amigos pela gola, meio que forçando-os a sair dali. Dava para ouvir ainda um deles reclamando: se você tivesse ajudado, teríamos acabado com ele! Mas os três logo se afastaram e Nico respirou fundo.

Queria ter matado Ethan.

Queria ter afundado a cara dele no asfalto.

Depois de tantos mêses atrás do infeliz, ele aparecia assim diante de seus olhos, e não podia fazer nada. Testemunhas demais. Queria um emprego. Tinha que tomar um rumo.

Hades não ficaria feliz de saber que o filho estava preso por matar um mauricinho da classe alta. Não, nem um pouco, principalmente depois de tudo.

Mas agora que sabia onde Ethan estava, poderia se juntar com mais alguém, talvez reunir todos os seus inimigos e deixar que os jogos começassem.

Ou quem sabe deixar para lá?

Fazia tanto tempo.

Valia a pena começar uma guerra?

Bianca estava quase bem agora…

“Ei!” sentiu alguém cutucando seu braço. O reflexo automático foi de pegar o punho da pessoa e levá-lo até suas costas, jogando-a contra a parede.

Mas então notou que era apenas o menino loiro e frágil de antes.

Quer dizer, não tão frágil.

Ele era pelo menos dez centímetros mais alto que Nico. E, ainda por cima, tinha muito músculo! Por que não revidava?! Com um físico daqueles, poderia pelo menos socar um deles e correr muito.

“Ah. É só você.”

Nico se afastou três passos.

“O-obrigado por me defender, mas… Você está bem?”

“Claro que sim.”

O moreno deu às costas, meio que indignado pela pergunta, mas aquele garoto não desistiria tão fácil.

“Você acabou com os três sem sequer fazer esforço direito. Tem certeza de que está bem? Seu rosto tá sangrando…”

“Tenho certeza.”

“Espere! Você não pode sair assim, e se eles se juntarem com outros pra acabar com você?”

Nico revirou os olhos e respirou fundo.

“É sério! Ao menos, deixe-me te levar para…”

“Olha, garoto” Nico virou-se para ele, encarando-o de um jeito que cala qualquer um. “Você estuda num castelo de cristal, seu pai deve ser dono de um império empresarial e você nunca andou de metrô na vida, nem que seja pra ir ao shopping. Tem certeza de que sabe mais da rua do que eu? Olha para mim.”

Deveria ser uma visão interessante aquela.

Um garoto magricela em roupas pretas surradas, o cabelo desgrenhado preso no alto da cabeça, alguns vários machucados espalhados pelo corpo e o maldito corte no lábio que acabara de abrir de novo, graças ao tal do Luke.

O menino deu de ombros e ajeitou a mochila nas costas.

“Mesmo assim, obrigado.”

Nico virou-se e, antes de deixá-lo para trás, achou bom lembrar:

“Isso não foi por você.”

WILL

Will observou o rapaz ir embora do beco sem poder fazer nada.

Sabia que estava machucado, mas não estava no direito de exigir algo dele, já havia feito demais por Will num curto período de tempo; mesmo não sendo intencional. Piper e Annabeth passaram pelo garoto ferido apressadas assim que viram Will no chão do outro lado da rua.

Ele sequer se deu ao trabalho de olhar para trás quando sumiu pela multidão da rua. Annabeth se ajoelhou ao seu lado, mãos ligeiras em seus ombros atrás de ferimentos graves.

— O que aconteceu? Quem era ele? — questionou ela passando os dedos pelos roxos em sua pele bronzeada.

Piper tinha o olhar severo encarando seus braços lesionados.

— Hércules me encurralou. — admitiu envergonhado. Não pôde fazer nada para pará-lo, e se encolher no chão enquanto recebia socos e chutes não era algo que gostaria de dizer em voz alta, nem mesmo para suas amigas.

— Maldito, cretino! — exclamou Piper começando a andar de um lado para o outro no beco: — Quem aquele filho da puta pensa que é? Ah, mas ele vai ver só, vou quebrar aquela cara bonita dele, esfregar ela no asfalto até dizer chega!

Will soltou uma risada dolorida: — Não se preocupe, ele já apanhou o bastante por hoje.

Annabeth o encarou em choque: — Você bateu nele?

Wil negou.

— O rapaz que vocês viram saindo daqui. Ele bateu no Hércules e suas sombras sozinho. — respondeu se levantando.

Gemeu pela dor em suas pernas quase o fazendo se arrepender de levantar. Não se lembrava de ter recebido chutes nelas, mas a dor não era nenhum engano. Soltou o ar entre os dentes cerrados, que vexame.

Piper assoviou impressionada:

— Pegou o telefone dele pelo menos? Era gatinho. — ralhou a morena recebendo um olhar severo de Annabeth. Ergueu as mãos em rendição: — Estou tentando melhorar o humor, afinal de contas meu melhor amigo foi espancado, sabe?

— Estou bem. Vou ficar melhor quando entrarmos no café. — admitiu começando a andar, mas ambas garotas o pararam.

— Nem pensar! — negou Annabeth pegando o telefone do bolso: — Vou ligar para o Lucian.

— Não precisa Annie, sério. — garantiu Will, mas elas estavam irredutíveis.

Annabeth se afastou dele para explicar a situação para o motorista, enquanto isso Piper o segurou pelo rosto carinhosamente beijando-o na bochecha. Will a abraçou pela cintura fechando os olhos pelo conforto que sua amiga lhe passava.

Piper acariciou seus cabelos.

— Ele vai se arrepender disso, ah se vai. — rosnou a garota, olhos caleidoscópios brilhando raivosos. Will negou para ela.

— Não quero causar problemas para a escola Pips. — recusou William: — Só mais um ano e meio e finalmente estou livre dele. Posso lidar com isso.

A amiga crispou os lábios, mas não argumentou mais.

— Lucian já está vindo, nos pediu para esperar em frente ao café. — explicou Annabeth retornando para perto deles: — Provavelmente vai ligar pro seu pai antes que chegue aqui.

Will estalou a língua em desagrado, mas não conseguiria esconder os roxos de qualquer forma. Annabeth pegou sua mochila do chão colocando-a junto da sua no ombro. Os três saíram do beco e esperaram juntos de mãos dadas pelo motorista particular.

Annabeth fazia carinho em seu braço enquanto Piper brincava com seus dedos tentando distraí-lo. Will sorriu agradecido pelas amigas maravilhosas que tinha.

Não demorou para Lucian chegar, e menos ainda para receber uma ligação de seu pai no telefone de Annabeth. A garota trocou palavras rápidas com ele, e logo o telefone foi passado para Will. Ele respirou fundo antes de responder:

— Hey pai.

“William! O que aconteceu? Está muito machucado?” questionou o homem do outro lado do telefone. Will conseguia ouvir a respiração rápida e descompassada do pai em pânico.

— Estou bem, foram só alguns roxos. — explicou tentando amenizar a situação.

“Mandei o Michael para o apartamento, ele vai chegar junto de você.” explicou o pai rapidamente “Ele vai tratar dos seus ferimentos, estou saindo de uma reunião agora, chego em casa em uma hora.”

— Não precisa pai, sério!

“Não tem discussão William!” interrompeu Apolo “Não vou ficar sentado no meio de um monte de interesseiros enquanto meu filho foi agredido na escola.”

— Na verdade foi fora…

“Não importa, estarei aí logo.” E depois disso ele desligou o telefone.

Will encarou o aparelho rosa antes de devolver para Annabeth. Deitou a cabeça no ombro da amiga que acariciou seus cabelos. Piper deitou no colo de Will esparramada no banco de couro.

Não falaram nada o caminho todo, mas ele sabia que elas estavam super preocupadas. As mãos de Annabeth não paravam quietas enquanto Piper estava cantarolando uma música em Cherokee somente para ela.

Conseguia sentir o olhar do motorista nele de tempos em tempos. Suspirou sentindo-se mal por ser um incômodo às pessoas a sua volta. Deveria ter lidado com Hércules sozinho, mas se aquele garoto não tivesse aparecido ainda estaria levando chutes no beco do café.

Will franziu o cenho ao se lembrar dele. Era um rapaz um tanto arrogante demais, mesmo para alguém com as habilidades que ele tinha. Mas uma coisa ele tinha certeza, não estava acostumado a lidar com as coisas como o povo “das ruas” lidam, e o rapaz deixou isso bem claro para ele.

Ele não precisava de ajuda e nem cuidados de um esnobe como William.

Will queria poder ter pelo menos um décimo da auto-estima que aquele garoto tinha para falar as coisas e deixar impressões fortes para trás. Fechou os olhos tentando fugir dos pensamentos turbulentos, mas não deixava de rever o rosto de Hércules de novo e de novo.

Era nauseante.

***

Will chiou enquanto o doutor cuidava de alguns cortes em seu cotovelo e antebraço. Michael o encarou rapidamente, mas continuou a desinfetar as feridas pequenas. Apolo andava de um lado para o outro na sala enquanto assimilava o que aconteceu.

— Eles te pegaram depois da aula, te surraram e ameaçaram por nada, é isso que está me dizendo? — bradou Apolo não comprando a explicação de Will.

O garoto concordou com a cabeça evitando contato visual: — Sim, não sei porque fariam isso. As pessoas não parecem gostar muito de mim na escola.

— Ridículo! — exclamou Apolo voltando a andar pela sala. Will chiou outra vez, mas desta Michael acabou soltando uma risadinha. O rapaz riu junto envergonhado.

Encarou Piper que estava sentada no tapete com três gatinhos ao redor dela atrás de carinho e Annabeth no sofá encarando a cena com amor nos olhos. Will procurou pelo quarto filhote o encontrando deitando embaixo do aparador, sossegado.

— Não consigo imaginar como isso pode ter acontecido novamente. — Apolo recomeçou chamando a atenção de Will para ele: — A Androminus vai ficar sabendo disso.

— Não foi dentro da escola, pai! — relembrou Will: — E eles também saíram machucados, então estamos quites.

— Não estão não. — refutou Apolo: — Só vão estar “quites” quando se desculparem e irem para a merda de um reformatório.

Will suspirou negando a cabeça. Seu pai era irredutível quando ele se machucava, fosse tropeçando na barra da calça aos cinco anos ou apanhando de pessoas aos dezesseis.

— Qual o nome do garoto que te ajudou? — indagou o pai.

— Não falou o nome, mas ouvi eles o chamarem de Ghost. Deve ser como o conhecem por aí. — explicou o que sabia.

O garoto se recusou a se apresentar, talvez por medo de algo acontecer com ele ou ser forçado a assinar por agressão física na delegacia. Will não o entregaria, claro, mas o que seu pai fizesse estava fora de seu controle.

— Minha cabeça vai explodir. — comentou Apolo se sentando na poltrona finalmente: — Preciso de um tempo para pensar.

Ágatha aproveitou a pequena calmaria e trouxe chá para todos. Michael enfaixou seu braço antes de se levantar.

— Os machucados são leves, mas vão ficar doloridos por alguns dias. — explicou levantando o rosto de Will pelo queixo: — Nenhum machucado visível ou corte que deixe cicatriz, ele vai sobreviver. — zombou Michael.

Will sorriu para ele, que se afastou.

— Obrigado Mike, você é nossa salvação. — suspirou Apolo aliviado. O doutor rolou os olhos:

— Família se ajuda, Tio, e se o Will resolvesse usar esse monte de músculos que ele tem para auto-defesa, não precisaria vir enfaixar ele. — ralhou aceitando o chá de Ágatha.

— Não gosto de violência. — resmungou o loiro cruzando os braços.

Apolo suspirou:

— William—

O telefone de Will começou a tocar alto. O garoto o retirou da mochila encarando a mãe na chamada de vídeo. Arregalou os olhos não sabendo se atendia ou não. Observou seu pai dar um sorriso amarelo se desculpando. Suspirou resolvendo aceitar a ligação.

— Oi mãe—

“Ai meu Deus! Você está ferido? O que aconteceu?” começou ela desesperada: “Seu pai falou que você se machucou, onde? Muito sério? Precisa que eu vá ai?!”

Will encarou o pai em choque:

— Contou pra ela?!

Apolo deu de ombros: — Eu me desesperei!

“E que bom que ele me contou!” ressaltou a mulher: “Ele não consegue nem cuidar de você, que absurdo! Vou te trazer para Malibu se isso voltar a acontecer!”

Will sorriu, tentando soar reconfortante:

— Não vai, mãe, sério. — disse meigo: — Estou bem, foram só alguns roxos, nada demais.

“Certo, certo.” Ela suspirou tentando se acalmar: “Me ligue mais tarde então?”

— Claro, mãe.

“Te amo, paixão.”

— Te amo mais. — e assim ele desligou a chamada.

Apolo bufou: — Até parece que ela vai te levar com ela.

Will rolou os olhos, mas não insistiu no assunto. O divórcio dos seus pais era antigo e sabia lidar com o furacão que Apolo e Naomi eram.

— Eu estou cansado, pai, vou para o quarto. — Avisou se levantando.

— Certo, vai. Mas qualquer coisa me chame! — exigiu. Will concordou caminhando com as meninas no seu encalço.

Entrou no quarto se jogando na cama de casal cheio de dores. Ouviu os passos das garotas e o peso na cama chacoalhar os edredons; e alguns miados aqui e ali. Claro que trouxeram os gatinhos!

— Will? — Piper o chamou. Se virou para o lado encarando as amigas.

— Estou bem. — respondeu robótico.

Annabeth suspirou: — Quer ficar sozinho?

Will pensou um tempo, não sabia se seria bom ficar ou não sozinho, mas no momento não estava para conversas. Assentiu vagamente e ambas saíram, deixando um beijo em cada uma de suas bochechas. Com os gatos em mãos fecharam a porta e Will se enfiou em seus pensamentos.

Hércules era um problema em sua vida, e não conseguia pensar em nenhuma maneira de conseguir se livrar dele. Isso já estava acontecendo havia um ano e nada de parar com o bullying.

Will pensou, em alguns momentos de insensatez, de dar a ele o que ele queria, mas se estapeava à voltar à razão sempre que essa ideia rondava sua mente. Não lhe devia nada, não era obrigado a nada; por mais que acabasse com os seus problemas num piscar de olhos.

Suspirou em derrota entrando debaixo das cobertas. Desligou as luzes, o celular e dormiu a tarde e a noite inteira, acordando somente na manhã seguinte.

Os machucados dez vezes mais doloridos.

***

NICO

Nico voltava do colégio. A mochila desleixada nas costas, o cabelo todo desgrenhado, faixas delimitando o movimento das suas articulações, principalmente as dos punhos e das mãos. Atento e tenso, olhava em volta, finalmente, depois de um dia inteiro, percebendo que talvez um garoto rico tivesse muitas formas de sumir com ele do mapa.

Por que diabos inventara de ser tão impulsivo? Agora Ethan sabia que Nico não havia esquecido e nem deixaria-o passar assim impune.

Nico suspirou e virou na esquina escura e estreita de sua casa. Esse cara com ar de importante está encostado a um carro preto e espichado com jeito de caro, aparentemente estacionado bem em frente ao prédio dos di Angelo. Ao se aproximar, Nico pôde ver o terno cinza muito bem passado, os óculos escuros de marca, os sapatos requintados brilhando.

Por baixo de todo o dinheiro, tinha um homem com as mãos no bolso, tentando parecer descolado e tranquilo enquanto na verdade estava bem apreensivo.

Bom, pelo que se lembrava, Nico não tinha feito trato com nobre algum. Então só ignorou e tirou a chave do bolso para destrancar a porta da frente. No entanto, ouviu o homem dar alguns passos e perguntar:

“Você é aquele conhecido como ‘Ghost’?”

Nico estacou, estreitou os olhos e espiou por cima do ombro. Talvez estivesse na hora de correr? Mas se aquilo fosse alguém vindo por Ethan, provavelmente ele já estaria caído no chão com uma bala na cabeça. O assassino sequer sairia do carro e nem mesmo perguntaria o seu nome.

Era suspeito, muito suspeito.

“Com quem estou falando?” devolveu a pergunta, ríspido.

“Acho que perguntei antes.”

“O que, na minha opinião, é falta de cortesia, uma vez que é você quem procura.”

O homem pareceu perplexo por um segundo, então curvou-se um pouco numa risada e estendeu a mão. Nico virou-se, finalmente, de frente para ele.

“Meu nome é Apolo Solace. Sabe o garoto que você salvou ontem de levar uma surra? Ele é meu filho.”

Nico soltou uma risada sarcástica e, enquanto apertava sua mão, analisou os cabelos loiros, as sardas e a pele bronzeada. Tudo bem, era acreditável. Olhou em volta, desta vez reparando nas pessoas que encaravam. Um grupo de moleques sussurrava do outro lado da rua, provavelmente já inventando algum boato sobre o Rei Fantasma fazendo trato com os patrícios. Ou talvez apenas montando um plano para roubar aquele carrão.

O temido Ghost apressou-se para encerrar aquele show de aberrações.

“Na verdade, ele levou a surra. Eu só o salvei de quebrar algum osso.”

“Ainda sou grato.”

“Olha, senhor Solace, eu creio que deixei bem claro ao seu filho que eu não sou uma espécie de Devilman benfeitor que sai defendendo aleatoriamente as pessoas por aí. Não mereço agradecimentos porque não fiz nada por ele, eu só…”

“Não estou aqui para te agradecer.”

Já com a ansiedade dominando-lhe os nervos, o garoto aproximou-se meio passo e, confuso, sussurrou:

“Então por quê?”

“Vim te oferecer um emprego.”

Oh.

Os olhos de Nico brilharam.

“Por que não conversamos em outro lugar?”

***

Sr. Solace o levou a uma lanchonete no centro. Era simples e Nico apreciou muito esse detalhe, pois realmente odiava lugares cuja a comida ele não pudesse pagar.

No caminho, o homem contou-lhe um pouco sobre o que queria que fizesse, mas como ainda estava incrédulo, Nico teve de repetir assim que se sentaram:

“Ok, espere. Você está me dizendo que quer me pagar um puta de um salário só para proteger o seu filho de um bando de adolescentes desocupados?”

Sr. Solace sorriu largo e meneou com a cabeça.

“Bom, colocando nessas palavras…”

“Mas por que não um guarda-costas profissional?”

“William me mataria se eu fizesse isso. Chamaria muita atenção.”

Nico apontou para o próprio rosto de forma debochada.

“E você acha que colocar alguém como eu ao lado dele vai aparentar totalmente natural?!”

“Como assim?”

Nico revirou os olhos e teve de rir.

“Eu não sou um de vocês. Não ando como vocês. Não respiro como vocês. E, de toda forma, eu nem estudo com o seu filho, não teria como…”

“Ah, sobre isso, eu conseguiria uma bolsa integral para você na Androminus. É a melhor escola do estado, então acredito que seja mais um bônus no nosso contrato.”

“Isso é sério?”

“Pareço estar brincando?”

Incrédulo, Nico olhou pela janela. Um rapazinho veio atendê-los, Nico pediu café preto, Apolo pediu um hambúrguer. Quando foi embora, os dois se encararam, um analisando o outro.

“O que me diz, Nicolas? Gostaria que começasse no emprego o quanto antes.”

“Estou pensando seriamente em aceitar, Sr. Solace.”

“Estou torcendo seriamente para que você aceite, Sr. Ghost.”

Nico sorriu torto, dando uma meia risada ainda incrédula. Batucou os dedos na mesa e encarou os olhos azuis daquele homem intensamente.

“Antes que eu cometa uma loucura, como você me achou?”

Apolo deu de ombros e sorriu.

“Will me disse que um dos meninos te chamou de Ghost. Perguntei então para o filho do meu motorista, que mora num bairro próximo, se ele sabia de algum Ghost que surrava a bunda de três garotos quase com o dobro de seu tamanho facilmente. Ele disse que talvez um amigo soubesse, e esse amigo sabia. Depois de sair panfletando por aí que eu precisava te encontrar, foi fácil descobrir onde você mora. O Rei Fantasma… Cujo o nome eu ainda não sei, aliás.”

Nico negou com a cabeça, meio que querendo sorrir.

“Acho que tem muita gente ansiosa por aí para entregar minha cabeça.”

Apolo franziu o cenho.

“Na verdade, a maioria parecia nutrir mais admiração por você do que qualquer coisa.”

Nico descartou o comentário com um aceno. O café chegou e antes de continuar, deu um gole longo.

“Ok, aos negócios, Sr. Solace.”

“Uh, menino direto, gosto disso. Seguinte, eu te arranjo uma bolsa integral na Androminus, como eu já disse, com direito a auxílio material e fardamento, além de, claro, te pagar esse valor aqui mensalmente” o homem entregou-lhe um cartão plastificado com um número de vários zeros escrito à caneta azul. “E você, meu consagrado, mantém um olho em William. Não estou pedindo para vocês serem amigos. Se possível, gostaria que você evitasse isso, já que comprar um amigo para o meu filho é a última coisa que quero no mundo.”

Nico fez que sim com a cabeça, ainda encarando o número no cartão. Com aquilo ele conseguiria manter Bianca na clínica tranquilamente, além de se sustentar muito bem. Em dois meses apertados talvez conseguisse até pagar os aluguéis atrasados.

“Mas não ache que vou pagar tudo isso para aceitar ‘acidentes’. Antes, durante, depois e fora da escola quero você o protegendo. Nem que você precise se esgueirar nos bueiros ou subir em prédios abandonados.” Apolo franziu o cenho e se curvou por cima da mesa. “Eu não quero vê-lo machucado de novo. Não vou admitir isso.”

Nico assentiu de novo, mas dessa vez calmo e firme. Era uma proposta muito boa, na verdade, e com ela, talvez pudesse até pensar em algo para o seu futuro além de faturar uns trocados por aí. O nome Androminus Academy contava muito pra faculdade.

“Acho que temos um acordo, Sr. Solace.”

***

WILL

O dia na escola foi difícil.

Não precisava ser nenhum gênio para ligar os machucados do trio maravilha com os do Will, e por isso as fofocas e cochichos pelas suas costas eram intensos e desesperados. A feição ameaçadora de Hércules o deixou em estado de alerta total o dia inteiro.

Will se encolhia pelos corredores, nas salas, no refeitório e até mesmo nos jardins.

Se sentia observado, julgado e desafiado. Suas pernas tremiam sem parar e o pânico crescendo em seu peito, lhe roubando o controle de sua respiração. Várias vezes durante o dia precisou parar em um canto mais isolado para recuperar o fôlego.

Piper e Annabeth ficaram com ele o dia todo. Piper ameaçava alguns alunos que iam além das encaradas e diziam coisas que não entendiam; Annabeth lançava olhares que bastavam, e assim o dia se seguiu.

Will nunca se sentiu mais aliviado em toda sua vida do que quando pisou os pés em casa e foi recebido pelas palavras de carinho de Ágatha e os gatinhos zanzando pela sala. Se sentou com as meninas no sofá com um gatinho em cada colo — com exceção do preto que preferia seu próprio espaço.

Os braços estavam pesados pela dor, e as pernas latejando nas juntas. Se perguntava se estavam doendo pelos ferimentos ou pelo seu estado nervoso o dia inteiro. Suspirou mais leve deitando a cabeça no ombro de Piper e ali ficou alguns minutos.

Deixando as memórias irem embora, cochilou no ombro da amiga sendo acordado com a voz de seu pai no hall da casa saindo do elevador. Se ajeitou no sofá curioso, seu pai nunca chegava antes das sete em casa.

A porta se abriu e Apolo passou radiante em seu terno de linho fino e ray ban em cima da cabeça, emaranhado nos fios loiros. Will se levantou para cumprimentar o pai, o gatinho ainda teimoso em seus braços, mas foi aí que percebeu que ele não estava sozinho.

Will reconhecia aquela figura parada de pé na soleira da sala, ainda que diferente. Os cabelos pretos soltos nos ombros, a roupa em tons escuros com uma jaqueta jogada por cima e as faixas nos ferimentos recém-abertos do dia anterior, quando resolveu salvar um nerd desconhecido mesmo sem intenção.

Quando decidiu que alguns socos e palavras bruscas resolviam problemas.

Nico soltou aquele sorriso idiota na porta de sua casa como quem zombava de sua incapacidade de se proteger sozinho. Will fechou a cara sem saber como reagir àquilo.

Ghost estava na sua sala de estar, e Will não poderia estar mais confuso.

Notas finais
E finalmente entregamos a premissa da história! O que acharam? Contem ai pra gente Mais uma vez, agradecemos demais que estejam dando uma chance para a história, torcemos para que continuem conosco, temos muita coisa pra contar ainda! Até sábado que vem! Beijinhos~