Good Kids Bad Habits

3 Psycho by birth, bastard by choice


Notas iniciais
Olá!! Estamos de volta. Obrigada por todos os comentários! Somos um pouco lentinhas pra responder, então tenham piedade heuhuehe Aproveitem o capítulo :) (Tradução do título: "Psicopata de nascimento, babaca por opção"

WILL

Will passou o olhar entre Apolo e Ghost por longos momentos.

Abriu e fechou a boca, ensaiando por falar, mas estava surpreso demais para formular algo decente. Nico sorriu de lado debochado, descendo o olhar para os braços de Will.

O Solace seguiu o olhar se lembrando do gatinho encolhido ali. Praguejou internamente ao ver o sorrisinho idiota no rosto dele.

— Acho que ainda não foram apresentados. — Apolo comentou quebrando o clima tenso na sala: — William, esse é Nicolas di Angelo.

— Ah sim, já nos conhecemos. — disse Will pigarreando: — Bom… Obrigado de novo por ontem.

— Não foi nada. — disse Nico firme. Seu tom dizia exatamente isso: “não foi nada, você só deu sorte de termos inimigos em comum.”

— Ah, certo. — respondeu desconcertado. Agradecer e ser recusado uma segunda vez parecia falta de educação até mesmo para um delinquente.

Eles não tinham nenhum tipo de código de honra ou coisa parecida?

Sentiu mãos quentes em seu braço esquerdo e Piper emergiu de trás dele, olhos analíticos como sempre.

— Acho que não fomos apresentados. — avisou ela, lançando um olhar ofendido para Apolo que soltou um riso contido: — Sou Piper McLean, melhor amiga do Will.

— Annabeth Chase, muito prazer. — apresentou-se Annie do seu outro lado.

Nico acenou com a cabeça, um sorriso pregado em seu rosto, forçado, mas educado.

— O prazer é meu. — enfiou as mãos nos bolsos da calça e se calou novamente.

Calou-se mas não parou. O olhar agitado passeava por todos os lugares, os ombros eram tensos.

— Bom, sente-se. Fique à vontade, vou pedir que Ágatha lhe sirva algo. — e assim Apolo abandonou os quatro na sala e sumindo para dentro da cozinha.

Will desviou o olhar de Nico, não se obrigando a nenhum tipo de etiqueta que não fosse necessária. Gesticulou para o sofá.

— Pode se sentar. — sugeriu apertando o gatinho de leve em seus braços.

— Estou bem. Prefiro evitar virar uma bola de pelos ambulante. — rebateu cruzando os braços, subitamente mais confortável. A presença de Apolo talvez lhe fosse intimidante, Will não saberia dizer, seu pai era tão agradável.

Will não conseguia decifrar direito a expressão no rosto daquele garoto, e nem entendia o motivo de ele parecer tão eufórico, como se estivesse pronto para atacar. E entendia menos ainda a sua presença.

Will pressentiu algo ruim.

— O que está fazendo aqui? — perguntou tentando não parecer indelicado.

Nico deu de ombros:

— Era uma oferta gorda demais para recusar. — disse simplesmente, como se não fosse nada.

Ah, mas Will sabia que era.

— Oferta?

Apolo retornou, desta vez com Ágatha carregando uma bandeja com chá gelado. Todos se serviram, menos Will que manteve a posição rígida no centro da sala.

Não era idiota, sabia que o pai tinha armado alguma coisa e preferia estar preparado para qualquer baque. Tensionou os ombros antes de questionar Apolo.

— De que oferta estamos falando aqui? — perguntou sério, por mais que não soubesse ser rígido com o pai.

Apolo suspirou, se sentando na poltrona azul ciano.

— Eu acredito ser um homem bastante maleável. — comentou encarando Will nos olhos: — Não questiono o que faz, onde vai ou com quem contanto que eu saiba que está seguro ou que Lucian está por perto.

Will concordou de leve, mas não interrompeu o pai.

— Um pouco de liberdade é bom, inclusive privacidade, mas quando as coisas começam a sair do controle eu gosto de ter a opção de mudar o rumo delas. — explicou deixando o copo de chá na mesinha e se levantando. Depositou uma mão no ombro de Nico, que não parecia confortável com o toque: — por isso decidi que você precisa de um guarda-costas.

Will arregalou os olhos:

— Guarda-costas?! — exclamou Will, sentindo-se numa conversa de anos atrás, quando o pai insistiu na mesma coisa, mas naquele evento foi sua mãe quem se exaltou: — Sabe que não gosto que me vigiem o tempo todo.

— Eu sei e compreendo, mas não vou te deixar à mercê de garotos que podem voltar e te machucar. Isso já está se estendendo demais, William. Você sempre diz que eles vão te deixar em paz, e um episódio desses sempre volta a se repetir. — emendou severo. Will se calou: — Além do mais, ninguém vai saber que tem um, e você vai acabar se acostumando.

Will suspirou irritado, mas controlou sua explosão. Sentou-se no sofá, deixando o pequeno animal descer para o tapete. Ele correu até as pernas de Nico, que deu alguns passos para trás, evitando o filhote.

Ótimo, aquele garoto arrogante também odiava animais. Não poderia ser melhor.

Piper cruzou os braços subitamente protetora.

— É quem é o brutamonte da vez? — inquiriu interessada.

Nicolas soltou uma risadinha. Will suspeitava da resposta, na verdade, tinha praticamente certeza, mas queria escutar alguém consolidando os fatos. Então não respondeu.

— É o garoto, Piper. — respondeu Annabeth: — Ele vai usar alguém da idade do Will. Passar despercebido como guarda-costas para todos, até para nós.

Apolo concordou.

— Exato. Ele vai te acompanhar em todas as aulas e lugares do dia. Se vão se dar bem ou não, não me interessa.

— Espera — Piper sorriu com ironia: — Um garoto desses vai ser guarda-costas do Will? — seu nome foi pronunciado como se enaltecesse seu porte físico.

Nico deu dois passos para frente, a expressão fechada, como se comprasse uma briga.

— O tempo que você tem de vida, McLean, o garoto aqui tem de briga.

Apolo o tocou no braço, como se o segurasse, e acrescentou:

— O histórico dele é bem… interessante.

Will encolheu os ombros de leve. Resolveu encarar Nico atrás de alguma relutância, mas não havia nada além de feições sérias e uma determinação mordaz.

— Acho que consigo imaginar o quão gorda ela foi. — comentou para si mesmo passando a mão pelos cabelos loiros: — Bom, não tenho muito o que dizer. — comentou entre dentes. Ele tinha sim, ah se tinha, mas era educado o bastante para não citá-los perto de Nico.

— Mesmo se tivesse eu não aceitaria um não desta vez. — respondeu Apolo sorrindo para amenizar o clima.

Não deu muito certo.

Nico se afastou levemente, recusando o toque de Apolo educadamente, e encarou o homem.

— Preciso ir. Moro do outro lado da cidade, tenho coisas para empacotar. — disse por fim atrás de algum tipo de permissão.

Will encarou o pai chocado.

— Vai forçá-lo a morar aqui? — acusou de leve, recebendo um olhar nada alegre de Apolo.

— Aqui não, no campus da Androminus. — respondeu antes de se virar para Nico: — Quer que eu peça para te deixarem na sua casa?

Nico negou: — Posso ir de condução. Até amanhã, Solaces, meninas.

E assim ele se foi da cobertura, deixando por alguns momentos a sala num silêncio agudo. Assim que o elevador desceu, Will explodiu:

— Guarda-costas?! Eu pensei que tínhamos decidido nunca mais tocar nesse assunto. — bradou o rapaz exaltado.

Apolo travou a mandíbula.

— As coisas mudaram.

— Mudaram? Como? Onde que eu preciso de um Guarda-costas, e ainda por cima ele? — ressaltou revoltado: — A mamãe sabe?

Apolo enrijeceu não respondendo de imediato.

Aquele tópico era delicado, um ataque indireto para o passado do casal já divorciado. Iam se machucar se brigassem muito à fundo no assunto, ainda que para Will fosse tentador insistir nele. Suspirou se virando para o corredor.

— Quer saber? Esquece. Faça o que achar melhor. — emendou seguindo para seu quarto.

Trancou a porta e ficou ali contra ela se sentindo traído.

Um guarda-costas não é grande coisa para gente muito rica. Tinham vários na escola que até recebiam apelido dos alunos ou um lugar na mesa do lanche, mas Will odiava aquilo. Não era um problema que seu pai poderia resolver com um guarda-costas. Era mais complicado do que Apolo imaginava, e Will não queria que ninguém soubesse, muito menos o garoto que o salvou no beco no dia anterior.

Era seu problema para resolver, mas havia perdido o pouco de controle da situação com o Hércules. Deveria ter imaginado.

Suspirou revoltado passando a mão pelos cabelos rebeldes. Se sentou pesado na cadeira, ligou o notebook, colocou o headset e se afundou no chat com seus amigos.

Se conversaram a noite inteira sobre cronologia dos quadrinhos e Will passou a madrugada em claro, bom, não era da conta de ninguém.

***

NICO

Hades o viu dobrando algumas roupas e colocando numa mochila. Ficou de braços cruzados, encostado na soleira da porta.

“Você não acha que tá um pouco velho demais para fugir de casa?”

Nico riu de leve.

“Não vou fugir. Arranjei um emprego.”

“Ah é? E você vai dormir lá?”

“Então, pai…” Nico respirou fundo. Apesar de ser meio que dono do seu próprio nariz, a aprovação de Hades era estranhamente importante para ele. “Eu vou ser guarda-costas de um garoto.”

“O quê? Você tá maluco?”

“Calma, deixa eu expli…”

“Nico, essa gente deveria ter treinamento militar, habilidade com armas e sabe-se lá mais o que. Você não é guarda-costas, filho, você é um menino briguento de 16 anos.”

O desespero nos olhos do pai era real. O homem aproximou-se em passos pesados, a expressão angustiada.

“Não vou ser esse tipo de guarda-costas. Só vou defender o moleque de uns valentões de colégio. Só isso. E eu estou fazendo uma mala porque… Esse garoto por acaso é da Androminus Academy. O pai dele quer que eu proteja o filho a cada segundo do dia fora de casa.”

“Você vai morar com eles?!”

“Não, eu vou morar na Androminus. Ganhei uma bolsa, graças ao meu novo patrão.”

Hades ficou boquiaberto por um momento. E então, encontrou as palavras para demonstrar exatamente o que sentia:

“Nico… Isso é maravilhoso.”

O sonho de qualquer pai é dar uma educação respeitosa para o filho, e aquele colégio era simplesmente o ápice da sociedade novaiorquina. Hades nunca poderia pagar por aquilo, e saber que seu filho conseguiria esse privilégio apenas cuidando de algumas brigas de ensino médio, era incrível.

Nico sorriu, assentindo.

“E se você quiser tirar uma folga maior… Sabe, ficar mais em casa, visitar a Bia… A gente não vai precisar mais de todo o dinheiro extra das viagens. Você pode descansar, pai.”

Com essa última frase, o homem não aguentou. Abraçou o filho e disse o quanto estava orgulhoso. Disse que o apoiaria até a morte, e que seria eternamente grato por tudo que fazia. Passaram a noite conversando como nunca, e se despedir com a chegada do motorista de Apolo foi muito difícil.

Aquela seria sua primeira noite no dormitório. As aulas começavam cedo.

***

A primeira coisa que Nico sentiu ao acordar foi arrependimento.

Ele vestiu o uniforme sabendo que hoje tentaria ser um deles. E eles eram tudo de errado que havia com a sociedade. Crianças riquinhas e mimadas, que acham que tudo que existe é o que há na sua frente. Filhas de pais que passam o dia em seus escritórios reclamando das cadeiras importadas que não são confortáveis, gritando com pobres secretárias com salários mínimos e assediadas pelos seus chefes, tomando pequenas doses de café como se fosse algo terrível e necessário.

Aquelas crianças gordas eram as que sugavam toda a comida que deveria ir para a África. O símbolo do capitalismo desenfreado, com seus vinte e dois presentes de aniversário e os outros cinquenta de natal. Com sua escolinha de cristal e os seus uniformes engomadinhos.

Ainda assim, não havia uma delas que não dissesse se importar com a fome no mundo, o preconceito e o desemprego. Como se elas não contribuíssem para isso a cada respiração. Como se um único par de sapatos daquele uniforme poderia ser convertido em pelo menos cem cobertores para moradores de rua.

Era horrendo.

E Nico estava prestes a calçar esses sapatos.

Olhou pela janela do dormitório. Dava para ver o colégio dali. Um palácio de vidro, todo projetado para ser o edifício mais magnífico da cidade. O quarto em que se encontrava não diferia muito; parecia um hotel. Todo metido a besta com seu beliche moderno e escrivaninhas dobráveis… Deplorável.

Por um instante, sentiu uma humilhação terrível assolar seu peito.

No instante seguinte, debochou do arrependimento e jogou-o no lixo.

Arrepender-se jamais fizera nada por ele, mas agarrar as oportunidades sim. Afinal, o que havia de tão errado e vergonhoso assim? Agora ele se vestiria como um deles e comeria como um deles, mas não seria mais um naquela criação de cobras. E sabe por quê? Porque ele estava burlando o sistema.

Sim, ele havia feito isso. E faria ainda mais: beberia cada gota de ouro que aquela instituição lhe desse. Juntaria cada mísera migalha e faria o seu próprio castelo. O preço disso? Manter um dos burguesinhos a salvo de um grupo de imbecis. Grande merda.

Literalmente nada se comparado ao que já fizera por dinheiro.

Então Nico olhou-se no espelho, dessa vez encarando o uniforme como uma armadura irônica. Prendeu o cabelo, deixando metade solto. Trocou seus curativos e as bandagens das mãos, jogou água no rosto, pegou sua mochila e saiu do dormitório batendo a porta.

Mais meninos saíram com ele, todos o observando com aqueles olhos arregalados e curiosos. Então esse é o novato? Gostaria de saber como conseguiu entrar no meio do ano letivo assim. Ainda mais parecendo um delinquente.

Você viu aquela cicatriz no pescoço dele?

Sim, é medonho.

Nico tentava não rir ao escutar os comentários por todo o caminho até a escola.

E nela, não foi muito melhor. Até achar a diretoria e, consequentemente, Apolo, ele não teve muita paz. No entanto, em completo contentamento e plenitude, lá estava o empresário engravatado e excepcionalmente brilhante a sua espera.

“Nicolas, que bom que veio.”

“O senhor ainda tinha alguma dúvida?”

Apolo sorriu um sorriso mecânico.

Nico definitivamente odiava esse tipo de sorriso. Por isso, retribuiu.

“Só vim explicar com mais detalhes a situação para a coordenação, já estou de saída. Se Will me ver aqui, estou encrencado.”

Nico achou graça da ideia de Will dar uma bronca no pai.

“Bom, Margaret, esse é Nicolas” retomou Apolo, direcionando-se para uma mulher muito bem arrumada do outro lado da salinha. Alta, agradavelmente redonda, colar de pérolas, roupa engomada. Nada demais. Não parecia ser problema. “Ele é o aluno de quem te falei. Minha única exigência é que ele faça parte de todas as salas de Will, incluindo as aulas extracurriculares.”

“Will está muito avançado em piano e francês. Tem certeza disso?”

Nico olhou em desespero para Apolo.

Tudo menos disciplina de esnobe riquinho. Pelo amor de tudo que existe. Tudo menos isso.

“Hmm… Acho que serve alguma aula que seja no mesmo horário. Mas tem que ser exatamente no mesmo horário, de preferência que as salas sejam o mais perto possível. Eles precisam entrar e sair juntos.”

Margaret fez uma cara suspeita e deu de ombros.

“Desde que o acordo seja mantido de sua parte, não há o menor problema. Vou deixar que Nicolas escolha depois as aulas, e informarei os pormenores para a Srta. Dods.”

“Perfeito. Preciso ir agora.” Apolo pegou sua maleta no chão, apertou a mão de Margaret e colocou uma mão no ombro de Nico antes de sair. “Não cause problemas, sim?”

Nico sorriu o sorriso mecânico de novo.

“Apenas aqueles que tenho permissão para causar.”

***

Will Solace estava no fim do corredor.

Havia armários altos dos dois lados, armários maiores que o seu próprio quarto na casa de Hades. E havia gente. Essas crianças de 1,70m brincando de crescer. Depois de essa parede de carne humana, Will Solace. Nico não o perdera de vista por um momento sequer ao longo do dia, e, ao mesmo tempo, não havia sido visto por ele nem uma única vez.

Devia ser um incômodo isso de ter alguém te observando, então Nico decidiu tornar o menos doloroso possível. No dia anterior, Apolo o instruiu a não tentar fazer amizade com o Will, já que pareceria algo forçado e, principalmente, seria meio evidente para todo mundo que havia algo de estranho naquela relação super protetora.

Tudo bem, era tudo que queria, não precisava ser amigo de seu contratante. Nico era como um fantasma na noite; gostava de ver, não de ser visto.

Will pegou sua mochila e agora estava trancando o armário. Ele olhou em volta, como se procurasse algo, talvez com medo, talvez com raiva, Nico não saberia dizer. Naquele dia havia um vinco constante entre suas sobrancelhas que não saia de jeito nenhum. Era quase charmoso.

Além da aparência cautelosa, Nico notou que suas duas amigas estavam com ele, Annabeth Chase e Piper McLean.

Annabeth chegava mais cedo que todo mundo e lanchava duas frutas e cereal, depois, direto para a biblioteca. Ela morava com seu pai, sua madrasta e seu irmão pequeno. Odiava canela, aranhas e livros de romance. Apreciava chá de erva cidreira, passear em locais cheios de edifícios e assistir filmes com o pai nas noites de sexta. Ela e Piper namoravam havia mais ou menos um ano e dois meses.

Piper era meio que oposta, mas não tanto. Acordava tarde e comia o que quer que a cantina servisse de mais gorduroso. Era uma aventureira, gostava de parques e tudo de mais selvagem que Nova York pode oferecer, como cachorro-quente de esquina e bandas de rock. Morava só com o pai, que na verdade nunca estava em casa, pois era um ator meio que famoso. Mas ela não se incomodava muito, ou pelo menos não deixava transparecer. Todo sábado ia para a casa de algum dos amigos e, em geral, só saia segunda de manhã atrasada para a aula, como sempre. Odiava aulas de álgebra linear e coisas complicadas demais para se entender com 17 anos. Gostava de Annabeth e Will Solace. E de um pouco de caos.

As duas eram zonas seguras. Eram as melhores amigas que Will poderia desejar. Defendiam-no com unhas e dentes.

E, Deus, isso era muito estranho.

Uma hora que as ameaças mais evidentes permaneciam fora de um raio de 30 metros de Will, Nico analisava as meninas minuciosamente. Quem poderia ser tão despretensioso assim? O que queriam em troca? Annabeth era inteligente demais, Piper rica demais. Elas não precisavam de nada de Will. Por que eram tão obcecadas por sua companhia?

Agora Will estava se movendo, olhando preocupado para os lados. Nico ponderou se estava o procurando ou com medo de alguma coisa, talvez de alguém. Então também olhou em volta.

Procurou Luke, Ethan ou Hércules. Eram muitas pessoas para observar, então perdeu Will de vista por um segundo. Mas estava tudo bem, as meninas o acompanhavam. Nico se esgueirou no corredor, sempre na sombra, a cabeça meio baixa. Luke. Ethan. Hércules. Olhou pela enorme parede de vidro que dava para o pátio, então Will entrou em seu campo de visão de novo. Sentado, banco de madeira, Annabeth e Piper. Por volta de trinta pessoas no pátio. Nico olhou por meio segundo para o rosto de cada um ali.

Nada de Luke. Nada de Ethan. Nada de Hércules.

Andou mais um pouco, foi até o seu armário no meio do corredor. Sua mochila vazia estava ali dentro, os livros que nunca usaria, o caderno em que nunca escreveria nada a não ser o cronograma de William Solace.

Pegou as duas barrinhas de proteína que tinha comprado dois meses atras e nunca realmente tivera vontade de comer.

E depois de um intervalo cronometrado de 45 segundos, voltou seu olhar para fora de novo. Como que por instinto, como se algo cósmico tivesse dito: olhe para o lado de fora. Will estava o encarando também. A boca entreaberta, os olhos azuis muito arregalados, parecia que tinha visto uma alma.

"Droga, Solace" murmurou.

Primeiro, se preocupou em ser visto, ser percebido, deixar o dia de William um inferno. Depois, pensou que aquilo poderia ser um olhar de socorro, então voltou a observar o ambiente.

Nenhuma ameaça estava no pátio, então por quê? E esse olhar apavorado Solace?

Quando sentiu uma mão pesada e muito quente em seu ombro, Nico entendeu.

Desgraça.

“Que. Porras. Você. Está. Fazendo. Aqui?”

A voz sussurrada calmamente em seu ouvido era conhecida, mas não tão familiar. Não era de Ethan, pois esta era intrínseca em seus ossos, fluía em seu sangue, tamborilava no seu cérebro todos os dias. Não, não era Ethan. Era mais suave, porém mais firme. Era cheia de confiança infundada e uma virilidade frágil.

“Oh, olá, Hércules” Nico cumprimentou em tom cordial. Fez questão de falar suavemente alto para quebrar o aparente controle que o outro queria ter da situação.

“Você não respondeu minha pergunta.”

Nico deu de ombros.

“Por que será? Não sabia que minha vida era de sua conta agora.”

E começou a andar pelo corredor, para longe do pátio, para longe de William Solace.

Hércules segurou-o pelo braço.

“O que te faz pensar que pode falar assim comigo?”

“O que te faz pensar que pode tocar em mim?”

Então Nico o encarou com aquela fúria. A fúria de quem já perdeu muita coisa. A fúria que só quem já lutou pela própria vida conhece. A fúria de uma criança que teve que virar homem cedo demais.

A fúria que fez de Nico uma das pessoas mais temidas no subúrbio onde vive.

Hércules hesitou.

“Na verdade,” continuou Nico afiado como uma navalha “que bom que você está aqui. Quero te dar um aviso.”

Não sorriu, mas caminhou de um jeito leve, quase cortêz. Indicou o banheiro como quem chama um amigo. Entrou, e logo veio Hércules, todo olhares furiosos e risadinhas desesperadas.

“O quê, o Senhor das Trevas me chamando para o banheiro? Não vai me dizer que você vai se ajoelhar e chupar o meu pau agora?”

Nido deu uma risadinha macabra e negou com a cabeça, mas apenas por meio segundo. No segundo seguinte, estava dando um chute no sentido contrário dos joelhos de Hércules, pegando sua mão e a articulação de seu ombro, de forma que ele caísse numa posição completamente humilhante e dolorosa.

“Bem que você gostaria disso, não é?” Nico forçou seu braço para cima, ficando no limiar do deslocamento.

Hércules gemeu.

Nico chutou sua lombar no ponto certo.

Hércules gritou.

“Porra, seu imbecil! Você sabe quem eu sou?!”

“Um babaca que acredita que agir como um idiota vai amedrontar alguém.”

Nico deu um impulso e colocou o joelho nas suas costas. Agora Hércules estava com o rosto no chão do banheiro (que, infelizmente, era muito limpo), o braço para trás, a coluna numa pressão dolorosa.

“Deixa eu te contar um segredo” Nico se aproximou da orelha dele e sussurrou: “a maldade apenas te faz parecer fraco.”

O ruivo contorceu-se e tentou levantar, mas Nico estava pressionando um ponto em suas costas que apenas o proporcionava agonia durante essas tentativas de fuga.

“Mas que merda, cara, por que você tá fazendo isso comigo? É por causa da briguinha do outro dia? Nós mal encostamos em você!”

“Parabéns, Hércules! Pela primeira vez você disse algo inteligente. Sabe por que vocês mal encostaram em mim? Hm? É porque eu sou mais forte. Muito mais forte. Eu passei por coisas que vocês, sanguessugas riquinhos, jamais sequer imaginaram. Isso faz de mim uma pessoa fodida que iria até o fogo do inferno para conseguir o que quiser. Então aqui vai o aviso”

Nico forçou mais o seu ombro, até sentir o “ploc” confortável de uma articulação se deslocando. Hércules gritou ainda mais, dessa vez pôde ver lágrimas descendo de seus olhos.

Achou engraçadinho que ele chorasse só com isso.

“Você encosta no Solace, eu machuco muito mais que o seu ombro.”

“Você não vai se safar dessa” o garoto no chão grunhiu entre exclamações de dor. “Meu pai vai te trucidar. Você vai ser expulso dessa escola antes de completar uma semana de aula!”

Nico riu alto. Encaixou a articulação para então deslocá-la de novo. O garoto uivou de dor e xingou em todas as línguas possíveis. Nesse ponto, seu rosto estava vermelho como um tomate. Gotículas de suor surgiram em sua testa.

“Seu pai pode ser o papa, o presidente ou até o próprio Deus, eu não ligo. Ele pode destruir a minha vida se quiser, mas vai ser uma pena você não estar vivo para assistir.”

O moreno levantou e se espreguiçou, sorrindo com muita maldade no olhar. Hércules se contorceu no chão, não sabia o que fazer com a dor insuportável no seu ombro e com a posição esquisita do seu braço. Nico esperou alguns segundos antes de ajudá-lo a colocar de volta no lugar.

“Você tem sérios problemas, desgraçado.”

Hércules tentou sair correndo para fora do banheiro, mas Nico se colocou entre ele e a porta. Ainda tinha aquele maldito sorriso ganancioso nos lábios.

“Posso ser doente, mas não sou burro. Lembre-se disso quando estiver planejando sua vingança.”



Notas finais
Foi isso. Espero que tenham gostado! Eu amo escrever cenas de violência meu deus. Diz aí o que achou nos comentários ♥