Good Kids Bad Habits
1 Desejou nunca ter acordado
Notas iniciais
Btw, como vcs devem ter reparado, eu e babs estamos fazendo essa historia junto, e tá sendo incrível. Espero que vcs gostem tanto quanto a gente
Bibelo: Bibelo: Oi meu amores, tudo bem? Vim com mais uma long fic. Sim, eu sei que to atrasada com minha long principal, mas calma que tudo se ajeita ruehruehrue
Afinal, quem não iria querer escrever uma história com a Deb, que é tão fã de drama quanto eu? Ah, melhor coisa ehuheueheue
Enfim, espero que realmente gostem do nosso trabalho, feito com carinho e várias calls na madrugada hruehreurheu
Boa leitura!

NICO
Abriu a porta com um suspiro. Estava desatento. Dia longo, vida cansativa, corpo doente. Seus dedos na maçaneta deixavam digitais sangrentas. A carne exposta de sua mão latejava, latejava, latejava.
Era um ritmo engraçado esse, o do seu próprio coração.
Estar em casa lhe trazia um mínimo de paz. Era quase como colocar fones de ouvido no meio de uma multidão.
Mas tão logo a calma o atingiu, ela foi embora. Porque tinha alguém no sofá da casa. Alguém que não deveria estar lá. Alguém com cheiro de rua e de perdição.
As mãos vermelhas de Nico começaram a tremer.
Era raiva.
Era muita raiva.
“Bianca, o que está fazendo em casa?”
A menina sorriu, alheia.
Era muita raiva mesmo.
“Eu te fiz uma pergunta.”
“É o que as pessoas fazem. Elas perguntam.”
Nico era um bom menino. Sempre fora. Não lhe era comum toda aquela falta de cortesia, mas o dia não favorecia em nada sua paciência. Então não é eufemismo dizer que é compreensível.
Compreensível quando ele pega a irmã pelo braço e a puxa com força.
Compreensível quando ele grita com todo o fôlego que ainda lhe resta depois de um dia violento na rua.
Compreensível quando a coloca à força no táxi e pede para o motorista levá-los de volta à clínica de reabilitação.
Silêncio.
Ele lhe daria silêncio como castigo. Então ficou quieto e não abriu a boca nem mesmo para se despedir quando a deixou na clínica. Pediu mil desculpas aos supervisores, prometeu que isso não iria mais acontecer.
“Nós estamos lotados. Nossas vagas são para aqueles que querem se recuperar, Nicolas.”
“Eu sei, mas ela não injetou... Eu sei que ela vai se recuperar, Robert.”
E assim ele ganhou mais uma chance para sua irmã mais velha. A irmã que deveria estar cuidando dele. A irmã perdida. Uma hora as chances acabam. Assim como foi para Hades. Assim como um dia seria para Nico.
Pegou um metrô na volta, não tinha dinheiro para outro táxi. Fazia frio, fazia muito frio. Mas era fim de verão e nada justificava o frio todo que Nico sentia.
Ele sentia frio o tempo todo.
Decidiu então descer e fazer o resto do trajeto caminhando, talvez assim ficasse mais quente.
Chuva fina caindo do céu, a noite vinha junto. Carros passando, poeira levantando. Nova York era uma cidade linda, mas não ali, não no subúrbio, onde tudo era escuro e fétido.
Nico caminhava pela rua meio sonolento. O frio deixava seus membros dormentes e fazia um pouco disso com a sua cabeça também. Pelo menos ele podia sentir o sangue seco ficando melado de novo e indo embora. Direto para a porra do ralo.
Tentou lamber os lábios, mas havia um corte meio feio neles. Doía um pouco. Também tinha aquele inchaço na parte direita de sua testa, onde um dos garotos de Bruce havia lhe acertado com um pedaço de cano. Já fazia alguns dias, mas ainda era incômodo.
Mas o pior, de certo, eram as mãos. Sempre doloridas, sempre trincadas, sempre machucadas. Seus dedos eram coisas tortas e ossudas, suas palmas eram ásperas feito couro. Defendera tantos golpes de faca com as mãos durante a vida que nem contava mais. Aqueles punhos haviam arrancado tantos dentes que já estavam endurecidos.
E era estranho. Estranho ter duas armas na ponta de seus braços. Estranho carregar tanto sangue consigo.
Meio sonolento, Nico mal percebeu e foi parando e se encostando num muro. Fechou os olhos e colou as costas na parede. Seu rosto estava molhado e seu corpo lhe era desagradável.
Queria poder dormir ali mesmo, no meio da rua, sem compromisso, sem futuro.
Futuro.
Era angustiante pensar em algo além do agora, mas como o único que ainda trazia algo para sua casa e o único ainda são daquele lugar, Nico precisava fazê-lo.
Seu pai mandava dinheiro para o aluguel que, por ficar perto da escola, não era lá muito barato. Também cobria boa parte das despesas com comida, mas as contas de luz e água geralmente era Nico quem pagava. E a clínica de Bianca era meio a meio.
Então, ele precisava pensar no pão do dia de amanhã.
Por enquanto tinha sido suficiente se meter em brigas clandestinas e ganhar uma boa quantia por vitória, às vezes até dar uma surra em alguém como um serviço. Mas talvez precisasse ainda manter Bianca na reabilitação por algum tempo. E isso requeria dinheiro, coisa que no momento ele sequer tinha para roupas decentes para usar no colégio.
Ele só não queria mais lutar.
Respirou fundo. A única resposta era arranjar um emprego que pagasse mais que seus negócios sanguinários. Era começo de mês, o que significava que precisava se apressar se quisesse receber salário integral. Então, apesar da tontura, tirou forças do além e caminhou o resto do caminho para casa.
Pela criança abandonada que Bianca era.
Pela criança abandonada que ele mesmo era.
A portaria cheirava a mofo, principalmente na chuva. O porteiro gordo e suado cumprimentou-o com um sorriso. Nico fechou a porta de vidro que dava para a rua, ela era velha e muito pesada, rangia com o movimento. No elevador, tentou não sujar as paredes metálicas de sangue. A luz piscou algumas vezes, os cabos rangeram e demorou um pouco demais para chegar no décimo andar.
Mas chegou. E nada parecia tão convidativo quanto o seu pequeno apartamento escuro e quase que completamente vazio.
Foi direto para o banheiro, tomou um belo de um banho, desinfetou suas feridas e cobriu-as apropriadamente. Foi muito cuidadoso, o bastante para parecer ter sido feito num hospital. Precisava parecer bem cuidado quando fosse pedir por emprego.
E bem quando estava terminando de enfeixar seus punhos, ouviu a porta de casa sendo destrancada. Bianca?
Não, de novo não.
Foi para a sala, encontrando a figura alta e exausta de seu pai escorado à porta.
“Ah, que bom que está em casa, Nico. Achei que chegaria e não veria ninguém”
Nico sorriu pequeno.
“Já faz tempo, né?”
Três meses, quem sabe?
Hades era da marinha. Passava uma semana em casa de meses em meses, depois, ficava no mar. Não era nenhuma festa quando ele chegava, mas Nico sempre o recebia com um sorriso saudoso.
Por mais que culpasse a sua ausência pela situação de Bianca.
Por mais que sentisse sua falta todo santo dia ao acordar e ao dormir.
Por mais que Hades tivesse deixado-o praticamente órfão.
Ele ainda era o seu pai e, por algum motivo, Nico ainda o amava.
Hades fez que sim com a cabeça e se aproximou, abraçando Nico com força. Beijou sua cabeça e sentiu o filho se contraindo.
Era dor?
Olhou para Nicolas, analisando-o de cima até embaixo. Os curativos no rosto, o corte no lábio inferior. E aqueles punhos. Tudo denunciava.
“E essas mãos, rapazinho? O que houve com elas?”
Acabara de colocar as faixas e manchas de sangue já apareciam na superfície.
“O de sempre.”
“Deixe-me ver…”
Com alguns estalos, Hades colocou algumas partes da mão do filho no lugar. Ele era bom com isso, já havia feito curso de enfermagem. E também, sabia lutar. Sabia mesmo. Era até melhor que Nico, o que parecia ser impossível para os garotos de rua.
“Você deveria estudar em vez de brigar por aí.”
“Eu estudo. Mas preciso arranjar dinheiro também.”
“Entendo.”
E ele entendia mesmo.
Hades apertou seu ombro e andou para o corredor, em direção ao banheiro. Mas aquele parecia ter sido um contato curto demais para se ter depois de tanto tempo e, ainda que soubesse o que viria com aquele diálogo, Nico o seguiu.
“Ah, pai… Bianca esteve aqui.”
O homem arregalou os olhos.
“Ela voltou a…?”
“Não. Graças aos céus, suponho. Ela está na clínica de novo. Acho que vai precisar ficar por mais um tempo lá.”
“Não temos dinheiro.”
“Eu sei. Por isso vou procurar um emprego amanhã.”
“Você precisa investir no seu futuro, não ser a babá da sua irmã. Comece a ganhar quinhentas pratas em um trabalho de meio período e vai ficar assim para sempre.”
“Eu ainda vou estudar! Isso é só temporário, só até ela se recuperar.”
“Há quanto tempo estamos nos agarrando a essa esperança, filho?”
Ah não.
Não era pras coisas irem pra esse lado.
“Temos que acreditar nela ou esse tratamento vai ser em vão, pai.”
“Bianca decidiu o próprio caminho e, pelas escolhas dela, você está condenando o seu. Ela largou a faculdade para se drogar, você entende isso? E você está largando o seu futuro para cuidar dela!”
“Você está a tratando como um caso perdido.”
“Porque ela é! Mas você ainda não… Você ainda não.”
Nico sabia que meio que era verdade e que seu pai dizia isso apenas para o seu bem, mas não conseguiu se controlar. A raiva e a frustração falaram mais alto. Era o único ainda humano naquela família?
“Não vou abandoná-la como você já fez.”
E, com isso, passou pelo homem no corredor e foi direto para o seu quarto.
Se realmente estivesse furioso, lembraria que eles não tinham mais dinheiro por conta da pensão que Hades pagava para sua outra filha, Hazel, mas ainda tinha racionalidade o suficiente para saber que aquela era uma ferida que não se cutucava assim.
Respirou fundo e sentou na parte de baixo do beliche. Bianca não dormia na parte de cima fazia muito, muito tempo. Dois anos? Talvez devesse tirar a cama de cima e colocar na dispensa. É, faria isso.
Deitou a cabeça no travesseiro, tentando ignorar uma sensação ignominiosa no peito. Se sentia mal por tratar o pai daquele jeito depois de três meses sem contato, mas tudo bem. Depois se desculparia.
Desse jeito, com os olhos secos, incapazes de chorar, e com as mãos machucadas, incapazes de amar, ele dormiu.
Dormiu como o ser humano espinhento em que a vida havia lhe transformado.
WILL
Sala de bate-papo 34
Nightwing21: Cara eu to falando!!! O Hulk toma uma surra do aquaman!!1!
Asadelt4: a ta. Perder pra um merd que fala com peixes? Nem fodendo
Nightwing21: Esse e o unico argumento de vocês contra o Aquaman??!! Na boa
Gumballstar: BATMAN METE PORRADA EM TODOS eles
Nightwing21: ah pronto
Asadelt4: Cala boca mano Batman não é tudo isso nao
Gumballstar: e a ariel é
C3POrra: Batman nem consegue controlar a familia dele, para de ser fanboy mano
Nightwing21: O Aquaman controla mentes!!! E o hulk é uma ameba, fácil de controlar
C3POrra: O Bruce Banner não
Asadelt4: Bruce Banner fica adormecido quando o Hulk aparece animal! Mas cara contole mental? Ate parece
Gumballstar: Nem fudeno
Nigthwing21: não é culpa minha que vocês nao lem a merd a das hqs dele!!!
Nightwing21: eu to saindo que ta quase na hora de ir pra escola
Adaelt4: JÁ É DE MANHÃ?
C3POrra: kkkkkkk se fuderam pirralhoa!
Nightwing21 está offline
Will suspirou cansado espreguiçando-se na cama. Havia ficado a noite inteira jogando online com seus amigos, além do chat depois do jogo. Estava exausto.
Fechou a tela do notebook, o colocou ao seu lado na cama e se deitou. Sabia que havia abusado um pouco do tempo e que seu despertador tocaria em poucos minutos, começando mais um dia na prestigiosa escola de Nova Iorque, Androminus Academy.
Mentiria se dissesse que adorava ir para a escola. Os últimos meses não foram os melhores para ele. Virou para o lado resgatando seu celular das várias cobertas na cama. Desbloqueou a tela lendo as mensagens de Annabeth e Piper que já estavam de pé se ajeitando para a escola.
Ainda faltavam dez minutos para seu telefone tocar, mas decidiu se levantar de vez.
Apertou o botão ao lado de seu criado acionando a abertura da janela eletrônica. Espreguiçou-se uma segunda vez, ligou a música em seu quarto e entrou no banheiro. A música começou a ecoar pelas paredes enquanto tomava uma ducha rápida.
Fechou os olhos tentando despertar com a água morna.
A trilha sonora de Batman começou a tocar pela terceira vez e Will percebeu a deixa para sair do banheiro.
Se aprontou simples, prendeu metade do cabelo para trás, pegou sua mochila e saiu do quarto. Atravessou o Hall entrando na sala de estar, jogando a mochila entre as almofadas do sofá. Parou atrás do móvel observando o tapete perto da lareira onde havia quatro filhotes de gato, um bem diferente do outro, dormindo confortáveis em um colchonete.
Will sorriu para eles os deixando dormir, ainda era bem cedo. Se sentou em frente ao seu café da manhã já na mesa posta na sala de jantar.
— Bom dia, William. — cumprimentou a cozinheira que enchia a xícara de seu pai na cabeceira da mesa. Ele ainda estava no quarto.
Will sorriu:
— Bom dia, Ágatha. — respondeu cortês comendo da salada de frutas. A moça se retirou para a cozinha momentos antes de Apolo entrar de terno com a gravata.
— Bom dia, Will. — falou o pai amoroso. Will retribuiu o cumprimento com um sorriso.
Seu pai era uma figura interessante. Um homem nos seus trinta e nove anos, os cabelos loiros sem nenhum fio branco escapando pelas mechas. Seu rosto possuía diversas manchas de sol, sardas delicadas e outras mais fortes pelo tempo que morou na Califórnia.
Dali, com o sorriso encantador de Apolo desenhando seu rosto, era fácil ver as rugas ao redor dos olhos pelos anos de trabalho e risos que compartilhava gratuitamente com todos. Seus olhos azuis brilhavam sempre que estava perto de Will, principalmente nos momentos de confraternização.
Apolo afagou o braço de Will, um gesto automático antes de tomar um gole do café fresco.
— Vou para o jornal mais cedo hoje, tem problema chegar antes na escola? — questionou o pai, a voz morna no silêncio da manhã.
— Nenhum. Posso ficar na sala. — respondeu Will sem se importar realmente. Gostava de ter um tempo só para ele antes da aula, e chegar sem ter que lidar com os olhares na entrada era um bônus.
— Vamos sair em quinze minutos, preciso fazer uma ligação. — avisou se levantando da mesa: — Ajeite essa camiseta, a gola está torta.
Will o fez enquanto terminava o café. Se despediu de Ágatha com um beijo na bochecha e voltou apressado atrás de seu telefone que ficou carregando no criado. Desbloqueou a tela mandando mensagem para as meninas.
[05:40] Annie: Estou falando, aquele pássaro estava me espionando pela janela a noite inteira!
[05:42] Casamenteira: Amor da minha vida, nn tem passarinho nenhum te espionando. Dorme pelada por acaso?
[05:43] Annie: Você sabe que não! Mas tenho certeza que estava me encarando, eu sentia pela cortina
[05:50] Casamenteira: Joga alpiste, vai que ele gama
[05:52] Annie: … Quero divórcio
[05:53] Casamenteira: Sem devolução, sem reembolso ;)
[05:54] Annie: Will acorda e cala a sua melhor amiga
[05:56] Casamenteira: Ele n vai sabe pq? pq ele me ama mais que você pelo visto
[05:57] Annie: Nesse momento, provável
[06:00] Casamenteira: ANNABETH
[06:02] Casamenteira: Annie?
[06:04] Casamenteira: Amor?
[06:05] Casamenteira: Annabeth Chase
[06:07] Casamenteira: O pássaro te devorou?
[06:010] Casamenteira: Ouvi dizer que são canibais, adoram umas coruja
[06:15] Will: Que historia eh essa de passaro Annie?
[06:16] Casamenteira: WILL, MEU AMOOOOYR
[06:17] Annie: Já descobri o que era, não vou morrer
[06:18] Will: N achei q fosse. O que era
[06:18] Casamenteira: NN ME INGONREM
[06:19] Annie: Era um drone, está quebrado. Um menininho estava subindo na árvore cinco minutos atrás pra pegar de volta
[06:20] Will: haha as maquinas n se revolucionaram ainda, da tempo de nos preparar
[06:21] Annie: De máquinas eu me entendo
[06:22] Will: Estou indo mais cedo pra escola. Vou estar na sala, ve se chega na hora hoje
[06:23] Casamenteira: Não fica sozinho!!
[06:24] Casamenteira: Chama alguem
[06:24] Casamenteira: Mas n fica sozinho
[06:25] Annie: Ela tem razão. Se cuida, vamos chegar mais cedo também
[06:26] Casamenteira: Espera a gente antes de se enfiar nos livros nerd
Will rolou os olhos guardando o telefone e voltando para a sala. Seu pai já o esperava na porta, o celular no ouvido enquanto discutia algo em tom moderado, mas Will conhecia bem o pai para saber que já estava levemente irritado.
Entraram no elevador privado e desceram até o subsolo. Will se despediu do ascensorista e seguiu o pai até um de seus carros no estacionamento. Entrou no banco da frente jogando a bolsa para trás e ajustando a rádio.
Apolo desligou o telefone, colocou o cinto e sorriu cúmplice para Will:
— O que acha de um pouco de Rap para animar o dia?
Will gargalhou quando o pai colocou uma das músicas do Lil Wayne e se embolou todo para cantar, gesticulando com ambas mãos como se fosse malandro e conhecesse a linguagem das ruas, mas a mentira era óbvia na falta de coordenação.
Teve que segurar o volante com firmeza umas duas vezes quando carro começou a dançar de leve na estrada. Fizeram isso por cinco músicas antes de entrarem no estacionamento do Colégio.
A escola era exuberante. Seus muros altos de tijolo e contornando a parte superior do edifício a destoava do restante da paisagem da cidade. Seu jardim era belo e bem vivo, quase beirando o artificial em um verão suave.
As árvores coloridas e bem floridas guiavam os estudantes pela entrada principal, dando boas vindas aos olhares admirados do que era a escola; os prédios eram novos e refletiam a cidade inteira em seus vidros espelhados, quase ofuscantes. As cores de branco e dourado, dando um ar celestial para a Androminus Academy.
Will se sentia em uma empresa sempre que pisava na escola.
Seu pai desligou o rádio e se virou para o filho, olhos firmes de um pai preocupado, cansados de um homem dedicado ao trabalho. Will pegou a mochila do banco de trás, encarando o pai com curiosidade.
O homem crispou os lábios impedindo-se de falar. Abriu então um sorriso, deixando o pequeno momento estranho de lado. Afagou os cabelos loiros cacheados de Will, parcialmente soltos como sempre, e lhe sorriu amoroso.
— Se for sair com suas amigas, me avise. — pediu Apolo, o tom de voz moderado: — É só pedir que Lucian te leva aonde quiser. É pago para isso.
Will concordou, sorrindo comedido.
— Aviso sim. Bom trabalho. — falou deixando o carro.
— Bons estudos! — gritou do carro dando ré e saindo do estacionamento ainda vazio.
Sua primeira aula começava em uma hora, teria tempo para reler a matéria do dia e, quem sabe, preparar o dever que a Piper provavelmente esqueceu de fazer. Jogou a mochila nas costas e seguiu caminho até sua sala no segundo andar.
A escola poderia ser muito bonita, toda envidraçada e com sacadas decoradas com plantas pelos andares, mas Will tinha certeza de uma coisa: aquilo era quente pra cacete! Parecia uma estufa nos corredores.
O que ela tinha de bonita tinha de não-funcional.
Entrou na sala de aula agradecendo pelo ar condicionado já ligado no máximo. Havia mais dois alunos lá, Silena e Charlie. Ambos moravam perto da escola, há cinco minutos a pé e chegavam bem cedo para evitar a multidão.
Alguns dias da semana sentava com eles e jogava conversa fora sobre filmes ou mesmo livros, eram uma dupla geek bem interessante. Mas, quando entrou, os dois já estavam aos amassos, abraçados no fundo da sala como se fossem os únicos na terra.
Will resolveu que não atrapalharia a vibe romântica no ambiente. Se sentou numa das carteiras no fundo, colocou seu óculos de armação branca, abriu seu livro de química e releu a matéria do dia e da semana seguinte. Afinal, quem não se prepara com antecedência é pego de surpresa, certo?
***
— Willow! — chamou o professor. no palco da sala. Will levantou num solavanco, encarando o professor que cruzava os braços nada satisfeito: — Pode fechar esse livro e prestar atenção, ou é pedir demais?
Will encolheu os ombros sentindo os olhares da sala:
— Desculpe, Senhor D.
— Bom, voltando a falar dessa porcaria que é a economia nacional. — o professor retornou, fazendo os alunos esquecerem sobre Will.
O rapaz soltou o ar, fechando o livro de fantasia e guardando-o na bolsa. Retirou os óculos e os colocou na mesa, dobrados. Já havia estudado aquela aula do professor, mas pelo visto teria de assisti-la novamente. Suspirou cansado apoiando o rosto na mão enquanto tentava se concentrar no professor sem dormir.
Sentiu uma bolinha de papel acertar sua cabeça o fazendo se virar. No fundo, havia um rapaz de cabelos loiros e uma cicatriz no rosto que descia da bochecha até o lábio. Sorria mordaz, a cicatriz repuxando em uma feição macabra.
Will voltou a olhar para frente, repentinamente preocupado. Olhou para o lado atrás de Piper, mas ela já encarava Luke com certa raiva, fazendo gestos obscenos com as mãos. Annabeth a estapeou no ombro, forçando-a a se virar.
Will trocou um rápido olhar com a loira que sussurrou um “fique perto” antes de voltar a anotar algo no caderno, provavelmente a matéria da semana seguinte. Respirou fundo e resolveu ignorar, mesmo que sentisse os olhares duplicarem em sua nuca.
A aula acabou e ambas arrastaram as carteiras para perto do amigo. Will sorriu para elas olhando para trás, buscando Luke, mas ele já havia saído da sala para o intervalo.
— Ignore ele, Will, é um pau mandado do Hércules, não tem culhões pra te pegar sozinho. — comentou Piper, afagando-o no braço e apalpando de leve: — Não com esses muques.
— Piper, agora não. — pediu o amigo, passando a mão pelo rosto: — Está ficando cada vez mais cansativo.
— Com certeza. — reclamou Annie, a tez franzida em irritação: — Deveria reclamar de novo, seu pai é um dos financiadores da escola, Will, eles vão fazer algo a respeito.
Will negou: — Não quero que ele saiba. Fica difícil de explicar o motivo.
Ambas se entreolharam:
— Will — Piper começou, acariciando seu rosto: — Eu sei que você se preocupa com o que seu pai pensa, mas ele é legal e vai entender.
— Ah, isso eu sei. Ele é bem compreensivo. — admitiu Will orgulhoso de Apolo. Seu pai sempre o ajudou quando precisava, diferente do que pensou que seria depois do divórcio: — Mas o que me preocupa é o que ele pode fazer para resolver isso. Ele exagera um pouco, dependendo do que acontece.
Annabeth torceu o lábio beijando-o na bochecha, meiga:
— Entendo, mas ainda acho que deveria contar mais cedo ou mais tarde. — comentou, se levantando: — Preciso ir na biblioteca entregar alguns livros, vocês vem?
— Sempre, deusa. — respondeu Piper recolhendo suas coisas.
— Eu passo. Preciso de cafeína, e se não sair agora, não consigo lugar pra gente no café da esquina. — relembrou Will, guardando suas coisas e puxando o fone de ouvido perdido nas suas roupas.
— Tem certeza? — insistiu Piper preocupada. Ele concordou lhe dando um beijo na têmpora.
— Claro que tenho, não sou de porcelana. — respondeu brincalhão, mas as garotas não riram de volta.
Annabeth respirou fundo encarando-o com seriedade, como se soubesse de algo, mas não dissesse em voz alta. Will negou com a cabeça, não querendo falar do assunto no momento, recusando-se a ouvir.
Ela suspirou derrotada antes mesmo de começar uma briga.
— Tudo bem, nos mande mensagem qualquer coisa. — disse saindo de mãos dadas com Piper lançando um último olhar para o amigo antes de sumir na multidão da escola.
Will umedeceu os lábios jogando a mochila nas costas e saindo para os corredores abarrotados de adolescentes escandalosos e extravagantes. Will era talvez uma das poucas minorias que se sentia desconfortável em meio àquele povo espalhafatoso.
Piper e Annabeth eram suas únicas amigas que realmente compreendiam esse lado dele. Eram ricas como qualquer um naquela escola, mas não pisavam nas pessoas por seu sucesso e dinheiro. Eram normais, seres humanos decentes.
Não era novidade, porém, que as pessoas se sentissem ameaçadas com a diferença. Uma escola repleta de herdeiros de grandes empresas e nomes ter, em meio a eles, um grupo de pessoas que preferiria passar um final de semana em suas próprias casas nas piscinas e assistindo netflix até de madrugada do que viajar para Cancun era, certamente, ofensivo.
Will respirou fundo andando pelos corredores totalmente alerta para os arredores. As pessoas olhando, cochichando, rindo e apontando. Sentiu suas pernas tremerem de leve, mas não falhou o passo, não cairia na frente desse povo.
Apertou a alça da mochila com mais força, abaixando a cabeça e se fazendo desaparecer. Criando uma bolha em volta dele, abafando os sons, repelindo suas presenças ofensivas. Trincou o maxilar descendo as escadas apressado e saindo para o jardim, sentiu o ar voltar ao seus pulmões com uma força que quase o derrubou.
Odiava multidões escolares, aprendeu a evitá-las havia pouco tempo, um ano talvez. Will nem sempre foi uma pessoa isolada, sabia disso, mas nos últimos tempos descobrira que havia pulado para fora do aquário e era assistido enquanto agonizava pela falta de ar.
Passou pelos portões abertos da Adrominus. Atravessou a rua e seguiu caminho até o café na esquina sempre bem frequentado àquele horário. Ao chegar perto das pessoas do centro, dos carros passando, dos adultos tomando as ruas com telefones em mãos e expressos em suportes de papelão, se sentiu seguro novamente.
Soltou a alça da mochila, relaxou o corpo e andou tranquilamente, ansioso para entrar no café e desfrutar do ar condicionado. Sentiu mãos em sua mochila o puxarem para o lado, firmes e rápidas demais para que pudesse falar algo.
Quando deu por si estava com as costas na parede e a mochila pendurada entre seus dedos trêmulos. Levantou o olhar sentindo seu coração disparar em desespero. Havia três rapazes ao seu redor, distantes da visão da rua o bastante pra ninguém se importar com suas presenças.
O do canto era Luke vestindo seu sorriso de escárnio característico. Conhecia a fama do Castelan. Era um rapaz carismático e divertido de conversar, mas não via problema em resolver seus problemas, fosse usando métodos éticos ou não.
Do outro lado estava Ethan, um rapaz asiático com uma jaqueta do time de futebol americano. Encarava Will com um olhar rabugento, nem um pouco contente em estar ali. Seus braços estavam cruzados e seus olhos iam a todo momento para o garoto no centro.
Garoto para qual Will desejaria desaparecer do mapa.
Seu porte era visivelmente atlético. Tinha uma altura imensa para alguém de dezesseis anos. Usava a jaqueta do capitão do time de futebol americano com o nome Herc nas costas. Seus cabelos ruivos estavam bagunçados para trás, um pouco úmidos pelo spray que usava diariamente.
Will levou a mochila até seu corpo, abraçando-a à sua frente. Olhos alerta e assustados. Praguejou por não estar com o celular no bolso para chamar Piper ou Annabeth.
— Hey Will, não cumprimenta mais seus amigos? — ralhou Hércules, o tom de voz sugestivo e nojento.
O rapaz crispou os lábios aterrorizado:
— E-Eu não sou seu amigo. — respondeu num resmungo baixo, temendo que fosse ouvido ainda que tenha dito em voz alta.
O sorriso do Capitão alargou:
— Ah Will, claro que não somos amigos, que cabeça a minha. — comentou se aproximando dele, encurralando-o na superfície fria de tijolos: — Minhas intenções com você são bem mais que simples amizade.
O Solace virou o rosto desviando do hálito de hortelã que ele tinha. Começou a odiar aquele sabor um tempo atrás. Hércules riu, uma risada ofensiva. Segurou Will pelo cotovelo o puxando para frente e o desequilibrando.
Will, em reflexo, lhe acertou com a mochila afastando-o uns bons dois passos. Hércules gargalhou divertido, mas logo depois lhe acertou um soco na lateral do corpo o derrubando ao chão. Will arfou surpreso pelo impacto, ainda que não tenha doído realmente.
Agradeceu as aulas com o personal trainner pela resistência. Abraçou a mochila com mais força contra o corpo ao receber um chute no braço e outro nas pernas repetidas vezes. Se encolheu no chão tentando sumir daquele beco, mas Hércules somente ria.
— Ora vamos, Will, não estrague nossa diversão agora, me olhe nos olhos e vamos brincar. — cuspiu as últimas palavras, sorriso diabólico no rosto.
Will segurou as lágrimas fechando os olhos com força.
Aquilo acabaria logo e esqueceriam dele, aproveitariam do momento e depois iriam embora. Ele só tinha que aguentar um pouco e estaria livre.
Gemeu dolorido com outro chute.
E desejou não ter levantado da cama naquela manhã.
Notas finais
E se você ainda não nos conhecia, considere dar uma olhada nas nossas longs:
(Pit-a-pat, da Bibelo) https://fanfiction.com.br/historia/726180/Pit-a-Pat/
(One me two hearts, da Unkn0w) https://www.spiritfanfiction.com/historia/one-me-two-hearts-6286225
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