Good Kids Bad Habits
4 A esperança na corda bamba
Notas iniciais

WILL
Pode chamá-lo de tolo, mas no momento em que perdeu Nico de vista nos corredores, Will se levantou às pressas e correu para dentro do edifício. Podia sentir Piper e Annabeth o seguindo por entre os vários estudantes aglomerados, mas não iria parar antes que chegasse até seu guarda-costas.
Talvez não conseguisse ajudar, ou até mesmo atrapalhasse qualquer atuação que Nico provavelmente seria forçado a exibir no centro do corredor, sob os olhares de dezenas de adolescentes presunçosos e com mania de grandeza. Sabia como era estar em uma situação similar, tentando sumir da vergonha e humilhação diária quando Hércules se sentia inspirado o suficiente para tal.
E era uma das coisas que ele temia quando Nico se tornou seu guarda-costas.
Podia não ser melhor amigo do di Angelo, mas não deixaria que passasse pelo mesmo tipo de vexame que Will teve que aturar pelo último ano. Ele foi contratado para protegê-lo, não tomar suas dores como um cavaleiro de armadura — e Will não se sentia como uma donzela precisando de proteção.
Abriu caminho até o segundo andar finalmente chegando onde viu Nico pela última vez, mas os corredores estavam normais. Nenhuma roda de alunos, ou comentários atravessados e demonstrações de poder sob humilhação pública e tola. O burbúrio diário das fofocas e conversas paralelas era a única coisa que acontecia naquele andar, e Will não poderia estar mais confuso.
Sentiu a mão de Piper em seu ombro, resfolegando pesadamente.
— O que houve? Por que saiu correndo? — questionou a amiga preocupada.
Will franziu a tez tentando imaginar para onde eles teriam ido, e como Hércules permitiu alguém no controle além dele mesmo. Havia a possibilidade de Nico ter dominado a situação ao evitar confronto direto, mas não conseguia imaginar nenhuma solução que terminasse de forma pacífica como aparentava.
— Eu vi o Hércules encurralando o Nico. — respondeu olhando em volta mais uma vez antes de se virar para as amigas, um sorriso desconcertado: — Desculpe, eu precisava saber se estava em apuros.
Annabeth suspirou, negando com a cabeça brevemente.
— Will, é um atitude fofa, mas ele é seu guarda-costas. Não pode vir ao resgate dele sempre que enfrentar algum rufião. — explicou a amiga suavemente, enganchando seu braço no de Will, confortável: — Ele vai ficar bem, e a prova disso é o silêncio. Se Hércules o tivesse encurralado e começado uma exibição todos já estaríamos sabendo.
— Ela tem razão. — Piper garantiu lhe tomando o outro braço: — Ele vai ficar bem. É briga de gangue, fique fora disso.
— Hércules não faz parte de uma gangue, Pips. — Annabeth relembrou, leviana.
— Não, mas o Nico tenho certeza que sim! — exclamou Piper animada: — Será que conseguimos achar alguma tatuagem tribal, ou algum desenho de animal silvestre? Isso é muito gangue.
— É máfia. — comentou Will um pouco mais calmo.
— Máfia! Ele tem uma cara de mafioso. Nico é italiano, não é? Faria total sentido. — zombou Piper puxando Will e Annabeth para a sala de aula. Não compensaria voltar para o jardim àquela hora.
Will se deixou ser arrastado pelo caminho, mas sua mente continuou longe. Nico poderia ser um guarda-costas, mas isso não o tornava imune à agressões e ataques. Era um menino em briga de gente grande, acreditando que proteger Will era a única coisa que faria por ele, mas era a ponta de um imenso iceberg; tão fundo quanto Will poderia mensurar. Aquele mundo não pertencia a Nico, e desejava que nada ruim lhe acontecesse, e não só fisicamente. Nenhum daqueles adolescentes resolviam seus próprios problemas — Will obviamente incluso.
Se Hércules envolvesse algum parente seu as coisas iriam sair do controle rápido demais, e condenaria Nico à muito mais do expulsão ou alguns ossos quebrados.
Esse pensamento o fez ressentir seu pai ainda mais.
***
Nico entrou na sala um pouco antes do sinal tocar, indo direto para o fundo, escondido de todos. Will o seguiu com os olhos, tentando atrair sua atenção de alguma forma sem parecer desesperado. Piper e Annabeth conversavam sobre algum assunto que Will havia perdido o fio, e portanto apoiou o rosto na mão aberta encarando Nico fixamente.
Agia como um lunático, mas estava verdadeiramente preocupado. Não viu nenhum ferimento em seu rosto, mas talvez não tenha observado bem o suficiente para achar alguma coisa. Viu a forma como Nico se remexeu na cadeira, desconfortável, o rosto baixo no celular.
Estalou a língua desistindo. Nico sabia que estava sendo observado, mas resolveu que não daria atenção alguma à Will, pelo visto. Suspirou torcendo a boca em desagrado. Se conseguia ignorar sua presença então estava melhor do que imaginava. Virou o rosto para frente batucando na mesa, incomodado.
O professor de História Contemporânea entrou na sala e seguiu então com a aula. Will tentou manter o foco pelo máximo que pode, distraindo sua cabeça das perguntas que ansiava em fazer para Nico assim que saíssem para outra troca de aula. Escreveu as anotações em seu caderno, empurrando o óculos de grau que cismava em cair a todo momento, se acomodando na ponta de seu nariz. Talvez já precisasse fazer alguns ajustes.
A aula se estendeu por longas duas horas, e quando pode finalmente se espreguiçar da fadiga dos ombros decidiu que iria encurralar o di Angelo. Pediu para as meninas irem na frente enquanto terminava de arrumar sua bolsa.
Percebeu pela visão periférica Nico enrolando na cadeira, mexendo em seu celular de forma desinteressada.
Precisou revirar os olhos. Era grato pela forma como Nico se mantinha distante e oculto de sua vista boa parte do tempo, tentando parecer menos intimidador e invasivo, mas isso nunca mudaria o fato de Will saber o motivo de sua presença, não importasse o quanto Nico tentasse escondê-la.
Nas sombras ou não, Will sabia que ele estava ali.
Se levantou então, marchando para fora à passos pesados criando uma distância grande entre eles por tempo o suficiente para conseguir um momento em paz com o di Angelo. Foi em direção oposta à sala de aula, para os banheiros mais isolados no andar já bem mais tranquilo pela troca de aula. Parou nas escadarias, se virando para Nico que mantinha uma distância boa entre eles, mas sempre em seu campo de visão. Sempre observando.
Voltou o caminho deserto parando em frente a Nico. Seu olhar não era animador, e pela postura rija e braços cruzados estava incomodado com Will. Justo, não era como se adorasse sua presença, mas era só o primeiro dia, certo? Iria se acostumar com uma sombra durante sua rotina escolar, mas não podia dizer o mesmo dele.
Segurou Nico pelos ombros suavemente, analisando seu rosto atrás de algum machucado ou sinal de dor. Nico enrijeceu ainda mais, desvencilhando-se do toque no mesmo instante.
— O que está fazendo, Solace? — inquiriu grave, na defensiva.
— Estou vendo se não está ferido. — admitiu se aproximando novamente, correndo os olhos por seus braços expostos e as pernas. Não estava mancando, então provavelmente nenhum ferimento muscular: — Fiquei preocupado quando Hércules te encurralou. Só queria saber se estava bem, não ouvimos nada dele o intervalo inteiro.
Respondeu suspirando, mas satisfeito consigo mesmo. Nico estava claramente bem, poderiam voltar para a aula tranquilamente, mas não antes de fazer algumas perguntas, à começar pelo Hércules e sua ausência na aula depois do intervalo.
Voltou o olhar para seu rosto pronto para questioná-lo, mas foi capturado pelos olhos âmbar dilatados, surpresa e talvez um pouco de incredulidade em sua feição antes de se fechar novamente, um sorriso mordaz em seus lábios finos.
— Não inverta os papéis, Solace. Não preciso de sua preocupação. — comentou Nico leviano, menos tenso: — A aula já vai começar, não vai querer manchar seu histórico perfeito, certo?
Will travou o maxilar, ofendido. Voltou pelo corredor, seguindo para a próxima aula. Se iriam manter um relacionamento passivo-agressivo, então era melhor que ele se mantivesse bem distante. Se queria tanto assim ser uma sombra às suas costas, que fosse. Will tinha um limite para o quanto alguém conseguia desdenhar de suas atitudes.
Abaixou o olhar para seus pés, rápidos no piso da escola. Abriu um sorriso fraco, angustiado. Podia fingir desdém, mas nunca agiria de tal forma arrogante, nem mesmo com Nico, sabia bem disso. Não importava o tamanho de sua raiva, o alívio em saber que Nico estava bem era descomunal, e mantê-lo por perto ajudaria a saber se ficaria bem com Hércules o tendo marcado como fez com Will.
Suspirou, um tremor percorrendo seu corpo rijo.
Ah.
William Solace era um tolo.
***
NICO
Nico estava exausto.
Mal chegara o almoço, e o pior já tinha acontecido. Pelo menos agora Hércules estava avisado, talvez não tivesse tanto trabalho durante o resto do dia. Durante a aula de Biologia II, Nico escapou da sala para ir até a secretaria. Ainda teria que se inscrever nas aulas da tarde.
No caminho, decidiu passar no banheiro. Cansado, encostou-se à parede. Preferiu não olhar-se no espelho, pois queria um momento sozinho.
Ah, Nico, no que você está se metendo?
O azulejo frio da parede, o cheiro de detergente de shopping, a luz que entrava pela vidraça. Todo o conjunto trazendo um pingo de lucidez exausta para os seus pensamentos.
Colocou as mãos no rosto, como quem se esconde.
Era só questão de tempo até o pai rico de alguém descobrir que Nico era um zé ninguém, descobrir que sua vida valia tanto quanto um centavo furado. Se fosse morto, não seria surpresa para ninguém. Não haveria grandes advogados ou investigações. A polícia concluiria que aquele era só o corpo de um jovem metido com drogas que se envolveu com as pessoas erradas. E quem questionaria? Provavelmente até seu pai suspeitaria disso. Ele não seria o primeiro filho. A vizinhança confirmaria, qualquer pessoa que o conhecesse: sim, Nicolas era meio suspeito.
E pronto.
E, justiça seja feita, ele não era mesmo uma pessoa da melhor espécie.
Respirou fundo, massageou as têmporas. Agora não tinha volta, não é? Ele já havia feito o pior. Só lhe restava aperfeiçoar o seu papel. Tinha que parecer invencível, imponente, alguém que você não vai querer desafiar.
Ok, tudo bem, Nico. Recomponha-se.
Desencostou-se da parede impecável, jogou os fios de cabelo negro para trás. Oh Deus.
No instante que encostou na maçaneta do banheiro para sair, alguém abriu a porta pelo lado de fora.
Maravilha.
“Ah, Nico! Eu…” Ethan balbuciou.
Ele nem pensou, a responsa automática apenas saiu de sua boca:
“Vai se foder”
E saiu marchando de volta em sua jornada para a secretaria. Não, ele não tinha cabeça para esse problema agora.
Não depois de tudo.
Tentou evitar o assunto em sua mente de todas as maneiras. Tentou andar mais rápido, mas a secretaria era longe demais.
Dia longo, mente desenfreada.
Sem realmente permitir, ou sequer pensar, as memórias inundaram Nico por dentro. E ele, submerso nesta água escura, debateu-se e lutou. Por fim, aceitou.
Os holofotes acendem.
Bianca di Angelo no Palco.
No filme que passa por cima de sua pele, pintando sua face e seus braços, adolescentes idiotas curtindo em uma festa, bebendo, rindo feito idiotas. A luz forte como se alguém gravasse de um celular com flash. Um garoto bonitão oferecendo maconha.
Dizem que esse é o primeiro passo, a porta de entrada.
É mentira, a porta de entrada é um garoto bonito, palavras bonitas e uma vida cansativa de merda.
Ter que cuidar do seu irmãozinho. Administrar uma casa inteira com apenas 16 anos. Isso sim é a porta de entrada.
Não o álcool, não a maconha, não as festas depois da aula.
É quando aparece um menino asiático chamado Ethan. Ele te oferece uma saída, um escape. E você aceita.
Poderia ter sido outro, mas foi ele. E Nico nunca
nunca
nunca
vai perdoá-lo.
Poderia ter sido outro, mas quem destruiu o futuro da sua irmã tinha nome. Ethan. O namorado que te influencia e depois te larga. O mesmo que compartilha fotos íntimas suas com os amigos. O que te trai no seu próprio quarto enquanto você está chapada na sala de estar. O responsável pela matrícula trancada, pela bolsa de estudos perdida, pela overdose aos 17.
Nico o odiava por isso.
Respirou fundo, controlando o impulso de voltar agora mesmo e socar aquele infeliz até sua cara ficar tão desfigurada que nem a mãe dele reconheceria.
Felizmente, chegou na secretaria a tempo de evitar qualquer tentativa de homicídio.
Falou rapidamente com a secretária. Preencheu algumas fichas, e ela devolveu. As aulas que queria não eram no horário do Sr. Solace, avisou a mulher. Ótimo, e o dia só melhora. Preencheu novamente os papéis e devolveu com um sorriso mais falso que o bronzeamento dela.
Poesia clássica, alemão básico e jiu-jitsu. Alemão parecia ser menos imbecil que francês ou espanhol, e no nível básico deveria ter apenas gente da sexta série. Nico queria Italiano, já que sabia um pouco por causa de sua mãe, mas os benditos horários de Will não deixavam.
Fora o idioma, escolheu Jiu-jitsu porque era a única arte marcial no horário das aulas de francês do Will, e poesia clássica era… Bom, era isso ou ballet, e Nico não era lá muito flexível.
O dia seguiu sem grandes acontecimentos. Ficou sempre por perto de Will, mas nunca perto demais. Em certos momentos, parecia até que o loiro esquecia de sua presença. Na parte da tarde, Nico teve sua primeira aula de alemão. Na sala, apenas alunos de 13 ou 14 anos que entendiam cada palavra do professor, um verdadeiro tormento.
Quando acompanhou Solace até o carro, finalmente sentiu um pouco de paz. Os ombros desfizeram uma rigidez que ele sequer notara se formar. E, assim, dirigiu-se para o dormitório.
Não sem ver Ethan de soslaio no caminho, é claro.
Não sem se sentir observado, como uma presa.
Mas estava tudo bem. Sim, por hora, podia descansar. Ou era o que pensava.
Enquanto subia as escadas do dormitório, Nico só conseguia visualizar o banho quente e sua cama. Precisava relaxar, assistir um filme, ficar sozinho. Gente cansa. Estar sempre atento cansa ainda mais. Banho quente, cama. Edredom macio, luz apagada, embalo do sono. Descanso eterno dai-nos, senhor. A janela fechada, o absoluto silêncio.
O corredor cheio não importava. Não, tão pouco os comentários os olhares. Nada existia além da distância entre Nico e a paz.
No entanto, tão logo sentiu o alívio, ele se desfez. Mal pôde apreciar seu finalmente-tão-esperado-momento, pois não estava sozinho no seu quarto.
Deitado na cama de baixo do beliche, um garoto loiro, de óculos, corte militar e uma marca de expressão muito irritante no meio da testa. Ele lia um livro calmamente, confortável como se estivesse no seu próprio quarto. O uniforme escolar dobrado metodicamente numa das escrivaninhas, o cheiro de sabão impregnando o quarto.
“Você deve ser Nico di Angelo” disse o garoto, pegando-o desprevenido. “Eu me chamo Jason Grace, e agora vamos ser colegas de quarto”
Jason se levantou para cumprimentá-lo, mas Nico não moveu um músculo. Passou reto por ele, fechando a porta com força. O loiro não pareceu se incomodar com o tratamento frio.
“Sabe… Meu antigo colega de quarto fez o favor de destruir o nosso beliche acendendo um cigarro na cama, então fomos alocados para os quartos disponíveis.”
“Então é temporário?” perguntou Nico, esperançoso.
“Bom, eles me deram a opção de ser, mas eu odeio o Youssef, então pedi para me transferirem definitivamente mesmo.”
Ótimo.
Nico começou a se desmontar daquela roupa imbecil, sem nem realmente olhar para seu mais novo pesadelo. Se fossem dormir juntos todo maldito dia, que Grace se acostumasse com seu mau humor.
Ah, se o inferno não fosse o destino dos assassinos.
“Nicolas. Di Angelo. Angelo. Nico. Como você prefere ser chamado?”
Não respondeu.
“Sabe, eu vou ter que te chamar de alguma coisa, não custa me dizer…”
“Escuta aqui, Jason Grace” Nico voltou-se furioso para o loiro, a voz arranhando de tanta raiva.
“Eu passei por um dia longo, muito longo. Antes de eu te ver aqui, eu estava SONHANDO com o momento que ficaria finalmente sozinho para poder apenas deitar e descansar sem ter um riquinho mimado e irritante no meu pé. Então se você puder fazer o favor de…”
Jason o interrompeu, devolvendo sua fúria por igual.
“Se você me chamar de riquinho mimado de novo, eu soco a sua cara.”
Nico fechou o punho, pronto para comprar uma briga com o idiota. Mas ele continuou:
“Eu batalhei mais do que qualquer um para ganhar uma bolsa nessa escola. Você não tem ideia de tudo que eu passei para estar aqui. Não me confunda, nem por um segundo, com esses imbecis. Senão, a gente vai ter um problema sério.”
Apesar das ameaças e do tom desafiador, Nico gostou de ouvir isso. Ouso dizer que um sorriso brincou em seus lábios. Considerou continuar a briga, mostrar para Jason que ninguém jamais ameaça Nico di Angelo e sai com todos os dentes na boca. Mas não conseguiu.
Ele se afastou dois passos, deixando um Jason furioso o encarando, sem saber o que fazer. Nico tirou a camisa, e então os sapatos. Pegou sua toalha e abriu a porta do banheiro. De repente, estava tão calmo, bem humorado, quase feliz.
Antes de entrar, olhou para Jason e, muito cordial, disse:
“Nico. Prefiro que me chamem de Nico.”
E então entrou no banheiro, direto para a água quente.
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