Good Kids Bad Habits
5 Half the world away

WILL
William se considerava um bom observador. Percebia facilmente quando suas amigas estavam com algum problema pessoal, mesmo tentando mascarar e esconder isso dele ao longo do dia. Will conseguia ver em pequenos gestos a forma como ficavam hesitantes ou facilmente incomodadas com algo.
O mesmo acontecia com seu pai ou sua mãe nas conversas por vídeo. Era como um sexto sentido seu, saber o que acontecia ao seu redor sempre o ajudou a fugir de problemas ou olhares queimando suas costas ao passar pelos corredores da escola — olhares que, nesse caso, ele gostaria de não perceber.
Só que, realmente, não precisava ser nenhum professor Xavier para entender que a feição fechada e agressiva de Nico era um claro sinal de distância. Sabia que o clima entre eles não era dos melhores, e William entendia a posição complicada a qual colocou Nico naqueles dias com Hércules, principalmente depois de praticamente se humilhar atrás de algumas migalhas do di Angelo.
Will não era do tipo desesperado, mas nunca foi de desistir de uma batalha quando se há a possibilidade de ganhar, eventualmente. Estava frustrado, chateado com a forma que foi encostado, mas não totalmente derrotado. Nico era uma pessoa complexa, sabia bem, teria que aprender a se adaptar ao jeito recluso e as dezenas de muralhas que o cercavam e protegiam.
De certa forma, Will estava disposto a manter aquele distanciamento desde sua última conversa — por um tempo, claro —, mas duvidava que o problema atual de seu guarda-costas estivesse diretamente relacionado a ele, e ainda que houvesse diversas sirenes de alerta em sua cabeça, não pode evitar de encarar Nico nas aulas ou através do jardim enquanto comiam no intervalo.
Ele estava longe, bem mais distante do que no dia anterior, a tez constantemente franzida, as mãos agitadas uma na outra, como se precisasse mexer em algo compulsivamente. Seus olhos, vez ou outra, analisavam o jardim, corriam pelos alunos e paravam em Will. Frios, severos, preparado para qualquer problema que apareça de surpresa, para logo serem desviados para seu telefone. Will suspirou em sua própria frustração, mordendo os restos do beirute em seu prato.
Piper deitou a cabeça em seu ombro, roubando um pedaço de seu lanche antes de falar o que estava em sua cabeça. Will olhou para baixo, os olhos caleidoscópicos brilhavam no sol alto. Ela sorriu.
— William, você sabe que é bonzinho demais, certo? — questionou a amiga curiosamente.
— Como assim? — desconversou voltando a encarar Nico que se mantinha focado em seu telefone.
— Dá pra sentir a aura assassina dele daqui, e eu sei que você quer ir lá e levar outro tapa na cara. — confessou Piper recebendo um torcer de lábios de Will.
Ele a empurrou com o ombro, não muito animado. Piper ficou ereta forçando Will a se virar de frente para a amiga que mantinha os olhos nos seus, captivos. Se tinha uma coisa que ele amava e odiava na amiga era o quão fácil ela conseguia ler as pessoas. Will era bom em avaliar o que via, já Piper conseguir sentir o turbilhão dentro das pessoas indo direto na ferida aberta.
Sensitiva, como Piper uma vez disse. Intrometida, como Annabeth complementou um dia enquanto falavam sobre o assunto, sorrindo por cima de seu livro ao receber um chute em sua coxa.
Ele suspirou ao cruzar as pernas em cima do banco, apoiando o rosto em sua palma aberta.
— Ele se meter em problema com o Hércules não é sua culpa. — Piper soltou de uma vez, erguendo a mão antes que Will rebatesse: — Sei que parece uma conspiração do universo que seu agressor tenha alguma rixa com o Nico, mas acredite isso é totalmente pessoal de quando ele levou aquela surra no beco.
— Que foi por minha causa.
Não havia sido. Nico lhe disse isso quando agradeceu pela primeira vez — ah, e na segunda também —, mas na falta de um motivo que conhecesse, presumiu que tinha parcela da culpa. Se Will usasse de força bruta para se defender, Nico não precisaria ter se envolvido; e Hércules não iria querer vingar o orgulho ferido.
— Nico é grandinho e pode lidar com seus próprios problemas. Hércules é um merda e desafia a todos que possam ser melhores do que ele. — ela apontou para Nico, braço estendido diretamente para ele, o que fez o rapaz olhar para Piper com o rosto intrigado: — Aquele garoto ali é tipo o Aquiles, veio pra arregaçar com todos, mas não interage com ninguém se não for com os punhos.
— Urgh, não use mitologia grega só porque o nome do idiota é Hércules—
— Só estou dizendo que finalmente apareceu um oponente à altura do Hércules, que ficou cara-a-cara com aquela mula sem medo. Talvez isso implique em algum problema judicial, mas não acho que seu pai vai permitir que Nico seja processado por quebrar o nariz de um valentão. — Piper apoiou a mão no ombro de Will com afeto, acariciando a base de seu pescoço com o polegar: — Tire essa feição culposa antes que eu force ela para fora desse rostinho lindo.
Will teve que sorrir com isso. Se inclinou para frente, beijando a ponta de seu nariz carinhosamente, mantendo-se próximo da amiga.
— Ok, você venceu. Vou tentar parar de pensar nisso, mas não quer dizer que não vou tentar apaziguar as coisas. Parece que estamos em guerra um com o outro. — expôs em baixo tom.
Piper crispou os lábios, analisando o rosto de Will ao pensar no que responderia. Ela deu de ombros, desistindo de sua linha de pensamentos, fosse qual fosse. Se ergueu do banco limpando o uniforme cheio de migalhas de pão.
— Seja como que for, vamos atrás de minha namorada que disse ir buscar um livro, mas aparentemente está trazendo a biblioteca inteira. — comentou risonha puxando Will pelo pulso, apressada para fora do jardim.
Will segurou o impulso de olhar para trás, fazer contato visual com Nico que os seguia pelo caminho. Ele não sabia como apaziguar aquele clima entre eles, mas no fundo Will sentia que talvez todo esse afastamento sem sentido tenha sido sua culpa pela reação exagerada para o trabalho de guarda-costas.
Era um assunto delicado esse, o qual gostaria de poder esquecer; ou ao menos não mentir para sua mãe quando ela ligou no dia anterior para saber sobre ele e se o rapaz que o agrediu estava lhe incomodando. Diferente do que Will imaginou que fosse ser, a presença de Nico não era a mesma de um guarda-costas comum. Talvez por ser um adolescente da sua idade, ou pelo jeito esguio de se locomover entre as pessoas; invisível, só mais um de muitos.
Will não conseguia ver Nico como um guarda-costas, e esse sentimento foi o que fez Will desejar que Nico se sentisse como um aluno naquela escola, não como um funcionário. Seu pai contratou um guarda-costas contra sua vontade, mas nunca disse que não poderiam tentar quebrar a barreira de patrão e empregado.
Não queria aquela animosidade entre eles.
***
Acharam Annabeth no setor de história da biblioteca. Cinco livros na dobra do braço, um aberto na outra mão enquanto analisava os títulos nas estantes. Will pegou para si os livros enquanto Piper tentava descobrir o que tanto prendia a atenção da namorada.
Will vagueou pelos corredores da enorme biblioteca, observando as prateleiras lotadas, as mesas espalhadas parcialmente vazias. Era um silêncio agradável estar ali dentro, um dos poucos refúgios de Will durante um dia turbulento com Hércules no seu encalço. Nenhum dos rapazes da gangue entravam na biblioteca, tanto pela sua falta de interesse nos estudos — Ethan que o diga, aliás —, quanto pela bibliotecária que os escorraçou diversas vezes por barulho excessivo.
Acenou para a mulher atrás do balcão que lhe sorriu amigável, voltando a mexer no computador. Will respirou fundo não tendo muito o que fazer ali dentro. Olhou as capas dos livros que Annabeth escolheu, mas nenhuma delas lhe interessava (sequer sabia quem era Lina Bo Bardi ou Arquitetura Moderna).
Olhou em volta mais uma vez tentando encontrar Nico na quietude do lugar. Havia andado por toda a biblioteca, e nenhum sinal dele. Ele se escondia bem, mas não tão bem assim. Deixou os livros na mesa perto de onde as meninas estavam e saiu para o corredor barulhento. Fechou a porta olhando em volta, atras do perfil esmorecido de Nico.
Não demorou para achar o rapaz perto do bebedouro, braços cruzados e postura rígida. O que deixou Will mais intrigado não foi o fato dele não ter entrado na biblioteca, mas sim pela presença de Ethan ao seu lado, falando com ele algo que Will não conseguia definir daquela distância. Pelo rosto retorcido em cólera contida, Nico parecia estar odiando aquele papo.
Imaginando alguma forma de tirar o rapaz daquela situação ele se aproximou, devagar para não causar nenhum alarde por parte de Nico que estava surpreendentemente distraído. Ao ficar mais próximo, conseguiu distinguir o tom de Ethan das outras vozes do corredor, falava baixo, mas de uma forma aflita.
— ...mesmo assim me escute pelo menos por uns minutos, o que custa, Nico? — questionou Ethan, olhando de cima para o perfil ranzinza do guarda-costas: — Se vamos conviver no mesmo ambiente precisamos conversar, de verdade. Sem as ofensas, sem agressão, o passado já passou, certo?
Will não entendia qual era o rumo daquela conversa, muito menos de onde os dois já se conheciam, mas antes que pudesse formular algo em sua mente Nico estourou, puxando Ethan pela corrente em seu pescoço, expressão furiosa.
— Ethan, você não vai gostar do que vai acontece se continuar falando merda. — rosnou em baixo tom, num sussurro predatório.
O mais velho se afastou bruscamente olhando em volta de forma assustada. Seus olhos cruzaram com os de Will momentaneamente, arqueou a sobrancelha para ele antes de sair de perto da biblioteca a passos rápidos. Will soltou o ar pesado voltando a encarar Nico que estava mais próximo dele, olhar seguindo as costas de Ethan enquanto se afastava.
O corredor continuou com o mesmo clima animado de antes, como se Nico não houvesse ameaçado Ethan publicamente. Já para Will estava sufocante.
Olhou para o guarda-costas que o encarava fixamente. Se era a atenção de Nico que ele queria antes, agora mais do que tudo gostaria de não ser o foco do di Angelo.
— Vocês se conhecem? — questionou baixo, interessado na resposta.
Nico endureceu o olhar, travando a mandíbula em um aperto doloroso.
— Não é da sua conta, Solace. — bradou em uma raiva fria, contida: — Não se meta nos meus assuntos, volte pras suas amiguinhas na biblioteca, está atrapalhando meu trabalho.
Nico gesticulou com a cabeça para a porta, encerrando a conversa de forma brutal. Will não pensou que as coisas entre eles pudessem complicar, mas foi muito pior do que imaginava.
Não mascarou sua frustração, deixou ela bem clara para que ele visse. Will não deveria ser o alvo de sua raiva, mas ali estava o Solace sendo empurrado para longe; levando mais um tapa, como Piper havia dito. Girou os calcanhares e saiu de perto do garoto, mais chateado que no dia anterior.
Antes foi somente ofendido da boca pra fora, pego de surpresa pelo Solace e sua curiosidade; um mecanismo de defesa, talvez. Mas aquilo era grosseria pura, e Will não acreditava que merecia aquele tratamento, não quando tentava ao máximo manter um diálogo civilizado entre eles.
Wil queria poder simplesmente deixar de tentar uma amizade com Nico, mas algo naquela interação deles deixou o Solace curioso. Talvez aquilo respondesse o que incentivou Nico à defender Will no beco. Se não foi por ele, Ethan poderia ter sido o fator chave. Mordeu o lábio inferior, pensativo e frustrado.
Nico parecia precisar de ajuda, e Will estava disposto a lhe estender uma mão quando precisasse dela.
Só esperava que ele a pegasse no final.
***
HÉRCULES
Hércules não era mau.
Não do tipo que se diverte com o sofrimento alheio, ou gosta de simplesmente machucar. Quando atormentava William Solace, seus olhos não tinham um brilho predatório, como os de Nicolas da primeira vez que o vira. Não, isso era apenas um mal entendido.
Ele precisava machucar Will para fazê-lo entender que não adiantava lutar. Ele tinha que ser seu.
Não era divertido ver o amor da sua vida sofrendo apenas pela dor em si, sabe? Mas era necessário. E quando Hércules lembrava de toda a rejeição e humilhação que passara, sentia até que era justo.
Afinal, como alguém poderia recusá-lo? Isso era impossível. Hércules não era mau, apenas não sabia lidar com qualquer vontade que não fosse a sua. Ele apenas odiava a ideia de aguentar calado a humilhação de ser rejeitado. O mundo era assim, Will tinha que entender.
Algumas pessoas dão socos em paredes, outras transformam o sofrimento em poesia, e ele ia atrás do que queria. Atrás de Will Solace. Do menino ensolarado dos cachos dourados. Como assim ele não queria ser seu? Essa nem era uma possibilidade.
Por isso ele nunca imaginou, não, nunca sequer pensou, que alguém o reduziria como Nicolas di Angelo fez.
Não, sequer passou pela sua cabeça que, qualquer dia desses, ele seria a pessoa encolhida no chão, indefesa, arfando de dor.
Aquilo era horrível, sabe? E Hércules não era mau, então conseguia entender porque Will fugia tanto dele. Mas como castigá-lo senão assim?
De toda forma, esse seria um problema a se resolver depois. Primeiro, ele precisava levar à diretoria a ocorrência de seu ombro deslocado. Se havia alguém que precisava aprender o seu lugar no momento, ele era Nicolas.
Hércules não era mau. Não merecia aquela dor.
Entrou na sala da diretora com seu pai, ambos blindados por uma mistura nojenta de fúria, status e sensação de superioridade. Apertaram a mão da diretora e então os três sentaram-se.
“Bom dia, Sr. Campstone, a que devo sua visita?” começou Sra. Dodds com um sorriso mecânico, os olhos ainda inchados de sono.
“Machucaram o meu filho e eu quero entender por que a escola não tomou nenhuma providência.”
“Bom, não soubemos do ocorrido. Acho que Hércules poderia me contar agora.”
Elias Campstone interrompeu o próprio filho e vociferou:
“Como vocês podem NÃO TER VISTO um adolescente de 1.80m sendo arrastado para dentro de um banheiro?! Como vocês podem NÃO TER ESCUTADO os pedidos de socorro do meu filho?!”
Sra. Dodds sorriu friamente.
“Bom, nenhum dos meus seguranças relatou nada assim ontem, mas posso checar.”
Sr. Campstone levantou-se e bateu na mesa da diretora, enfurecido.
“Literalmente DESLOCARAM o ombro do meu filho em pleno horário escolar, como você ousa…”
“Sr. Campstone…”
“Dizer que…”
“Pai, por favor”
Apenas Hércules conseguiu conter os gritos do pai.
“Bom, vou contar para a senhora o que aconteceu: ontem, Nicolas di Angelo simplesmente me abordou, me levou para o banheiro, e deslocou o meu ombro” apontou para o braço imobilizado. “Aqui está a radiografia e o atestado médico.”
Sra. Dodds pegou a pasta amarela da mão do menino, abriu-a, e com uma linha de expressão de desprezo, olhou as imagens.
“E qual é a sua relação com Nicolas di Angelo?”
“Nenhuma! Ele é louco!”
“Você está me dizendo que, por motivo algum, um aluno novo simplesmente te machucou seriamente. Só porque ele quis?”
Entendendo que, de fato, parecia um pouco absurdo, Hércules pigarreou.
Elias olhou seu relógio de pulso, impaciente.
“Eu tenho uma reunião daqui trinta minutos e não estou entendendo por qual motivo absurdo a palavra de meu filho está sendo contestada.”
Sra. Doods teve que segurar o impulso de revirar os olhos.
“Vamos fazer assim: eu chamo Sr. Di Angelo aqui e o seu responsável. Podemos todos ter essa conversa amanhã, o que acham?”
Sr. Campstone grunhiu, soltando um xingamento baixinho.
“Amanhã estarei em Londres.”
“Ah, que bom para o senhor. Então acho que podemos levar isso como uma rixa de colégio boba. Vamos evitar essa reunião, afinal, o responsável pelo Nicolas na Olympus é o Sr. Solace, e você sabe como ele é ocupado” ela sorriu, tentando parecer leve e amável.
No entanto, seu tom de voz era suspeito demais. Seus olhos, frios demais.
Hércules, furioso, olhou para o pai, esperando alguma explosão por justiça. No entanto, Elias engoliu em seco. De repente, ele parecia assustado.
“Você sabe como são os meninos, Sr. Campstone” continuou a diretora. “Sempre se metendo em brigas que não podem ganhar.”
Isso foi uma ameaça, todos naquela sala sabiam bem demais.
E assim, os Campstone saíram da sala fervendo numa raiva nada elegante. No instante que colocaram os pés para fora da diretoria, vieram os comentários altos e furiosos. Hércules nunca se sentira tão impotente.
Quando seu pai foi embora, ele teve que voltar para o repouso solitário em sua casa. Andou na direção da saída e, pelo vidro do corredor, observou o pátio. Lá estava Nicolas di Angelo. O ódio ferveu seu estômago. Não achou que poderia sentir ainda mais raiva, até que notou que o garoto tinha seus olhos vidrados em algo, em alguém.
E esse alguém era Will Solace.
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