Good Gone Girl
50 Capítulo 50 – Somos uma família
Notas iniciais
Capítulo 50 – Somos uma família
— Você tem certeza de que não quer que eu vá com você? – Alex perguntou, antes de nos separarmos no estacionamento da universidade.
Eu afirmo com a cabeça.
Depois da minha segunda crise de choro nos braços de alguém na terça-feira, eu entendia que ele estivesse preocupado comigo. Mas eu já estava bem. Provavelmente, eu me sentiria melhor com ele do meu lado, segurando a minha mão e me dando apoio..., mas eu precisava mostrar a mim mesma que eu conseguiria lidar com essa situação sozinha. Que eu conseguiria olhar para a minha família e enfrentar o que eu havia causado.
Por mais que eu gostasse de tê-lo ao meu lado.
Por mais que eu tenha adorado ficar abraçada com ele no seu sofá.
— Se precisar de mim, você sabe que pode me chamar, né? — Ele pergunta, só para confirmar, enquanto segura meu rosto em suas mãos.
Eu concordei com a cabeça novamente.
Eu havia marcado de dar uma volta com a minha família depois da aula. Sexta-feira era um bom dia para sairmos juntos. Íamos conhecer a cidade e depois sair para jantar. Em algum momento, eu contaria tudo para eles... e esperava que a situação não ficasse tão ruim a ponto de desanimá-los.
— Talvez... quando eu os deixar no hotel, a gente possa sair? – Eu pedi. – Queria te mostrar uma coisa.
Ele dá aquele meio sorriso e concorda com a cabeça.
— Claro. Só mandar mensagem – ele diz.
— Você só sabe dizer isso? – Eu perguntei.
— É como o mundo moderno funciona – ele respondeu com uma pontada de sarcasmo. – É como casais se comunicam quando estão longe um do outro. O que mais eu deveria dizer?
Dei de ombros.
— Sei lá, perguntar o que eu quero te mostrar? – Eu sugeri.
Seu sorriso enigmático parece assumir uma conotação bem diferente de repente, como se ele tivesse uma ideia (bem suja) do que eu teria para "lhe mostrar" e isso faz com que eu solte uma risada incrédula. Às vezes, sentia como se ele pensasse muito em sexo, não que fosse ruim. Eu costumava pensar também... em momentos inoportunos, principalmente.
— Você não vai corar? — Ele me provoca, antes de me dar um beijo delicado nos lábios.
Seus lábios são lentos e macios sobre os meus. Não há apelação, e não há impaciência, e isso consegue ser incrivelmente excitante e me deixar completamente desorientada. Quando vejo, ele se afasta e sorri, então vai embora. E eu fico parada feito uma idiota no estacionamento, porque... bem, minha cabeça está em pensamentos sujos agora.
Maldito cara gostoso da porra.
.
Quando eu cheguei à sala de aula, senti que quase todo mundo me olhou e isso fez com que eu congelasse um pouco. “Aja naturalmente, aja naturalmente” eu disse a mim mesma, caminhando em direção ao meu lugar de sempre. John já estava lá e ele se virou para mim com empolgação.
— Ei, soube que você ficou em segundo lugar no concurso de contos! Parabéns! – Ele quase grita para que a sala inteira escute e eu sinto meu rosto ficar vermelho.
Eu tento me sentir feliz com os parabéns de John, mas a verdade era que o que minha mãe havia dito me desanimou um pouco. Eu estava sentindo algo como “O.K. Me saí bem. E daí?”. Quer dizer, quem se importa?
— Ah... obrigada – eu digo, sem graça, sentando-me no meu lugar.
Ele se debruça sobre a minha mesa e murmura:
— Espero que o Sr. Tatuado tenha te sequestrado para o quarto vermelho da dor e feito coisas sujas para comemorar.
Estreitei meus olhos para ele, tentando ignorar o tom mais vermelho ainda que meu rosto tomou. Tenho certeza que John só falou isso para me fazer corar.
— Ele tem cara de quem faz essas coisas? – Perguntei, quase ofendida.
Ofendida porque ele não fazia essas coisas... não como Christian Grey.
— Tem – John respondeu, antes de cair na gargalhada.
Revirei os olhos, tentando não rir junto.
— Se você quer saber, eu acho que você deveria ter ganhado – Ele continuou falando sobre o concurso. – E eu acho que você só não ganhou porque a garota do primeiro lugar apelou demais para amor entre mãe e filha num concurso cujo resultado saiu, veja só, no dia das mães! Mas eu achei que sua história era mais complexa que a dela.
John me faz rir.
— O que eu escrevi não foi nada demais assim – eu disse.
— Eu queria escrever “nada demais” e ficar em segundo lugar – ele insistiu.
E provavelmente só não insistiu mais porque o professou entrou na sala para dar a sua aula, e então ele soube que aquele seria o momento para ficar quieto. Eu sei que John tinha razão (não sobre eu merecer o primeiro lugar, mas que eu havia escrito um pouco melhor do que “nada de mais”). E mesmo assim, por algum motivo, minha vitória já não parecia muita coisa, não parecia tão grande.
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Eu havia marcado de encontrar minha família no hotel.
Então assim que minha aula acaba, vou para o metrô e sigo para o lugar. O moço da recepção liga para o quarto deles e então me passa o número para que eu vá para lá. Não me surpreendia que eles não estivessem prontos ainda, minha mãe e minha irmã competiam para ver quem demorava mais para se arrumar.
Sigo para o elevador sentindo uma onda de nervosismo. Tento fazer exercícios de respiração que aprendi na escola, mas que nunca me foram úteis. Eu deveria ficar aliviada. Preferia contar tudo a eles antes de sairmos, em um lugar com privacidade do que em um lugar público com gente estranha olhando e podendo ouvir.
O hotel é bonito e arrumado. Os corredores parecem antigos, de uma maneira aconchegante, com suas paredes revestidas de madeira e papel de parede amarelo. Quando chego ao quarto, dou uma batida de leve na porta e meu pai a abre com uma expressão cansada que me faz querer sorrir.
— Mary-Jean ou Mamãe? — Eu perguntei abraçando-o.
— Estão competindo até agora — ele respondeu, dando-me passagem.
O quarto é grande e espaçoso, como só um quarto de hotel bom pode ser. Há duas camas de solteiro e um sofá cama. Todos parecem bem confortável, mesmo que esteja bagunçado com roupas e acessórios. Mary-Jean está se maquiando no espelho do banheiro, enquanto mamãe está na penteadeira do quarto, de frente para o espelho.
Eu tirei o meu casaco, sentindo minhas mãos começarem a suar.
— Hum... antes de irmos, eu preciso falar uma coisa para vocês... — eu pedi, tentando soar calma e indiferente.
Eles não precisavam saber que eu ia falar algo sério... né?
— Tudo bem... — meu pai diz, sentando-se no sofá.
— Pode ser enquanto me arrumo? — Mamãe pergunta.
Mary-Jean coloca a cabeça para fora do banheiro, parecendo curiosa com o meu pedido. Inevitavelmente, eu abaixei o olhar e então disse:
— Acho melhor... não.
Mary-Jean então encostou-se no batente da porta do banheiro e ficou olhando para mim com preocupação. Perguntei-me se minha expressão estava tão ruim quanto eu estava me sentindo. Minha mãe, contrariada, colocou os brincos e então se virou para mim também, com impaciência.
Quase a imaginei dizendo "é bom que valha a pena".
Eu olho para eles, com cuidado. Perguntando-me como seria a melhor maneira de começar a contar. Como eu poderia entrar diretamente nesse assunto? Tento formar um roteiro mental, mas a verdade é que não havia uma "melhor maneira de começar". Não importa o como eu contasse... nada poderia mascarar a crueldade da verdade.
— Muito bem? – Mamãe pede, impaciente.
Cinco minutos. Sem palavras.
Dei um pigarro para desatar o nó desconfortável na garganta.
— C- como vocês sabem... muita coisa aconteceu... por aqui – eu comecei, esfregando minhas mãos suadas nas pernas. – E- eu acho que.... preciso dizer que sinto muito... por não ter sido sincera com vocês... porque... eu tive medo... ou vergonha...
Meu pai deu um sorriso compreensivo.
— Bell, nada do que você dissesse poderia nos fazer parar de amar você — ele diz, estendendo sua mão para pegar na minha.
— Papai tem razão — Mary-Jean disse.
— Sim, ele tem — mamãe confirmou, mostrando-me um sorriso discreto. — Além do que, se eu estivesse no seu lugar e tivesse baixado o padrão Mike para o padrão tatuado psicopata, eu teria vergonha também.
Eu não acredito que aquelas palavras saíram da boca dela. Eu juro que fico olhando para ela como se meu cérebro simplesmente se recusasse a aceitar a informação que ela havia dito. E quando aceita, eu sou tomada por uma onda de raiva e indignação que eu não tenho como disfarçar.
— Pauline! — Meu pai protestou, envergonhado.
— Alex é muito legal... e bonito — Mary-Jean contestou.
— Eu não falei que ele não era legal, mas temos que combinar que o garoto parece ter problemas. Vocês devem ter pensado o mesmo quando viram o rapaz, não sejam hipócritas — ela respondeu.
Em geral, quando minha mãe falava mal de alguém, eu não me importava. Ou melhor, no máximo ficava com vergonha..., mas era injusto ela falar daquele jeito de Alexander. Justo dele... E isso me deixa tão irritada que sinto meus olhos marejarem, e quando vejo estou dizendo:
— Tenho certeza de que se a senhora soubesse tudo o que ele fez por mim não diria isso assim — Ela olha para mim, assustada, mas me obrigo a continuar: — Eu não tenho medo e nem vergonha de Alexander e eu posso te garantir que nessa história toda, se em um psicopata ou alguém com problemas é Mike.... Porque... o Mike...
— Bell — Ouço Mary-Jean sussurrar.
— O Mike que nós conhecemos... não era real. Provavelmente nunca foi — eu continuei, abaixando o olhar.
Provavelmente, se tivesse continuado olhando para a minha mãe, eu veria o como sua expressão desdenhosa sumiu e deu lugar a algo sério. Uma expressão nunca vista antes. Suas frases ácidas, pareciam ter sumido de repente. Então eu arrisquei olhar para o meu pai, depois para a minha irmã, o que apenas me deu mais vontade de chorar porque... eles estavam tão preocupados.
— Bell? – Papai me chamou. — Como assim... ele nunca existiu?
“Vai Bell... conta. Você consegue” eu disse a mim mesma.
Respirei fundo, tentando me acalmar, e então comecei:
— Mike nunca ficou comigo porque ele gostava de mim... ele só ficou porque... – Eu desviei o olhar para o chão. – Ele tinha esse jogo idiota... e eu era só uma fase dele... assim como outras garotas... assim como Lauren.
Minha irmã arfou, chocada.
— Jogo? – Meu pai perguntou, sem entender.
Minha mãe ficou em silêncio.
— Ele basicamente saía com todo o tipo de garota do campus – eu expliquei. – E ganhava pontos por isso... ele e a sua fraternidade. Eu era só mais uma... Ele só me levou mais a sério que as outras porque seus pais gostavam de mim. E eles não ficavam “em cima” enquanto ele estivesse namorando comigo – eu expliquei. – Mas não havia nada... nada por mim... ou por qualquer outra garota.
Mary-Jean suspirou o meu nome pesarosamente. Como se não soubesse o que me dizer. Como me consolar. Meu pai e minha mãe ficaram em silêncio, como se não entendessem ainda o que eu estava falando. E isso faz com que eu não consiga olhar para eles de maneira nenhuma.
— Quando eu descobri isso, nós já havíamos terminado porque eu descobri sua traição com Lauren, mas não foi menos doloroso... saber que uma pessoa estava com você por causa de uma maldita aposta – eu confessei, sentindo meu rosto ficar vermelho. – Mas até aí eu havia pensado “tudo bem, esquece isso e segue em frente. Já está tudo acabado mesmo”..., mas acho que ele não pensava do mesmo jeito que eu.
Silêncio. Mais vergonha. Eu estava cheia de vergonha.
— Quando eu comecei a conhecer Alexander e nós estávamos nos tornando bons amigos... Mike me viu com ele e entendeu errado... E ele achou tão absurdo que eu estivesse saindo com alguém como ele, que apenas cogitou que eu estava com Alex só para provocá-lo e isso o deixou... muito, muito bravo... — Eu continuei.
Sou tomada por um sentimento gelado quando me lembro daquela tarde perto do campo de futebol. O nó na minha garganta aprece tão insuportável, asfixiante, que eu quase fico ofegante. Sinto como se houvesse perdido a minha voz. A verdade é que eu não sabia... não sabia como contar... como olhar para eles.... Eu queria sumir naquele momento.
"Eu consigo... Eu consigo..." digo a mim mesma, respirando fundo.
— Isabelle? — Mary-Jean me chamou.
Eu demorei para ouvir, apenas apertei minhas mãos, até sentir minhas unhas se cravarem na minha pele. Eu consigo. Eu estava ali e ia contar.
— Quem viu de fora jurou que ele estava apenas me segurando pelo pulso, gritando um monte de coisas para mim e basicamente me chamando de vadia — Eu continuei. — Mas a verdade... a verdade é que Mike estava tão... tão bravo, que ele torceu o meu pulso. Tive que imobilizar com uma tala por duas semanas e era tão visível que havia sido alguém, que Chris ficou furiosa.
Mary-Jean levou uma mãos aos lábios.
Eu só vi a reação de incredulidade dela, não consegui olhar mais para ninguém. Apenas abaixei o olhar e continuei:
— Não só ela... Quer dizer, ela achou que tivesse sido Alex, e então interrogou ele, e ele ficou tão bravo quando soube que quase saiu caçando Mike pela universidade... Só não fez isso porque... bem, eu não deixei... — eu confessei, coçando o meu pulso. — Eu estava com tanto medo... que eu só queria deixar isso para lá. "Ele falou tudo o que ele queria" eu havia pensado, não tem mais nada para vir discutir comigo...
— Mas? — Papai perguntou.
Senti meu rosto corar.
— No dia seguinte ele veio... pedindo desculpas. Desculpas por ter perdido a cabeça, disse que ainda gostava de mim... por isso havia agido daquele jeito... — Eu me encolhi. — Mas eu estava com muito medo... e muito irritada, porque eu sabia que era mentira. Eu sabia que tudo o que ele dizia... era mentira. Foi quando eu percebi... que ele era falso. Todo aquele encanto... era fingimento. E ele não gostou que eu descobrisse isso...
Abaixei o olhar... apertei minhas mãos...
Uma onda fria subiu pela minha espinha, congelando-me no lugar.
Eu devo ter passado muito tempo quieta. Muito tempo congelada no lugar, porque eu não consigo falar mais nada. Minha voz não sai, mesmo que eu já não esteja olhando para eles... quando vejo, minhas mãos estão tremendo.
Ai meu deus, como eu falaria isso?
— O que ele fez? — Ouço meu pai perguntando.
Não reconheço a voz que sai da boca dele.
— O que esse garoto fez?! — Ele volta a perguntar, alterado.
Eu nunca o havia visto irritado. Nunca o havia visto levantar a voz sequer... e isso faz com que eu comece a chorar. Por que eu sinto que estou acabando com eles? Por que eu não consigo olhar para eles? Por que eu sinto como se tudo fosse culpa minha? E essa enorme vontade de pedir desculpas?
"Você tem uma mania estranha de se desculpar por coisas que não têm porque se desculpar" lembrei-me de quando Alex disse isso para mim, inúmeras vezes.
"Você devia parar de pedir desculpas por coisas que não são culpa sua" Mary-Jean havia me dito uma vez. "Se não, um dia você vai acreditar que a culpa é sua de verdade".
Eles tinham razão.
Lágrimas desceram pelo meu rosto. Lágrimas de humilhação. A verdade é que eu não devia estar ali, no meio de um quarto de hotel, explicando para a minha família, como foi que o maluco psicopata do meu ex-namorado quase acabou com a minha vida. Eu não devia estar ali. Nenhuma outra pessoa devia passar por uma situação como essa.
— Bell — Mary-Jean parece muito preocupada com a proximidade da minha próxima crise de choro.
— H- há uma semana... alguém contou uma mentira para ele e Mike veio atrás de satisfação... – Eu tentei. Mas meus olhos já estavam enchendo de água de novo. Um soluço escapou pela minha garganta. – Ele estava... furioso... me empurrou contra a parede do meu quarto, gritou comigo e... quando eu consegui fugir... e- ele me agarrou pelo pescoço... e...
Eu não consigo continuar antes de desabar de vez, e ela me ampara, começando a chorar comigo. Eu não consigo mais falar, só consigo levar uma mão à gola do meu vestido e puxá-la para baixo, revelando os hematomas meio verdes-amarelados ainda visíveis, causados pelos dedos dele. Pela força com que ele apertou a minha garganta naquela noite. Uma violência marcada em minha pele, registrada em laudos e ainda ali para quem quisesse ver.
Mesmo sem olhar para ela, consigo ver a reação da minha irmã perfeitamente. O como ela leva as mãos aos lábios novamente, tentando segurar o soluço que sobe pelo seu peito, mas não consegue. Ela começa a chorar, muito. Assim como o meu pai, que se põe de pé e me puxa para o seu peito, como se eu tivesse cinco anos e ele ainda pudesse me proteger de tudo e todos.
— Meu deus... — Eu o ouço murmurar, como se não acreditasse.
Mary-Jean apenas meneou com a cabeça, como se também ainda não fosse capaz de acreditar no que eu contava, no que seus olhos viam...
— P- por um minuto... e- eu achei que fosse... morrer – eu admiti, entre soluços e lágrimas. – Talvez só não tenha acontecido... porque Alex apareceu com os amigos dele... e eles tiraram Mike de cima de mim e... me socorreram. Eu estava inconsciente... não me lembro de muita coisa... apenas acordei na emergência da clínica da universidade...
Minha mãe está tão quieta.... Não sei se ela está absorvendo tudo ainda, ou se ela apenas não sabe o que dizer ou o que fazer. Por um instante, me pergunto se ela vai acreditar na história. Quer dizer, ela adorava Mike, ela achava que ele era a única coisa certa que eu havia feito na minha vida (chegando a dizer isso na minha cara uma vez) .... Será que ela acreditaria sobre quem ele era de verdade?
Será que ela acreditaria... em mim?
Mary-Jean é a primeira a esboçar outra reação. Me soltando ela diz:
— Sua idiota... por que não ligou?! Por que você não falou nada?! Tem ideia de como íamos ficar se algo acontecesse?! Idiota!
Não consigo responder, porque sei que ela tem razão. Eu mesma me disse aquilo inúmeras vezes. Foi por isso que eu sabia que devia contar para eles.
— Eu não queria... preocupar vocês... – confessei.
— Enfia essa sua preocupação no cu.... somos sua família, porra – Mary diz, furiosa. Ela só falava palavrão quando estava furiosa. – É nossa obrigação nos preocuparmos com você... Você querendo ou não!
— Sua irmã boca-suja tem razão – meu pai concordou, enxugando as lágrimas dos seus olhos. – Somos sua família e você não pode nos obrigar à não nos preocuparmos com você. E não pode esconder essas coisas de nós, Bell... Esse garoto... ele podia...
Ele não chega a dizer nada, porque começa a chorar novamente. Seu tom de voz era sério, mas sem firmeza. Mas, de alguma forma, foi o suficiente para que, por algum motivo, um sorriso aparecesse no meu rosto. Eu só... não sei... os amava demais.
De repente, sinto mais um par de braços me envolverem. Minha mãe, em silêncio, me abraça junto com meu pai. Isso é inesperado e repentino. Ela não diz nada... não precisa dizer nada... eu a entendo. Pela primeira vez, eu acho que a entendo. Era a primeira vez que ela participava de um abraço em grupo, e a primeira vez em muito tempo que ela me abraçava.
— Eu vou acabar com esse moleque – minha mãe diz de repente, fazendo com que todos a encaremos. – Eu juro, que vou acabar com ele.
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Gostaria de dizer que minha mãe estava apenas brincando quando ela disse que iria acabar com Mike. Gostaria porque eu não queria imaginar uma senhora de meia idade, como a minha mãe, arrumando briga com um brutamontes como Mike. Mas a primeira coisa que ela fez quando nos acalmamos foi pegar o celular e ligar para a mãe dele.
Isso mesmo.
Minha mãe, ligando para a mãe de Mike, como se estivéssemos na oitava série e ele fosse um valentão que mexia comigo. E foi a conversa mais embaraçosa e incrível que eu já assisti em algum momento na minha vida. Foi basicamente assim:
— Olá, gostaria de falar com a senhora Fanny Furrey, por favor? – Minha mãe fazendo o que eu chamo de “voz de telefonista” (uma voz como quem não se importa de verdade com seus problemas, mas finge que se importa). – Ah, é você querida? Bem, aqui é Pauline, mãe da Isabelle, e você sabe que eu não sou de dar rodeios então vou direto ao assunto: NUNCA MAIS DEIXE O SEU FILHO DOENTE CHEGAR PERTO DA MINHA FILHA, FUI CLARA?!
Silêncio.
Eu poderia ter dito a ela que eu já tinha uma ordem de restrição que o impedia disso, mas a verdade é que a ordem de restrição não impede porra nenhuma. Só me deram um papel dizendo: “olha ele não pode se aproximar”.
Então de repente:
— O quê?! A senhora está acusando a MINHA filha de estar inventando histórias?! VAI PROCESSAR ELA POR DIFAMAÇÃO?! – Minha mãe parecia muito irritada. Mais que isso: possessa. – Mas, assim, vai ser antes ou depois que processarmos seu filho por TENTATIVA DE HOMICÍDIO?!
Novamente, silêncio. Fanny respondendo alguma coisa.
— O quê?! – Minha mãe perguntou ultrajada. – Como assim não temos nada?! Você viu o estado que seu filho deixou a minha filha?! Escute aqui senhora, eu morei nos Estados Unidos! E se tem uma coisa que eu aprendi é: I KNOW MY RIGHTS*!
Então não sei o que a mulher respondeu, só sei que, de repente, chegamos à um nível em que minha mãe começou a falar palavrões em francês. Apesar do meu francês não ser lá aquelas coisas, eu consegui entender perfeitamente o: “vai se foder, sua piranha maluca. Bando de psicopata”.
E a ligação se encerrou com minha mãe dizendo:
— Então nos vemos no tribunal sua piranha aguada, e é bom que seu advogado seja bom porque o meu advogado é alemão e é o melhor que há e não vamos descansar até deixar vocês sem nada! Me entendeu? SEM NADA!
Então ela desligou o telefone na cara da mulher.
E eu continuei olhando para aquela cena toda... muito admirada.
Aquela foi a primeira vez em que achei minha mãe incrível.
Ela se virou para nós três, ajeitando uma mecha do cabelo e disse:
— Nenhum cara babaca pode achar que tem o direito de se meter com as minhas filhas e achar que vai ficar por isso mesmo.
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