Good Gone Girl
32 Capítulo 32 – Guerreiro
Notas iniciais
Capítulo 32 – Guerreiro
O abrigo em que Alex trabalhava era um lugar incrivelmente agradável e enorme. Diferente de qualquer coisa que eu estivesse esperando (como, por exemplo, um prédio sem graça e cinzento com aspecto abandonado e uma entrada estreita).
Para começar, era uma construção térrea, de apenas um andar. Parecia uma casa moderna, com a fachada formada por ângulos retos e uma grande porta dupla de vidro que se abriram automaticamente assim que passei por elas. Dando para um grande hall que tinha uma mesa de recepção, atrás da mesa, eu pude ver uma janela enorme que dava para um pátio cheio de cachorros e gatos correndo e brincando.
Ver aquela cena parecia o paraíso.
Eu podia estar enganada, mas a maioria dos animais abandonados não ficam presos em jaulas esperando serem adotados? (Não que alguma vez eu já tenha pisado em abrigos, mas era assim nos filmes, não era?).
— Bom dia, posso ajudar? – A recepcionista perguntou para mim.
O olhar dela me analisava de cima a baixo.
Era uma garota quase da minha idade, ou talvez um pouco mais velha. Cabelos castanhos e lisos, sorriso impecável e olhos castanhos quase escondido por trás de grandes óculos de grau. Ao seu lado, tinha uma mulher de cabelos negros presos em coque, olhos verdes e jaleco, lendo uma pilha de papéis numa prancheta.
— Hum... eu vim trazer um remédio que o Alex pediu – eu respondi, um pouco envergonhada, estendendo o remédio de Kurt.
A mulher de cabelos escuros ergue o olhar e então me olha, de cima a baixo. Quero muito perguntar porque essa mania de me medir com o olhar e dou uma analisada na roupa que estou usando para ter certeza que não há nada de errado comigo. Estou como sempre: saia curta azul marinho, moletom laranja. Nada demais.
— Ah, sim. Obrigada. Pode deixar que eu levo para ele – a recepcionista responde.
E pega o remédio da minha mão.
Eu fiquei congelada no lugar, perguntando-me se era só isso ou se ela estava zombando de mim e iria dizer: “brincadeira, eu vou chamar ele para você”. Porém, a garota apenas força mais um sorriso. Como se houvesse encerrado a conversa.
Então eu dou um sorriso e disse:
— Ok, obrigada.
Não sei porque agradeci. A palavra só havia pulado da minha boca antes de eu me virar para ir embora. Desapontada, mas não surpresa, de novo.
— Espera – a mulher de cabelo preto diz de repente. – Você é a amiga do Alex?
Franzi o cenho, sem entender, porque a ênfase no “você”.
— Hum... É. Acho que posso dizer que sou – eu respondi.
Ela arqueou as sobrancelhas em surpresa e então sorriu simpaticamente.
— Olá, eu me chamo Bailey. Pode-se dizer que eu sou a veterinária responsável por supervisionar o estágio dele aqui no abrigo – ela diz, estendendo-me sua mão. Eu timidamente a aperto e ela continua: — Ele é um cara legal, né? Focado e disciplinado.
Eu dei de ombros.
— É. Acho que ele é sim – eu respondi.
Apesar de eu sentir que essas não seriam as primeiras palavras que eu usaria para descrevê-lo, eu tinha que concordar que ele possuía essas qualidades. Quer dizer, ele nunca me chamava para matar aula e, pelo que eu havia entendido, esse abrigo era a coisa mais importante para ele depois de... Ok, esse abrigo era a coisa mais importante para ele.
— Eu só gostaria que ele passasse menos tempo aqui – ela continuou. – Ou que ele pelo menos viesse no horário comercial comum, porque eu tenho certeza que isso não faz bem para a saúde dele... Eu já cansei de falar isso para ele, mas não me escuta. Talvez ele te escute... ou talvez você seja mais persuasiva.
Eu franzi o cenho.
— Como assim? – Eu perguntei.
Ela arregalou os olhos.
— Ele vem trabalhar às cinco horas da manhã – ela respondeu, indignada. – Sabe o que tem para ele fazer às cinco horas da manhã? Isso mesmo, nada. Porque até os animais estão dormindo às cinco horas da manhã.
O modo como ela fala, faz com que a garota de óculos solte uma risada.
— Ah – eu digo surpresa.
Agora eu entendia porque ele não estava em casa quando eu acordei. Porém, pior do que isso era fazer os cálculos de quanto tempo esse cara dormiu? Estimando-se que ele tenha chegado em casa à 1h da manhã (e isso sou eu sendo otimista), ele dormiu umas 3h/4h? Isso não parecia nada saudável. Como alguém conseguia fazer tanta coisa e nem conseguir dormir direito?
— Tudo bem, eu posso tentar falar com ele sim – eu lhe tranquilizo, apesar de não ter certeza se o Alex me ouviria.
Não era como se eu tivesse alguma moral para dizer à Alexander como ele deveria viver a vida dele, porém, não me custaria nada tentar. Afinal, era uma questão de saúde também. Quanto tempo ele aguentaria uma rotina dessas?
Ela sorri, agradecida.
— Então.... Quer conhecer o lugar? – Ela oferece de repente.
Eu fico surpresa com a proposta, mas confesso que eu estava curiosa... (e talvez com muita vontade de ver Alexander *cof cof*). Por isso eu aceito o seu convite. Ela pega o remédio e a prancheta, então sai de trás do balcão e me guia por um corredor no lado esquerdo do hall.
— Eu fiquei surpresa por encontrar os cachorros soltos no quintal – eu observei. – Nunca estive em um... abrigo antes, mas achei que eles ficassem presos.
Ela olhou pela janela, que dava para o pátio observando os animais correndo e brincando, e acenou para alguns voluntários que cuidavam dos animais. Ficavam de olho neles e até mesmo faziam brincadeira com eles, como jogar bolas e alguns truques. Pergunto-me se a imagem a deixava tão feliz quanto eu me sentia.
— Bem, é importante que os animais, principalmente os cachorros, tenham um espaço agradável para correrem, gastarem energia e desgastarem as unhas – ela respondeu. – Gato é um pouco mais simples, mas temos cuidado com eles também. Nenhum animal gosta de ficar preso o tempo todo, entende? Eles ficam ansiosos ou depressivos, até.
Eu concordei com a cabeça. Então continuamos andando
A maioria das salas do abrigo possuem a porta de metal, e então uma janela. De maneira que não tenhamos que entrar na sala para ver o que se passa lá dentro. Ela me mostra primeiro uma sala cheia de jaulas com cachorros que não parecia tão desumano como em clínicas veterinárias que eu já vi. Possuíam um tamanho agradável e pareciam pensadas para caberem cachorros de qualquer tamanho.
— Mas não é todo animal que nós podemos soltar – ela continuou. – Primeiro, quando trazem um animal resgatado para cá, nós tomamos muito cuidado para não os misturar. Cuidamos de tudo o que ele possa ter, vacinamos, castramos... E analisamos se eles têm condições de conviver com outros animais.
— Como assim? – Perguntei confusa.
— Não é todo animal que sabe conviver com outros animais – ela respondeu. – Alguns são muito agressivos, ou muito medrosos... Você sabe, às vezes eles sofrem tantos abusos na rua, ou em casa, que acabam se tornando animais difíceis, ariscos...
Como eu não disse nada, ela continuou o caminho pelo corredor.
Passamos pelo gatil (eu acho que esse deve ser o nome, pois era o que estava escrito na porta). Era como o canil, só que com gatos. Por algum motivo, ver aqueles gatos ali, me fez lembrar do gato de Alexander.
Ele havia vindo daquele lugar também.
— Alex me contou que o gato dele veio daqui – eu comentei. – Que foi o primeiro paciente dele e tal...
Um meio sorriso apareceu no rosto de Bailey.
— Ah sim... É como dizem, o primeiro paciente a gente nunca esquece – ela comentou com nostalgia, o que deu a entender que ela também cuidara do gato. – Um rapaz encontrou Kurt o trouxe para cá e achamos que ele estivesse quase morto. Foi uma cena triste, mas ele implorou tanto para que fizéssemos o possível... Que aceitamos. Ele pagou a internação e parte do tratamento..., mas desapareceu quando precisávamos que ele pagasse a cirurgia.
Franzi o cenho.
— Espera... ele desapareceu? – Eu perguntei confusa.
As pessoas levavam animais machucados para o veterinário e desapareciam?!
Como se lesse a minha expressão ela deu um sorriso triste.
— Você ficaria surpresa com a quantidade de pessoas que abandonam animais muito machucados ou doentes no veterinário – ela comentou. – Não que eu possa julgar alguém: o tratamento, em alguns casos, sai muito caro e não é todo mundo que pode se dar ao luxo de pagar... Acho que muitas pessoas acham que, como o animal não é delas, também não tem necessidade de assumir a responsabilidade, sabe? Esse foi o caso do Kurt.
Sinceramente, eu senti vergonha.
Vergonha por saber que existiam pessoas assim.
— Na época não éramos “oficialmente” um abrigo, apesar de já estarmos trabalhando nessa ideia – ela comentou. – Então, a cirurgia não teria sido feita se Alex não tivesse pago com o próprio dinheiro.
Ela continuou andando pelo corredor, parecendo ignorar o fato de que eu estava paralisada com o que ela estava me contanto. Tive que apressar o passo para acompanhá-la, apesar de ainda estar digerindo isso.
— Ele mesmo pagou? Do bolso dele? – Eu repeti, sem acreditar.
Não era possível que existisse alguém assim no mundo.
Não era possível que alguém fosse tão good guy assim. Por favor, Deus, que pegadinha é essa?! Esse não pode ser o Alex! Sabe o copinho de “boa pessoa”? Pois é, ele está transbordando.
— Aham – ela cantarolou. – Por isso o gato ficou sendo dele quando recebeu alta. E ficamos muito felizes porque tínhamos certeza que ele ia cuidar bem dele. – Ela parou no corredor e sorriu para mim: — Essa é a parte mais gratificante de trabalhar aqui: quando um animal feliz sai com uma família nova que nós sabemos que vai cuidar bem dele.
Chegamos ao fim do corredor. Há uma porta escrita “UTI” e pela janela, consigo ver Alexander. Como sempre ele está incrível. Sério e me pergunto como ele não parece estar tão cansado quando deveria. Sim, ele tinha olheiras, mas não possuía o olhar de zumbi comum ou a expressão de quem ia desmaiar a qualquer momento.
Ele leva uns segundos para nos notar no corredor, então posso analisar seu perfil perfeitamente: o nariz reto, os lábios desejáveis, os cílios longos e injustos. Seus cabelos ruivos parecem se destacar incrivelmente na luz fluorescente da sala e contra a parede branca... E ele está de jaleco (glória deus!).
Eu tenho certeza que já enalteci a beleza desse homem de jaleco, mas, como sempre, a visão é de tirar o fôlego e de fazer com que minha cabeça se encha com todo tipo de pensamento pervertido possível e impossível.
Às vezes eu me pergunto como pode um cara ser tão bonito. Tipo, não basta darem para ele cabelos ruivos únicos e incríveis, tinham que dar um par de olhos fantásticos e um meio sorriso de matar qualquer ser vivo que sinta atração por homens. E como se só isso não bastasse, o cara se enche de tatuagens maravilhosas.
Peguei-me perguntando a mim mesma como eu podia estar dormindo com uma pessoa tão bonita? Em que momento a minha vida havia dado um upgrade deste tamanho?
Não sei como não estou lambendo a janela entre nós quando ele me olha.
Suas sobrancelhas se arqueiam levemente em surpresa, e então aquele meio sorriso que teria me feito virar líquido surgiu em seu rosto e ele acena com uma mão (já que a outra estava ocupada aplicado alguma injeção em um cachorro muito magro e amordaçado).
Bailey retribui e eu estou tão desnorteada com o olhar dele que esqueço até de sorrir. Estou hipnotizada e na minha cabeça eu só consigo ouvir: “You’re just to good to be true / I can’t take my eyes off you”. Essa seria a trilha sonora de cada vez que eu olhasse para Alexander. Cada vez que ele me olhasse de volta e sorrisse...
De repente, o cachorro amordaçado se mexe e ameaça morder a mão do ruivo. Fazendo com que nosso contato visual se quebrasse e que ele desse um pulo para trás. Surpreendo-me com o movimento porque foi como se ele sentisse que o Alex estava distraído e então tentasse dar o bote... e também porque ele estava amordaçado e quase conseguiu morder Alexander.
— Esse é o Guerreiro! – Bailey exclamou, rindo do susto.
Então de repente, vejo uma mão feminina encostar-se ao ombro de Alex e uma garota de cabelos azuis apareceu rindo dele. Aparentemente, provocando-o. Ela era linda. Linda de um jeito meio “namorada de astro do rock”: cabelos descolados, maquiagem descolada, acessórios descolados, piercings e tatuagens descolados...
Sabe aquelas pessoas que se vestem como se fizessem parte de um grupo social (no caso dela, era um gótico rock’n roll) e você meio que inveja porque parece que eles sabem quem são? Essa era a garota. E aqui do outro lado, vestida de cardigã laranja e saia rodada azul marinho, de botas curtas, estava a Bell. A pequena e não-tão descolada Bell.
Quando os dois saem rindo da sala, eu me sinto pequena e insignificante.
— Bell – Alexander me cumprimenta com um abraço.
Não um beijo apaixonado, não um selinho..., mas um abraço.
Essa é a discrição o posto de “amigos que se pegam”? Ser cumprimentada com um abraço? Quer dizer, tudo bem. Eu teria vergonha se ele me beijasse na frente de duas estranhas..., mas eu também gostaria né. Por algum motivo, eu me senti como provavelmente uma amante se sentiria nessa situação.
— Oi – eu digo sem graça.
Há um nó na minha garganta que me impede de ser mais eloquente.
— Ela veio trazer o remédio que você pediu – Bailey disse. – E achei que seria legal se ela conhecesse o lugar onde você transformou na sua segunda casa.
— Ah, ela é sua amiga importante? – A garota de cabelos azuis provocou-o, fazendo com que ele se encolhesse sutilmente. Antes de estender a mão para mim: — Oi, eu me chamo Amaranth.
— Não. Ela se chama Amanda – Alexander disse.
— Amaranth! – Ela insistiu, fazendo “shhh” para ele em seguida.
— Amy para os íntimos – Bailey disse rindo.
Eu consigo dar um sorriso e então apertar a sua mão.
— Eu sou Isabelle – eu me apresentei.
Novamente, sentindo aquele nó desagradável na garganta.
Eles meio que combinavam. Era como ver o fogo e água juntos. Cabelos ruivos ao lado de cabelos azuis. Ambos tatuados, ambos de roupa preta, ambos... combinando.
— Como assim “amiga importante”? – Eu perguntei, não querendo que elas percebessem a vontade estranha de ficar em silêncio que eu estava sentindo.
As duas riram e por algum motivo Alex deu de ombros, fingindo indiferença.
— Quando ele falou que uma amiga vinha trazer o remédio do Kurt a gente ficou um pouco... receosa – Bailey falou fazendo uma careta. – Não sei se você já viu como são as amigas do Alex..., mas em geral elas são meio...
— Loucas – Amy completou sem titubear. – Elas são loucas. Repita comigo: as amigas do Alex são umas loucas. Escandalosas e da última vez só Deus sabe a confusão que elas causaram aqui quando a deixamos entrar no pátio para conhecer os animais.
Cheguei a abrir a boca para dizer que não era verdade..., mas então eu me lembrei de Sasha e Ellie e tive que concordar com um pouquinho. Eu conseguia imaginá-las causando confusão no quintal cheio de cachorros e gatos.
— Não são tão loucas assim... – ele murmurou, mas parecia incerto.
— Bem, mas a questão é que quando dissemos que você não passaria da recepcionista ele disse: “essa pode passar, ela é especial”. Então tivemos um motivo para ficar zoando com ele a manhã toda – Amy disse, dando um tapa provocativo no ombro de Alexander.
Ele lhe olhou pelo canto do olho com aquele sorriso de canto e disse:
— Mesmo se isso não fosse motivo para me zoar, você arrumaria um. É só isso o que você sabe fazer.
Ela lhe retrucou mostrando a língua.
Eles pareciam muito amigos.
De repente, eu percebo o que estava me incomodando naquele momento: ciúmes. Ver o “Alex que ninguém conhecia de verdade” tão solto com outra garota estava me causando ciúmes. O que me surpreende, porém, é a falta de raiva e violência que senti da outra vez. Por algum motivo, fico mais melancólica e triste. Como se uma voz sussurrasse no meu ouvido: “ele não é para você e você sabe disso. Ele é para alguém como ela”.
Essa voz insegura me machuca.
Mas continua repetindo isso.
— E esse cachorro? – Eu mudei de assunto de repente, porque ver os dois agindo daquele jeito continuava me machucando. – O que ele tem?
Alex olha por sobre o ombro, como a garota de cabelos azuis também faz, para o cachorro deitado amordaçado na maca, visível através da janela. Algo reluz em seus olhos claros, algo que não sei bem o que é.
— Esse é o Guerreiro – ele diz com gravidade. – Ele tem várias coisas: desnutrição, escoriações, parasitas de quase todos os tipos...
— Ele parecia bem energético quando tentou te morder – eu comentei.
Um meio sorriso apareceu no rosto dele.
— Esse é ele. Sempre que achamos que ele vai sucumbir ou que ele vai aceitar ser cuidado... ele tenta lutar contra tudo e todos – Ele disse como se admirasse. – É um cachorro muito desconfiado e muito determinado. Por isso sei que ele vai ficar bem.
Por algum motivo, Amy está séria, assim como Bailey.
— É, fisicamente ele vai ficar bem – a garota disse, mas havia algo implícito.
Algo que fez com que Alexander olhasse para ela com seriedade.
— Não vamos falar disso ainda – ele pediu.
— Alex tem razão. Ainda é cedo para dizer algo – Bailey concordou, antes de dar um suspiro e dizer: – Vamos esperar ele ficar melhor.
Por algum motivo, me senti deixada de lado. Como uma intrusa.
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