Good Gone Girl

28 Capítulo 28 – Pacto com o Diabo.


Notas iniciais
Hey! Nao morri, apesara de sentir como se houvesse. Nossa, e essa piada é mto inadequada. Bem, desculpem a demora para postar. Não tenho tido tempo para escrever muito :c De qualquer forma, espero que vocês gostem desse capítulo. Eu chorei muito, mas estou de tpm entãaaao... não sou mto confiável. Espero que sirva para que vocês entendam um pouco o que aconteceu e tal. E por favor, comentem sobre o que vocês fariam numa situação assim. Estou com medo de estar tudo muito fantasioso e tal e não fiel à sentimentos reais e humanos. ******HALLZINHO DA FAMA ****** > Juliana S 22 > Accio Pandas > Sandrinha > Carina Darlly > nonpapergangsta > Juuh Beauchamp > KK > Sophia > Matry-chan > Olhos Castanhos > Prin > Mente Bugada > uma leitora qualquer > Lud Bela > Magia > Flor Eaton > Flávia OBRIGADA ♥ BISOU ♥ Belle.Époque

Capítulo 28 – Pacto com o Diabo.

Talvez por ver a minha dificuldade para dormir, Alexander não tenha nem pensado em me acordar quando saiu. Eu acordei sozinha na cama dele, com seu gato me fazendo companhia e um recado grudado na cabeceira da cama: “Fui para o abrigo e só volto meio-dia. O horário de visita do hospital é de 10h às 11h. Sinta-se em casa, mas não quebre nada, o gato é um espião disfarçado e vai me contar quando eu chegar”.

Olho para Kurt e ele mia para mim, como se dissesse: “é isso aí”.

Sinceramente, eu estava conhecendo um senso de humor que até então eu achava que o ruivo não tinha. O que mais será que eu não sabia sobre ele?

Como eu acordo às nove, vou tomar um banho e comer alguma coisa para ir ao hospital, mas não sei se consigo chegar até lá. Meu senso de direção era uma bosta e eu não conhecia essa cidade, mas há um senso de aventura fervilhante em mim. Sinto que não me incomodaria nem um pouco se me perdesse.

Assim que saio do apartamento, uma mulher no corredor me olha com espanto e acho que é vizinha dele. Não que eu conhecesse os vizinhos dele, mas ela parece estar vendo um fantasma e isso me constrange, ainda mais quando temos de esperar o elevador uma do lado da outra.

— Licença, você é a namorada do rapaz que mora aí? – Ela pergunta.

— Hum... não. Sou amiga dele – eu respondo.

Ela solta um “ah”.

— E você não tem medo dele? – Ela diz, depois de um tempo. – Ele é todo tatuado... e sempre tão sério.... Nunca deixaria meus filhos se tatuarem daquele jeito.

Nós entramos no elevador.

— Bem, ele é um dos caras mais amorzinho que eu já conheci – eu lhe digo. – E as tatuagens dele não são tão mal assim – O que eu queria dizer de verdade era: São lindas, pelo amor de deus senhora, me diz que não sente vontade de lambê-las?

Ela me lança um olhar enviesado, mas termina a conversa ali até que chegamos ao térreo e cada qual vai para o seu lado. Com o porteiro, pergunto a direção do hospital e ele me indica o caminho. Ficava há umas quadras dali, mas era melhor pegar o metrô.

Por alguma intervenção divina (e algo chamado metrô) eu não me perco. Compro umas flores na loja do hospital e pergunto para a mulher da recepção onde fica o quarto de Lauren. Não percebi o quão nervosa eu estava até parar na frente do quarto da garota e não ter coragem para abrir a porta. Tudo o que eu conseguia pensar era que, bem, ela estiva nessa situação por minha culpa... como ela iria olhar para mim novamente.

Então, como se fosse um sinal de que eu deveria vê-la, a porta se abre e um garoto olha para mim com curiosidade. Não era Mike, não sei quem ele era. Só sabia que ele era alto, esguio, de cabelos pretos e olhos castanhos claros, tinha barba por fazer e um pequeno alargador na orelha direita. E que seu olhar parecia surpreso. Bem surpreso.

— Olha só – ele diz. – Você não morre cedo.

Senti-me corar até a raiz do cabelo.

Havia algo constrangedor em ser pega parada do lado de fora de um quarto.

— Lauren, sua amiga veio te ver – Ele gritou por sobre o ombro.

— Shh, é um hospital, Robb, por favor – alguém respondeu de dentro do quarto.

Ele deu um meio sorriso para mim e me empurrou para dentro, fechando a porta logo em seguida. Estou me perguntando que raios de cara era esse (que eu acho que nunca vi na vida) quando de repente percebo que estou encarando Lauren e quase toda a família dela. Eu conhecia a senhora Willard por ligações via Skype, mas pessoalmente, ela era mais refinada e imponente do que eu havia imaginado.

Era magra como a filha, cabelos loiros e impecáveis, roupas da moda que pareciam feitas para mulheres como ela e os olhos tão claros que pareciam duas joias.

Ela sorri e se levanta para me dar um abraço.

— Isabelle, é um prazer te conhecer pessoalmente... É uma pena que em uma situação como essa... mas acidentes acontecem – ela diz gentilmente. Então se vira para as duas crianças sentadas no sofá. – Vamos crianças, vamos comer alguma coisa na lanchonete? Isabelle e Lauren tem muito o que conversar.

Acidentes? Eu me perguntei, enquanto observava as duas crianças soltam um resmungo, mas se afastam da irmã e marcham para fora, seguindo a mãe.

E é assim que Lauren e eu ficamos sozinhas naquele quarto. Desde que eu entrei, não olhei para ela, mas agora (que eu não tinha mais nada para me tomar atenção) eu olhei. Apesar de seu rosto estar um pouco pálido e inchado por ter que ficar deitada o tempo todo, sem fazer nada. De repente, me pego pensando que, mesmo naquele estado, nenhuma outra garota ficaria tão bonita.

Uma de suas pernas e de seus braços estavam engessados, seu tórax parecia imobilizado também e eu acho que nunca vi ninguém tão presa em toda a minha vida.

— Você está parecendo um personagem de desenho, quando ele se machuca todo e vira uma múmia no hospital – parece a coisa mais idiota a se dizer a alguém que passou pelo o que ela passou, mas foi o que causou um sorriso nos lábios dela.

E então Lauren solta uma risada... Gemendo de dor em seguida.

— Eu trouxe flores para você – eu digo, mostrando meu buquê de loja de hospital. – Mas tem tantas flores mais bonitas que as minhas, que acho melhor nem as colocar do lado a sua cama.

E era verdade, havia dois arranjos soberbos ao lado da cama de Lauren. Mas ela faz uma careta como se não gostassem daquelas flores ali.

— Se você quiser colocar as suas no lugar de uma delas, fique à vontade. Robb é meio exagerado às vezes – ela diz. – Ele trouxe tanta flor que me sinto numa floresta.

Eu dei uma risada.

— O garoto que saiu? – Pergunto.

Ela acena com a cabeça.

— Ele trabalha como Editor Chefe do jornal do campus – ela diz. – Ele é da minha turma... e achou que por conhecê-lo eu estaria disposta a falar sobre... aquilo.

Um rubor toma suas faces. Obviamente, Lauren não se sentia bem com o que tentara fazer. Parecia claro que uma pessoa que tentou se matar não sentiria muito orgulho do que tentara fazer. Na verdade, uma vez ouvi depoimentos sobre pessoas que tentaram se matar, e a maioria ou sentia vergonha de ter feito isso ou vergonha por ter falhado (o que, graças a deus, não pareceria ser o caso de Lauren). Ainda mais se todas as pessoas estivessem prontas para julgar como quem julgava uma bruxa.

Aproximo-me de sua cama e seguro a sua mão boa.

— Me desculpa, Lauren – eu peço. A garota loira arregalou os olhos, como se não entendesse. – Me desculpa por te deixar sozinha, por deixar que um filho da puta como Michael estragasse tudo entre a gente... e por não ter te procurado para conversar.

Ela passa um momento me encarando, como se eu fosse uma criatura mitológica que não existia, e então solta uma risada. Uma risada áspera.

— Meu deus, é tão você pedir desculpas por essas coisas – ela diz num tom amargo, fitando o teto. – Bell... eu é quem tenho que te pedir desculpas. Só eu. Eu caí no papo dele. Eu caí direitinho no papo desse filho da puta, como você disse. Eu... fui idiota e deixei ele tirar tudo o que eu tinha: autoestima, amigos, você...

— Nós duas caímos – eu confesso com um suspiro.

Não havia nada de bonito em admitir uma coisa dessas: que quase fomos destruídas por causa de um garoto. Um único, cretino e miserável garoto. Seus olhos claros se voltam para mim novamente e eles estavam cheios de culpa.

— Quando você saiu correndo chorando aquele dia... eu sabia que tinha feito uma coisa horrível. Sabia que eu tinha traído a única amiga de verdade que eu tive na vida – ela diz para mim. – Mas... eu achei que, por ele, valia a pena, sabe? E sinto muito por colocar um cara acima de nós duas... de verdade, sinto muito. Essa foi, de longe, a coisa mais estúpida que eu já fiz.

Lágrimas se acumulam em seus olhos.

— Michael conversava comigo sobre terminar com você e me assumir... ele dizia que você era uma garota legal e bonita e que não seria difícil você arrumar outro cara, um cara melhor, um cara que você gostaria de ir para os compromissos com ele por vontade própria e não forçada... Ele vivia me dizendo que vocês não combinavam... – ela diz, abaixando o olhar novamente. – Ele dizia que quando terminasse com você... tudo seria como deveria ser. Eu com ele, você com alguém melhor...

Ela abaixa o olhar como se sentisse vergonha de ter acreditado nas palavras dele... ou, pior que isso, de ter gostado de ouvi-las. Sim, eu consigo ver a culpa em seus olhos. Ela, como todo mundo, sabia que Michael Furrey era demais para mim, não combinávamos. Não dava match.

— Mas... seu discurso mudou depois de um tempo – ela continuou, com o olhar baixo. – Ele começou a enrolar para terminar com você... Disse-me que você estava muito apaixonada e que você era muito romântica e intensa. Ele disse que tinha medo da sua reação; de você fazer alguma besteira se ele terminasse com você...

Apertei meus lábios, sem acreditar no que eu estava ouvindo. Como ele podia? Como ele podia inventar aquelas coisas? Sobre mim, sobre nós... E para quê? Para enganar ela daquela forma (porque nunca estivera em seus planos terminar comigo, ele nunca disse nada sobre isso). Como ele tinha coragem de prometer algo que nunca iria dar à ela para início de conversa?

— Filho da puta mentiroso e egocêntrico – resmunguei, sentindo meu corpo vibrar de raiva. Acho que nunca odiei tanto uma pessoa, quanto eu estava odiando Michael naquele momento.

Lauren olha para mim com surpresa, é, acho que meu linguajar mudou um pouquinho desde que ela falou comigo pela última vez. Como se não suportasse mais ver ela derramando lágrimas por culpa daquele cara, pego uma caixa de lenços que está sobre o seu criado mudo e enxugo suas lágrimas.

— Você pode não acreditar em mim..., mas nada me doeu mais do que quando você descobriu tudo... e daquele jeito – Lauren choramingou, com os olhos úmidos novamente. – Ver aquela dor nos seus olhos... me fez sentir como se eu houvesse me transformado em um monstro. Você era a última pessoa nessa terra que eu iria querer machucar, Bell. E no entanto... machuquei, por causa de um garoto de olhos bonitos e sorriso brilhante.

— Não foi culpa sua – eu lhe conforto. – Não foi.

— Foi sim – ela nega. – Foi culpa minha. Eu devia pensar melhor nas minhas prioridades. Eu devia... saber o que realmente importa. Sabe... depois de você ter visto tudo... ele me enrolou por semanas. Dizia que era muito cedo par assumir alguma coisa, que precisava conversar com você primeiro e saber que você estava bem... Então disse que era melhor darmos um tempo – ela continuou, contando num tom amargo e ressentido. – E, apesar de haver uma parte de mim que disse que isso era estranho, outra parte disse que ele tinha razão. Ele tinha que ter razão.

Ela abaixou o olhar novamente, um rubor tomando conta de seu rosto. Ela estava envergonhada. Com vergonha dela mesma. Do que ela havia feito. Do que ela havia acreditado... E parte de mim sentiu pena dela por isso. Se eu estivesse no seu lugar, eu também estaria bem constrangida.

— Ele começou a parar de falar comigo aos poucos... – ela murmurou. – Foi se afastando e se afastando... e eu tentando desesperadamente mantê-lo por perto. Eu havia feito algo errado? Eu havia dito alguma coisa? Havia insistido de mais? Ele havia se arrependido de ter te trocado por mim? Eu não sabia o que estava acontecendo... Eu não entendia... E quando perguntei o que era, ele havia dito que não se sentia confortável porque... sentia que você ainda estava entre nós.

Lembro-me da nossa conversa depois da minha aula. Quando ela me contou que gostava de Mike de verdade, que havia se apaixonado por ele e então me pediu desculpas. E o que mais me irrita nessa história? Esse psicopata colocando a culpa de tudo em mim, sem eu saber. Culpando um sentimento que nunca teve por mim: respeito.

— Então ele se afastou – ela sussurrou, destruída. – Parou de falar comigo. Parou de me procurar. Só... sumiu. Foi tão estranho para mim... que fui procurá-lo. Para convencê-lo ou sei lá o que eu pensei naquela hora. Só queria... que ele não desistisse de mim porque eu não havia desistido dele. Eu queria reconquistá-lo...

Um sorriso amargo surgiu no canto de seus lábios.

— Eu sou uma garota patética – ela diz.

— Até aí eu também sou – a confortei.

Ela olhou para mim e então sorriu.

— Eu o encontrei com uma garota... uma garota que estuda nutrição. Sabe, daquelas que parecem que é uma cópia da outra, com o mesmo corpo, o mesmo cabelo e tal...

— Pior é que eu sei. Parece que todas veem de uma fábrica. Devíamos procurar códigos de barras nelas – eu disse, tentando fazê-la se sentir um pouco melhor. – Será que elas têm nome de verdade ou são seus números de fabricação, como 5234?

Lauren sorri e isso me deixa um pouco mais aliviada.

— Eu não mereço você – ela murmurou. – Não mereço você como amiga, não mereço que você esteja aqui agora... e não mereço o seu perdão...

— Graças a deus, não é você quem decide isso – eu respondi.

Ela riu e abaixou o olhar novamente.

— O mais triste... era que eu sabia que era tudo ilusão. Que eu estava mentindo para mim mesma... E eu precisei que ele me humilhasse na frente de todo mundo para perceber isso – ela murmurou, ressentida. – Quando eu vi ele com aquela garota... disse a mim mesma que era só uma amiga dele. Então procurei-o outro dia.... e ele estava com outra garota... E quando eles se beijaram eu... fiquei com tanta raiva. Eu o confrontei na hora. – Ela pausou, como se a lembrança lhe causasse raiva. – Eu o confrontei na frente dos amigos dele... e eu me senti tão humilhada.

Se antes eu já odiava Michael Furrey... hoje eu queria a morte dele. Uma morte lenta e dolorosa. Antes que ele pudesse procriar e colocar mini-babacas no mundo. E eu nunca achei que eu pudesse sentir algo tão violento em respeito a alguém. Por mais canalha que fosse.

— Ele disse, na frente dos amigos dele, para eu parar de fazer ceninha e de bancar a ridícula – ela disse, como se as palavras ainda doessem nela. – E que ele não ficaria com uma garota tão burra a ponto de não perceber quando algo acaba. Aliás, ele disse que “nunca tivemos algo”. Havia acabado no instante em que abri minhas pernas para ele. Ele disse que havia perdido a “emoção”.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Senti sua dor como se houvesse sido minha.

— E todo mundo riu... porque deve ser engraçado ver Michael Furrey pisando no coração de uma garota e acabando com a autoestima dela e com qualquer coisa que ela pensasse a respeito de si mesma – ela diz novamente com os olhos se enchendo de lágrimas. – Eu fiquei tão arrasada, Bell. Tão arrasada. Parecia que o mundo... havia parado de existir. Que eu estava... em um pesadelo e que nada era real.

Coloquei minha mão sobre a dela.

É, eu sabia como era essa sensação. Lembrava-me daquele cara no bar que havia me contado que eu era apenas uma aposta... e em como eu me senti usada, humilhada, um entretenimento para todos. Meu sofrimento era engraçado para eles o que era decepcionante porque eu nunca havia feito mal a ninguém até então.

— Depois daquilo... eu não sei o que deu em mim, eu só... peguei raiva de tudo. Parecia que tudo e todo mundo... sabia o que Michael havia dito... e concordava com ele. E então... eu fiquei insuportável. Fiquei amarga, fiquei grossa, fiquei... tão revoltada com tudo – ela confessa, as lágrimas transbordando novamente. – Não parecia que era eu mesma... e isso fez com que meus amigos se afastassem de mim. E eu não podia culpá-los... porque nem eu estava mais me aguentando. O único que conseguia aturar o meu mau humor era o Carmichael... e talvez tenha sido porque ele é um cara calmo e paciente.

Apressei-me a enxugar suas lágrimas novamente.

— Chegou a um ponto... que eu não suportava mais nada – ela murmurou, olhando para a porta, como se não quisesse que alguém chegasse naquele momento. Enquanto me admitia a verdade: — Eu não suportava mais ir para a aula e ver as pessoas falando que eu era a puta que havia traído a amiga, não suportava ir para festas, sair do quarto.... Não suportava me olhar no espelho e ver que essas pessoas que diziam aquilo... tinham razão – Ela olhou para mim. Seus olhos claros intensos. – Elas tinham razão. Eu era a puta que havia traído a amiga... E perceber isso doeu tanto... que eu não suportava mais viver.

Meus olhos se encheram de lágrimas quando ela continuou:

—.... Quando isso pareceu uma possibilidade... quando isso pareceu ser a solução para tudo... foi que eu tive certeza de que era isso.

Eu neguei com a cabeça.

— Isso não é uma solução, Lauren, é-...

— Pareceu – ela me interrompeu, encarando-me. – Pareceu tanto, Bell...

Ela meneou com a cabeça.

— Era como se... eu houvesse quebrado... e precisasse ser jogada fora – ela murmurou. – Parecia que as coisas... ficariam muito melhor se eu... se eu... deixasse de existir. Talvez só assim eu pudesse ter... um pouco de paz.

Um sorriso envergonhado aparece no rosto dela e é quando um soluço escapa pela minha garganta que eu percebo que estou em prantos. Eu nunca parei para pensar o quão difícil... o quão difícil seria ouvir uma das pessoas que você mais estimou no mundo... dizendo que havia cogitado se matar porque achou que isso seria uma solução para o peso na sua consciência.

Quis lhe perguntar porque ela não procurou ninguém? Por que ela não... não pensou em ninguém para contar sobre tudo o que ela estava sentindo ou porque ela não teve ninguém que percebesse as suas ideias... Mas eu sabia a verdade: ela não tinha alguém. Seus amigos se afastaram, sua mãe a repreenderia por ter descido tão baixo por um cara, seu pai não dava a mínima...

— Eu gostaria de dizer... que foi algo de momento, algo... impensado, algo... impulsivo... e que provavelmente os remédios que eu tomava para dormir haviam mexido com a minha cabeça... – ela diz, fungando. – Mas eu sabia o que estava fazendo. Pensei nisso durante dias. E, quando eu decidi fazer... arrumei minhas coisas, mandei mensagem para todas as pessoas com quem eu fui uma completa vagabunda... me despedi.

Ela abaixou a cabeça, como se estivesse envergonhada e então começou a chorar. Chorar muito. Lágrimas saíam de seus olhos como uma cascata, enquanto seu corpo tremia com soluços. Sento-me na beira da sua cama e faço carinho na cabeça dela. Não havia muita coisa para dizer num momento como esse. Eu só esperava que ela ficasse bem e que tudo isso... servisse para alguma coisa.

— Quando eu vi você e ele no terraço... lutando por mim... tentando me fazer desistir do que eu havia planejado há uma semana... – ela murmurou, emocionada. – Fez parecer com que... talvez eu tivesse uma salvação. Talvez... talvez houvesse uma outra chance para consertar as coisas, para... não sei... conseguir me olhar de novo no espelho.

Novamente, aquele sorriso envergonhado apareceu em seu rosto.

— Se vocês não desistiram de mim... eu achei que eu podia não desistir também.

Depois de muitas lágrimas, soluços e “desculpas” dos dois lados, Lauren e eu fizemos as pazes. Mesmo parecendo óbvio que as coisas não voltariam a ser como antes, acho que ambas ficamos felizes com isso. E então ela me contou que sua mãe havia decidido que ela voltaria para os Estados Unidos assim que recebesse alta e iria à um psicólogo. Sua mãe sabia que ela havia tentado se matar (apesar de não saber porquê) e, como depressão era a doença do século, ela queria ter certeza que sua filha estava (ficaria) bem... Não que Lauren tivesse depressão.

Ela só queria ter certeza que sua filha lidaria melhor com as coisas de agora em diante. Vendo um pouco da família de Lauren, eu entendia um pouco porque ela se sentia tão sozinha. Para começar, eles estavam em outro continente. Seu pai quase nunca a via (nem estava ali, quando ela precisava) e sua mãe era uma mulher prática e fria, apesar de parecer visivelmente abalada por toda essa situação. Ela se importava com Lauren.

Para quem quisesse ouvir, sua mãe dizia que havia sido um “acidente”, entretanto.

E Lauren agradecia por isso. Admitir essa história a constrangia.

E então ela perguntou o que aconteceu comigo depois de tudo. Queria saber o meu lado da história. E eu lhe contei que Ellie e Sasha haviam me acolhido e decidido me adotar como sua cria de “garota ousada” e contei sobre Chris. Só não comentei sobre Alexander porquê... bem, parecia maldade comentar sobre um cara quando minha amiga tentou se matar por causa de um.

— Eu fico feliz por você – ela diz, quando eu termino de lhe contar sobre o que aconteceu comigo nos últimos meses. – Tipo... coisas boas aconteceram... e você merecia coisas boas. Acho que alguém lá em cima sabe disso também.

Obviamente, ela dizia isso porque eu não lhe contei do pulso que Mike torceu, de quando eu descobri que eu era uma aposta para ele e da burrada que eu fiz em pedir um tempo ao Alexander. De qualquer forma, comparado ao que ela passou, minha vida realmente teve umas coisas boas. Uns pontos a meu favor.

Eu gostaria de acreditar no que ela disse (de eu merecer coisas boas e tal), mas parecia meio... impossível. Eu era pateta demais para ter coisas boas. Mesmo que as coisas boas viessem até mim, eu deixaria elas passarem diante dos meus olhos porque eu não saberia que eram coisas boas.

Quando o horário de visitas acabou, a dona Helena Willard voltou para o quarto e disse que Lauren precisava descansar. Foi a minha deixa para ir embora, mas prometi que iria vê-la amanhã e o tempo que ela ficasse internada.

— Vou esperar ansiosa – ela respondeu.

E então eu tive que sair.

Apesar da cara de quem havia ido no funeral de um parente muito querido, meu coração se encontrava leve. Como se eu estivesse carregando um peso no peito, tão grande e há tanto tempo, que eu havia me esquecido de como era não ter ele ali. Conversar com Lauren tirou esse peso e eu não sabia o quão mal ele me fazia.

Porém, havia acrescentado um cartaz de “Procurado” com a foto de Michael e cuja sentença era a morte. Se eu visse aquele loiro na minha frente, eu não responderia mais por mim. Só de pensar nele humilhando Lauren na frente das pessoas... me crescia um ódio desse sujeito. Ele não tinha nenhum pingo de decência.

— Ei! – Alguém me chamou enquanto eu saia do hospital.

— Shhh – uma enfermeira fez para o cara moreno, Robb.

Ele se desculpou para a enfermeira e eu o observei vir correndo até onde eu estava. Perguntei-me se ele realmente tinha alguma noção de que estávamos num hospital e não em um parque de diversões, até que ele chegou até mim.

— Você é a Isabelle, não é? Amiga de Lauren e tal... posso conversar com você?

Encolhi-me numa pose defensiva. Será que ele queria que eu lhe contasse alguma coisa sobre o que aconteceu com Lauren? Ela disse que ele lhe procurou para saber mais sobre isso. Pergunto-me se ele pretendia estampar algo assim no jornal da universidade e só pensar nisso fez com que eu me arrepiasse toda.

— Estou um pouco com pressa... – eu disse, olhando para as portas do hospital.

Eu estava tão perto... Será que se eu saísse correndo ele me alcançaria?

— Posso te acompanhar então? – Ele perguntou. – Está voltando para o campus?

Meu deus, como eu me livraria de um cara assim?

— Hum... na verdade, estou na casa de um amigo – eu respondi. – Fica aqui perto então não precisa me acompanhar, obrigada...

— Ah, por favor, eu insisto – ele diz, com um sorriso brilhante.

— Sério, não precisa se incomodar...

— Por favor... deixe eu ser um bom inglês e ser cavalheiro com uma dama – ele insistiu, agarrando o meu braço e me puxando para fora do hospital. – Eu sou Robert Shawcross, a propósito. Editor Chefe do jornal da universidade.

Meu rosto está vermelho de constrangimento. Que situação chata. E ele ainda está me agarrando pelo braço como um cara inconveniente.

— É... hum... Lauren havia me dito – eu respondi.

— Ah – ele diz, ainda sorrindo.

Robb tinha o rosto agradável, não exatamente bonito, mas exótico. Parecia meio latino, meio italiano, meio príncipe da Disney. Seus olhos eram grandes, tom de avelã, rodeados por cílios espessos, nariz fino com um nó na ponte, e lábios cheios e bem desenhados. Sua pele tinha uma interessante cor de café-com-leite, meio bronzeado.

— Falando em Lauren.... Que situação hein? – Ele diz como quem não quer nada, cruzando os braços. – Sabe, temos várias aulas juntos e sempre a achei... sensata. E ela é muito inteligente. Conhece geopolítica como ninguém. Ela era uma das garotas mais legais da sala, até começar a agir feito uma vaca.

Arregalei meus olhos para ele e supri a vontade de lhe acertar um soco.

— Ow, é da minha amiga que você está falando – critiquei.

— Eu não estou falando da sua amiga, estou falando do alien que se infiltrou no cérebro dela e a fez agir como outra pessoa. Sabe, daquele tipo parasita? Pois é... Ou talvez eu devesse ter chamado um exorcista, mas prefiro Sci-fi – ele retrucou.

Ele me segue enquanto sigo para o metrô e mesmo não sabendo onde ficava a casa para onde eu ia, ele entra comigo. Pergunto-me o quão louco por um furo ele está quando eu me sento num lugar vago e ele fica parado na minha frente, se apoiando em uma das barras acima de mim.

— Eu te vi no dia em que você descobriu sobre eles... – ele comentou, novamente como quem não quer nada. – Você se esbarrou comigo na porta do alojamento, pediu desculpas e saiu correndo e chorando... Eu achei engraçado porque não sei que tipo de pessoa consegue pedir desculpas no pior momento da sua vida.

Fiquei surpresa.

— O cara das flores? – Murmurei.

— Eu mesmo – ele respondeu com aquele sorriso brilhante novamente. – Eram para a minha irmã. Ela havia acabado de chegar no campus e fui recebê-la.

Meu queixo caiu. E então voltei a fechar a boca.

— Você sabia? – Eu perguntei. – Sobre Mike e Lauren?

Ele soltou um som de incredulidade.

— Não há nada que eu não saiba, Isabelle – ele disse com ar de superioridade. – É claro que eu sabia e aconselhei Lauren, diversas vezes, a parar de cair no jogo dele..., mas ela estava tão cega... tão iludida. “Ele é diferente...” blá blá blá.

Ele deu de ombros, soltando um suspiro.

— Eu também estava – murmurei com sarcasmo. – O que me deixa mais puta com tudo isso... é que nada vai acontecer com ele. Nada. Ele só vai... continuar iludindo outras garotas por aí, até se formar e ser um filho da puta completo.

Um riso escapa dos lábios bem desenhados de Robb.

— Você tem razão, não é como se fosse contra a lei iludir garotas e brincar com o coração delas – Ele diz pensativamente. E então, um sorriso um tanto... maldoso se forma nos lábios dele. – Mas, há algo que podemos fazer para parar esse grupinho.

O metrô para e eu me levanto, é a minha estação, mas estou curiosa.

— O quê? – Perguntei.

— Acho que fica para mais tarde – ele respondeu. – Me procure mais tarde. No campus. Te contarei tudo o que eu sei, se você me contar o que eu quero saber.

Eu não respondi, apenas saí do metrô e ele acenou para mim.

A sensação era a mesma de estar fazendo o pacto com o diabo.

Notas finais
PRÉVIA: Capítulo 29 – Um dia estranho. "Então eu comecei a brincar de cobrir suas tatuagens da mão com meus dedos. Havia aquela cruz entre o dedão e o indicador e aquela tatuagem em algarismos romanos no pulso. E havia aquela na lateral do seu dedo médio... — Você vai voltar para o hospital amanhã? – Alexander perguntou de repente. .... Tinha forma de chave. — Prometi que iria – eu respondi. Ele puxou sua mão que estava no meu colo e a passa em seus cabelos ruivos. — Hum... se você quiser, pode ficar um pouco mais na minha casa – ele sugeriu, olhando para frente, pude sentir uma... vergonha na sua voz. – Por ficar na cidade... acho que seria menos incômodo para você. E, também, eu poderia te levar para a aula quando eu fosse... é só uma ideia."