Good Gone Girl
29 Capítulo 29 – Um dia estranho.
Notas iniciais
Capítulo 29 – Um dia estranho.
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Antes de voltar para o apartamento, dou uma passada num supermercado no caminho e compro ingredientes para cozinhar o almoço. Alexander disse “sinta-se em casa” certo? Certo. Ia cozinhar a única coisa que era fácil e que eu sabia fazer sem botar fogo na cozinha ou sem ter conhecimento técnico de nada.
Como o ruivo havia deixado a cópia reserva da chave para mim, não preciso lhe esperar para voltar ao apartamento dele. Quando volto, seu gato me recebe com um ronronar e se enroscando nas minhas pernas. É, talvez Alexander tivesse razão quando disse que Kurt era carente com qualquer pessoa que não fosse o próprio dono.
Coloco o que comprei na geladeira e faço uma omelete de queijo, com arroz com cenoura, legumes cozidos e salada de agrião com rúcula. Eu já fiz esse prato tantas vezes que podia fazê-lo de olhos fechados. Faço para Alexander também e eu espero, de verdade, que ele entenda que estou agradecendo pelo jantar de ontem.
Ele chega meio-dia e meia, e eu já estava prestes a comer sozinha.
— O que é isso? – Ele perguntou olhando para os pratos sobre a mesa.
Às vezes eu me pergunto como alguém pode ser tão bonito e descolado ao mesmo tempo. Vejo ele jogar sua mochila sobre uma cadeira vaga e sentar-se de frente para mim, analisando o que estava em cima da mesa com desconfiança. Como se eu fosse colocar veneno para matar ele... justo ele.
— Hum... comida, eu espero – respondi. – Era para ser, pelo menos.
Ele sorri.
— Não sabia que você cozinhava – ele disse. – Estou surpreso.
Não sei se devo me sentir ofendida por isso eu apenas lhe jogo um pano que estava sobre a mesa do meu lado e ele o pega no ar. Bons reflexos.
— É omelete de queijo, com arroz de cenoura, legumes cozidos e salada de agrião com rúcula – eu disse, sentindo-o analisar os itens, ainda criteriosamente. – Eu fazia para o meu pai... ele é vegetariano. É uma das poucas coisas que sei fazer.
— E mesmo assim parece bom – ele disse, com aquele meio sorriso, puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado. – Agora vamos ver o gosto né.
Dei-lhe um empurrão.
— Você tirou o dia para me provocar? – Perguntei.
Ele ri.
— Você me provocou ontem à noite. Estou dando o troco – ele respondeu, arriscando dar uma mordida. – O.K. Mordo minha língua, está muito bom.
— Não tanto quanto a sua lasanha, eu imagino – eu respondi com sarcasmo.
— Está melhor – ele retrucou.
— Ah, para – eu disse, fingindo constrangimento. – Mentira, pode continuar.
Ele sorriu e então comemos em silêncio.
É estranho comer só com Alexander. Nunca fomos a um jantar e nunca comemos juntos, então... sei lá. Era estranho. Como se estivéssemos íntimos demais. O que diziam sobre morar com uma pessoa? “Você só conhece uma pessoa de verdade morando com ela”? Bem, era possível que, em um dia, eu estivesse conhecendo demais Alexander, o cara que era “inconhecível”?
— Você foi ao hospital? – Ele perguntou.
— Fui... – respondi, tentando parecer normal. – Conversei com Lauren... foi legal. Tirando o fato de que eu quero matar Michael Furrey.
— Eu posso te ajudar a esconder o corpo – ele sugeriu com aquele meio sorriso.
— E você? Como foi no abrigo? – Perguntei.
— Normal – ele respondeu dando de ombros.
Não sei o que é “normal” mas tenho vergonha de perguntar, então apenas terminamos de comer e falamos sobre outra coisa. Como ontem, Alex lava os pratos e eu os seco. E então, percebo o que há de diferente. Alexander não está dando em cima de mim e não está com uma mão ou com a boca grudada em mim.
Isso é estranho.
Não que ele fosse algum tarado ou viciado em sexo... era só que, ultimamente, nós dois andávamos meio desesperados um pelo outro. Muito desesperados. Incontroláveis, talvez. E eu estava agora. Olhar para Alexander, fazendo algo tão comum como lavar louça parecia excitante. E não me pergunte como.
Eu estava com medo da mente tarada que eu acabei de descobrir.
Era algo nos braços dele, nas tatuagens, no cabelo... não sei.
— O que foi? – Ele perguntou de repente.
Dei um pulo no meu lugar.
— Hein? – Perguntei.
— Você estava me encarando... – ele disse, parecendo divertido. – Quer me dizer alguma coisa? Precisa de alguma coisa?
Seus olhos cinzentos brilhavam com diversão. Como se estivéssemos fazendo um jogo. Não sei se estávamos, mas seu olhar fazia um calor se espalhar pelo meu corpo. Como um cara de olhos tão claros, podia ter um olhar tão quente?
Eu me sentei na bancada da cozinha.
Seus olhos baixam para ver a barra do meu vestido que subiu. Safadinho.
— Adorei o seu vestido – ele disse, colocando a mão na minha perna.
Seus dedos ainda estão frios e pegajosos da água.
Fazem-me arrepiar.
Era um vestido retrô, azul marinho, com botões na frente e que marcava a minha cintura. Era o que Sasha e Ellie colocaram na mochila para mim, mesmo que não combinasse muito (ou de uma maneira estranha) com meus coturnos. Sozinho ele era tipo: dona de casa do século XX. Com os coturnos era tipo: garota boa, mas de atitude.
— Quer ver o que tem por baixo? – Provoquei.
Ele arqueou uma sobrancelha para mim e meu corpo se esquentou com seu olhar.
— Por mais que eu queira... e eu quero, se começarmos isso agora, iremos nos atrasar para a aula – ele respondeu, seu tom rouco parecia frustrado. – E eu já faltei ontem.
Tentei não parecer tão decepcionada quanto eu estava de verdade, e desci do balcão, porque sabia que ele tinha razão. Sentia que, desde que comecei a sair com ele, acabei me descuidando das minhas aulas... novamente. Esse era o meu mal de começar a sair com garotos. Eu me esforçava tanto para agradá-los que deixava minhas aulas de lado. Não que eu sentisse que estivesse fazendo isso com Alexander.
De qualquer forma, era para eu estar a caminho de terminar meus contos, e de me preparar para as provas..., mas não. Eu estava brincando de casinha com ele.
Como se quisesse me confortar pela minha frustração sexual, ele segura a minha mão e beija a minha testa. Ah, tá amigo, você me beijar como beija a sua irmã vai mesmo ajudar a lidar com a rejeição de agora, obrigada, pensei.
Nunca achei que eu ficaria tão frustrada por um “agora não” dele.
— Vou escovar os dentes e pegar as minhas coisas – eu disse.
Ele concordou com a cabeça e eu entrei no quarto dele para pegar a minha mochila e escovar os dentes no seu banheiro. Não usei sua escova de dentes (por mais saliva e outros fluidos que tenhamos trocado) parecia anti-higiênico. Passei pasta de dente no dedo mesmo e esfreguei, só para, quando ele entra no banheiro para escovar os próprios dentes, ele abrir o espelho do banheiro e me mostrar uma escova de dentes fechada.
— Parecia errado eu mexer nas suas coisas – eu disse envergonhada.
Olá, antiga Bell, há quanto tempo.
Ele sorri.
Devo expressar com palavras o quão estranho era esse momento todo? Bem, era como se admitíssemos que éramos seres humanos e não uma raça geneticamente modificada para viver apenas para transar. E isso foi bizarro. Bizarro de um jeito bom, não necessariamente ruim. Bizarro do tipo: quando pegamos essa intimidade toda?
E então pudemos sair para ir à aula.
No corredor, ele me roubou uns beijos e foi tipo: uau, porque estamos saindo mesmo? Mas não era como se eu pudesse escolher. Sinceramente, nunca pensei que Alexander fosse certinho com aulas. Quer dizer... olha para ele... né?
Sua vizinha nos vê quando estamos no pegando no elevador e eu não sei como lidar com o olhar dela que é tipo “amiga, né?”. Então eu passo reto com ele até o seu carro guardado na garagem, querendo morrer lentamente. Nunca mais olharia para essa mulher na minha vida. Tudo bem. Vida que segue.
Durante todo caminho ficamos num silêncio confortável. Como se não houvesse muito o que falar. Então Alexander deixa o rádio ligado e eu fico olhando a paisagem pela janela... com uma de suas mãos na minha coxa. O que eu devo admitir que me frustra e me alegra. Ela era tão quente e tão... sexy ali. Queria fazer como da outra vez e provocá-lo, mas não parecia sensato. Eu só ficaria mais frustrada.
Tocava uma música legal. Só consegui decorar o refrão “The drug in me is you, and I’m so high in misery, can’t you see?”.
Então eu comecei a brincar de cobrir suas tatuagens da mão com meus dedos. Havia aquela cruz entre o dedão e o indicador e aquela tatuagem em algarismos romanos no pulso. E havia aquela na lateral do seu dedo médio...
— Você vai voltar para o hospital amanhã? – Alexander perguntou de repente.
.... Tinha forma de chave.
— Prometi que iria – eu respondi.
Ele puxou sua mão que estava no meu colo e a passa em seus cabelos ruivos.
— Hum... se você quiser, pode ficar um pouco mais na minha casa – ele sugeriu, olhando para frente, pude sentir uma... vergonha na sua voz. – Por ficar na cidade... acho que seria menos incômodo para você. E, também, eu poderia te levar para a aula quando eu fosse... é só uma ideia.
Por algum motivo meu coração está se remexendo no meu peito e eu não consigo não corar. Talvez porque ele estivesse bem perto de estar corado também. É um convite um pouco constrangedor já que... bem, não sei. Não que fosse estranho morar na casa dele com ele. Só parecia... mais do que eu havia pedido.
— Eu... não quero te incomodar – eu disse, com o olhar baixo.
— Você vai ver que eu passo pouco tempo em casa... então não seria um incômodo, na verdade – ele murmurou, coçando a ponte do nariz.
— Hum... preciso pensar... – eu disse mordendo o lábio inferior.
— Claro – é o que ele respondeu.
De repente, eu me senti mal por responder isso. Por que eu sempre estava pensando nas coisas? O que havia para pensar? Quer dizer, realmente, se nossa rotina fosse como hoje, não parecia tão ruim (tirando que não poderíamos usar o horário de almoço para fazer sexo). E não parecia como se eu estivesse abusando da boa vontade dele porque, aparentemente, sua aula era no mesmo horário da minha.
Sem contar que... ficar um tempo com ele seria... ai meu deus.
— Hum... vou ter que pegar algumas coisas depois da aula – eu disse.
Um meio sorriso aparece no canto dos lábios dele, enquanto ele estaciona o carro.
— Eu espero – ele respondeu.
Confesso que é estranho eu sair do carro dele no estacionamento. Sinto como se todo mundo soubesse onde eu estive ontem e me julgasse por isso, mesmo depois de todo o drama com Lauren e tal. Tento sair de lá o mais rápido possível, porém, o ruivo me pegou pela mão, me puxou para ele e me prensou contra o seu carro, antes de me beijar.
Gostei. Foi como a cena de um filme romântico e o seu beijo faz me sentir como se estivesse em um. O modo como ele mexe a sua boca, como sua língua se encosta na minha e a desperta, a excita, fazendo agarrar-me a ele como se fosse a única coisa que eu quisesse naquele momento. E era desde que almoçamos.
Seu beijo termina com pequenos beijos. E suas mãos firmes na minha cintura como se tivesse medo de onde elas fossem parar se ele afrouxasse o toque.
— Então... seis e meia aqui? – Ele perguntou ofegante.
— Aham – respondi, um pouco desnorteada. – Tá.
Às vezes eu me surpreendo com o quão eloquente eu consigo ser.
O.K. Levaria um tempo para me acostumar com aquilo.
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Pela primeira vez, levei esporro de um professor na minha vida.
Não que eu me sinta mal por isso (quer dizer, foi uma repreensão merecida) e foi somente entre nós duas. Apenas um pequeno lembrete de “e aí? Vai desistir do concurso ou vai terminar seus contos? São para daqui a duas semanas, sabe...”. É, eu não estava atenta ao prazo. Nunca fui muito boa com calendários, datas ou dias da semana.
Para mim a semana era dividida em fim de semana e dia da semana.
E como se isso não fosse o suficiente, ainda recebo uma mensagem de Sasha e Ellie me convocando para passar na cafeteria do campus no horário de intervalo. Elas queriam “conversar” com a “sumida”. Ou seja, iam me interrogar.
Como se não bastasse eu lidar com o interrogatório de John também.
— Fiquei sabendo da sua amiga. Que bad hein? – Ele havia dito.
— Ahã..., mas ela vai ficar bem agora – eu respondi.
— E você? Está bem? – Ele perguntou. – Você estava lá quando ela caiu, né?
Confesso que me surpreendi com a seriedade que ele estava falando. John não era a pessoa mais séria do mundo, afinal. Anteontem ele deixou isso bem claro.
— Vou ficar – eu respondi. – Obrigada por perguntar.
Ele foi a primeira pessoa que perguntou como eu estava com aquilo. Quer dizer, primeira porque Alexander não precisava perguntar. Eu deixei bem claro como havia ficado com tudo aquilo, vergonhosamente claro.
E então, como se tivesse uma grande curiosidade que não tinha como controlar, ele sussurrou para mim:
— E o seu lance com o ruivo lá?
Eu apenas dei de ombros e fiz um sinal de “O.K.” com a mão.
O que não o satisfez o suficiente, mas ele teve que aceitar. Seria constrangedor contar ao John que eu havia me entendido com o "ruivo lá"? Sei lá, eu senti como se fosse mesmo ele dizendo que estava de boa com isso.
Apesar de eu conseguir escapar dele, não consigo escapar das garotas. Sinceramente, não me surpreendo quando vejo que na mesa da cafeteria não se encontra só a dupla dinâmica, mas dessa vez, elas contam com o complô de Chris, que sorri e acena para mim como quem vê uma amiga sumida a muito tempo.
Havia sido só um dia. Um dia. Um...
— Olá para vocês – eu disse, sentando-me na mesa delas.
— Olá, Bell, há quanto tempo – Ellie começou com um sorriso safado no rosto.
É, depois de colocar todas as camisinhas do estoque de uma farmácia na minha mochila, seu sorriso safado fazia bem sentido. Não sei como eu consegui não corar.
— Nem foi tanto tempo, foi só um dia – eu as lembrei.
— Ahã... com Alexander – Sasha me provocou, com seus sorrisos maldosos.
O mesmo sorriso que ela compartilhava com as outras duas garotas.
— A gente quer saber tudo – Chris pediu, debruçando-se sobre a mesa.
A atitude delas acende uma centelha de raiva dentro de mim. Nunca pensei que um dia eu fosse sentir raiva delas, mas... havia algo no como elas falavam dessa situação que parecia não perceber a gravidade de tudo.
— Vocês sabem que eu não fui parar na casa dele porque eu queria, não sabem? – Eu não pude evitar de perguntar. – Eu fui parar lá porque a minha amiga tentou se matar...
— A sua amiga que pegava o seu namorado pelas suas costas— Sasha me lembrou.
— No seu quarto – Ellie completou.
O.K. Não pude evitar corar. Eu sabia que elas tinham razão.
— Como você soube do que ela ia fazer, a propósito? – Chris perguntou. – No nosso alojamento a notícia só chegou quando ela já estava na ambulância...
— Eu... recebi uma mensagem dela... e parecia que ela ia voltar para casa... era uma mensagem de despedida. Fui procurá-la para fazer as pazes antes dela ir e... bem... encontrei – murmurei. Então soltei um suspiro e lhes disse: – Ela se apaixonou pelo cara errado e ele a humilhou...
— Como ela também te humilhou ao ficar com ele? – Sasha retrucou.
A loira deu uma cotovelada na ruiva, como se ela tivesse passado dos limites.
— Olha, eu mais que ninguém sei que Lauren pisou na bola. Pisou tanto que ela furou a bola com seu salto agulha de 15 centímetros – eu disse, para a ruiva. – Mas... nem que ela tivesse matado o meu cachorrinho chamado Buttercup eu ia desejar que ela tentasse se matar.
O olhar de Chris sobre mim é solidário, como se ela me entendesse. Ellie sente o climão e apenas dá de ombros, Sasha, porém, só fica quieta. Discordando de tudo silenciosamente, mas não querendo se desentender comigo. Nunca pensei que ela fosse aceitar algo assim só para não causar mais brigas.
— Eu confesso que me senti culpada – eu murmurei. – Me senti culpada por... seguir a minha vida, por me afastar dela, por... tentar seguir em frente.... Enquanto eu não fazia ideia do que ela estava passando.
— Você não tinha como saber – Ellie disse, colocando sua mão sobre a minha.
Eu sei que ela tem razão, mas... quando eu vi Michael com aquela garota eu devia ter ligado para ela. Devia ter lhe avisado. Devia... ter conversado sobre, sei lá. Montado um grupinho de “odiamos Mike” juntas. Nos reuniríamos todas sextas-feiras e falaríamos mal dele, faríamos macumba e bolaríamos um plano para nos vingar dele.
Mas eu apenas, ignorei o que ela poderia ter sentido ao descobrir.
— As pessoas colhem o que plantam, Bell – Sasha murmurou.
— Parece muito fácil só botar a culpa na Lauren. Tudo bem que ela foi uma cachorra, mas... – Chris disse olhando para a ruiva com reprovação. – A culpa é de toda essa situação que esse cretino causou. Sim, ela cedeu, por Deus, é Michael Furrey, quem não cederia também? Vocês já foram calouras... sabem como é cair no papo dele.
As duas garotas ficaram vermelhas, como se lembrassem sim. Perguntei-me se elas também ficaram caídas por ele quando o viram pela primeira vez. Talvez só um tipo de garota não cairia por alguém como Mike, e era o tipo que cairia por alguém como Alexander. De repente eu me toquei os dois eram muito opostos fisicamente.
— Como ela está? – Sasha perguntou.
— Mal... mal por ter tentado se matar, mal por ter me traído, mal... por tudo – eu disse. – Mas fisicamente ela vai ficar bem. E espero que ela fique melhor depois que voltar para os Estados Unidos com a família dela.
— Faz sentido ela querer voltar para casa... – Ellie murmurou.
As três garotas ficaram quietas, com olhares cabisbaixos e pensativos. Por um instante, perguntei-me se Ellie não houvesse aparecido quando eu estava chorando. Se ela não tivesse aparecido e me oferecido seu apoio, seu ombro, seu apartamento e, meu deus, sua amizade... eu teria me destruído também por causa de Michael? Meu caminho teria sido... como o de Lauren? Não sei. É o tipo de coisa que você evita pensar.
De repente, alguém coloca um café gelado na minha frente.
— Posso me juntar à vocês? Posso, né, com licença – John disse sentando-se na mesa. – Toma, para você.
Eu arregalei meus olhos para ele e de repente eu fiquei muito sem graça. O cara que eu transei anteontem estava simplesmente se sentando na mesma mesa que eu e as minhas amigas e me oferecendo café. Observo as garotas olharem para ele como se fosse um ser de outro planeta.
E então olham para mim tipo: “De onde você conhece esse cara?”.
— Eu... hum... não gosto de café – eu disse.
— Ótimo, mais para mim – ele respondeu, pegando para si.
Olhei para aquela criatura agitada e hiperativa com dois café na mão e, caramba, parecia um prenúncio do apocalipse. Se ele já falava tanta merda sem tanta cafeína, imagine transbordando cafeína.
— Acho que você não precisa de mais cafeína – eu retruquei, puxando o café gelado.
Ele riu.
— Eu bebo – Ellie diz, pegando o café gelado para ela. – Obrigada.
— Sobre o que vocês estavam falando? Espero que tenha chegado a tempo de falar sobre o ruivo que quase quis me matar anteontem – Ele disse, empolgado como sempre, me matando de vergonha. Ele me olhou e disse: — Você realmente achou que eu não ia querer fofocar, né?
— É, hum, quem é você mesmo? – Sasha perguntou enfim. E então me olhou e perguntou: — O que ele quis dizer que o Alex quase tentou matar ele anteontem? O que teve anteontem?
Oh, merda.
— Muitas perguntas e nenhuma resposta – Chris me cobrou, interessada também, apoiando o queixo no punho e o cotovelo na mesa.
O que eu fiz para merecer isso?
— Hum... ele é meu amigo, John. John, minhas amigas Sasha, Ellie e Chris – eu os apresentei, ficando vermelha de vergonha. – Ele estuda literatura comigo.
John deu um aceno simpático para as garotas. E todas disseram um “Oi, John”.
— E... hum... anteontem eu estava na fossa, vocês sabem, e ele me obrigou a ir para o happy hour da nossa turma... – eu contei.
— Não obriguei. Soube ser persuasivo – ele me corrigiu, então se virando para elas, ele disse: — O segredo é você não dar tempo para a pessoa pensar.
Sasha e Ellie riem. Duas craques nisso.
— E pode ser... que nesse happy hour eu tenha bebido demais... e pode ser que Alexander tenha aparecido... e pode ser que ele estivesse acompanhado com uma loira muito bonita e... bem atribuída e... pode ser que eu tenha ficado com raiva... e... com vontade de me vingar – eu murmurei, ainda constrangida em admitir isso.
— Ela dormiu comigo – John resumiu.
Meu rosto ficou mais vermelho do que o logotipo da cafeteria do campus enquanto eu observava as três garotas abrirem a boca. Como se simplesmente não acreditassem... e depois, como se não conhecessem a garota na frente delas. Graças a Deus eu estava com vergonha o suficiente para sentir que ainda tinha um pouco da antiga Isabelle em mim.
A prova disso foi eu me jogar na mesa e desejar morrer ali.
Ou que um meteoro caísse em cima da cafeteria. O que viesse primeiro.
— NÃO ACREDITO! – Ellie gritou.
Muito discreta e fina. Obviamente.
— COMO ASSIM?! – Foi a vez de Chris.
— MAS VOCÊ NÃO ERA LOUCA PELO ALEX?! – Sasha gritou.
Puta que pariu. Obrigada, Sasha, a cafeteria não ouviu nada disso.
— Eu sou – murmurei, encolhendo-me na cadeira.
Por favor, meteoro... por favor...
— Não foi nada sério – John disse com um gesto displicente com a mão. – Foi só coisa de momento... nesse mesmo dia ela saiu correndo para os braços dele.
As três garotas olharam para mim como se não me reconhecessem mais. É, a Bell antiga não teria coragem de ficar com outro cara, não teria vontade de se vingar e muito menos descartaria o cara assim sem remorso. Mas confesso que, em minha defesa, John tornava as coisas muito mais fáceis do que eu pensei que seriam.
— Tô só o choque – Ellie comentou embasbacada.
— E aí, quero saber como foi – Ele me cobrou. – E eu acho que elas também.
— Ah, pode ter certeza – Sasha disse, apoiando-se como Chris.
Meu rosto ficou vermelho e então eu achei melhor contar tudo para elas... e para John. Já que ele fez o favor de fazer a introdução de como Alex e eu nos entendemos.
— Bem... quando eu saí do seu quarto e liguei para o Alex, ele não me atendeu e eu mandei uma mensagem no mínimo patética para ele me ligar quando quisesse – eu contei. – Mas então aconteceu aquela história da Lauren... e fui para o hospital... e eu passei mal.
— Você passou mal?! – Chris perguntou assustada.
— A enfermeira disse que eu fiquei em estado de choque... quando tento me lembrar, não lembro muito bem do que aconteceu... eu só via... Lauren e eu não conseguia parar de chorar – eu confessei, abaixando o olhar. – Lembro que ele chegou lá no hospital, me levou para o apartamento dele e me deu um calmante e eu dormi.
Eu não ia contar que ele me resgatou no banheiro porque né... era muito humilhante. Humilhante demais. Tipo: rei da humilhação. Porém, o que eu conto é o suficiente para que Chris segure a minha mão. Como se entendesse.
— Você a viu cair né? – Ela perguntou.
— Eu segurei a mão dela... mas não tive força... a verdade era que eu não esperava... não esperava que ela fosse se desequilibrar – confessei. – Mike e eu tínhamos a convencido de não se jogar.
— Mike? – Sasha perguntou indignada. – Aquele Mike?
— Não, outro Mike. Michael Carmichael – eu respondi.
— Sei quem é – John disse. – É um Mike legal. Gostamos dele.
Sasha deu de ombros, mais aliviada, e pediu:
— Ah sim. O.K. Prossiga.
— Quando acordei... estava no quarto dele e ele estava cuidando de mim... – Ai, meu deus, que vergonha de falar isso na frente do John. Eu queria muito sumir.
— Own... – É tudo o que o garoto doido disse.
— Ahã, imagino como ele cuidou de você – Sasha disse jogando um guardanapo em mim. – Sua safadinha.
Eu já havia aceitado que, durante essa conversa, meu rosto nunca voltaria ao pálido habitual. Eu estaria sempre vermelha, então não vou dizer quando eu corei, porque eu corei em todo o momento até o fim dessa conversa.
— Uh, enfermeiro Alex – Ellie me provocou também.
— Vocês são péssimas – Chris disse, mas dava para ver que estava se divertindo. – Tá, e aí? Quando você falou para ele que estava gostando um pouquinho demais?
Eu me encolhi.
Chris e John me dariam uma bela de uma patada.
— Eu... não contei... Não com essas palavras...
Ambos ficam em silêncio. E eu esperei... Esperei a explosão de indignação de ambos. Esperei... e de repente, Boom:
— COMO ASSIM VOCÊ NÃO CONTOU? VOCÊ É BURRA?!
Eu me encolhi, merda.
— Não deu para contar! – Eu respondi, ficando vermelha. – Quando eu acordei a tia dele e a irmã estavam no apartamento e... e... eu briguei com ele... por causa daquela loira lá... e depois a gente fez as pazes... e bem, parecia que tinha ficado bem óbvio né?
Chris e John passam suas mãos pelos seus cabelos, como se não acreditassem na minha total falta de aproveitar o clima. Enquanto Ellie e Sasha tomam gole de seus cafés e trocam olhares. Quando estou estranhando o silêncio das duas, elas dizem:
— Sinceramente... não estamos surpresas. Te conhecemos bem demais.
Escondi meu rosto nas mãos.
— Bem... eu vou ficar mais um tempo no apartamento dele, então... acho que vou ter bastante oportunidades – eu avisei, olhando-os por entre meus dedos.
— QUÊ?! – Sasha e Ellie gritaram.
Meu deus, essa mesa estava gritando demais.
— Hum... Ele... me convidou para passar um pouco mais de tempo lá... – confessei. – É mais cômodo já que o horário de visitas do hospital é de manhã... e, bem, ele pode vir me trazer para a aula... Eu aceitei.
Pela primeira vez desde que me sentei ali, os quatro ficam em silêncio. Como se não acreditassem no que eu estava falando. Como se estivessem em choque. E talvez estivessem. De qualquer forma, o primeiro a se recuperar, é John, que solta:
— Vocês querem é se comer sem parar, danadinha.
Fazendo com que as três garotas caíssem na gargalhada.
Cadê o meteoro, por favor.
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