Good Gone Girl
46 Capítulo 46 – “Desculpa” não, “Obrigada”.
Notas iniciais
Capítulo 46 – “Desculpa” não, “Obrigada”.
Como eu acordei na cidade, eu fui ver Lauren no hospital.
Fazia uns dias que eu não a visitava, no entanto, assim que me viu ela não perguntou porque eu havia sumido. Não me perguntou o que havia acontecido e muito menos como eu estava, ela apenas ergueu o olhar para mim, muito animada, mas então, sua animação diminuiu e ela sorriu como se nada tivesse acontecido.
Parecia, no entanto, um pouco desapontada.
Eu poderia ter estranhado a falta da sua pergunta.
Incrivelmente, eu não senti uma dor no peito. Pelo contrário, me senti muito fria. Como se houvessem me arrancado qualquer sentimento, e havia apenas o meu cérebro funcionando. Juntando as peças.... Então aproximei-me dela, sorrindo de volta. O mesmo sorriso falso e despreocupado que ela me lançara.
Aproximei-me de sua cama, parando ao lado do criado-mudo decorado com um vaso cheio de girassóis. Eles nem estavam murchos ainda.
— Te decepcionei? – Eu perguntei a ela.
Lauren riu.
— Que nada. Por que me decepcionaria? – Ela perguntou de volta.
Eu dei de ombros.
— Talvez você estivesse esperando outra pessoa – eu respondi. – Mike, talvez?
Ela arqueou as sobrancelhas, parecendo surpresa. Quase me convenceu. Eu nem teria feito aquela pergunta se fosse a Belle de antes, apenas pensaria que seria impossível que Lauren colocasse toda a culpa em mim pelo sumiço do caderno de Mike..., no entanto, pela primeira vez, tive ciência do como eu não devia confiar nela.
Aprendendo do pior jeito, como sempre.
— Do que você está falando? – Ela perguntou, parecendo ofendida.
Sua encenação me ofende tanto, que mal consigo olhar para ela.
Estava tão claro em seu rosto. Eu a conhecia bem demais.
— Vou supor o que aconteceu aqui... fim de semana passado – eu disse, observando-a novamente. – O caderno de Mike sumiu. Ele percebe isso algumas horas depois de termos pego. Então ele se lembra da única garota que viu o caderno e que sabia onde poderia estar... ele vai vê-la no hospital. Provavelmente... com flores... – eu observei, passando os dedos pelas pétalas dos girassóis. – Dizendo umas palavras bonitas e o como se arrepende por tudo o que aconteceu... provavelmente ele diz que tudo era um jogo no início, mas que com ela era diferente. Diz que com ela era real e que ele se sente mal por ter acabado com a única coisa que importava.
Sua expressão ofendida desmanchou-se aos poucos. Ela me fitou em silêncio.
— Ele disse a mesma coisa para mim, sabe? – Eu disse a ela. – Depois que ele torceu o meu braço... ele apareceu no meu quarto, dizendo que ele gostava de mim de verdade, por isso ficamos seis meses juntos, e que a aposta, o que descobrimos ser um jogo, era uma idiotice antes de me conhecer...
Lauren aperta os lábios com força, como se estivesse se controlando para dizer alguma coisa. E seu autocontrole me irrita um pouco. Queria que ela fosse mais sincera comigo, assim eu poderia não pensar que ela era uma vaca.
— Lauren... Mike não gosta de ninguém. Só dele mesmo – eu lhe avisei. Não sei porque eu a aviso. Eu só quero que ela perceba... o que perde por cair nas conversas dele. – Eu sei o que você fez... Não sei porque fez..., mas só posso imaginar que você caiu no papo dele outra e outra vez. O mesmo papo: “você é única”, “você me mudou”, “você é o que importa”..., mas você no fundo deve saber que não é.
Vejo lágrimas se acumularem nos olhos dela, e ela abaixa a cabeça.
— Ele te perguntou se você o odeia tanto até o ponto de querer chantageá-lo com o caderno? – Eu supus. – Ele perguntou por que você quer arruinar a vida dele? Ele te fez se sentir culpada por isso, não fez? Provavelmente disse que você não é esse tipo de garota. Disse que você é uma boa garota, não uma recalcada que pensa em como destruí-lo... não, Lauren é uma boa garota. A boa garota dele... que traiu a própria amiga, por ele.
Há algo em seu rosto, quando ela ergue o olhar para mim.
Uma raiva, expressada pelo modo como suas narinas inflam, respirando lentamente, e então expirando. Ela demora para me responder. Para negar ou confirmar a história, e eu só consigo pensar no pior: que eu provavelmente estava certa. Que havia sido aquilo, ou quase.
— Você disse... que ele nunca te deu medo, que ele nunca te bateu e nem te ameaçou... tirando a vez em que você encontrou o caderno dele – eu observei. – Confesso que no início, eu entendi. Por que eu achei que nunca tinha tido medo dele também até o dia em que ele torceu o meu braço..., mas eu me lembrei... enquanto ele me encurralava na parede do dormitório... que ele perdeu a cabeça comigo várias vezes. Mas ele só me intimidava, porque era o que bastava para me ter onde queria.
Então voltei a olhar para ela.
— Então me perguntei: por que essa diferença? .... Foi quando eu entendi. Até mesmo eu lutava contra algumas imposições dele..., e você não. Você era a boa cadelinha dele, que aceitava e fazia o que ele mandava... e ele sabia disso – eu concluí. – Por isso, não foi difícil te convencer, não é? A contar sobre o plano, o caderno...
— Você não sabe o que está falando – ela me interrompe rispidamente.
Eu soltei um suspiro incrédulo. Ora se eu não sabia...
— Você não sabe o que está falando – ela repetiu novamente, irritada. – Ele é louco por você, sabe? Sempre foi. Até mesmo quando ele estava comigo, eu tinha que ouvir coisas como “você não faz isso como ela” ou “ela faria isso de outra forma”... Você não faz ideia do quanto isso me machucava. Sempre em segundo plano. Sempre “a outra”.
Seguro a risada que quis sair.
Ela estava mesmo se fazendo de coitada por ser a amante do meu ex-namorado?!
As pessoas eram seres inacreditáveis.
— Eu gostava de você, Bell. Gostava mesmo. Você era a minha irmã..., mas eu não suportava... essa ideia que todo mundo tinha... de dizer que você sempre era melhor do que eu. Sempre a boazinha, a que ajudava todo mundo, a que todo mundo podia contar... Era como ouvir as pessoas falarem de uma princesa da Disney irritante – ela diz, entredentes. – Quando ele pisou aqui... e disse tudo isso o que você falou, eu acreditei. Na verdade, eu quis acreditar... que ele estava enfim me preferindo a você.
Ela apertou os lábios.
— Sabe o que me irritava em você? – Ela perguntou. – Eu o vi primeiro. Eu o vi primeiro, mas não sei que bruxaria você fez para... para ter toda a atenção dele para si! Eu gostava dele, mas você, que se dizia tão boa, tão idiota, estava nem aí! Você sequer percebeu! Então sim, eu acreditei quando ele disse todas essas coisas! Acreditei que enfim ele havia percebido que era comigo que ele devia ter ficado, não com você!
Eu estou sem palavras. Era como se eu estivesse vendo Lauren pela primeira vez. E eu não gostava dessa Lauren. Como eu nunca havia visto essa Lauren?
— Você não me disse nada disso! – Eu respondi, irritada. – Você esperava o quê?! Que eu adivinhasse?! Que eu me chamasse Jean Grey e começasse a ler mentes?!
Lauren soltou um resmungo indignado.
— Você era minha amiga! Você devia saber! – Ela insistiu, apesar de não ter muita lógica para mim. – Então sim! Eu disse para ele que você havia pego o caderno! Achei que seria como matar dois coelhos com uma pedra só. Ele enfim te odiaria... e seria meu... porque nós arrumaríamos um jeito de consertar isso e ficarmos juntos enfim. Como deveria ter sido desde sempre!
Eu quis agarrar Lauren pelos ombros e sacudi-la, perguntando se ela estava se ouvindo! Eu queria lhe perguntar: quem iria ficar com Mike depois de saber de tudo aquilo?! Você é doente mental?!
Eu só não o fiz, porque após dizer isso ela começou a chorar copiosamente.
— Assim que eu disse o seu nome ele saiu correndo daqui... nem olhou para trás, nem olhou para mim – ela comentou entre lágrimas e soluços, como se estivesse arrasada. – Então eu percebi... que ele me fez de idiota de novo.
Sinceramente, de alguém assim, não sei se sinto pena ou raiva.
Só sei que eu queria bater o rosto de Lauren até ela ganhar algum bom-senso.
— Você é uma filha da puta – a frase saiu da minha boca sem que eu tivesse tempo para pensar no que estava dizendo. – Você pede para te fazerem de idiota. Sério, Lauren?! Você queria Mike depois de tudo o que soube dele?! Depois de saber de tudo o que ele fazia?! Você realmente queria ele?!
Ela arregalou os olhos para mim, como se não entendesse.
— Eu o amo-...
— Ah não – eu a interrompi, indignada. – Não, não não... Não use a palavra com “a” na minha frente e nesse contexto. Quer saber de uma coisa, Lauren? Todo esse tempo eu havia pensado que Mike era um filho da puta por ter te seduzido e por ter acabado com a nossa amizade, mas quer saber?! Você também não tem um pingo de lealdade e de caráter! E eu não quero mais te ver na minha frente! Nunca mais!
Eu solto um grunhido de raiva.
— Sério. Você é tipo aquelas mulheres com quem as pessoas pintam e bordam e aí falam “não, mas ele faz isso porque me ama”, mas ele não ama e você sabe disso... ou pelo menos deveria saber – eu disse, indignada. Mais que isso, triste. Triste por alguém que eu gostava tanto se mostrar tamanha filha da puta. – E sabe o que é mais irônico da história toda?!
Ela franze o cenho para mim, confusa.
— É que até eu saber disso... eu achava que eu era a trouxa. Parabéns, você provou que consegue ser melhor do que eu nisso. Tenha uma longa vida, piranha!
.
Eu estou furiosa.
Furiosa pelo que ouvi, furiosa pelo que ela confirmou... furiosa por Lauren.
Parecia incrível pensar em tudo o que ela havia me dito e eu tive que rebobinar tudo na minha cabeça de novo e de novo. E mesmo assim tudo parecia absurdo. Quer dizer, depois de tudo o que Mike fez, Lauren ainda o queria... e pior que isso, colocou a culpa em mim para que ele me tirasse do seu caminho!
Não acredito que chamei alguém assim de “amiga”.
Quer dizer... eu devia ser muito otária para chamar alguém assim de “amiga”.
Como eu disse, não sei se sinto raiva ou pena. Pena porque Lauren aparentemente era uma garota egoísta e de baixa autoestima. Quer dizer, sua falta de caráter e seu egoísmo já havia ficado claro quando ela aceitou me trair com o meu namorado. Posso dizer que Mike insistiu e investiu..., mas se não fosse por falta de caráter dela ela não teria caído também, certo? Os dois eram culpados.
Eu só quis colocar toda a culpa nele porque parecia mais fácil.
E então, eu sentia raiva. Raiva dela me trocar por tão pouco. Raiva por ela aceitar tão pouco, era quase como se eu não fosse nada. Como se eu não significasse nada para ela. Esse era o pior sentimento possível: saber que uma pessoa que você estimava, não te estima na mesma proporção; quando não há reciprocidade.
Eu queria ajudá-la de verdade. Queria poder fazer algo por ela, e ensinar-lhe alguma coisa sobre o que era bom, mas a verdade era que eu sabia que não havia nada o que fazer. Não dá para ajudar quem não quer ser ajudada. O pior cego que existe é aquele que não quer ver. E todos esses ditados clichês.
Também estou decepcionada.
Achei que Lauren teria aprendido alguma coisa com tudo o que passou, assim como eu mesma aprendi, mas ela aparentemente continuava se autodestruindo. É triste ver uma pessoa a quem nos apegamos tanto, simplesmente se afundando em suas próprias escolhas e ignorando qualquer tentativa de ajuda. Talvez por isso eu esteja quase chorando quando entro no metrô.
É difícil dizer se estou chorando de raiva ou de decepção. Talvez os dois.
Mas, ainda assim, sinto como se um capítulo estivesse fechado. Não preciso ouvir a Bell Descolada dizer: “Você tentou e ela mostrou que não merece a sua amizade” para me sentir conformada pelo modo como tudo acabou. Estava na hora de deixar de ser boazinha e simplesmente encerrar os relacionamentos tóxicos na minha vida.
Não apenas no que dizia respeito a Mike, mas Lauren também.
É como se um peso houvesse saído das minhas costas e isso me dá algum ânimo para que eu pare numa loja a caminho da casa de Alexander. Eu precisava comprar algo, fazer algo, para sempre me lembrar desse dia. E me lembrar do dia em que Bell definitivamente cortou as relações tóxicas que sempre aceitou.
.
— Eu vou arrancar os cabelos daquela vaca!— Sasha gritou do outro lado do celular. – Se ela acha que tá ruim depois de se jogar do terraço do prédio, é porque ela ainda não viu o que vou fazer com ela! COMO ELA PÔDE?!
Sasha parece estar tão furiosa e indignada que de repente, Ellie é quem está do outro lado da linha, e eu escuto grunhidos de Sasha vindo do fundo, como se um monstro houvesse acordado furioso do sono de uns 1000 anos. Eu não sei porque havia ligado para elas... só achei que elas mereciam saber disso. Sobre quem havia contado tudo para Mike e até onde Lauren havia ido.
— Calma, Sasha— Eu ouvi Ellie murmurando para a outra.
— Calma nada! A Bell tava aí, defendendo ela para gente apesar de tudo o que essa vagaba fez e olha o que ela faz de novo! É pro cu cair da bunda! – Ela grita de volta.
Seus gritos são tão altos, que acho que Kurt, deitado sobre a mesa de centro, é capaz de ouvir pelo meu telefone. Tanto que ele levanta a cabeça e a inclina enquanto me encara, como se quisesse que eu explicasse que som era aquele.
Escutei o suspiro da loira, e então ela diz para mim:
— Sua colega tem sérios problemas, Bell.
Por um instante, acho que ela não está falando só de Lauren.
— É. Eu percebi – eu respondi à contragosto.
— O importante é que você tentou fazer a sua parte— a garota responde, sempre muito amável. – E eu fico feliz que você pareça estar bem com isso... Ter lidado bem com isso. Como ela foi sua única amiga por um bom tempo, achei que você poderia... ficar pior, não sei.
Eu pensei nisso por um tempo.
— Acho que eu esperava – eu confessei, me sentindo horrível por essas palavras saírem da minha boca. – Eu acho que... parte de mim esperava qualquer coisa dela. Apesar de eu achar que isso ultrapassou qualquer expectativa.
Sasha ficou em silêncio por um momento. Ao fundo, escutei o som como se estivesse passando um furacão no apartamento das duas. O som de portas sendo fechadas com força, objetos sendo mexidos com força excessiva... É tão exagerado que Ellie grita para Sasha parar.
— Eu só tô pegando água... pra me acalmar!— Ela grita.
— Se você quebrar alguma coisa, você que vai pagar!— A outra responde.
Por algum motivo, sinto vontade de rir.
— Desculpa, incomodar vocês com isso. Eu só queria... falar com alguém – pedi.
— Por que ao invés de pedir desculpas, como se fosse um fardo, você não diz “obrigada por me ouvir”?— Ellie sugeriu. – Você sabe que não é incômodo. Nunca é.
Eu queria acreditar. De verdade.
— Obrigada por me ouvir – é o que eu digo.
— Sempre que quiser! – Ela responde, parecendo animada.
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