Good Gone Girl

44 Capítulo 44 – O Mundo Real


Notas iniciais
Como muita gente deve ter percebido, e me mandaram mensagem por MP, os últimos capítulos sumiram. Então, eu resolvi escrevê-los, porque não gostei como ficaram. Sinceramente, a culpa foi minha. Eu fiz um planejamento e não era para os capítulos saírem tão grande... mais que isso, tão resumidos. Quando eu vi que estavam enormes (porque eu ainda tenho MUITA coisa para contar) eu devia nem ter postado, mas eu estava agoniada porque não tinha internet em casa, ai fui programar os capítulos e só causou confusão >.> Não nasci para a tecnologia! Hahahahahha Desculpem a confusão :c Agradeço aos comentários de: > Sandrinha > Juuh Beauchamp > Carina > Beea > Juliana S 22 > KK > Nonpapergangsta > KatherineHyuuga

Capítulo 44 – O Mundo Real

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Namorar Alexander não era tão diferente de estar com ele. Talvez a única diferença fosse que ele andava segurando a minha mão e me apresentava com sua namorada, o que me fazia sorrir feito uma retardada e me sentir tipo: “é isso aí, sou a namorada dele”. Quer dizer, como se fosse a pessoa mais importante do mundo. Era um tanto idiota, eu acho, você se sentir tão feliz por ter alguém que admita a todos que você está namorando ele, mas era uma sensação boa.

Quando decidimos contar para Sasha e Ellie, nos as chamamos para a cafeteria durante o horário vago. Eu pedi para chamar Chris também porque, querendo ou não, ela havia acompanhado toda a história do meu ponto de vista e até mesmo me aconselhado e tudo o mais. Ela era uma amiga que merecia estar ali.

— Então... – Sasha disse, sentando-se à mesa, de frente para nós dois. – Não sei o que vocês vão dizer, mas isso nos rendeu café de graça. Então a resposta é: “sim, vocês têm a nossa benção”.

A ruiva pega um café e o ergue em um brinde, no entanto, Ellie lhe dá um empurrão antes que chegue aos seus lábios e a bebida quase derrama em cima da garota. Sasha dá um gritinho de susto enquanto a loira, sem perceber, diz:

— Era para parecermos surpresas, lembra?

Troquei olhares com Alexander, tentando não rir.

— Como podemos parecer surpresas depois de semana passada? Fingimento não combina comigo... – ela então se virou para nós e disse: — Mas não se preocupe, trouxemos Chris aqui para isso.

A garota que bebia o seu café, quieta, ergueu o olhar ao ouvir seu nome ser chamado. Aparentemente, estava muito perdida naquela conversa toda.

— Eu? O que tem eu? – Ela pergunta.

Abri a boca para responder, mas Sasha foi mais rápida e disse:

— Bell e Alex estão namorando... Pareça surpresa.

Chris arregala os olhos e cobre os lábios, em surpresa. Não parece uma surpresa fingida e isso faz com que eu me sinta melhor, apesar do modo como Sasha contou. Eu não havia planejado que fosse daquele jeito, mas já havia sido, não é?

— Sério?! De verdade?! – Ela pergunta.

— É – o ruivo responde.

— Estamos juntos – eu confirmo.

O olhar de Chris era quase emocionado e ela diz que está feliz por mim, então faz questão de me abraçar. É a melhor reação que eu poderia esperar de alguém. Faz com que eu me sinta bem.

— Mas como foi isso? Quando decidiram? – Ela quer saber, agitada. – Eu estou tão feliz por vocês! Alex, você não sabe o quanto Isabelle sofria por você! – Ela deu uma risada, fazendo-me corar. – Ela tinha umas ideias malucas, umas ansiedades... Por um instante achei que esse namoro nunca iria sair.

Ele dá um meio sorriso e olha para mim.

Eu tento ignorar a vermelhidão que toma conta do meu rosto contando a ela sobre como foi que ele me pediu em namoro, sobre o que ele me disse e que, provavelmente, a nossa “amizade colorida” sempre fora algo destinado ao fracasso, pois começara de uma maneira totalmente errada.

Isso fez com que Sasha acertasse um soco no braço do meu namorado.

— Meu deus, você estragou tudo! – Ela exclamou.

— Tudo o quê? – Ele pergunta, assustado, esfregando o local dolorido.

— As experiências que ela poderia ter tido... idiota – Sasha responde, fazendo uma pausa para bufar. – Não era para vocês serem sérios... E agora? Era para nós três sairmos por aí e navegarmos em um mar de rola!

Meu rosto queima de vergonha, novamente, enquanto Ellie morre de rir. Quando arrisco um olhar para Alexander, ele está me encarando com aquele meio sorriso divertido no rosto e sinto vontade de lhe mandar parar de me encarar.

— Essas são as suas amigas? – Ele pergunta, ficando sério de repente. – Acho que não são amigas adequadas para a minha namorada.

Dou uma risada e lhe empurro. Sabendo que era brincadeira dele. Então, Ellie e Sasha, e até mesmo Chris, arremessam bolinhas de papéis e guardanapos nele. Vaiando-o. Eu rio ainda mais.

— Então... como vocês duas souberam? – Chris perguntou às garotas.

— No sábado, Alexander nos ligou dizendo que ia fazer uma surpresa para ela e pedi-la em namoro. Pediu para que nos certificássemos que ela estaria no dormitório quando ele fosse lá – Ellie respondeu. – Mas aí... Mike apareceu e....

A loira não termina a frase, deixando apenas a tensão no ar. Acho desnecessário comentar o que o loiro fez, então ficamos quietos. Como se não soubéssemos como continuar a conversa calmamente, com o mesmo clima leve e brincalhão de antes. Sinto a mão de Alex na minha perna, fazendo um carinho quase imperceptível por debaixo da mesa, como se quisesse aliviar a tensão no meu corpo.

— Afinal... no que deu? Você vai processá-lo? – Chris perguntou.

Foi a primeira vez que alguém perguntou diretamente sobre isso. Até mesmo Ellie, Sasha e Alexander evitavam esse tipo de conversa e fazer perguntas sobre o que aconteceu depois que eu fiz o exame de corpo-delito. A única coisa que ele fez, e eu acho que foi para aliviar a minha tensão, foi emoldurar a ordem de restrição judicial de Mike (um papel que eu não via como poderia impedi-lo de se aproximar efetivamente) e dizer: “Olha como minha namorada é durona”.

Pareceu algo idiota, mas havia sido engraçado.

— Não sei se quero – eu confessei à elas, envergonhada.

Ellie abriu a boca para reclamar, mas me vi obrigada a dizer:

— Quando fui fazer o exame lá.... Um policial olhou nos meus olhos e disse que provavelmente aquilo não daria em nada. Disse que tinham crimes mais importantes para lidar do que uma discussão de namorados universitários. E ainda disse que homens eram assim... violentos e impacientes, por causa dos hormônios. Aparentemente, justificativas não faltavam.

Chris pareceu incrédula.

Quando eu ouvi aquilo, sendo dito na minha cara, enquanto uma mulher batia fotos do meu pescoço estrangulado... doeu. Na verdade, pior que isso, eu me senti um estorvo. Um incômodo. E eu havia ficado tão chocada quanto ela, a princípio eu achei que era o tipo de coisa que você apenas lê em posts, ouve feministas falando e vê em denúncias..., mas que você não espera realmente acontecer com você.

Então eu havia olhado para a médica legista, esperando que ela dissesse alguma coisa para calar o homem ou que ao menos o mandasse sair da sala. Mas tudo o que ela fez, foi olhar para mim com ar cansado e dizer:

— Você está mesmo disposta a passar por tudo isso? Sério, pense bem. Você pode destruir a vida de um garoto com um futuro brilhante pela frente...

Como se em nenhum momento houvesse passado pela cabeça deles que ele passou bem perto de, literalmente, acabar com a minha vida; meu futuro brilhante. Como se isso não importasse tanto quanto a situação dele. Como se isso fosse apenas um mero detalhe. “Então, tem esse garoto bonito e rico que, ah é, estrangulou uma garota, mas ela o provocava então deve ter pedido por isso”.

Não sei se estou perto de chorar, mas Alexander passa o braço pelos meus ombros e aproxima nossos corpos como se quisesse me dar algum conforto. Ele havia ficado puto quanto eu lhe contei aquilo, mas era aquela situação: você vai querer arrumar confusão na polícia? De verdade?

— Que merda – Chris resmungou.

— Não era para as coisas serem assim – Ellie diz.

— Mas é como são... Ainda mais quando você é uma promessa dos esportes e vem de uma família rica – Sasha murmurou, com um olhar duro, antes de me fitar e dar um sorriso sarcástico. — Não duvido que demore muito para um advogado te procurar para fazer um acordo judicial, antes que tudo isso vire um escândalo.

Ela diz com tanta certeza que é quando eu me lembro que ela já passou por aquilo. Nunca perguntei a Sasha sobre o que aconteceu de fato e o que ela fez naquela situação. Também nunca perguntei à Alexander, que acompanhou tudo de perto.

De repente, me sinto uma péssima amiga.

— Como você deixou isso acontecer?! – Ellie questionou, atirando outro guardanapo em Alexander. – Era para você defendê-la!

Ele parece irritado. Não com Ellie, mas com a situação.

— Não me deixaram passar da recepção – Alexander responde, segurando o papel. – Você acha mesmo que eu deixaria alguém falar algo assim para ela?

Ellie abaixa o olhar, como se estivesse com muita vontade de chorar. E o silêncio pesado volta, dessa vez, pior. Penso que isso não era certo. Era para estarmos falando sobre o nosso namoro. Não sobre o que devia acontecer ao meu ex-namorado. De qualquer forma, ele seria denunciado pelo abuso daquelas garotas, junto com os membros de sua fraternidade. Era apenas questão de tempo.

— Que caras de enterros são essas?

O tom animado de John me faz pular na cadeira, como um gato escaldado.

— Oi... John – eu digo, sem graça.

— Oi, cara maluco e intrometido da sala da Bell – Ellie diz em um único suspiro.

Sasha não diz nada, enquanto Chris solta um “oi” desanimado.

— Olá moças bonitas... e Bell... e cara estranho ao lado da Bell que está me olhando como se quisesse me dar um soco – ele responde, muito rápido e ansioso. Intimidado, provavelmente.

Quando olho para Alexander, constato que ele realmente está olhando como se quisesse dar um soco em John. Sua expressão está muito séria e ameaçadora. A última vez em que eu vi aquela expressão foi quando nos conhecemos, e quando eu estava falando com o cara do “banho de gato”. Foi a expressão que ele usou para espantar o “banho de gato”.

O corpo dele está tão tenso ao meu lado que parece ter se transformado em pedra. Uma estátua. Uma bela estátua furiosa. Sua mão na minha perna aperta com mais força, quase chegando a doer.

— Ei, adivinha! – Chris disse, ignorando a tensão. – Eles tão namorando!

Ele fica surpreso.

— Sério?! – Pergunta.

Dou um aceno tímido com a cabeça e sorrio.

— É... Esse é Alexander... meu namorado. Eu namoro ele – eu digo, nervosa.

Eu não uso da redundância para que John entenda que estou namorando, mas quero que Alexander saiba que eu estou namorando com ele, só com ele. Que só ele me interessa e que eu estava muito satisfeita com isso. Não que isso seja o suficiente para que ele relaxe, mas ao menos o sinto voltar a respirar.

— Parabéns garotinha – John diz, erguendo a mão para um toque no ar.

Então ele olhou para Alexander e fez a idiotice de ignorar os sinais e estender a mão para ele dizendo “prazer em te conhecer”. Meu namorado olha para ele como quem diz: “eu não vou tocar na sua mão”. É constrangedor... o vácuo e o ódio gratuito de Alexander. Tão constrangedor que John dá um sorriso sem graça e enfia a mão de volta no bolso da calça.

— Então... hum... eu tenho que ir... nos vemos na aula, Bell – ele diz, sem graça.

— Claro, nos vemos – eu digo, tentando parecer muito simpática.

Assim que John vai embora, o clima tenso só parece piorar.

— Verde não fica bem em gente ruiva, Alex – Sasha debocha.

— Quê? – Ele pergunta.

— Ciúmes. Ciúmes não fica bem em você – Ellie explica, rindo.

— Eu não estava com ciúmes – ele nega, olhando para mim.

Apenas dei de ombros, não queria discutir aquilo na frente das garotas. Então eu decido que está na hora de acabarmos com aquela pequena reunião. Os assuntos estavam começando a ficar desconfortáveis, o clima já não estava bom, e eu me sinto mal por isso. Porque tudo o que deixou o clima tenso tinha a ver comigo. Querendo ou não, eu me sentia como a garota que traz problemas para casa.

Ele quer me acompanhar até a minha aula, mas talvez eu esteja um pouco irritada pelo modo como ele tratou John, então digo que não precisa e que posso ir sozinha, ainda mais porque o prédio dele fica para o outro lado, junto com Chris. Ele parece chateado, mas não reclama e vai embora após me dar um breve beijo.

Sasha e Ellie me acompanham até o meu prédio, porque ficava no caminho dos delas. Sinto muita vontade de perguntar a Sasha o que aconteceu quando seu namorado lhe bateu e o que ela fez. Não sei porque... eu só sinto que preciso saber. Que preciso ouvi-la falar sobre isso para saber o que fazer, porque ela já passou por algo assim. Mas fico com vergonha. Não sei se posso perguntar na frente de Ellie, mesmo que esta seja, sem dúvida, a sua melhor amiga.

Ela deve saber tão bem quanto Alex ou a própria Sasha.

Reunindo coragem, eu começo:

— Sasha...

Ela e Ellie param de caminhar para me olharem. Não queria que elas fizessem isso, porque eu me sinto muito intrometida e invasiva. Mas consigo respirar fundo e me lembrar que isso é apenas uma invenção da minha cabeça, então eu olho para elas de volta, sem sentir meu rosto corar.

— Alex, me contou quando o irmão dele... te agrediu – eu revelei, sustentando o olhar dela. – E pelo o que você falou lá na cafeteria... fiquei me perguntando... o que você fez no meu lugar? Quando se viu nessa situação.

O rosto de Sasha é uma máscara. Uma máscara séria e indiferente. Como se eu estivesse perguntando sobre algo que não aconteceu com ela, mas sim que ela viu na televisão ou em algum filme ou série. Algo que não era pessoal. Ellie também está assim, no entanto, ela visivelmente se encolhe um pouco.

— Ele não te contou? – Ela pergunta.

Eu neguei com a cabeça.

— Ele só falou... muito superficial e disse que não gostava de falar da história dos outros... então achei que seria mais justo eu perguntar para você— eu confesso.

Sasha concorda com a cabeça, com um sorriso mínimo no rosto. Parecia um sorriso triste, então ela tateia o bolso do casaco para pegar um maço de cigarros. Ela quase nunca fumava no campus, ou quando estava com a gente. Era raro eu vê-la fumando e, quando via, era apenas quando ela estava longe no meio de outros fumantes em bancos debaixo de árvores.

— Eu acho que vou indo na frente – Ellie avisa de repente.

Eu nem tenho tempo de pedir para que ela não vá. Ela só sorri e sai andando. Me sinto um pouco mal, mas então Sasha diz:

— Ela odeia ouvir essa história... você sabe como Ellie é, não sabe? Ela às vezes parece uma princesa da Disney, sempre falando como as coisas deviam ser, sobre o que é correto... ela vive em um mundo maravilhoso.

Lembrei-me do como ela estava nervosa quando acordei no hospital.

— Eu era mais nova que o irmão dele, você sabe disso, não é? – Sasha pergunta, mas eu nego com a cabeça. Não sabia. – Eu tinha 20 anos e ele tinha 25. A diferença não é muita, mas é o suficiente para fazer um cara achar que sabe mais da vida que você. Não que eles nunca achem isso, eles sempre acham..., mas o irmão do Alex era... era irritante. Então... não era muito raro eu acabar com a paciência dele.

Ela volta a caminhar e eu a sigo, atenta em suas expressões. Seu rosto é impassível, como eu disse, como se ela estivesse contando algo que nem dói mais. Algo que não havia acontecido com ela, mas uma fofoca que ela ouviu por aí.

— Alexis foi a primeira a perceber que nosso relacionamento não era... muito saudável – a ruiva contou. – Você a conhece, ela é uma garota esperta e observadora, apesar de tagarela.... Ela contou para a mãe dela, mas tudo o que dona Barbara disse era que isso era coisa de casal e que não deviam se meter. Como sempre, Alexis não a ouviu e então decidiu comentar com Alex. Afinal, ele é meu amigo.

Sasha hesitou e mordeu o lábio inferior.

— Alex me confrontou, eu menti, é claro. Achava que amava o irmão dele – ela continuou e então fez uma pausa para respirar fundo. – Eu fingi que o enganei e ele fingiu que acreditou..., mas, no fundo, nós dois sabíamos da verdade. Acho que isso foi o mais difícil para ele. Querer ajudar... e eu não saber como fazer isso. Acho também que ele não quis acreditar que tipo de pessoa era o irmão dele, sabe?

Eu concordei com a cabeça.

Tenho uma sensação de déja vu e me lembro que ele falou algo assim.

— Quando eu fui parar no hospital... a briga aconteceu por um motivo muito estúpido – ela contou. – Eu queria ir para o show de The Pretty Reckless e ele não queria deixar. Disse que nesses shows de rock haviam drogas, sexo e tudo o que não prestava. Não era um lugar onde a namorada dele deveria ir... e eu estava tão cansada, Bell. Tão cansada dele me dizer o que fazer, que eu disse: “Então essa noite não sou mais sua namorada. Tchau”. – Ela pausou, franzindo o cenho, como se tentasse se lembrar. – Eu me virei para pegar a minha bolsa, foi o tempo em que eu... eu nem vi o que aconteceu. Foi muito rápido, quando eu vi ele estava em cima de mim. Primeiro achei que ele estava tentando me segurar..., mas quanto mais eu me tentava livrar, mais machucava, até que ele começou a me bater. Me bater para valer.

Então ela abaixou o olhar. Foi o único sinal do quanto aquela história ainda mexia com ela, mesmo com todo o seu esforço para parecer uma história superada... havia algo ali. Uma ponta de mágoa que ela escondia em seu olhar. Era algo estranho. Ver Sasha daquele modo, ainda mais porque ela sempre foi muito segura até então.

— Alex ia para o show comigo... – Sasha comentou com um sorriso sarcástico brincando em seus lábios. – Eu havia chamado Alexiel para ir, mas ele tinha planos. Então chamei o Alex. Eu ia falar para ele..., mas ele estava sendo tão babaca que achei que ele merecia ficar sem saber porra nenhuma.

Ela jogou seu cigarro no fim no chão e o apagou, acendendo outro em seguida. Como se não aguentasse contar essa história sem estar tragando aquela fumaça venenosa para os seus pulmões.

— Alexis entrou em pânico quando viu e começou a gritar feito uma histérica. Alex, que se arrumava para sair comigo, desceu as escadas... e viu o irmão me chutando. Eu já estava apagada, então não me lembro. Ele me contou que brigou com o irmão enquanto a mãe chamava a ambulância – ela conta, pausando para dar mais uma tragada no cigarro. – Quando acordei no hospital, Alex e Alexis estavam lá, mas a mãe dele e Alexiel... não. Ele estava com o rosto todo fodido por conta da briga...

Ela dá uma risada, como se fosse engraçado.

— Foi flagrante – ela murmurou. – Eu estava hospitalizada, cheia de hematomas e desfigurada, havia quebrado uma das minhas costelas... eu podia tê-lo denunciado ali. Podia ter apontado na cara dele e dito: “você é um monstro e eu vou te botar na cadeia”..., mas não consegui.

Ela abaixou o olhar novamente.

— Diferente de você ninguém disse aquelas coisas na minha cara, sabe? – Ela comentou, com o olhar baixo, brincando com o maço de cigarros. – Mas eu ouvi. Ouvi uma conversa do lado de fora do meu quarto de hospital. O policial claramente falando: “não vai dar em nada”... e então depois veio o meu advogado, depois de falar com o advogado dele, que disse: “Você sabe que isso não vai dar em nada. O melhor que você vai conseguir, vai ser aceitar esse dinheiro e esquecer isso. 80% dos meus casos a mulher sempre volta para o agressor, e é o que vai acontecer porque você ama ele”.

Ela esfregou o rosto e foi quando eu percebi que Sasha chorava. Ela tirou o cigarro da boca e esfregou os olhos úmidos, respirando fundo, como se odiasse a si mesma por estar chorando ao contar aquela história. Ela tenta se controlar, mas sei o quanto é difícil para ela. Dá para ver a batalha que ela trava consigo mesma.

Eu coloco uma mão em seu ombro e o aperto, para que ela sinta que não está sozinha. E acho que é graças a isso que ela consegue dizer:

— O pior, Bell... não é te baterem e te humilharem. O pior é quando você se dá conta... que tudo o que te ensinam, tudo o que dizem para você... sobre o que é certo e o que é justo... simplesmente não vale nada no mundo real. Nem todo mundo que faz algo ruim vai preso; nem todo mundo que faz algo ruim... é punido. E você, como a pessoa que apanhou, como a pessoa que foi pisada, só tem uma escolha: se rebaixar ainda mais e aceitar a porra do dinheiro que te oferecem para ficar calada. Por que “não vai dar em nada”.

Os olhos de Sasha estão cheios de lágrimas, mas não demonstram dor nem mágoa. Mostram uma espécie de humilhação. Como se ela não se perdoasse. É engraçado que ela não tenha chorado quando falou a respeito da agressão, mas não conseguisse se controlar ao se lembrar do que aconteceu depois.

— Você aceitou o acordo – eu observei.

Ela concordou com a cabeça.

— Aceitei a porra do acordo – ela respondeu. – Não só pelo dinheiro..., mas porque eu amava o Alexiel.... Não queria vê-lo preso. Então disse para os policiais que eu caí da escada e eles fingiram que acreditaram. – Sasha abriu os braços com sarcasmo e disse: — Mais um caso resolvido. Como trabalham bem!

Eu sei que Sasha odeia abraços e sei o quanto ela odeia sentimentalismos, mesmo assim não consigo segurar a vontade que tenho de lhe abraçar. Ela obviamente não retribui, constrangida, mesmo assim, não tem problema. Eu só quero que ela sinta que não está sozinha... e que não a julgo pelo que ela fez. Ao contrário, eu lhe digo:

— Você fez o melhor. Você fez a melhor decisão que pôde fazer naquele momento... naquela situação... com tudo o que estava acontecendo.

Ela hesita e então me abraça de volta. De leve, como se ela houvesse desaprendido a abraçar, ou como se ela tivesse medo de gostar demais de um abraço.

Notas finais
PRÉVIA: "- Quando eu te vi com a loira... aquela loira, eu fiquei puta – eu murmurei. – Fiquei puta porque eu passei duas semanas sofrendo por ter pedido aquele tempo, e quando eu te vi, pensei que você tinha seguido em frente... dado continuidade à enorme fila de garotas bonitas que devia ter correndo atrás de você.... Eu me senti patética. – Eu corei, ao admitir. – Me senti patética porquê... parecia que como sempre... eu sempre gostava mais de alguém do que gostavam de mim... E eu estava cansada disso. Sinto que um tom vermelho toma o meu rosto e lágrimas se acumulam em meus olhos. Aquele era um lado humilhante meu. Um lado que ele já devia ter percebido, mesmo assim, que doía expor; admitir a existência dele daquela forma."